Dentro

Somos filamentos, fragmentos, ligação. Feitos disso, um armistício, a paz inventada, criada ou reinventada. E se conexão for pouco? E se afeto não diz tudo? Quando qualquer resumo é oco e cada minuto conta um universo em plena expansão, o que mais seria necessário para provar a existência viva e ainda inexplorada dos portais que sequer vemos? Habitamos o raro em uma partilha incomum de tão azul. Sons, aromas, gosto,visão, tateamos em todos os sentidos e justamente por isso duvidamos, não está ali, é tanto que é quântico. Dentro de cada âtomo que nos dita o amor que temos há multiversos, desvios, atalhos e caminhos desconhecidos aos nossos sensores primitivos, certezas absolutas, verdades científicas, estatísticas, ou razões de estado. Tentar entender de preciosidades cujo mistério é sua própria resposta, buscar compreensões físicas ao que é a alma da vida, não saberia dizer nada à respeito. Sei de café, de colher uva, de roubar goiaba, tenho um primo no interior de Uberaba. Disso eu sei, consigo apontar, cito de cabeça Camões, Chico, Fábio Júnior, Padre Marcelo ou Shakespeare. Mas te dizer sobre a fissão, a fusão, o além do tons, o porque das canções, sobre nós, o que falaria? Que somos, apenas somos. E de mais a mais, do que mais precisaria?

Ouço Palhaço, uma canção de Egberto. Ela me consola da falta e do medo que sinto. Mas hoje, a noite será de descanso macio. Vou me deitar em confiança de que o amor nos alcança acarinha. Que sorri e samba, que se disfarça de Carmem Miranda, que chega como uma valsinha e a serenata flui dentro da gente.

Cochilo

Me serena pensar no tempo e como vou ficando superlativo à medida em que ele me toma. Estou vivo há muitas luas e meus joelhos avisam quando vai chover, o que decreta o óbvio: estou ficando caquético, um pierro velhote, que gosta de dormir, ou de cochilar depois do almoço, antes do jantar ou durante a noite.

Tomara que isso seja um exagero da minha parte e que o momento gagá da minha existência leve ainda 3 ou 4 dias para chegar. O fato é que cada lugar que eu bati ou que me bateram dói ou range, sem exceção. Que sou assim seja, amém e oxalá. Tudo, ou quase tudo, me parece divino e maravilhoso. Levanto panos, pergunto à vida, me informo em mistérios mais velhos do que eu. Durmo o sono dos cães, tudo me desperta e devora. Tinha aquela a pressa de quem perdeu a hora e pensava ser possível colar tempos partidos. Não é, informo aos jovens. Essa é a boa notícia, não é? Reparou que o “não é” tem duas funções, inclusive contraditórias? A primeira, uma afirmação. A segunda, uma dúvida. Viver é um pouco isso, estar entre afirmações conclusivas e dúvidas existenciais. Entre uma coisa e outra, acontecem os dias em que ambas flertam, guerreiam, perdem e vencem, vão e se forjam, morrem e reencarnam em outros momentos ou de formas diferentes. Envelhecer não é deixar de perguntar e sim começar a encontrar respostas. Nesse sentido, é um reinício, quem sabe o reencontro com os aspectos todos que nos trouxeram exatamente onde estamos. Não é notícia ruim, não é? Aos poucos, vou percebendo que dualizar as experiências em boas ou péssimas é perder suas gradiências. Então concluo que há coisas que topo, outras não. Cenas que aceito. Seres que recebo. Coisas que vejo. E você, que amo. O tempo só faz apaziguar tudo que vivo, me tornando mais lento, mais atento, cercado de te amar por todos os lados. Jovem ainda, achava que não chegaria vivo aos 50. Cheguei vivo e pronto pra muito mais. Tanto que já passou muitos dias disso, sou um jovem com direito à vagas exclusivas, mas não uso. É coisa de velho.

