O dia do sempre

Não posso dizer ao dia que o saberia um dia aqui. O intuí, mas crer é outra coisa, é tecido em lonjuras onde não se promete nada. Nem ao horizonte, nem aos céus, nem aos deuses. O dia que chega só basta porque te traz com tuas lendas e teus cruz credos. Abro os portais onde nos vemos francos diante do seco que éramos. Venho certo, definitivo, construo os laços feitos de desatar os nós  que desaguam nesse dia. Vens num susto e rindo, como quem vem vindo por um caminho comprido, cumprindo caminhos de linho e de pedras. É hoje porque o mantivemos a salvo e longe dos ciclones e ilhas longe de casa. O incomum é feito de momentos à toa, um naco de paciência, um rasgo no céu, uma bala comprada, um dia comemorando mil dias no porto das esperas. Hoje é o dia das águas dançantes, feito de rios flutuantes, os amantes amazônicos, as pedras do calendário lua, as ruas que percorremos, os sinais e Maria Gadu, a luxuosa, nos confirma. O que tem que ser, vigora.

Começos

O Candango foi produzido pela Vemag, sob licença da alemã DKW, entre 58 e 63.

Comecei a jogar bola bem cedo, num campinho ao lado da Igreja São José. Trata-se de uma construção linda, toda em tijolo à vista e sino de som doce. Gostava de ficar ali, era um espaço enorme e silente. Tinha imagens de um Jesus sofrido, o que reforça minha crença que o catolicismo foi todo construído na culpa e na vida transformada em calvário. Talvez por isso o campinho fosse puro pavor para os jogadores. Roseta aos montes, muita urtiga, terra com pedregulho e grama dura, bem dura. Foi ali que surgi para a glória universal futebolística.

Comecei a tocar violão assim que vi uma prima, cujo interesse pelo instrumento era nítido. Fingi que sabia e que poderia lhe ensinar, caso ganhasse umas bicocas. Ganhei uns cascudos assim que fui desmascarado. Um dia realmente me tornei músico profissional, mas tive uma carreira meteórica. Tão rápida que praticamente ninguém percebeu a passagem. E não, mãe, você não conta.

Comecei a escrever por permuta. Eu fazia boas redações e, em troca, não batiam em mim. A fama de bom com as palavras correu pelo Champagnat, o colégio onde eu tinha uma bolsa integral de atleta. Conquistei uns 15 clientes, se é que me entende. Isso e mais os treinos diários não me deixavam com tempo pra nada. Não reprovei em matéria nenhuma, fui titular do time e resolvi sair porque me enchiam muito por ser pobre. Resolução: ir para o Colégio Estadual São José e deu tudo bem errado. Era um lugar onde não tive chance no time, não escrevia pra ninguém e me perseguiam por ser rico.

Lami será sempre a minha praia preferida no mundo. Foi ali que pesquei meu primeiro peixe. Nadei pelado. Perdi Yara. A prainha ficava a 50 minutos de carro. Meu pai tinha um Candango, não era exatamente um carro. Estava mais para um jacaré com motor, se bem que o anfíbio andasse mais rápido e fosse mais bonito. Em dias de chuva (tinha medo de chuva forte), eu entrava no porão de uma casinha que tínhamos, tipo de frente para o Rio Guaíba. Ficava ali, olhando pela fresta as águas se agitarem. Meu pai usava um boné e cantava bem. Minha mãe, cachecol, tinha uma letra linda e também cantava. Manoel (o mais velho) era ótimo goleiro, um homem cheio de disciplina e bondade. Onofre, um bom vivant ingênuo e engraçado. Zico, um marinheiro para muitos mares agitados. Ariel, o poeta. Alcíone, a pintora. Mariel, o escritor. Lívia, atriz. Pedro, o forte. Márcio, o flexível. Isabel, a mãe. Eduardo, observador. Você, o amor entregue. O olhar preciso. A ideia surpresa consigo mesma. A culpa aceita. Confiança, desejo, amor, um tripé temido. O materno compreendido. Um cansaço do mesmo. O reconhecimento do outro. O julgamento severo. A conversa instantânea. O desejo do pertencimento. Poderia seguir falando de você por horas. É apaixonante a alma que amo, a moça que me mostrou o começo do amor.

