Aster

Estrelas do mar parecem asteriscos. As estrelas do céu também. Gosto desse sinal pelo grafismo que tem, pelo mistério que carrega em seus significados. Asteriscos são reticências bem sucedidas. Chegaram ao estrelato. Brilham como um texto do Mãe que aparece sem ser esperado, mas que é muito bem-vindo. Fala de estações e me pergunto se é um desejo ou uma certeza, o jogo de palavras. Em mim, o “vocês verão”, é uma sentença definitiva e que deixa espaço nenhum para dúvidas: esses dois tostarão ao sol juntos, mesmo que a leitura não seja direta assim. Mas Catarão caramujos enquanto caminham olhando o horizonte, trocando coisas sobre o trabalho, projetarão (enquanto caminham) os novos trechos da vida. E quando isso for pouco, encontrarão formas de contornarem suas imperfeições, porque o amor é líquido. Não serão projeções que oscilam a partir da incidência e do humor dos raios de sol. Permanecerão afetos e afetuosos na concretização da excelência, entendida como produzir e oferecer o que há de melhor neles mesmos. Todas as estações têm maravilhas e talvez seja esse rodízio perene entre elas que as façam tão esperadas. Um dia, depois de dias e dias, chega o tempo do inverno ou da primavera, ou do outono ou do verão. Sempre chega, é da ordem do tempo e de tudo que existe nele, fora ou ao seu redor. Acontece o mesmo com os encontros formidáveis, com as vindas que não passam desapercebidas e nos dias de espera. Há um motivo que mantém aquecidos aqueles que acreditam no verão, mesmo que o inverno jure que será eterno em seu rigor. O motivo é maior do que o entendimento que se possa ter disso. Basta ver uma estrela do mar ou no céu as associar a asteriscos. Não são asteriscos. São sentimentos. São convicções. São respostas. ***

Não passa desapercebido

Resumindo, fico feliz. Mas ficar feliz é isso, um resumo. E, como tudo que se resume, não conta tudo. Fica abafado o movimento do olho que se arregala, porque uma surpresa desejada, finalmente, ocorre. Um sub riso se instalada. Não se percebe bem, mas ele está ali, rindo. Suspiros? Tem sim senhor. Acho que é o mesmo sentimento que se apropria de um atleta que sabe que acaba de fazer algo formidável. É um suspiro, mas também é um alivio. É isso e também uma euforia, mas não termina aí. Se mostra um contentamento, que não para nisso. É mais do que um gol do Inter. Mais do que um gol do Inter no grêmio. Mais do que um gol do Inter no grêmio e que decreta que o grêmio vai para a série b. É mais do que muita coisa, portanto. 

Para te dar uma ideia melhor, também pensei em metáforas. Coisas simples, mas boas como imagem. Algo que envolvesse cor (azul, amarelo?), horizonte e navio singrando os mares, mas não. Isso é muito ui ui ui. Fiquei explorando, mas nada era (de fato), apropriado. Não queria algo grandioso, sabe? Não que não seja, mas é que não se trata disso. Queria contar das pequenas reações em cadeia. Não sei se você lembra dos programas de pergunta e resposta. Quem foi o imperador autoproclamado da França? A câmera fecha no rosto do participante, que está pesquisando em fichas internas a resposta que garante mais mil reais. Você diz na lata “Napoleão!”. O sujeito, suando frio, diz um titubeante Napoleão. O âncora pergunta se o cara tem certeza da resposta, veja lá. Você diz “sim, sim”. Ele, reticente, afirma um sim com menor certeza. 

Momentos de silêncio, sob uma música de tensão fake. Então o apresentador decreta um “certa, a resposta”. Vê-se o alívio no sujeito que respondeu. Mas o que falo aqui é da sensação que toma o telespectador que também acertou. É um tranquilo “eu sabia”, uma satisfação pelo conhecimento. É disso que falo. É uma satisfação. 

Mas é que satisfação parece um fico feliz. Um resumo, possivelmente um resumo ainda mais hermético. Então, quero contar que me faz desejar que o Grêmio empate o jogo. Que não seja rebaixado. Que os cortadores de grama me fazem lembrar você.  Que é como um navio amarelo de bandeira azul surgisse no horizonte de uma ilha deserta onde mora um náufrago de nome Napoleão, que será resgatado. Que tenho certeza das respostas que daria sobre a nossa história. É, como tento demonstrar, uma mistura farta, confirmando a conexão. 

