O fim das coisas

As coisas acabam. Há, parece, um objetivo nisso, talvez a vinda de novas coisas que acabam. Jamais acreditei nas coisas que acabam e  trazem consigo novas coisas que acabam. Nisso sou um seguidor de Mikhail Lomonosov. Ele sacou que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Quem entendeu a importância da descoberta foi Lavoisier. Portanto, há quem tenha a informação e aqueles que transformam isso em conhecimento. Concordo se você disser que devo me sentir só por crer nas coisas que não acabam. Faço isso, mas com um data vênia: jamais quis lhe convencer a acreditar nas coisas que não acabam. Na maior parte do tempo e mesmo nesse exato momento, qual é o fim das coisas que acabam? Elas deixam de existir quando acabam ou se transformam, as reciclamos enquanto buscamos informações surpreendentes no Google? Outro dia vi num programa de TV que cientistas finalmente descobriram uma pírula. Não é, ainda, a da eterna juventude. Por agora apenas retarda o envelhecimento, engana as células, ilude o célebro, permite que sigamos vivos (não obrigatoriamente altivos) até uns 120 anos. Perguntaram ao Niemayer se ele tomaria a pírula da juventude eterna. Hum?, perguntou. Já não ouve bem o velho arquiteto. Tenho dúvidas se algum dia escutou alguém, teimoso que é. Sei que defendeu com unhas e dentes seu conceito de forma e função. Projetou mundo à fora obras que são uma poesia aos olhos, apesar de vocação pouca para uso diário. Arcado (mas não triste) diante da passagem que se avizinha, o bom comunista declarou que não tomaria a pírula da juventude. O que ele não disse é  mais revelador, trata-se de uma pergunta. Se as coisas acabam, ser eternamente jovem pra que? Visitamos os monumentos, as quedas d’água, as ilhas gregas, os túmulos dos faraós e as pirâmides. Vamos a Machu Pichu, andamos pelos Caminhos de Santiago, Niágara, Capela Sistina, gostamos de nos mover entre as coisas que resistem por sabemos que resistentes ou não, as coisas acabam. O fim das coisas, desde o início das coisas, é que cada coisa tem um fim. O fim das coisas que acabam talvez seja a de nos chamar atenção para o que há de perene, interminável, eterno. Um solo de fagote, um foguete que deixando o solo revela a sede de companhia que temos, tanto que procuramos vida em outros lugares. De tanto que nos sentimos sós, temerosos de detectar em nós o gem das coisas que acabam. E tremendo, tomamos drinks inusitados, fugindo do velho futuro para fingir num passado novinho em folha. Há milhares de anos, os Sufis falavam de um Deus presença, um Ser para o qual não havia distâncias. Que vivíamos em vãos da nossa própria história. Que insistíamos em existir em sótãos, fazendo a partir daquilo nossa ideia de casa. As coisas acabam por serem coisas, seu fim é dar passagem a mais coisas que acabam. Mas você não é uma reunião caótica de átomos, células, pele, osso e algum recheio. Entre o pouco que vemos e a maior parte que ignoramos, há algo no meio. Não o paraíso culpado, apostólico e romano. Não a desistência covarde dos suicidas, nem a vida conformada das manadas. É o nosso encontro com o outro, essa batucada universal de sons, luzes e danças. Não é um terremoto. É o povo sobrevivente do Haiti cantando em honra aos seus mortos. Há em ti algo que toca a canção essencial, algo que te chama sempre, uma chama que mais do que aquecer, te aproxima desse espaço que é feliz por nos ver contentes. Quando Deus disse “faça-se a luz”, Ele não falava para as coisas que acabam. Ele falava da gente.

Anúncios

Fosse você um trailler, que filme você seria?