Sintomas

Lembro de usar uma camisa nova, talvez fossem meias, eram azuis fossem mesmo meias. E jeans, fosse camisa. Lembro de um presente escondido. Lembro de um riso, de uma flor de rua, de uma lista imensa de canções da vida. À medida que via, deslembrava de injeção, torção, belisco, topada, mordida na língua, íngua, queda, perda e distração. Pela primeira vez na vida, prestei atenção e fiquei feliz morando ao lado da existência de alguém. Sabe barraco de criança, desses feitos de lençol? Dentro de mim tinha riacho de água doce, leite moça, por se sol e inocência sobrevivida. Tinha um vagalume, duas festas se aniversário, um barbante, 5 elefantes, um passarin, 7 alegrins, um chá de hortelã, bom dia de manhã, boa noite de noite, além de espaço dos grandes. Lembro de usar dois relógios, de ficar fácil, simples, lento e feliz. Lembro de uma cicatriz na canela, outra no joelho. De ficar velho. De gostar de um tênis. Nossa, como gosto de ti, dos filhos e de ensina-los a seguir adiante, como sugiro agora a mim mesmo. Lembro que fiquei esperando. Que errei uma medida. Que troquei datas, que caí numa esquina, de sentir tanta falta que o coração sentia câimbras e que você disse que gostava de me ver bem. E olha só, nem estou.

Sindrome

Dormi estranho, fazia tempo que não me deitava com esse sujeito tipo quieto e sonâmbulo. Estava tão cansado, mas por dentro, uma falta, um incômodo, mas não queremos falar sobre isso, claro que não.  Na verdade, não queria conversa, nem afeto ou consolo, apenas que o sono viesse, fazendo o que vem fazer. O silêncio me abraçava e era bom, apesar de ser horroroso com sua barba cerrada.

Fiquei me perguntando algumas vezes o porque de não mandar pra mim o pedido de localização ou de socorro. Teria ido a pé, enfrentado índios, tornaria plana a região toda, venceria cowboys e chefes do tráfico. Me respondi que se pede ajuda a quem se deseja fazer tal pedido, um pedido de ajuda, um me ajuda que estou pedindo. E não foi pra mim, porque seria? Cheguei a tantas conclusões que uma delas me colocou pra dormir e dormi estranho, fazia tempo que não me deitava com esse sujeito tipo quieto e sonâmbulo. Recusei sonhos, adormeci para parar um pouco de sonhar ou sentir. Hoje, o que quer que encontre será fácil, escrito ou falado. Dito ou calado, não importa, desde que seja simples. Lido ou ignorado, apenas será coisa ou outra e seus motivos. Sem culpas ou perdões, dedos apontados, nada. As horas serão vindas sem espera, agenda, trabalho, códigos ou senhas. Lentas ou apressadas, serão as minhas, ninhos ou ruas, minhas. Danças ou duras, minhas. Sem pensar se virão, se têm um trabalhão danado por 15 minutos, hoje não serei justo ou ponderado. Vou passar o dia ao meu lado. Tomara que consiga ser boa companhia. Farei discursos, todos curtos até às 8, há um tempo máximo para as promessas. Depois acho que uma cerveja. Hemingway ja disse que bebia para que as pessoas ficassem interessantes. Eu, pra que o sono venha antes.

Cosmos

Multiverso seria a soma dos muitos universos existentes. Isso é um mistério pra mim, mas o parafuso também é. Os astrofisicos juram que eles (os multiversos, não os parafusos) se escondem em níveis, têm movimentos invisíveis e silêncios visíveis. Sua essência seria algo próximo da intuição. Você sabe que está lá, desconfia que tem dentes, mas ignora se a coisa seja o gatinho de botas ou uma puma faminta.

A tese afirma que as camadas multivérsicas não se sobrepõem, convivem no mesmo espaço, ocupam o mesmo lugar, mas em tempos diferentes daqueles captados pelos sentidos clássicos. Nessa lógica, enquanto eu me entusiasmo com os enormes potenciais do palito de fósforo, alguém descobre o átomo, o clips ou imagina as regras do baskete. Os acontecimentos e experiências conviveriam entre si, atraídas por uma busca comum de algo que as move na direção dos desejos que temos.

Talvez os multiversos também se manifestem em mentes e corpos, sejam eles humanos ou não. Há muitas funções invisíveis em tudo que existe, imagino. Contradições, projeções, realidades paralelas, sentimentos expressados em desníveis. Desencontros ou encontros ocorridos por afinidades ou repulsas inexplicáveis. É possível explanar sobre o universo usando variáveis que o limitem ao infinito. Mas explorar é uma coisa, entender é outra. Nisso o infinito é um limitante, torna-se uma fronteira ou a estabelece. Acho que os sentimentos e o que nos liga seguem o mesmo caminho. Instantes se tornando sempre, momentos se descobrindo espaços largos, realidades paralelas se fundindo, o novo parindo o desconhecido.

