Dias ausentes

Tenho uma canção cujo som revela que é possível às palavras se tornarem o som e o sentido ao mesmo tempo. Fala de Marte, de espaço, de luzes que se alcançam. Mas dizem outra coisa, é um portal sonoro, amantes entenderão. Ela existe pelas verdades que formam sua composição. Não escrevo poesia, não me importam métricas, nosso sentimento vive se vestindo pra casar. Se arruma. Se perfuma. Fica diante da janela, esperando algum movimento. Vai ao super. Vem de longe. Ri do tempo. Chora de tristeza. Então, estando ou não estando na árvore do encontro. Vindo ou não vindo na sacada, algo confirma, é a seiva da conexão que não teme nem precisa se angustiar. Não se angustie, portanto. E me alegro pelo teu afeto que me mantém bem e desperto. Há Marte, sempre haverá. É ali que eu vivo, me entende? No espaço do colo, na língua, no dialeto, no concreto das dores que enfrentam as almas exiladas entre si, no entendimento da conversa transformada em espaço legítimo de troca. Tem saudade que arde. Há dias desafinados. Frustração? Tem sim senhor. Mas é nos dias ausentes que os amores não se reconhecem distantes, não se admitem faltantes e se fazem presentes com significado.

O presente de hoje é o presente de sempre

InQuantum

Quantum é só uma medida. Não tente aplicar lógica ao que há de infinito

Um amigo foi visitar o Grand Canyon. Antes desse passeio, ele me veio com uma dúvida divertida: “Mariel”, disse entre intrigado e curioso, “quanto tempo é educado ficar olhando aquele nada enorme pra poder, finalmente, ir ao shopping de uma vez?”. Entendi ali que tudo que for desejado mas mantido como secreto, emudecido, tudo que obrigamos ao calado, o que banimos para o subterrâneo das almas, nada disso se dilui. Algo ali se mantém resistente, indestrutível, feliz ou infeliz. Que não será possível submete-lo ao invisível, nem condena-lo ao ostracismo. Meu amigo pode achar chatinho o Grand Ganyon ou insignificante um grão de areia. O que não vai conseguir é impedir que ambos existam.

Eu acredito que o tempo é infinito e imóvel para todos os lados. Como percebo, o que se movimenta são as inúmeras manifestações da vida, o que abrange da semente de mostarda à montanha de milagres invisíveis e necessários para que germine. O tempo é uma linha sem fim, imóvel e formada por trilhas intermináveis onde nos movemos. Nessas trilhas, os acontecimentos com os quais aprendemos o exercício contínuo de ser e de estar. Somos nós entrelaçados, somos nós refeitos, reconhecidos em si pela existência do outro, que existe a partir daquilo que fomos capazes de ver.

Moram no tempo cada uma das suas alternativas, as coisas que lhe são assemelhadas, os portais e o que existe no sempre. Nada nele é repentino, abrupto, desvirtuado de sentido. Senhor de si mesmo, construtor de destinos, juiz das certezas, um deus não imutável, certamente um deus imp rfeito, um gigante, um clarão, o eterno instante de te ver. E se vens, seremos atemporais. Se não vens, ainda assim teremos sido o que haveria de ser.

Não te pergunto ressentimentos. Em mim, sempre é tempo de você.

Ao dia

Entre outras coisas, sou publicitário e todo publicitário se acha bom demais no que faz, fez ou ou fará. Todos os outros publicitários são questionáveis, menos o (aqui o publicitário em questão coloca o nominho). Na maioria dos profissionais da publicidade, principalmente os de criação como eu, todo o espaço é ocupado em confirmar a essencialidade da sua existência, mesmo que isso não seja mesmo necessário: obviamente, a importância está previamente confirmada por nós mesmos.