Filho de aniversário, presente recebido: um roteiro que ele escreveu e vai dirigir. Pensa em alguém orgulhoso, pensa. O acho tão capaz, tão cheio de talento, tão falante, como fala, onde desliga? Como age em prol do que acredita, como é bom, como é lindo, como é brigão no melhor sentido, como se veste mal, como não se cuida, como pede cuidados, como se despede chegando, como se vai, ficando. Quero dar uma cadeira pequena de diretor, dessas lembranças que se põe na mesa e nunca se põem nas lembranças.

Tuas vindas nunca me passam desapercebidas. Contigo, nasceu o que tenho de melhor na vida. A saudade é ardida, faz cicatriz, mas de quase todas as formas estamos juntos. Isso não é tudo, mas é um bom tanto.

O corte e a costura

É da natureza das coisas a possibilidade de parir seus contrários

Quando li isso ontem de manhã, imediatamente uma canção me veio à cabeça e me fez levantar. O dia inteiro a melodia me bicava, até que o teu recado me chegou como um barco que não descreve um arco e acalma corações que caminham no porto a espera de notícias, chegadas e partidas. É preciso interpretar o dito a partir do que a poesia afirma, a forma que é cantada, o tipo de arranjo que recebe. Essa música veio duas vezes, não é uma coisa a gente? O bilhete continha algo diferente da afirmação original do poema. Um acento e a reviravolta que ele (o acento) provoca na lógica do escrito. Eis a manga:

A vida é mesmo assim

Dia e noite, não é sim

Nelson Mota (autor da letra, que ganhou linda música e uma interpretação tipo uau do Lulu), escreveu “Dia e noite, não e sim”. Nota que o acento dá conotação diferente ao poema e o que ele passa a significar? Acho uma manga e tanto. Dia e noite não é sim. É um contrário nada sutil de Dia e noite, não e sim. Na primeira frase, é a afirmação da contrariedade, a negação cotidiana do desejado. Afinal, não é sim. Revela uma conformidade, quase uma a rendição às rotinas, mesmo indesejadas: a vida é mesmo assim, dia e noite, não é sim.

O poema é uma declaração de amor não declarado?Adormece o sentimento ou cala o que ele desperta? O fato de amar calado é, em si, uma demonstração de amor? Trata-se de uma constatação ou é biográfico? É um oferecimento direto do portal? Definitivamente, tenho algo a discutir com as sutilezas, o design das emoções. O amor nos tempos de corona precisa ser literal ou é a hora de lançar mãos de todos os simbolismos? Talvez as duas coisas. Mas sinto que algo me escapa, o cenário é incompleto, há muito escuro, olho o teto, tateio em busca da confirmação simples do pertencimento completo do afeto que me resgata tantas e tantas vezes, como agora mesmo. Lulu e Nelson te representam nessa canção? E porque? Mesmo que o outro saiba, é preciso dizer.

Eu não te amo calado. Mas ouço a sinfonia de silêncio.

Olha onde vou escavar, buscando significados. O ato de pensar não é um barato? Como diria Álvaro Campos (que não quer ter razão) e que se pergunta “pra que serve uma sensação se há uma razão externa para ela?” Que bom para quem pode revoltar-se em comício dentro da alma, em uma lucidez irritante, olha isso. Sim, é o Jô interpretando Pessoa.

Sou um vadio pedinte?

Outra canção cheia de significâncias é essa. “Ame-o ou Deixe-o” foi o slogan do Brasil entre 64 e 79, quando o bicho da irracionalidade e do desprezo rugiu. Era uma ameaça: você deveria amar seus pais (na verdade seus governantes) sem questionamentos. Ou isso ou seria mais saudável deixar-lo, ir-se, banir-se, tornar-se invisível. No caso da invisibilidade, ou você sumia ou os milicos fariam o serviço por você.

Então veio Caetano e tira a máscara violenta daquele amor-medo da ditadura. O baiano ressignifica aquela dor e nos presenteia com uma anistia que reencaminha o engano tentado pelos farsantes. O amor, ali, abandona o condicional, “amar ou deixar” e encarna seu contrário. Com a troca de uma letra, acontece então o “amar e deixar”. Novamente, uma letra e a perspectiva ganha novos rumos. Receber uma música assim é um pedido? Deixe que o amor siga? Não transtorne seu caminho? Ame-o e deixe-o livre para amar é uma constatação do que acontece, ou uma oração para que isso se dê? Que meu amor intenso sempre liberte teu melhor.