Em resumo, fico feliz, mas isso não diz tudo. ***

Já te disse hoje?

Essa foto esperava por mim (e por ti) numa calçada da cidade, como quem diz “a luz não reflete, ela existe”.

Quando o silêncio envolve e o gélido se acerca da cidade portal, ocorre algo além do que se espera do frio intenso: é o som do rio que resiste abaixo do gelo, destemido, rindo tua vinda. Tudo é falta de som e esquecimento, mas ele corre, alimentando canais, igarapés, nascentes, num leito feito de vida, líquido e certo como rir ou vir. Árvores não são desimportantes. Asteriscos estão em seus postos. O cheiro da terra molhada, as águas do parque, o chá, os sinais, o entendimento, o assentar, o consentir, tudo converge. Símbolos miúdos travam guerra contra o desânimo e o mesmo tempo que traz essa sede constante e essa rotina áspera virá de mãos dadas com a estação do possível. Nada está inerte, tudo clama e a insônia reclama é por falta de sonhos que se sonham juntos.

Às vezes olho no telefone, a que horas virá o sono? Pintar um quadro no seco, hálito quente, minguas e frestas, nada há de suave. No entanto, lembro o tom da voz, um riso oculto, a sobrancelha, uma frase, um emprego que pode caber na busca. Recordo das mil noites em claro, do foguetório em cada chegada, no significado das coisas e no declarar sereno de tudo que para se entender é preciso prestar atenção na linguagem soprada, sugerida, apontada.

Tudo em nós é amor em estado de encontro.  É o que se move em mim nesses dias imóveis. E te diria agora a frase de sempre, minha frase no sempre, o sempre dito. Não para dizê-la, mas porque é a expressão e o sentido da verdade. ***

Ao vivo

Não gosto de fios emaranhados, chaves que não entram, coisas que rangem, tropeços, dar com o dedão na quina de móveis, do jeitão das baratas e de pó sobre mesas onde se come. Preciso de uma certa ordem, um determinado grau de zelo, doses controladas de rotina, pão na chapa, goles de café, momentos pra absolutamente nada. Não muito, nem sempre. Não sei de onde veio isso, nem para que servem mesmo alguns cuidados, não os tive nem aprendi nada a respeito, sempre fui pra rua e dela vim. É mais recente essa vontade de casa, de poltronas comuns, planos conjuntos, hora de ler, o tempo de esperar longamente por uma cena onde está personificado o afeto. Nunca fui boêmio, bêbado, sambista, nem namorei tanto assim. Não é nem bom nem ruim, apenas não me aconteceu dessa forma, escolhi outros vícios quem sabe. Afinal, tenho aversões crônicas, como pisar em lodo com os pés descalços, ouvir certas palavras durante as refeições ou perceber dentes faltantes. Gosto do Walter Hugo Mãe, que fala coisas lindas como “meu avô era como todas as mais belas coisas do mundo junto numa só”.  Ou “O que o meu avô valorizava em mim era o empenho em gostar de alguém. Toda a sabedoria devia resultar na pura capacidade de amar e cuidar de alguém”. Isso é um retrato da emoção, algo capturado tempos depois do ocorrido, mas com uma precisão de amante, com a alma da coisa faltante, esse avô que existe na alma, esse amor tatuado no pulso.

Então te escrevo uma pergunta: como faz para escrever isso? Ninguém inventa um amor assim? Um amor desses, só vivendo, só sendo, só tendo. É como conseguir desemaranhar fios, ter chaves que encaixam, obter silêncios equilibrantes, caminhar em linha reta, viver num abraço que não desabraça e comer em mesas limpinhas. Não há como sentir a presença sem ter vivido a presença e amado a experiência a ponto de repeti-la no sempre da vida, ou num texto em que escrevo infinito e sabemos que isso significa algo muito mais extenso. *** 

Um novo velhinho em folha 

O novo caminha em direção ao velho. Não há medo nem coragem que os aproxime ou afaste. Existe apenas um tranquilo conforto com o inevitável do encontro. Os dois se reconhecerão. O velho vem de longe no tempo e o novo corre na tarde que julga eterna.  Ao perceberem que tudo os aproxima e difere, um tem lembranças das histórias que o outro ainda interpreta.