Its all, pessoal

Tem gente que não gosta, acho que a maioria. Eu adoro traillers, aqueles resumos do argumento geral, as cenas importantes, falas hilárias ou sérias que dão o tom do todo. Procuro chegar antes para ver o que andam preparando para colocar em cartaz. A voz profunda do locutor dizendo “um filme que você não pode perder”. Perco a maioria, mas se algum daqueles instantes que antecedem o filme me interessam, estou fisgado. Fico de olho para saber quando o “em breve” chegou e finalmente é possível ver a projeção completa, sem cortes, edição definitiva. Dizem que há um filminho que passa quando a pessoa está prestes a morrer. Se é verdade não sei, morrer parece que é o que acontece na última sessão e eu vou protelando a exibição enquanto posso. A declaração-padrão é algo como “passaram todas as coisas que fiz na vida naqueles segundos em que achei que morreria”. É um trailler ao contrário. Primeiro você vive “todas as coisas” e todo mundo vê. Depois vem a edição dos melhores momentos. E só você assiste. Ou seja: justo as imagens selecionadas, com seu perfil mais favorável, ações elogiáveis e sentimentos estupendos, justo isso é mostrado para quem já sabe o enredo todo e só desconhecia o final. Tem gente que é um filme chato, interminável. Você acha que chegou o fim e então aparece a plaquinha de “seis meses depois…”. Outros são rápidos demais, quase um vídeo clip e quando você começa a entender o argumento daquela vida, The End. Há quem goste de ser uma continuação. Repetem o cenas do pai, refazem as falas da mãe, reprisam os gestos da família, usando sempre a mesma trilha e o enquadramento geral. Remakes, originais, previsíveis, geniais, adoramos filmes porque normalmente a vida ali tem 20 minutos de tempo ruim e no fim aparecem os créditos, nunca os débitos. Depois, como em Um Lugar Chamado Notting Hill, você pode se dar bem com a Júlia Roberts, mesmo que seu nome seja Hugh Grant. Em Casablanca, o Rick  abre  mão do amor da sua vida, age como se isso não fosse o fim do mundo e ainda por cima consegue dizer adeus com um “sempre teremos Paris” para ninguém menos que a Ingrid Bergman. Eu choraria o resto dessa vida e mais duas reencarnações, balbuciando “fica, fica”. É a desvantagem de ser um filme nacional. Homens e mulheres podem ser uma película de terror, contar histórias de encontro ou simplesmente se comportarem como coadjuvantes numa história maior. Seja qual for a nossa opção (é uma opção), fomos criados para nos transformar em sucesso mundial, com diálogos incríveis, cenas hilariantes, risos, lágrimas e muitas passagens de tempo. O fantástico é que ao contrário dos atores, nosso maior risco é interpretar um personagem, acreditando em ficção, decorando falas, desenvolvendo técnicas, expressões, vivendo num cenário. Ao contrário do cinema, temos um orçamento reduzido, não podemos editar nossos dias e o roteiro muda a todo momento sem maiores avisos. De repente, o tempo grita “corta” e faremos companhia para outros títulos na prateleira. É quando faz toda a diferença ter sido o mais humano possível, o mais leal à ideia central da nossa trama. Podemos ter uma existência cult, cabeça, alternativa, dramática, romântica ou cheia de aventura, nos transformando em clássicos. Melhor não correr o risco de ouvir o locutor anunciar isso sobre nós:  “perca, não é lá essas coisas”.

Pra se guardar

” Amigo diminui o joio e multiplica o nosso trigo ” (Dicodallma)