Que meu amor sempre liberte o melhor do outro.

A foto lá em cima e essa aqui mostram a transformação que une arte e uma dupla de artistas. Eram velhas máquinas. Não costuravam, nem alinhavavam mais nada. Sem chance de bordados, nem o tuc, tuc, tuc, tuc tão característico das suas ferragens, engrenagens e mecanismos. A obra de arte é um achado pelo encontro das retas e curvas, a beleza da releitura, o objetivo revivido e que contraria a condenação ao ferro velho dos esquecimentos. Não somos máquinas, claro. Mas somos medo e desejo, luz e sombra, sim e não. Eu te amo calado? Também.

Estava tão cansado ontem que dormi com Friends, numa época em que Mônica não consegue fazer isso porque luta contra uma separação afetiva. Tenta de tudo, até que tem notícias do seu amado, quando enfim Morfeu a recebe e a descansa. Se foi bom? Se é Friends é bom.

Canções transformadas em significados e formas de resistência. Poemas que exorcizam perdas e autorizam revoltas. Obras de arte que exploram as novas possibilidades para cortes e costuras. Séries antigas que nos oferecem o vazio aconchegante para o sono. Tudo isso, de alguma forma, lembra da importância de estarmos juntos. Sendo e deixando ser, sempre dizendo presença, entoando carinhos, alinhavando o amor que serze e serve a “saudade de tu, do teu abraço gostoso, de passear no teu céu. Quando estou com você, estou nos braços da paz”.

Que o teu afeto sorridente, misturado à minha intensidade, nos transforme em nós, comunhão de dois, encontro de familia, a gente de volta pra casa. É sim, é sempre.

Como é em mim

Sinto como se fosse uma abstinência ao contrário, um acesso ao que há de avesso na alegria. Não é tristeza, ainda que entristeça. Não causa melancolia, mas reflexão. Se apresenta como um senso de falta, um frio fininho e que rosna enquanto abre caminho na alma. Nem é feio, não se trata de bonito, é mais uma demasia, um excesso reprimido, um suspiro que não causa alívio. Sabe quando se anda no mato e há muito não chove? É o som daqueles gravetos quebrando, um ar seco, o sertão em labaredas, algo finca machucando o pé quando ando. Talvez não seja a melhor metáfora, mas é bem perto do que se acontece comigo nas lonjuras.

A sensação de saudade (e a saudade propriamente dita) se apresenta assim que desapareces. Mas, nos dias iniciais, há ainda baganas, aromas, sabores recentes, tudo é química, biologia e espírito, é suportável ou o desconforto é como (diria Chico) “um barco que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais”. Na poesia é genial, mas não é essa beleza toda na vida cotidiana, os (muitos) dias sem. Mas nos primeiros, aproveito enquanto o tempo vai me entornando as horas, desligando as manhãs, inflando a lua e então passo a construir trincheiras. Não para me defender, mas para me cansar. A exaustão é um carinho engravidado de sono e se durmo, não sinto, não penso e descanso. De qualquer modo, não acho que que a metáfora da abstinência seja a melhor descrição. Digo isso porque sugere ser algo ligado a vício, não te parece? E está longe disso, um buraco negro que me consome ou que essencialmente exija uma dose para resolver ou alinhar a circunstância, a falta e as sensações que ela causa. Vejo menos como dependência e mais como um diálogo que funciona de modo pleno, uma conexão existencial, uma necessidade sim, mas escolhida e cheia de benefícios. Experimentar ausências é tocar na falta do essencial, trata-se de algo que não entendia, era quase incompreensível, exigindo esforços tão profundos quanto dolorosos. O Clóvis afirma que a felicidade é “querer que aquilo que se ama não cesse, que não haja fim, que dure mais um pouquinho, que não acabe porque é bom estar ali”. Se ele está certo, acho que é o caso, infelicidade é justamente quando algo assim acontece. Aceitar que é assim me faz manter a guarda alta, mesmo do lado errado do ringue. Porque é isso estar longe, uma circunstância geradora de infelicidade do ponto de vista que enxergo. Mas é óbvio que vejo com o olho do ego, que transformo tudo em resistência, que brigo comigo, me empurro, me suturo, me agarro nas cordas e, muitas vezes sim e outras vezes não me aguento.