A Filosofia, por outro lado, fica na margem de lá da publicidade. Mas ela não é exatamente na academia, na estrutura, no plano de aula, no tipo de discussão que se tem, ou nos livros que se lê para que o próximo ano aconteça, nos desafiando para outras provocações, sutilezas, ideias em expansão. Ali se aprende as técnicas, os métodos, a ciência que rege o pensar sobre o bom, o belo e o justo. Refletir à respeito de algo te propicia a surpresa, o olhar encantado do homem que viu pela primeira vez a primeira labareda que trouxe a primeira fogueira, precursora do primeiro rodízio de assados na floresta. Filosofia é, fundamentalmente, um modo de vida. Você escolhe o modelo que te habilita a encontrar respostas, não certezas. Coisas que mudarão, à medida que a tua régua mostre que um terreno (portanto os pontos de vista) são verdadeiros e falsos ao mesmo tempo. Você passa a olhar por cima do mundo e tenta a entender o que rege as coisas por dentro. É algo diferente da propaganda, que tenta convencer, valorando o que existe por fora de tudo. Então, uma vez escolhido e aplicado o método pessoal de viver, o aplicamos com os talentos que nos são natos e as imperfeições que são tantas. Mas pode acontecer de mudarmos de bússula por conveniências, circunstâncias, crenças ou necessidades existenciais. Quando e se isso ocorrer, é boa providência avisar. Se você não disser, como vão saber?

Receber o Dia é um conceito de uma escola do pensamento que conheci há muitos anos, andando de bicicleta, matutando sobre um campanha cuja ideia brincava de se esconder comigo. Receber o Dia é aceita-lo em seus diferentes enfoques, nem todos na temperatura certa, a maioria em desordem e a minoria feitos a mão, por artesões delicados. e com tempo de sobra. É um exercício que exige alguma meditação. Afinal, ninguém chega aos portais do sempre sem passar pelos portões de casa.

Receber o Dia é um tipo de call to action, aqueles comandos mentais que colocamos em quase toda peça criada. Ninguém gosta, mas todo mundo põe. Faça, venha, corra, ande, olhe, passe, fique, as possibilidades são intermináveis. No entanto, Receber o Dia tem outra missão. A de nos neuropreparar para um encontro que é tão inevitável quanto gigantesco, chamado agora. Nele, imutavelmente, tudo será novo e reinaugurado. Em algumas horas, caminho do trabalho, milhões de células recém saídas da necessidade de existir, absolutamente tudo é outro, ultranovidade, nada é o que existia nesse exato instante. A maioria não nota. Mas não estamos falando de maioria, estamos? A maioria votou em, bom você sabe em quem.

Nos telefonamos, nos encontramos e nos colocamos frente à frente uns dos outros como se as horas fossem uma continuação rotineira e sonolenta de mais horas, formando blocos corriqueiros de acontecimentos em repetição. Não são. Não há nada garantido, nem eterno, não falamos com os mesmos filhos, pais, amores, amigos, caminhantes que encontramos outro dia. Esses não existem mais. Se voltamos a nos ver, o encontro estabelece inéditas e completamente diferentes condições de temperatura e pressão. Éramos outros, todo encontro é outro encontro, não há próximo assegurado.

Isso é Receber o Dia: transformar gestos em mais e mais capacidade de entendimento e surpresa, uma especialidade da publicidade, olha ela ganhando valor.

“Como se fosse a primeira vez” é um dos poucos filmes que gosto com o Adam Sandler. Nele, o protagonista precisa se apresentar todos os dias para a mulher que ama, já que ela foi acometida de amnésia e sua memória dura apenas 24 horas. A película estreou dia 13 de fevereiro de 2004 e, quase incrivelmente, a história foi baseada em fatos. Forte, não? É a vida citando ela mesma como exemplo. Ou como lição, depende de caso.

Quem deseja manter-se alguém cujo valor se renova e o prazer do convívio resista ao tempo não pode cometer um engano: substimar a força da inércia, mãe de toda rotina. Ela é uma correnteza, te cerca, tem poder hipnótico, acabará vencendo se não for combatida. Transforma o homem da sua vida num mané, um desconhecido a ignorar. A mulher estupenda ganha algo estranho em suas ruelas, becos, avenidas, urbes, ninguénsabe ir. Faz de você um arremedo, testemunha de fracos, de fracassos e de fracassados.

Receber o Dia não é antídoto contra o veneno de processos que, ainda que necessários, são repetições tediosas sobre o passar das horas, do continuo em sono profundo, o esquecimento de si. Receber o Dia é o exercício de quem olha para o lado e se vê montando seu destino, senhor de si mesmo e sujeito capaz de tornar-se o melhor que poderia ser.

