Mariel Fernandes

Vistas do meu Ponto

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Reflexoes

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Simples

marielIINão tem jeito, os milagres me encantam. Sabe aquele cara que bate o cajado na beira do mar e o oceano se abre em dois? Quando penso na cena, não tenho dúvida. Definitivamente, o que me surpreende é o cajado.

Estou ficando com a impressão que nos habituamos tanto aos pequenos milagres da vida que ficamos quase imunes à curiosidade, além de deixarmos de lado a gratidão pela inventividade humana.

Fomos capazes de descobrir o fogo e isso deve ter dado um trabalhão, mas vamos combinar: o palito de fósforo é quase inacreditável. Agora pense na calvice e me responda: os carecas têm ou não têm uma dívida impagável com o inventor do chapéu? Claro que os foguetes interplanetários são uma grandiosidade e levam a curiosidade da raça a reinos longe, longe, longe daqui.  Mas são coisa pouca se comparados à pipa, essa nave quântica, capaz de nos levar direto para a infância.

Quem foi que pensou no cartão de visita, no copo ou no tênis sem cadarço? O pessoal fala muito da inteligência artificial, eu fico bobo é com a catraca, a roldana, o spray, o ferro à vapor, a mesa de passar roupa, a porta de correr, o velocímetro analógico e os relógios, especialmente aqueles à prova d’água. A bicicleta me emociona, as impressoras me causam palpitações e as fitas K-7, ah as fitas K-7, quantas preces Deus ouviu para que o locutor não entrasse no meio da gravação.

Quem me conhece sabe que não sou um saudosista e que adoro tecnologias, avanços e inovações. Mas olhe tudo que envolve um espirro, o mecanismo que faz a pupila dilatar, o violão, a música, o Merthiolate que não arde, como não ficar de boca aberta com tudo isso?

O que Exupery estava sentindo quando sorriu e escreveu que somos eternamente responsáveis por tudo que cativamos? Como se chega a uma frase dessas? O que Deus quer dizer com o hipopótamo, quem pensou em batizar Osasco de Osasco? Qual o sentido da vida, o que leva os ingleses dirigirem do lado errado da rua?

Dia desses estive com Clóvis de Barros, meu filósofo brasileiro preferido. Não é chique demais dizer “meu filósofo brasileiro preferido”? Eu tô besta é com esse teclado. Basta que eu aperte c para aparecer c. Falava do Clóvis, que abriu mão do título filósofo para se definir como “alguém bom em explicar com simplicidade coisas que são complexas”.  Trocamos um longo abraço, nos olhamos profundamente e sorrimos um para o outro. Na saída do encontro ele se disse cansado e “precisado de uma banheira”.  O cara que traduz a existência, o sujeito que escreve livros, o palestrante de sucesso, enfim, o Clóvis precisava de algo simples como um recipiente capaz de conter alguns litros de água e alguém dentro. Entende o que falo? Somos seres capazes de relativizar a genialidade da Bic, o minimalismo de uma chave de fenda ou a praticidade do café instantâneo. Ao mesmo tempo, temos 100 anos de Solidão, temos Matrix, temos Beatles e temos o estádio do Inter, exemplos de uma engenhosidade que me deixa pasmo. Como o metrô, por exemplo. Cavocar a terra, abrir buracos enormes, fazer um veículo pesadíssimo ir de estação em estação por baixo da terra e da cidade. Isso é uma tarefa impressionante. Mas eu fico de boca aberta com outra coisa: a porta se abre do nada e do nada se fecha, ela sabe que o metrô chegou, essas portas são magia pura.

Portais, amor, relatividade, buracos negros, universos paralelos, memória celular, computadores quânticos. Não tenho dúvida de que tudo isso exige uma compreensão universal do pulsar da existência e do tempo. Por hora, me esforço para entender o bom humor de quem criou o par ou ímpar, o limpador de para-brisa e a canção universal que comemora aniversários. Quem lembrou de Parabéns a Você está me acompanhando. Simples assim. Acho que Deus adora a bicicleta, o bocejo, o trevo de quatro folha e pão de queijo com doce de leite. Claro que Ele também ama os artistas, os escritores e até os publicitários. Mas convenhamos: nenhum de nós é páreo para a mais simples das criações Dele, ainda que exista algo que Deus não pensou. Algo que divino, eterno e abençoado. Nem vem, Senhor dos tempos. Essa invenção é minha e a uso para me animar quando estou cansado. Gosto de pensar que sou eu quem inventou Sucrilhos com leite gelado.