É possível que mesmo assim existam momentos azuis, dias lindos, alegrias? Minha impressão é que a resposta seja positiva. É o que move minhas aberturas de janelas e gavetas. Busco luz para certas escuridões pessoais e me mostro o contrato assinado com a estética, com a grandeza de tudo que recebo, com a beleza de um passeio, com a tua amorosa presença, com pequenos milagres, com a própria vida. Nesse exercício, por si só difícil e reflexivo, me aprimoro ou acredito que isso acontece. É um jeito, não o certo, ou o melhor, ou o único. Tento, fazendo o que alcanço como bom, honrar esse encontro que é interno, eterno e terno em cada um dos seus aspectos. Sendo assim e significando tanto, me presenteou com aspectos incrivelmente bons e essenciais de ligação, atenção, entrega, crescimento, alegria, reencontro com o menino esquecido. Resgate de sentimentos. Cuidado. Zelo. Paternidade. Maternidade. Valor do tempo. Valorização do outro como um ser completo e independente. Respeito. Silêncio. Prazer. Encontro. Mistério. Rituais. Idiomas. Família. Ilhas e Odisseia.

Não pense que tuas vindas me passam desapercebidas. Não passam e me sossegam. Duram um tempão. Vagam comigo em tudo que faço, me trazem felidade. É um laço perene. Feito de afeto total, entendimento e incompreensões. Teu amor me chega sempre e, por ser teu e amor, quando não chega, sempre que não chega, faz falta. Já disse que te amo hoje? Minha mãe do céu, é claro que sim.

Com

Queria que você me visse andando mascarado pela cidade. Acho que riríamos, fico uma figura. Na verdade, somos estranhos, não? Quem mais você conhece que tem uma árvore de estimação? A da foto não é ela, esse colo é só parecido, fica num parquinho-praça onde passo às vezes. Sento ali uns minutinhos, fico quieto num canto, escuto, observo, respiro fundo, então vou. Queria poder te mostrar tudo que você pariu em mim, a falta que sinto, a presença que me encanta, o balanço que acalma. Ando estranho, tateando, é longe ir pra dentro de si. Ainda mais desacompanhado, ainda mais em dias azuis e convidativos, ainda mais quando eu respiro. Ainda mais todo dia. Queria te dar um presente bonito, envolvido em caixa enfeitada, quem sabe uma milonga, uma guarânia, algo com cordas de contrabaixo, sax alto, um timbre que te fizesse cantar de alegria, quem sabe minha companhia. Criamos um idioma, um baleiez, uma língua, um lugar de fala, um esperanto, uma especiaria, um espaço para crescer, outro pra ser, todos para estar. Hoje venci mais um dia de muitos e muitos distantes, uma montanha de horas que me faltam. Quando me dou conta da honra que é amar um homem, um filho, uma filha, uma causa, uma família, a mulher da tua vida, isso é tão imenso que se torna humanidade. É tão raro, um jarro de pó de piriripimpim, um ato de coragem, uma desobediência ao normal. Todos os amores são maternos. Acolhem, parem, conhecem, refazem, nutrem. Todos os amores, sendo amores, viram sementes de árvores gigantes. De invenções carinhosas. De vozes. De canções. De prazeres. Companhia de solidões. Alegria pela existência. Amor é espaço de conversas conectadas e tudo isso me acolhe agora. Renasço te amando um pouco mais, te entendendo mais fundo e comemorando o inédito desse acontecimento.

Onde

Onde está teu tesouro, lá está teu coração.