Clique aqui para conhecer a crônica completa no YouTube. Aguardo você por lá!

caipira day

Todos precisamos de dias calmos e inalterados. Que tenham um começo, meio e fim sem sustos e sobressaltos. Por favor não confunda isso com dias em que não acontece nada, onde até a monotonia se espreguiça e boceja. Falo de dias caipiras, desses que vêm do interior para te visitar ao som de Renato Teixeira. Chegam tão devagar, tão sem pressa que você acorda e nossa, ainda tem duas horas de cama antes de levantar. Quem já foi dono de duas horas a mais para dormir, sabe da sensação alegre que isso causa. Precisamos de dias com tempo pra nós.

Um dia estava tão cansado de tudo, exausto, com sono, irritado. Me deitar era a única necessidade real que havia. Uma cama, precisava daquilo como água para chocolate. Durante o banho, ainda ouvia as pessoas pedindo informações, orientações, fazendo comentários, os risos, os barulhos, ruídos e passos. Meu estado emocional era de alguém em frangalhos, seja lá o que isso queira dizer. Mads sei que exaustão te reduz a menor (e às vezes pior) parte de você mesmo. Eu não precisava de um milhão de dólares, a campanha que havia criado poderia ser aprovada ou não, tanto fazia, e o Inter que ganhasse o perdesse, não me importava. Todo o essencial da vida era uma cama. Quando me deitei, a experiência foi avassaladora. Estava ali uma pessoa cuja única e urgente necessidade estava atendida, a de deitar-se em uma cama e apagar as vozes. Estar espichado em uma cama, em conchinha comigo mesmo, a cama que me trazia um estado de descanso e relaxamento e aquela sensação quase me fez chorar de alegria. Foi algo tão emocionante e apaziguador que qualquer tentativa de descrever será inútil. Precisamos de dias que nos recebam de corpo e alma.

Comecei a lei um filósofo Coreano-Alemão (agora não sei se cometo um erro ao indicar alguém assim). Vamos começar de novo: estou lendo Han, um filósofo dos bons, nascido na Corea e com cidadania Alemã. Ele nos traz um conceito interessante, algo que dá o nome do seu livro, “A sociedade do Cansaço”. Até onde fui, é um material relativamente pequeno, ele indica que estamos tão fora de nós que precisamos que os outros nos confirmem a existência via likes, corações e carinhas felizes. Há regras não escritas no Instagram. Jovens que se patrulham para não postar mais de uma foto por dia, uma discrição digital, uma timidez pós moderna, seja lá o que isso queira dizer. Não h´á espaço para a tristeza e todos são implacavelmente sábios, felizes, modernos, resolvidos. Nesse labirinto chamado internet e redes sociais, fomos nos perdendo e sendo inapelavelmente devorados pela pergunta da Esfinge: quem somos nós? Como não sabemos, o preço a pagar seria esse processo que adultera valores essenciais. Seu ápice é uma inversão apocalíptica quase. Algo tão grotesco quanto profundo e assustador.

” É como se as marionetes comandassem o titeriteiro “

“Titeriteiro”, pra quem não sabe (eu não sabia) é quem manipula marionetes. A ideia de que pode estar ocorrendo justo ao contrário é forte e apavorante por ser real. Afinal, uma agenda só nos pertence se tiver a nossa letra, com os compromissos que escolhemos aceitar. Com inconsciência, somos presas fáceis na cadeia alimentar que dita tendências, impõe comportamentos, cria ídolos e estabelece modos narrativos próprios. Não quero a volta de um passado nostálgico de duvidosa existência. Um tempo editado e, por isso, lindo. Algo com cortes e inclusões o bastante para ser colocado em prateleiras como algo suave e que, provavelmente, não se deu da forma lembrada. Quero uma boa rota de fuga para o futuro em que o esse passado anuncia com um riso selfie. Desejo criar dias onde escolas ensinem trocas carinhosas com o mundo, o valor do afeto, economia criativa, ações solidárias, emoções, escrita, empatia e arte. Nunca tivemos aulas sobre o que sentimos. Chega de saber sobre os afluentes do Rio Amazonas, a fórmula de báscara e as histórias dos catetos triangulares. É urgente parir autoconhecimento, a única fonte possível para dias de mudança e amor. Precisamos de dias originais e sem medos.