Chegar a Marte é um passeio besta. Bastam alguns cálculos, uma nave adequada, trajes e vontade de ir ao planeta vermelho. Enquanto a tarde se despede, estar só me faz pensar que encontrar o outro é algo muito mais complicado. Somos universos em multiplicados cantos, estrelinhas, expansão constante, verdades, desejos, impressões e crenças. Vindos de outros planetas, estetas ou não, nos levamos presentes e ausências. Os dialetos que nos caracterizam só se transformam em diálogo se nutridos por concessões bem-vindas e fáceis. Daí a se tornarem conversa e da conversa ao entendimento, muitas bicicletas não caberão em carros. Convites com fotos não serão reconhecidos como tais, vontades terão de ser adiadas, mesmo as bem planejadas, ou aquelas construídas antecipando alegrias, mesmo as que não chegam. E sobre isso, concluo que a pior tristeza é a felicidade não vivida por escolha, quem sabe a escolha por outras felicidades. Eu não sei o que pensar sobre o tema, a teoria dos multiversos é uma coisa de longa e a metáfora não se sustenta por tanto tempo. Talvez meu universo não seja tão generoso. Ou talvez eu não seja. Não importa de fato. É o que é, escolhas dizem sobre o que se deseja viver. Isso vale vale em qualquer qualquer universo.

A vida nas linhas

Olha que preciosidade o generoso Guimarães nos empresta. Ele define em 4 linhas exatas um universo inteiro, o dos encontros.

Nem penso na profundidade  artesanal disso tudo, nem sei se o alcanço mesmo. Mas me toca pela forma que dá contornos ao infinito e, ao mesma tempo, que confirma sua extensão.

Rita também resolve a vida em 4 pop linhas. Aqui, ela brinca com o que diz. Está distraída e do nada resolve mudar? Acho que está atenta e muda. É isso que torna aquele dia em inflexão tocante e simples como a essência de algo.

Uma vida que valha a pena ser examinada cabe em 5 linhas. Basta saber (o saber, aqui, tem o papel do galã) viver bem. Seja lá como for que se chegue a isso, bastará essa vez para tornar-se eterno. Caso tenha te passado desapercebida a observação, repito. Bastará uma vez para tornar-se eterno.

Esse tratado de 7 linhas é de uma beleza real, digna de um pequeno príncipe. Um afeto nos torna reis de um reino ímpar. É como água para chocolate, nos tocamos em unicidade, moldando que é inesquecível para a nossa humanidade.

Imaginários ou não, amigos existem para nos confirmar, espelhos que são, sendo mesmo belo o que somos. Ou para nos alertar sobre nós, nas tentativas autoritárias de nos manter exilados do que precisamos fazer. 

Seja livre, mesmo de mim. Seja livre por mim. Viva a liberdade em nós.  ***

Dose claríssima

Na entrada da agência onde estou trabalhando.

Te disse que não senti tanta falta assim dos pedais. Nem menos, nem mais.

Cada vez que conversamos, me entregas doses e doses de lucidez da boa. A que se encarrega de levar embora o que era um vício do pensar, um exercício de concordar com o que eu mesmo me digo. É diferente quando vens e me apontas um canto estranho ou diferente da lógica auto indulgente. É quando me sinto desintoxicado das certezas, o afeto faz ninho e dorme sem tremer da chuva ou do frio. Assim, aquecido, me esqueço das gingas sofistas, mesmo nesses tempos onde estão reabilitados. Afinal, a verdade é um péssimo exemplo. Então ela chega, clara como só Clarisse sabe ser. Chegou via blog, a moderninha. A reproduzo aqui, mas antes confirmo algo. Tuas vindas e aparições, tua vida e declarações, nada em ti quero que passe desapercebido. Por isso, mais do que escrever, te olho. E mais do que isso, procuro te ver.

Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia.
Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse a minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

Escala

Quando vejo, me distrai a vida. Um sapo sapando, um flor cor de rosa, uma couve-flor, um assobio, um passarinho, você. Tudo que não é me deixa curioso, olha essa escala. É tudo azul. Alguns tons, sós na essência do azulado, sussurram azulzinha. Andei olhando o universo e nada é, em definitivo, por lá. O absoluto no cosmos é uma estrela que nasce e o buraco negro que a consome. Concluo que Deus existe, mas às vezes dorme.

Sim, claro que sim. ***

Colho

É no matinho que morava, toda laranja. Se dizia holandesa, “é só olhar minha cor”, se gabava. Mas era mesmo resultado da rua, de pó, de sol, de chuva rala, de grama solta, de taturana, algum pedregulho e muitas abelhas. Tinha cor do acaso, raiz pequena, folhas luzinhas e testura de Holanda. Era uma flor de se olhar, dessas sem vergonha e molhadas por tudo que é sereno. Que se dá pra mãe ou pro amor depois de um passeio distraído, sem nada de motivo de nada, só uma vontade moleca de agradar. Um jeito recém acordado de gostar, um instantinho malandro de ser flor, um cheiro de lua, um banho de riacho, um pedaço de sono, uma saudade de entrar, um enfeite, uma flor que era sozinha e que agora é só minha flor, todo santo dia, que começa de manhã. ***