Saudade é tão fundo, não? Há tantos motivos para ter, tantas formas de sentir, são de tamanhos diversos, profundidades diferentes e formas surpreendentes de nos abordar. Sonhei com você, uma hora inteira, talvez duas, imagina a minha alegria. Tuas vindas, qualquer que sejam as formas que me presenteiam, causam um misto de confirmação de laços, reafirmação de afetos essenciais e da resistência que o amor é capaz ao demonstrar-se pleno e ativo. Em um plano de vida tão voltado ao individual, nada deveria ser mais importante. Saber que o outro conta e poder contar com o outro é o núcleo da felicidade, exige muito e entrega mais do que pede. Tenho isso contigo, mesmo que em tempos sem lugar de fala, quando acreditei em esquecimentos, naufrágios e abandonos. Acho que tem verdade quando observas minha assinatura nisso. Talvez tenha precisado me colocar num lugar não visto para enfrentar o fato de não te ver ao meu lado. Quem sabe tenha sido necessário pelas minhas limitações, o ego que alimento, a dor evitada pela escolha de uma outra dor. O fato mais azul disso é que passou. E o azul ganha um pantone sereno quando o unguento vem do teu sentimento, sempre tão avassalador e calmo no mesmo instante que me é dado.

Teu cansaço me chega e espero que o amor que compartilhamos te sossegue, como te acarinho agora. Você não precisará me chamar 3 vezes, nem gritar Mariel… assim, com reticências. Basta que chegue o nosso tempo, agora que sabemos que somos atemporais, que não precisamos de temporais, que somos amantes reais, é mais do que beleza, é fortaleza e o que decora o encontro que construimos juntos e sim, isso é importante para consciências como as nossas.

Tento retirar de mim as violências sutis (ou não tão sutis) que identifico. Tenho uma profunda necessidade de uma alegria celular, de quietudes, de algum silêncio, de encontros fáceis, de boas conversas. Tenho apetite de um conhecimento místico, racional, tradicional, fora das dimensões sensitivas, os 5 sentidos não me respondem o que te traz e não importa: porque te sei, não preciso saber, apenas receber da forma mais sincera o que sinto de modo continuo e perene. Meu presente pra ti é esse, meu tempo agora, meu melhor agora, o agora que alcança me pensando e transformando isso na ação que atraia o tempo que desejo e você está nele, profundamente está, jamais não estará. És em mim, como sou em ti, conexões do sempre.

Teremos as horas lunares que quisermos, todas. Buscamos o inteiro, a integridade e como dizes, somos não metades, olha que lindo. É emocionante como um jardim de asteriscos, nosso sentimento plantado. Queria teu colo nesse exato momento e ganho em lembranças alegrantes. Tua existência tem esse dom, um condão, não é mágica, mas tem magia e quase quero agradecer pela sorte de te ter por perto.

Onde está teu coração ali estará teu tesouro. Onde está teu tesouro, ali estará teu coração, tanto faz a ordem. E se te decepciono como isso, não consigo assumir autorias, a frase não é minha, é de Matheus. Acho essa inspiração algo estupendo. O que é importante, o que pulsa, o que desejamos, quem amamos, onde estamos, onde olhamos, o que achamos indispensável, qual o nosso tesouro? O meu é você, a quem meu coração pariu o amor.

In vel

“ Eu posso ficar invisível! Isso transcenderia a mágica.
E contemplei, dissipadas as dúvidas mais nebulosas, uma visão magnífica de tudo o que a invisibilidade poderia significar para um homem: o mistério, o poder, a liberdade.”