A tecnologia é encantadora. Posso falar com gente da Rússia, tenho amigos em Portugal, me comunico com pessoas da Inglaterra. Não falo inglês. Meu drusso e meu português quase ninguém entende. Mesmo assim, me viabilizo via incríveis ferramentas feitas por desenvolvedores de facilidades. Mas graças ao desvirtuamento da inteligência natural, a inteligência artificial criou e agora seguimos robot influencers. Um exemplo é a Lu, host digital da Maganize Luísa. Ela tem mais de 25 milhões de seguidores, 5 milhões só no Insta. 5 milhões!, assim, com exclamação. A personagem aparece em baladas, na praia, surfando, fazendo compras e o que acontece? Interagimos com ela, como se houvesse uma ela! E porque? Por que, aparentemente, abrimos mão de nós. Toda ciência é bem-vinda, toda filosofia, toda tecnologia. Carecemos de espaços de conversa capazes de nos fazer arregalar os olhos diante de uma sensação boa, de um momento em paz, de um pensamento cuja razão de existir seja a liberdade de surgir como afirmação inconteste do nosso prazer de gera-lo. Um direito que alegremente dispensamos em nome do tudo pronto que vem do Google. É urgente a construção de dias artesanais.

Dias mansos, fáceis e domésticos são, como todos os outros dias, resultado de escolhas. Exigem parada, reflexão e atitudes. Dias caipiras não evitam dias agitados, pedreiras e tarefas duras de engolir. Mesmo assim, esses dias precisam ser criados -e por nós. Não pelo governo, não pelo guru, não pelo par, pelo casamento, pelo emprego, pela Alexa, mas por nós, de carne, Rivotril e osso. Nos dias caipiras, poderemos experimentar um olhar mais vagaroso para a vida, que nos corresponderá em um determinado tempo, não no tempo instantâneo das receitinhas prontas. Então tomaremos uma boa garrafa de água gelada, ou uma Coca acompanhada de quiche. Comeremos algo, conversaremos muito, nos conectaremos com o grandioso que é estar ali nos compreendendo. Serão dias em que saberemos a diferença entre vontade e desejo.

Dias caipiras não se fazem sozinhos. Temos que atraí-los dormindo melhor, comendo com qualidade, trazendo pra dentro de casa rotinas miúdas e boas e, principalmente, sentindo mais do que pensando. Pode ser uma meditação, uma água com limão, um Fernando Pessoa antes de dormir. Tenho tomado mais água. Tenho comido mais frutas e salada. A carne vermelha será retirada por completo e já está bem rara nos meus pratos. Se vai dar certo, seja lá o que isso queira dizer? Não sei. Mas se vierem, pelo menos às vezes, dias caipiras como o que vivi hoje, nossa, porque não comecei antes?

***

Aprendi a falar a tua lingua entendendo os ditos que saem da minha boca. Não pelo que se traduz, mas através dos apelos que trazem. Somos nossa vida predileta, entre tantas existências possíveis de se olhar ou viver. Diante de mim, há o Atlântico nesse momento inexato que acontece entre outros tempos acessíveis. E se fosse bombeiro, pediatra, dono de padaria, astronauta ou piloto de Fórmula 1? E se ficasse numa ilha cercada de amar a única você que existe? E se fosse escritor de contos infantis, soldadinho de chumbo, voluntário da pátria? E caso você fosse pediatra, projetista de ambientes, escultora de gente, dona daquelas tabacarias cheias de aromas incríveis, gostos sem fim, temperos e especiarias?

O destino das coisas não é o que tinha que ser. Nada é o que tinha que ser. Não há uma sina, um ponto final, um somos assim e pronto, um eu sou o que sou. Abrimos portas, fechamos janelas, podemos chegar e decidir não ficar sem o nosso par em Ithaca. Permanecemos -nem sempre serenos- entre o infinito do sempre e a beleza de tudo que nos faz perenes. Família, parceiro, filhos, primos distantes, tias chatas, mãe ausente, entorno, contornos, moldes, modelos, natais frustrados, gente que não veio, filmes não vistos, livros e pedidos de casamento. Vivemos cercados de momentos e portinholas da jornada. Ali, o design, dois filhos. Aqui, pesquisadores do fundo oceânico, 4 golfinhos. Noutra, decoração interior ou comercio exterior, 6 pontes de safena, uma casa pequena e 2 gatos siameses. Em um outro real, entendimento, muro baixo, asterisco e cherie latindo e manhosos, planos, sonhos e realizações, além imperfeições da vida, desejos atendidos e férias em lugares calmos. Jogador do Inter, pesquisador de aranhas, especialista em montanhas, marinheiro, cowboy, ilustrador, fundador do Green Peace, roteirista em Amsterdã.

Diante de tantas possibilidades, desconfiamos do que nos seja novo de fato. Então, finalmente resgatados, muitos se deixarão ficar nas ilhas dos seus fantasmas conhecidos, agarrados a sequestradores ou mesmo se juntando ao bando.