O presente de hoje é um pedacinho do filme, 4 minutos. Dublados, mas esqueça isso e não esqueça de lembrar do que é importante.

Outro

Todo mundo é ao contrário, feito ao avesso, uma distopia, de ponta cabeça, diferentão, tem outro por dentro. Falamos sobre isso, encontramos um ponto, o elo perdido entre o que vemos e o que achamos que entendemos. Passamos desapercebidos e talvez os que se amem se olhem e ao se olharem, se tornem melhores. Quem sabe por isso se chame encontro. Ficamos melhores quando nos encontramos. Ganha-se um poder, acho. Entendemos outra lingua, tateamos outro corpo, criamos um idioma, definimos sinais. Só se pode gostar de alguém havendo alguém ali. Pai, mãe, tio, prima, marido, um amigo chamado Olavo. Uma pessoa que não sei. Alma que não sabemos nem nunca estaremos no lugar, um espaço dela, dele, esse outro que coletivizamos, coletamos, reduzimos e julgamos. É um outro de conveniência, o outro que precisamos. O de verdade é o que é, tem marido, meia, barriga, mulher. Negocia com o Itau, torce para o Santos, conhece São Sebastião do Caí. Reconhecer o outro é inevitável, porque somos o tempo todo outro. Anjos tortos. Santos do Pau Oco, Mayas, miragens, vertigens, dotes. Ao olhar para você enxergo outro ou uma projeção entristecida do que não sou capaz de ser. Essa é a essência de um julgamento: eu sei, tenho certezas. E você? é um outro que não sabe, um rosto, um fato de estimação, ação indevida, opinião contrária, audácia vivida, fraqueza a corrigir. Admiro isso em você, que vê no outro o que ele traz, o que foi capaz, a história escondida, a curiosidade estendida, tapete macio onde o outro se deita e descansa de um dia longo e cheio. Me enriquece isso em você, me torna maior, resgata o humano, essa ideia maluca que à medida que cresce, nos torna únicos e lindamente desiguais.

Bilhetinhos do tempo

Nada é tão forte quanto uma ideia cujo tempo chegou (Dicodallma)

Tempo é dinheiro. É? Mesmo? De verdade? Sério? Então me diga agora quanto vale qualquer coisa que tenha de fato valor. Depois, tente a partir disso me contar a soma em que é possível chegar. Tempo não é dinheiro, nada mais inútil do que dinheiro quando não se tem tempo e o contrário não é verdadeiro. A ideia de tempo associada ao dinheiro é pequena, quase uma estupidez funcional. Mas o ponto aqui passa longe longe de uma conversa de boteco, coisas que se podem ver em prateleiras de supermercado, frases de Facebook, repetições. Lendo uma entrevista do angolano Valter Hugo Mãe, percebi algo extraordinário. Olha a verdade disso e já conversamos:

Se eu fosse impedido de voltar ao Brasil, nunca mais regressaria inteiro a Portugal

O entendimento de que somos as experiências que vivemos, vamos nos lanhando, polindo, esfolando, rindo, sendo, vivendo, indo. Tudo isso acontece ao longo do tempo, não do dinheiro que temos. Dinheiro aqui é um valor, é qualquer coisa que passa, o que não ocorre com o tempo. Ele fica, mostra, flexibiliza, enrijce, lembra, esquece, esfria, anoitece, vai, cai, orienta, levanta, ostenta, se impõe. Outra forma de dizer isso é mais poética. Foi pé por Heráclito, ele era dos bons.

Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o real é sempre fruto da mudança.