A frase lá em cima é do “O Homem Invisível”. Sempre que eu penso em um poder que gostaria de ter, esse ganha de longe. Não sei se seria sábio ao usá-lo, possivelmente não. Mas me divertiria muito, nossa. E teria que me acostumar a andar nú. Afinal, o invisível sou eu, não minha roupa. E estar peladão diante da Rainha Elizabeth pode ser libertador. Depois, só você saberia da minha presença, pela bagunça, queda de coisas, tapas injustos. Porque disso? Por que o beliscão leve na bunda de alguém seria culpa do sujeito logo atrás da pessoa beliscada, imagina o rolo. Eu sei, ser invisível é uma responsabilidade e tanto, mas posso ser digno depois? Agora vou ser tolo e assustar o Bolsonaro que vai pensar que ouve vozes dizendo que o Mourão gosta dele de um jeitinho diferente. Imagina a cara da Delamaris vendo uma goiaba correndo atras dela, rio de pensar. Teria acesso livres a segredos de estado, reuniões importantes, espaços vips, momentos solenes, assinatura de tratados e quer saber? Usaria boa parte do meu tempo vendo escritores fazendo seus originais, atores e atrizes ensaiando, observandoa Oprap preparando um ovo quente. Porque o invisível de tudo, o como se viaja, o alegre e o ranzinza de tudo que é feliz, tudo que existe de não visto parece mágico e poderoso. O incrível do que há de invisível é justamente poder se mostrar. É surpreendente a força de uma lembrança e o que é isso? É o invisível presente. Toca Romaria e Elis não está mais lá, mas posso vê-la, ela existe. Como resiste no perene do sempre a risada do pai, as canções da mãe, o barulho da fritura, o chip chip chip chip do esfregão no chão. Posso te ouvir agora mesmo, no invisível que nos pertence e não há nada nesse dia que seja mais resgatante. Posso te vestir de tantas formas, todas reais porque foram vividas e permanecem vívidas. Te abraço e te peço, rego o que começamos juntos há tantos (e invsíveis) anos. É diferente ser invisível e não ser visto, entendo agora. Como há muitas formas de contar que amamos, muitas linguagens para o entendimento, o norte, o sul e o centro são servem de nada se nos dizem apenas onde estamos. A função invisível das referências é que a gente conte pra gente para onde não vamos.

Tivesse o poder, um manto de invisibilidade, invadiria muitas igrejas de mil pastores. E cochicharia em seus ouvidos pouco cristãos que estavam escutando Jesus. E que lhes ordenava devolver todo dizimo, qualquer benfeitoria, favores indevidos, verdades escondidas, carros, casas e esperanças furtadas de um rebanho indefeso. E se não fizessem isso, coisas estranhas nasceriam em seus órgãos escondidos, teriam bafo horroroso ou pioraria muito o já existente. Entraria no quarto de Trump, ah isso seria bom. Riria um riso estranho, acenderia luzes e escreveria stop with wall onde fosse possível, gritando te enviaré a la pared ao mesmo tempo.

Crianças me veriam. Lembro de uma que andou de bicicleta comigo, verdadeira estrelinha. Elas sempre olham o que não vemos. São capazes de definições que para nós eram invisíveis até que nos mostram:

Acho que nós, adultos, tornamos invisíveis as crianças que fomos. O que é uma pena. São elas que fazem carrinhos de corrida, soltam pipas e dizem “não sei” quando as perguntam o que querem ser quando crescerem. Eu quero ser invisível e puxar tua saia. E te contar que estou bem, mas que às vezes é duro. Se você sentir um calorzinho, sou eu te abraçando. E os sinais de beijo, você vendo ou não havendo, sou eu que te deixo. Vamos fazer uma algazarra, gazeando aulas, guerra de água, chuva de sonhos, você não me verá, mas estou ali, juntinho. Abrindo portas (não se assuste), em frente da garagem para que entres sem risco, um cachorro imaginário chamado asterisco vai te lamber os sonhos e cantaremos juntos tua playlist preferida.

O invisível é impressionante, alma que amo. Se trata de um espaço multitarefa, salva o mundo toda vez que age. Agora vejo tudo que se movimenta em silêncio, os anjos da guarda, inspirações, ideias, encontros. Acalma, sabe? Falo de você, com quem converso e digo de modo indivisível o meu amor por quem és, minha gratidão pelas vindas tão plenificadas de ti e tua presença encantadora. Eu sei que me dirias que fazes por ti. O invisível disso é se trata de uma verdade inexata, mas que não importa. Ao teu homem invisível interessa marinar teus dias e servir o que te nutra sem as pressas das datas.