Nada mais triste do que a beleza renunciada. Viver se duvidando, desabitar-se, importunar o sossego. Nada é mais assustador do que estar do lado de fora dos risos, não se saber amando. No entanto, eis um segredo terrível. Eis um aviso que deveria apavorar tudo que vive num lugar no cosmos que não lhe pertença. Muito cuidado, porque é assustadoramente possível. ***

Bons amigos

Fico pensando sobre quando nasce um amigo, a possibilidade da amizade, o momento inaugural, quando ela inicia, quem corta a faixa inaugural daquele afeto sem afetação, de sentimento neutro, um ser com ouvido, ombro e sem sexo definido. Um bom amigo não tem olhos para os peitos, não desliza por eles, nem os deseja. Escuta, neutro, sobre o casamento? Escuta. E dá conselhos a respeito do melhor caminho a seguir para manter a relação rija e forte. Amigo é para as horas de apuros, desprovido de ciúmes, pau para quase toda obra e que aparece ou é chamado de vez em quando. Chega dizendo “há quanto tempo!”, e pronto, tudo certo. Amigo de fé e de fato é um bunker, a pessoa pra quem se liga às 3 da matina pra contar que conheceu alguém. Que perdeu alguém. Que perdeu-se da verdade que é amar alguém a ponto de não pensar -por absurdo- em lhe pedir em amizade. Amigo bamba diz na lata coisas que só amantes de um amor que abarca amizade são capazes de ofertar. Mas uma coisa é o amigo. E outra coisa é outra coisa. Porque amigo não se elege, é uma construção, uma narrativa. Ele surge depois que retiram do amante seu acervo de cantadas, arrancam qualquer faísca erótica que tenha, extirpam da boca os beijos e anulam seus objetos penetrantes, como a intimidade e o conhecimento sobre tudo que torna o outro um desigual, um raro, um absurdo inevitável, um alguém de quem não se quer ser amigo, mesmo que seja um bunker. Amigo de verdade tem amizade de sobra, inclusive aos fins de semana. E se vc não liga, ele não nota. Um amigo vai lhe apoiar em caso saúde em risco, lucidez em falta, perspectiva torta, hálito ruim, olho cansado, brotoeja, testemunhas de Jeová, cansaço generalizado, inapetência, incompetências, desajustes, juízo prejudicado. Um dos grandes baratos do amigo nato é que você não precisa pedir a pessoa em amizade, ela acontece, é bicho solto. E se precisa, tem algo que o prezado ou a prezada leitor ou leitura não entendeu como deveria. Quer ser meu amigo? Isso não é uma pergunta. É uma definição macro afetiva. A proposta pode ser ofensiva, caso haja um sujeito homem que ame a sujeita mulher, caso a sujeita mulher ame o sujeito homem ou os dois sujeitos tenham amor um pelo outro. Talvez a amizade resista depois do amor, não sei. Mas reconheço que amizade é um afeto fantástico. Como amigo, não aconselharia tentar ficar no setor amizade com alguém que se ama. Seria dar um prezo menor ao afeto entregue, uma consolação cruel. No fim, no calabouço dos grandes enganos, aprendemos a viver uns sem os outros, como crianças aprendem a parar de chorar: por desistência e alguma falta de ar. Um amigo não resolve isso. Acho que é o que me desabilita.

Tradução

Sempre me intriga as conversas que temos. É como se elas fossem atalhos luxuosos para o entendimento, algo sempre tão urgente para n´ós e subdimensionado para tanta gente. Continuamente me surpreendo como escutadores aceitam e são mantidos nesse papel, como se suas vidas fossem planícies encantadas e seus estados de alma cantassem Don’t worry o dia inteiro. Escutadores perdem seu direito à lugar de fala, do desabafo puro e simples, aquela sensação de ahuhhhfffss depois de dividir o peso das horas com alguém de confiança.

Todo escutador contumaz parece mandar um recado ao mundo, o de não precisar falar, está tudo bem. E se aquietam por dentro. Alguns deixam de ter sono, incapazes que se tornam de sonhar. Talvez por isso deem tanta importância aos gestos que expressam seus desejos, precisam ser adivinhados, vistos, olhados, escutados naquilo que isso de significa de ´íntimo e de intimidade. Se não dispõem desse espaço, duvidam de aproximações reais, daquelas que tiram o fôlego porque são fala e escuta ao mesmo tempo. Então passam a tentar controles impossíveis, arrumam a mesa e retiram a louça, aquecem o chá, viram uma solidão bem arrumada, solícita e perfeitamente enquadrada nos sonhos alheios.