Sobre todo o sentimento

                                                           Te escrevo aqui, na parte rasa da noite, onde Chico canta o que há de lindo em uma marieltodosentimentoseparação finalmente compreendida em sua necessidade básica de ir. “Preciso não dormir até se consumar o tempo da gente” é uma aceitação da insônia que vai reger a passagem das horas. Não serão momentos fáceis, alerta o poeta de olhos de mar, como Betânia o chama. Afinal será preciso conduzir “um tempo de te amar, te amando devagar e urgentemente”. Devagar para viver o que falta. Urgentemente para superar o que sobra.

Buarque é um alquimista capaz de transformar dor em ouro, o que exige um certo cuidado com os seus ditos. Afinal, podemos achar reluzente o que dói, passando a andar por aí expondo chagas, como fazem os pedintes nos sinais de trânsito. No fundo, o que eles desejam não são as moedas, mas sua retirada do invisível onde faz frio, além do fim do exílio, que os leva para longe de si mesmos.

No entanto, é preciso ter em mente uma coisa muito importante: se tudo der certo, muita coisa vai dar errado na vida da gente, afetos inclusos. Por pequenos ciúmes, grandes defeitos, projeções diversas, posses disfarçadas de cuidado, medos à granel, covardia no atacado, chatice pura e simples ou fadiga de material. Além disso, teremos distâncias, incoerências, impedimentos variados, burrice crônica, dependência ou distração abandonante. O amor navega em águas profundas, é um lugar isolado como o Tibet: dá um trabalhão para chegar, pode fazer um frio danado e você tem que pedir autorização pra China, que nem sempre está de bom humor.


Por isso, quando Chico diz que coisas como “pretendo descobrir no último momento um tempo que refaz o que desfez”, algo se alerta em mim. Afinal, ninguém que deseja mesmo fazer algo se declara um pretendente. Veja o Luther King e o seu famoso “eu tenho um sonho”. Ele não disse “pretendo ter um sonho” porque nada acontece no tempo do pretendendo. É um território árido, preguiçoso e sem graça, onde tudo nasce no gerúndio.  O amor é algo que zarpa, cruza, abarca, parte, inspira, vai, fica, explica, constrói, fortifica, imobiliza, movimenta, é farol que desorienta. Artesanato imperfeito, alegria em construção, amor exige fronteira clara entre o que é você e o que há no outro: amor não é comunhão, é comodato, se dá na troca entre iguais. Amor é uma porção individual, uma festa no interior, um silêncio em conversação. Acho que era isso que me incomodava em Todo Sentimento. Eu a ouvia como algo que não era, daí a impossibilidade de compreensão. Todo sentimento não algo sobre o amor, é algo sobre o amor reconhecido em seu começo, respeitado em seus meios e liberado em seu fim.

Para não esquecer

lembrança

Rita Lee me encanta com sua voz suave. Pertinho do ouvido, ela conta que “há pessoas que a gente não esquece, mesmo se esquecer”. É uma música romântica e o romantismo parece ser o último reduto das coisas, inclusive dos roqueiros. Se não for isso, a conclusão sobre o tema poderia ser que os dias são puro rock, mas que gente sonha mesmo é com uma versão acústica da vida.

“In my Life” (a música que Rita adaptou dos Beatles) fala que entre tudo e todos, a poeta lembra realmente é de alguém específico. E descreve “cenas do meu filme em branco e preto que o vento levou e o tempo traz. Entre todos os amores e amigos, de você me lembro mais”.

Não percebi desespero, rancor ou saudosismo na letra. Ouço ali a constatação leve e branda de um registro que dorme tranquilo, vive na lembrança que o tempo tem do passado. Já não é o frio na barriga, nem a emoção estreante, não é mais forte ou galopante, não tem mais os sinais corajosos dos rompantes apaixonados. Trata-se mais um suspiro de melancolia sobre o momento alegre e intenso que venceu o cinza para ganhar cores e entonações vívidas. O problema é se nada do lembrado tenha sito, de fato, vivido.