Já foram ilustres desconhecidos, os nossos amigos. Então, depois de um tempo, sabem onde guardamos preciosos segredos, além da chave do carro. Amizades de verdade resistem a tudo, de separação ao exílio. No primeiro caso, os amigos do casal têm uma neutralidade que sofre, uma mistura entre Suíça e Argentina. Em caso de exílio, situação que pode te mandar para fora do país ou para dentro de você mesmo, os amigos simplesmente esperam. E enquanto fazem isso, te celebram, não te esquecem nem deixam que te esqueçam. Aquecem, fazem preces, passeatas, escrevem, ligam fogueiras simbólicas e continuam torcendo contra o seu time do coração: a amizade é a tradução simultânea das diferenças. E os porres? E as visitas fora de hora? Os risos que saem do nada, os choros por tudo um pouco, os programas de índio, as conversas madrugada à fora? Amigo é um território onde não se pede documentos. Barulhentos ou quietos, errados ou certos, amigo está ali pra se oferecer em partilha, apoio, constância. Amigos não nos abandonam porque não se abandona um amigo, simples assim. Amizade é um estado incondicional, um oferecimento permanente de presença quando necessária. E de ausência, quando indispensável. Se engana quem pensa que amigo que é amigo compreende qualquer coisa que a gente faça. Isso é trabalho para o terapeuta. Um amigo de verdade usa isso, a verdade, quanto ao que sente ou pensa a nosso respeito. E ainda por cima nos diz, o desajuizado. Sabem passar a mão na cabeça como ninguém. E seus cascudos doem como nenhum outro. É da mistura inexata entre carinho acolhedor e firmeza incandescente que nascem amigos e vivem as amizades. Sem elas, teríamos bem pouco a fazer no mundo e nossos míseros feitos, um sabor muito menos intenso. Porque somos, vestimos, olhamos e ganhamos expressão real muito a partir do olhar daqueles a quem confiamos nos mostrar sem máscaras. Acho injusta essa fama de melhor amigo do homem que os cães ostentam. Como nossos amigos, eles fazem xixi na sua frente, comem de um modo desejeitado e se fingem de mortos em algumas circunstâncias. Certo, se alegram quando você está feliz e se entristecem quando é o caso. Mas se você precisa é de uma opinião, o máximo que um cão lhe dá é a pata. Diferente de casamentos, ninguém pede outra pessoa em amizade. Apenas se tornam amigos, dispensam testemunhas e em caso de separação, não há litígio: o fato em si já é sua pena máxima. Amigos têm algo de mágico, sabem sumir quando isso é importante. E reaparecem na hora certa, o momento em que precisamos de um amigo. Não para nos consolar. Nem para nos dizer o que fazer. Não para nos acusar, amigos não julgam. Voltam aos nossos dias porque é isso que os amigos fazem, estão à nossa volta, habitam as horas para que a gente passe mais tempo perto de nós mesmos. Amigos não são perfeitos, são sujeitos comuns. Entre todos, é aquele um que te conhece e que se oferece em amizade plena sem entremeios, sem entretantos e sem portanto isso ou aquilo. Por isso não é possível ter milhares de amigos, nem centenas, apenas alguns no máximo. O motivo é que não somos tão valentes, nem tão inteligentes, nem tão talentosos, nem tão qualquer coisa. É preciso tempo e paciência para descobrir nossas qualidades, um tempo que as maiorias não dispõem, mas que aos amigos sobra. Amigos são uma notícia boa, futebol aos domingos, um sábado à toa. Cuidam dos nossos filhos como se fossem deles. Cuidam da gente como se fossem eles. Lembranças, confiança, construção. Amigos de tempos difíceis, amigos que chegam na hora, amigos que buscam neosaldina, amigos que fazem o que é necessário. Amigos são precisos, são preciosos, são o que mais temos de nosso. Quem somos sem o riso que entendemos, o pão que partilhamos, a vida que vivemos? Somos também os amigos que temos, aqueles a quem protegemos e que são um pouco nossas lanças, um tanto nossos escudos. Para ser um amigo assim, para ter um amigo dessa grandeza, é preciso oferecer-se em amizade, criando em si o espaço propício para verdades duras ou amenas. Amigos se cultivam aos poucos, chegam lentamente, nem sabiam que seriam essas almas resistentes ao tempo, qualquer tempo. Simples, complicados, os de qualquer momento, aqueles especialistas em assuntos específicos, os que escrevem feio, os que nos acham bonitos, amigos são indispensáveis e se você respira, precisa de um. Não consigo imaginar qualquer história pessoal sem um amigo perto, pronto, especialmente atento. Talvez na fonte das nossas amizades exista uma frase, quem sabe uma senha, a revelação definitiva da incógnita da existência. Ou não seja nada disso e para coisa ou outra precisaremos de um amigo porque ter e ser um amigo é tecer na alma o gesto básico, indispensável e essencial de ofertar-se à vida, suas asperezas e carinhos. Viver é um mapa. Amizade é o caminho.

Dias

Blues, todos os dias blues.

Essa coisa de Dia dos Namorados, das Mães e dos 7 anões enche um pouco a paciência. Um pouco não, muito. Natal, Cosme & Damião (nunca ninguém pensou nesse nome para uma dupla sertaneja de cunho umbandista?) e o meu aniversário também são momentos bem chatinhos de se experienciar. Ninguém percebeu ainda o truque? As datas, nomes e palavras não significam nada, a não ser que você olhe para eles dentro dos olhos e encontre alguma coisa que represente algo de fato. O resto, como diria Fernando Pessoa, “são sombras de árvores alheias”. De minha parte, rego minhas rosas e sigo meu destino, como ensina a canção cuja letra transcrevo e assino embaixo.

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Estamos em extinção. E nem somos tão simpáticos assim

Uma griffe de roupas da Islândia fez um anúncio que diz mais ou menos “Respeite a natureza, mas não espere essa reciprocidade toda”. Eu tropicalizei o título, mas o básico é isso. Achamos que isso de poupar água, separar o lixo e usar bicicletas é uma colaboração importante com o planeta. Não é. A Terra troca sopapos com asteróides de muitos tamanhos todos os dias, numa espécie de MMA universal. Você acha mesmo que ela não pode com a gente? Pode e se sacode às vezes, manda muita água em outras e brinca com os vulcões. A Terra sempre soube livrar-se dos seus habitantes inconvenientes como os dinossauros e alguns políticos. Ela pode esperar muito tempo para tomar providências. Tomara que a gente tenha sacado o seguinte: toda paciência tem limite.