Da esquerda para direita (talvez literalmente), eu, Zico, Onofre, mãe (Lucila) pai (Norberto), Lívia (no colo) Nita, Manoel e Ariel. É uma festa de 15 anos, acontecida em algum lugar do tempo, como diria Bob Dilan. Recebi esse registro como um carinho para me proteger de solidões, apaziguar vozes, acalmar tumultos. Afinal, há sempre formas de estarmos juntos. O tempo nos acompanha em sua sucessão de momentos. Não há nada que pague o quentinho da família em reunião. Nada que apague o afeto tido, oferecido e compartilhado. Mas não dá para não tonar: veja em quantas direções estão os olhares e justamente os mais lindos do clique se permitiram o toque do gesto. Talvez seja isso, hum? O tempo só torna mais algumas afirmações corporais, mas quer saber? Essa gente me divertiu, cuidou, fez crescer, brigou por mim. O que me cabe é recebe-los, compreender em mim o que foram, resgatando o que farei com o que aprendi. É o tempo rasgando desculpas, como quem diz “então seja mais do que eu”.

Quando se respeita alguém não queremos forçar a sua alma sem o seu consentimento

Simone de Beauvoir é quase covardia citar. Mas o tempo é um elemento fundamental no crescimento da liberdade que é, em uma análise pessoal e certamente cheia de parcialidade, amar alguém a ponto de reconhecer que seu destino lhe é próprio. É onde nasce o respeito pelo teu desejo manifestado, você teve pouco, bem pouco, pouco mesmo disso. Reconhecer que a existência da tua alma, a simples noção desse tempo moldado em gente, isso alegra e faz seguir em frente. Não se trata de estar junto, não se fala em casamento, não se diz sem ti não vivo. Meu assunto és tu, que me felicita ao longo dos dias em que exercito a própria vida. Quero dizer aqui e agora que sim, o tempo todo é você. É justamente por ser você que há tantos modos de me aprontar, de resistir, de viver e de ser feliz. Afinal, há Marte em mim e não me perdi porque sempre andei olhando em ti.

Toca Milton Nascimento, seus mil tons, seus mil nascimentos. Ele não tem uma voz, é um dote, um dom, algo elegante e terno. Sinto tua presença e descanso de um ano longo, de dias bons e cheios de efeito sanfona. Há tantas possibilidades, lugares, cidades, filmar com o nosso garoto Du, ensinar. Me sinto na fronteira de mim mesmo, não há perigo, mas serenidade como em Eluarada. Entrei em acordo com o tempo, chega de tentar supera-lo, hum? E sabe que não se trata disso ser possível ou não? Quero ser o que vim ser, vencer o que há de fútil, desconfiado e errante em mim. São planos grandes, não? Os fogos começam a dar os primeiros sinais de 2020, allminha que amo. Os anos 20 chegaram, não te parece estranho, nós dois nos anos 20? Porque te conheço de outros registros no tempo, onde mora a verdade que sinto.

Encontrei um lugar incrivelmente saboroso para pizzas, junto com o Du, que está mais engraçado do que nunca. Ainda vou te levar lá. Quero fazer tanta coisa, não? Por hora, te deixo com água na boca e a lembrança do simples, do gostoso, do trigo e da semeadura. Precisa ser fácil, se lembre. Precisa ser forte, se anime. Precisa ser fato, se inspire. Você é a melhor ideia de um tempo cheio de ideias geniais. Cante, toque sax, encontre, aponte, acolha, se escolha, seja impertinente. Gingue, mexa, abra, enterneça, permaneça, nosso tempo é ontem, nosso tempo é sempre, nosso tempo é já.

Presentes

Uma paisagem permanente, aceita? Você me deu a alma Enluarada, me parece boa troca, ainda que jamais possam (ou precisem) serem coisas comparáveis. Gestos amáveis, topa? Você me restituiu tanta coisa. O rio, o riso, as histórias contadas. As risadas, quantas! Quanto aos choros, bem, eles existem e sim, são tristes. Mas amor é água, contorna, submerge e vence, não tem obstáculo, esse é o teu espetáculo, amada. Depois, hoje é dia de presentes com significado. Achei que você iria gostar disso e sorrir. E se te faço sorrir, o dia está ganho.