Dizem os que entendem das mentes (e do quanto elas nos mentem) que editamos um pequeno percentual do que vivemos, seria algo em torno de 100%. Gente, gestos, fatos históricos, paixões, vitórias esmagadoras, brados retumbantes, olhares fulminantes, frases poderosas, derrotas inesquecíveis, abandonos e erros fenomenais, além dos comerciais das facas Ginsu, nada teria sido exatamente assim, caso tenha sido. Se existiu, foi dentro de outro molde. Entalhamos fatos de estimação, retocamos textos, burilamos reações e encaixamos detalhes sobre o que aconteceu? Será que somos artesãos, artistas quânticos, tingindo no espaço e no tempo acontecimentos que nunca estiveram lá? Nada, ou quase nada, teria acontecido daquela forma, de tal maneira, naquele instante, em tal momento, de todo modo, o que quer que seja, não importa o que? E se foi de outra maneira, o amor, o tom da voz, o professor, a cadeira de balanço, a comida da mamãe, a primeira vez, o último encontro, a derradeira escolha, a escola, o gol de placa, o rigor do inverno, o frio que passamos, o tempo que existimos, os arrepios que causamos? E se o que houve de fato, fosse um pouco menos torto ou um pouco mais exato do que um retrato falado, desses que descrevemos o bandido enquanto ainda estamos assustados? Era um gigante, com 8 olhos, 7 braços e 12 baionetas. Era para sempre. Era tão lindo. Era entrega. Era saudade. Era feliz. Era amor. Era o caminho. Era a causa. Era incansável. Era de ferro. Era verdade. Era mistura. Era mentira. Era menina. Era de barro. Era esquerda. Era esquina. Era direita. Era cigano. Era cigarra. Era uma canção bonita. Era álcool. Era erva. Era escarlate, era cheiro de terra molhada. Era Sartre, éramos 6, era o ser, não era nada.

Rita Lee fala de “lugares que me lembram minha vida por onde andei”. Mas se não podemos -e não podemos- confiar plenamente nas lembranças, que lugares serão esses? Existem ou foram criados e depois entregues? Batuquei na mesa de madeira onde trabalho, gosto do som que o movimento produz. A mesa foi feita a partir de uma antiga janela, que se abria já não sei bem para onde. Ao toca-la, é uma mesa. Ao lembra-la, foi janela. E, finalmente, chego onde In my Life me levou. A música pode ser um convite para a que gente seja grato pelo que houve, não como houve. Não precisamos concordar ou repetir o que quer que seja. Mas precisamos deixar que siga em paz o amor e suas escolhas, as separações, as descobertas, as uniões, as medalhas. Deixar partir exclusões, canções feitas em noites de lua cheia, o dito, o entendido, o descrito, as frases caladas, o coração seco, os olhos marejados, a vida e suas mudanças. O segredo de hoje é que hoje só vale para hoje. A nossa parte, quem sabe, seja transforma-lo em algo maior, melhor e mais real do que nossas lembranças.

Em algum lugar do tempo

Estou aqui, no outro lado das manhãs, onde Dylan canta “Once Upon a Time” na minha sacada. Não é uma canção para principiantes como eu, um Shrek confesso. Sou incapaz de capturar as sutilezas da letra ou mesmo de compreender as gentilezas da canção. Ela tem uma tristeza que sorri, um riso que convida a amargura pra dançar e flerta com o que houve de bom no dia. É um dialogo suave, livre da proximidade que nos tira a noção do todo, é uma história contada muito depois de havida. Escrevi tudo isso só para te tranquilizar: não sou tão Shrek assim. “Once Upon a Time” veio cantar que todo encontro carrega sua própria despedida. A linda tradutora me trouxe uma leitura poética do título da canção. No lugar de um simples “Era uma vez”, um luxuoso “Em algum lugar do brokenhearttempo”. Afinal, fala da vida e de seus acontecimentos inusitados, suas miragens, seus pequenos milagres. Bolo de fubá. Domingos ensolarados. Joelhos esfolados. Física quântica. Caminhadas em noites silenciosas. O encantador chuá marítimo e a brisa de cada estação. Pão de queijo, chocolate, gol do Inter. Ficamos urgentes de encontros, suspiros, tardes mansas, o gosto de manga, resgates surpreendes e um pouco de dança. Diante da desistência covarde dos farsantes, da angústia dos posts, das opiniões definitivas, dos amores desperdiçados. Apesar da existência dos tratados internacionais, das missões, dos mísseis, dos miseráveis, das multidões de exilados, dos milhões em lambança, o mundo precisa mesmo é colocar os pés em algum lago gelado e acariciar suas esperanças.

Por isso, aqui do outro lado das manhãs onde lembro de ti, aceno e te recebo como uma parte fundamental do que sou. Compreendi que é inútil tentar encontrar o que não foi perdido ou esquecer o que não foi vivido. Viver é uma escolha onde nasce a impermanência. Que seja intensa, mesmo que vaga. Que seja imensa, ainda que por um momento. Que seja vivida tanto e de tal forma que sobreviva a nós e se glorifique em algum lugar do tempo.

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