Penso que o que descrevo é a pior forma de exílio, quando você passa a ser ex-você mesmo. E escuta a empregada, do filho, marido, esposa, namorada, colégio, trabalho, dos prazos, da praia, da barriga, da briga, da reconciliação, do perdão, da dívida, dos créditos, do futuro, dos planos, do chefe, do amor. Acontece que toda fala é essencial porque nos humaniza. Servir de ouvinte, apenas, tira nuances importantes de uma conversa, algo que na base é troca de experiências e experimentações. Retire isso de um diálogo e estaremos falando de desentendimento, menos valia e uma certa dose de frustração.

Encontros entre iguais são uma roda de conversa. Permutamos então bobagens diversas, nossos caminhos secretos, confiamos sentimentos, discordamos, acendemos fogueiras aos afetos, contamos com o outro e para o outro o que somos naquele momento, o que nos falta e do que estamos plenos.

Escutar nos traduz. Falar nos representa. Declarar nos reproduz. Agir nos orienta. Nós, as pessoas, só existimos sem os nós que nos prendam. Nos somos melhores sem nós. E o que nos desata é a troca de uma boa conversa.

Recebi alguns pedidos a respeito da minha opinião sobre a letra de Mistérios, do Renato Teixeira. Vou dizer o que ela me conta. Se está certo ou não, quem sou eu? Renato é uma coisa de bom. Tenho ouvido muito sua obra nesses dias e encontro respostas em muitas das suas canções, como Mistério.

O poeta caipira fala que “o maior mistérios é ver mistérios”, como se não entendesse muito o motivo para tanta complexidade que observa no pensamento da nossa raça. Isso é reforçado pelo “ai de mim senhora natureza humana”, como quem lamenta tamanha vocação para o complicado.

O músico não diz que “eles” são assim. Reconhece que ele mesmo tem dificuldade no assunto quando mostra que gostaria de “olhar as coisas como são, quem dera”. E termina o verso com a continuação de um do desejo de “apreciar o simples que de tudo emana”, transformando a simplicidade na essência de todas as coisas.

No refrão (Nem tanto pelo encanto da palavra, mas pela beleza de se ter a fala), a profundidade do artista permanece intacta. No poema, a palavra é reconhecida como algo encantador, brilhante, inestimável. Mas falar, ah falar, poder se comunicar com o outro, isso é o simples do belo.

É por isso que te digo sempre. É um dizer não perfeito, mas é o que tenho a declarar.

Tuas palavras calam

Há gente que não precisa, ou necessita menos dos ditos. Eu gosto deles, que te aproximam e afastam, independente do significado que se dá aos gestos. Talvez porque a palavra expressa tenha o condão do pensei nisso e isso é o que sinto depois do pensado, o tal dito. Quem sabe seja porque é bom de ouvir, no tom de quem a gente quer bem, a palavra vinda. A não ser que seja algo desconfortável, aí todo som é ruído. No timbre da voz e no texto que ela porta, há tudo que se toma ou se teme, que se deseja ou precisamos evitar. Sei, às vezes precisamos evitar justamente o que se deseja, mas isso outro solo, para outras colheitas. Fico com o bem dito que são os dias vindos. O tempo encontrado. A coragem entonada. Todas as palavras são iguais. O que as transforma em especiais é a essência de quem emite, os encontros paridos, as palavras ditas são sentidas ou gemidas, omitidas ou geridas. São ninho onde crescem, sendo maternadas com carinho. Se expressam verdades. Porque se King discursasse “acho que tenho um sonho”, Seria diferente. Mas não, ele disse “eu tenho um sonho” para contar. E fez história com isso. Palavras existem para plantar dúvidas, semear conversas, discordar, declarar, duvidar, exigir, abrigar, pedir, perguntar, confirmar. Elas são uma demonstração inequívoca do que se pensa, sente, deseja, ressente, perdoa, alivia, contraria, emociona ou ama. Quando é você quem diz, quando eu escuto ou digo, palavra é um abrigo. Melhor, é vão. ***

O maior mistério é ver mistérios
Ai de mim senhora natureza humana
Olhar as coisas como são quem dera
E apreciar o simples que de tudo emana

Nem tanto pelo encanto da palavra
Mas pela beleza de se ter a fala

(Renato Teixeira)