Começo te dando um abraço interesseiro, inteiramente dedicado a te tocar o espírito e (por que não?) arrepiar a nuca. Me trouxeste uma primavera inteira, intocada e infinita, alma que amo. Entenda, um abraço é quase nada. Mesmo que seja desses sem hora de desabraço, desses que quanto mais apertado, mais se torna espaço de conversa, suspiro, entendimento e calmaria. Acho que você precisa de um tanto de tolice, um bilhete bobo no espelho, um boliche, quem sabe fazermos juntos uma boa salada verde, deixa eu te ver vivendo, reserva um tempo conjunto para ouvirmos Valsinha do Chico. Vamos na esquina à pé e sem pressa. Vou vir te contar que hoje tem sol, és tão solar. Mas se faça um favor: não deixe tanto tudo girar em torno do teu calor, podemos nos virar sozinhos, nos fará até bem. Seja teu espaço, proteja tua galáxia, não vá a lugar nenhum longe de si mesma, se acompanhe, mãos dadas contigo. Pensei num café. E quem sabe tu me mostras o que te passa na vista e o que pensa enquanto o que olhas te alcança, enquanto engoles o quentinho que é viver.

Me darás de presente a contação de como foi teu dia. Não só vou perguntar, como vou querer saber, é um jeito de fazer parte. Quando te pergunto como vai é porque desejo saber como, não onde enxergas o que deseja. Porque isso, o desejado, qualquer que seja ele, chegará ou não. Entende como o como é importante? Como vais? E enquanto vais, como te sentes? O que te assenta, o que te acende, o que acontece quando anoitece e a a lua chega? Te dei meus medos, me dá tua companhia. Divido salmão e sonhos contigo, perco quilos e mais quilos, o tempo às vezes dói, noutras balança a rede das lembranças.

Me preparo para ir longe, havia até a pouco um mar lindo, revolto. Me descubro protegido de Yemanjá, logo eu, um comunista imaginário. Hoje é dia de ausências, de impossibilidades também, como o teu colo onde dormiria serenado. Me deste muito disso de presente. Então te abro uma caixa mística, uma canção Celta, deixo a porta aberta e crio uma cantiga de ninar: você descansando em mim, que emoção no sempre que construimos em confiança no que sentimos. Então tudo bem de trocamos olhares? Sim, desses que ficam um segundo a mais, absortos, soltos um refletindo o outro. Um afeto fundo, um afago pedido, um te sinto e isso faz todo sentido? Lembra que te dei meus olhos pra tomares conta. E agora tu me contas como partir. És tão presente em mim que pedi que Renato cantasse pra ti:

O significado é o tempo dedicado. Ao rumo, ao ritmos, às melodias que nos reconhecem, ao suave que nos convida, a saudade que afaga, talvez não hajam respostas prontas. Quem sabe elas, as respostas, estejam se aprontando no ir e vir que parimos, no instante único que encontramos para trocar o amor que sentimos.

Feliz Natal, sempre feliz Natal.

Cartas

Li aquele chileno e lembrei de ti. Bom, eu respiro e lembro de ti. Olho agora para uma lua imensa, aqueles luões gigantes, uma noite quentinha, tem uma brisa no fundo de tudo e lembro de ti, que me parece tão longe, ainda que me visites de tantas formas.

Neruda era o poeta que te falo e veio me dizer que sou meu autor preferido, olha que lindo. Que escrevemos histórias, nos descrevemos em fatos, nos apresentamos capítulos, somos causa de nós mesmos. Causa de nós mesmos! De onde um homem tira uma boniteza dessas? É a verdade parindo o renascimento, a era da luz, não pelo fim das trevas, mas por sua integração e entendimento. Esse sujeito vem e me diz que nossos problemas são nossos, mas que se não os alimentarmos, morrerão de fome, a inanição será o destino do caos, nos colocando no centro não do cosmos, mas de nós mesmos. O Nobel comunista maneja bem as palavras, claro. Ele também retrata o amor de um modo tão… tão… bem, leia aqui em baixo, veja se isso não é coisa de alguém com mãos cheias da graça da vida e das graxas das minas chilenas.

Não te quero

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Vejo ali nos versos (olha que ousado, analisando Neruda. Só eu mesmo) os antagonismos de quem ama, o egoísmo de quem deseja pra si, o desespero de quem sente o que sente e perde a quem pertence.

Hoje fui rude com o dia, talvez com as pessoas, verdades nem sempre são suaves, mas tive encontros bons, quase como uma lufada de vento ou uma curva bem feita antes de apontar na reta e você lá.

Tomei Toddy de manhã, batido no liquidificador, gelado, imenso, delicioso Toddy. Deu uma baita dor de cabeça e o fígado me lembrou que há 40 anos não tenho mais 20 anos. De qualquer forma, acho que o pão na chapa foi o grande responsável por isso. Imaginei como as pessoas receberiam meu bilhete de despedida da agência, tive algumas reuniões bestas e troquei abraços com bons amigos, andar sem mágoa pelo mundo é uma delícia e eu me sinto um puro sangue, ou um touro, eu nunca entendi bem a metáfora. Me sinto bem, enfim.

Entendi sonhando contigo (aconteceu ontem) que Ithaca não é um lugar, mas um destino. Não se chega a Ithaca, se vai pra lá não no enfrentamento, mas no entendimento com o mar. Talvez esse tenha sido o erro de Ulisses, rugir para ondas, cegar cíclopes, urrar para correntezas. Penelope, mais sábia, tecia o dia da chegada. Mais sábia e mais amada a ponto de ser desejo de tantos. Mas Penélope é de Ulissses, se pertencem não o pertencimento instantâneo do tempo, o da primeira vista, o instável pra sempre, ah não. Se pertencem no embalo císmico que se provocam, se pressentem, se sentem, se atraem e se amam a ponto de partirem e permanecerem abraçados no entendimento do perene, do sempre e do constante.

Ulisses

Kavafis

Se partires um dia de volta,
pede que o caminho seja longo,
rico de experiências, rico de saber.
Não temas lestrigões nem os ciclopes,
nem nunca o Posidon furibundo;
não acharás aqueles seres na tua rota,
se for alto o teu pensamento
e sutil emoção mantiveres em teu corpo e teu espírito.
Nem ciclopes, nem lestrigões,
nem o Posidon bravio acharás nunca,
se tu mesmo não os trouxeres em tua alma,
se a tua própria alma não os puser diante de ti.

Pede que o caminho seja longo!
Sejam numerosas as manhãs de verão nas quais tu,
com prazer, com felicidade,
aportes em baías nunca vistas
Demora-te em empórios da Fenícia
e compra belas mercadorias,
madrepérola e coral, e âmbar, e ébano,
perfumes deliciosos e diversos.
Quanto puderes, investe em perfumes,
voluptuosos e delicados.
Visita muitas cidades do Egito e,
com avidez, aprende dos seus sábios.

Guarda Ítaca sempre na memória.
A tua meta é lá chegar.
Mas não apresses a viagem.
Melhor é que ela dure longos anos,
e que chegues à tua ilha na velhice,
com o que tiveres ganho pela estrada,
sem esperar que Ítaca te enriqueça.

Viver te presenteou uma bela viagem.
Sem isso, não terias te aventurado.
Mas nada além ela te dará.
Mesmo que a encontres pobre, Ítaca não terá te enganado.
Rico em saber e em vida, como voltaste,
entendes, por fim, o que significa vir.

Fuso

Pode ser lido na direção que você quiser

E se formos formados também de um tempo criado, estabelecido por trópicos, linhas, movimento solar? Então talvez cada um de nós tenha um horário próprio, interno, indiferente do segundo passante, do minuto restante, dessa gente que tic tac tic tac tic tac e passa.

Quem sabe quanto mais próximos (ou distantes) do paralelo 30, tu não me sintas da mesma forma que eu te perceba. Nem à flor, a chuva, o chapéu, a greve de fome, a importância, o aroma, o bife, estar contigo no sábado ou a dureza das despedidas. Talvez eu não saiba de ti. E mesmo que me digas, posso estar (como tu) em um tempo fora de mim e assim, não te compreendas ou não me queiras, não te entenda ou não me vejas. O que sei é que mesmo assim, nos teremos porque tecemos linguagens próprias, carinhosas, é desimportante o nome que dão.

E se o que percebemos não seja o tempo, mas fusos uns dos outros, um momento, um instante, elementos, encantamentos, tiques verbais, ansiedades, separação de mentira e amor de verdade? E se não for escrever o que me acalma, mas sim escrever pra ti, saber que me lendo te tenho? Ver que decifrando palavras te devoro e que me olhando em frases, me decifras?

E havendo almas que se alcançam e que se alcançando apenas se amem e se amando se queiram bem? Almas que passam pelo tempo, dando a ele pouca importância e muito movimento. Almas no mesmo fuso, mas sem a doença das fusões. Almas vivendo suas horas, se oferecem ao outro por se terem, por se verem e por amor.

O show pode parar

Um dia me convidaram para ver “O Show de Truman”, um filme com Jim Carrey, o comediante. Seria, portanto, um filme engraçado e quase caricato, era o Carrey. Na primeira cena, cai um spot de luz. Na última, eu estava em estado de choque. De fato, não entendia do que as pessoas riam. Ou porque reclamavam de um filme de humor que não tinha graça. Ou de um comediante que não fazia piadas ou trejeitos. Caso você não tenha visto, recomendo que você faça isso agora. Que perca o menor tempo possível entre o que esteja sendo feito e esse filme, que deve ser visto.

Jim é um artista raro e aquele roteiro é um eco sobre o ego e seus espelhos. O que eles refletem? Tudo que deixa de refletir, que se transforma em imagem projetada, em certeza sobre o outro, em cadeia lotada de opiniões sensatas e de bom tom. O personagem de Carrey tem uma existência comum, um emprego rotina, uma casa igual a milhares, vizinhos indiferentes e razoáveis, um casamento sem sal, uma vida traçada e então, na primeira cena, um spot de luz cai.

Peter Weir (diretor e roteirista) mostrará que há algo de assustador e incerto, viver é inexato e gradiente. Será preciso entender os sinais que nos damos e que nos mostram em desalinho que viver é uma enxurrada de escolhas. Não há estabilidade. Nem pequenas engrenagens que se juntam a maiores, que encontram outras, de dimensões ainda mais impressionantes. O mundo dá a volta em si mesmo em velocidade e direção determinadas e constantes, mas isso é só uma regra geral de funcionamento, era assim para os dinossauros. E então um cometa, como o spot de luz de O Show de Truman, de repente cai.

Acredite: isso é uma boa notícia. No fundo, sabemos o que é desejo, o que há de legítimo, de íntimo, de desatino negar. Algo nos conta, talvez seja a função invisível das dores das almas partidas. Dos encontros inesquecíveis. Da fissão. Da fusão. Dos portais. Da fissura. Da saudade. Da incredulidade de ver algo ir ou vir. Do nervoso que dá. Do estalo dentro de si ao ver-se partir. Mil pedaços, o início, o silêncio, o meio, o cansaço, o pedido desesperado de contato, a mão estendida, a escrita, a roda inventada, a letra, o desenho na pedra, o te amo, a aliança, San José de Havana, o não parta, uma janela azul, Ithacamazulinhatacama junte tudo e aprecie o anti cenário, a busca, o que resiste ao impermanente, o que faz surgir o que não existe, essa obra é sua, talvez seja isso o que te assusta. Saber que existem spots que caem e outros, que iluminam a jornada.

Que sabemos ou intuímos, que saberemos quando chegar, que será impreciso conhecer como se trata o garçom, o porteiro ou o motorista. Porque o amor não é uma bolha, mas todo o resto é. Porque tinha que ser com você, com Elis, com segue o teu destino, as cores são azuis, os blues, já disse hoje, o presente, a tonteira, aquela sombrinha no pulmão, a foto mostrada, o desejo por mais, a lembrança guerrilheira, algo não se vai, não é?

Então, terminado a película, estamos na realidade? Só consigo mesmo olhar para as minhas dores, o que me afeta, o que cabe, onde fico na fresta, uma cadeira num canto? Ou quem sabe olhe pra tudo com a lente das almas exiladas, as que estão sendo passadas, aquelas que não se notam, as anonimas e inacessíveis por serem destoantes ou imprevisíveis? E agora, José, você tem fome de que? No fim, no filme, aparecerão os créditos e você tem fome de que? A luz sobe. Você tem fome de que? Os guardas perguntam “quem está passando hoje?”. Então me peguei torcendo para que não seja eu quem esteja passando.