O outro

Foto de Matheus Viana

O outro é o que legitimiza como vejo o mundo, a forma que o expresso. Talvez meu gesto só se torne existente e fato na observação de uma lente alheia e se atenta ao que faço. Acontece que esperamos eco, concordância, amestramos expectativas e o chamamos de outro. Não é assim. Há uma vivência ali, com tanto e tudo de diferente, uma gente, um experiência, uma perspectiva diversa, outras festas, viagens e presenças.

Tornamos muitos outros invisíveis, basta olhar embaixo das marquises de qualquer cidade. João Bosco compôs “Malabaristas do Sinal Vermelho”, uma canção espetacularmente linda. Entendo que sua passagem mais rica é essa:

Uns exilados de um lado
Da realidade

Outros reféns sem resgate
Da própria tensão

Exilados em sinais de trânsito, os fora da lei, os do lado de fora dos carros, os habitantes de um lado da realidade. Qual seria o outro lado? O feito de vidros fechados, muros mais altos um medo prévio e pré construído do outro desconhecido. São os reféns sem resgate.

O afastamento social forçado tem colocado um outro tipo de outro em exposição. São, simplesmente, os outros, todos eles. Os habitantes dos parques, os guardas de trânsito, os garis, os homens comuns, os amantes, artistas, mulheres, desocupados, padres, pastores e fazedores de live. Do nada, precisamos vê-los, ir ao trabalho, no supermercado, na farmácia, comprar combustível, um carro, um dinossauro, doce de leite, sorvete do Mac, viajar para a Bolívia. É preciso ir porque saiu um novo game, lançaram um foguete, Bolsonaro precisa de nós, dá aqui um abraço, vamos na Havan. Ficamos à mercê da falta que o outro faz. Não porque realmente sejam importantes. É que sem eles, quem sou eu?

Mas se no lugar do outro legitimante houvesse um outro diferente de todos os outros? Equipados com perguntas sinceras, curiosidade intensa, belezas reais, interessado no outro e o outro é você? Capazes de fazer de você o que há de melhor em você, de mais bonito em você, de mais puro em você, de mais amável em você? Que te mandasse bilhetes e/ternos, que te tocasse como nenhum humano ousou, que te visse mesmo sem vir, servindo de ponte para portais, que inventasse códigos, que te emocionasse sem ser filho, que te dissesse “não tenha medo” e o medo passasse, que fosse a alma que abrisse seus parques e portos para seus encontros fundamentais, que te vendo e te conhecendo, te amasse por e apesar de você, que fosse o outro que existindo em ti, te sorri e te descanse de tanta procura.

Talvez só seja possível encontrar outros essenciais encontrando outros a que nos obrigamos, outros que não são os outros que sonhamos para uma existência rica em potássio e dias azuis, cheiros de terra molhada, bicicletada, trocas inesquecíveis, crescimento mútuo, riso, atração, conexão, força e humor. Ouço Renato Braz, mas é a tua risada que escuto. Não me diga que estamos distanciados, que me assusta e entristeço. Usaria meus 5 minutos para estar ao lado todos esses anos. Agora te leio o dia inteiro em cada palavra, em cada saudade que sinto, em toda entrega que nos oferecemos no altar do sempre, construindo ponte permanentes de um para o outro.

Quando estou com você, estou noos braços da paz.

A fôrma e a forma

Qual é a forma do certo? Qual a fôrma do errado? Do que é feita rotina? E a matéria-prima da alegria, do que se trata? Aprendi contigo a nadar mais no fundo, olhando (curioso) o mundo que existe no invisível, na palavra codificada, no gesto significante, o eterno que cabe no instante. Estar do lado não garante estar de lado. Gismont toca “palhaço”, uma canção absoluta e sem letra. No entanto, diz tudo e um tanto acalma. Então Tomo tua mão, bebo do teu abraço, te recebo em portal, e digo hoje o que digo sempre e todo dia. Mais, mais abrangente, mais informal, mais à vontade, teu e intransferível. Há medo da fragilidade que o amor causa. É preciso postar-se na porta, oferecer água e distância se preciso. Espaço. Laço, presença, entendimento. Amor é um constante rejuvenescimento, não um anti envelhecimento aplicado aqui e ali. Se transforma, se torna obra, se reforma e segue suntuoso e lindo, mas se tornar-se obra, reformas, lindezas, flores cortadas na rua pra te trazer por que é você. Ficar em casa para assegurar que vou estar aqui para estar com você. Não há coração endurecido, alma que amo. Nem nada que diminua a felicidade que causas, tanto e sempre. É tanto e se manifesta de formas tão diversas. E eu que nos achava uma árvore e agora vejo: somos raiz de uma floresta que já foi deserto, que esteve mar, que criou histórias como a do grãozinho de areia que queria ser estrelinha. Que silenciada por anos, manteve vivo um no outro no um no outro no um no um no outro no um. Que desenhou portais, que perdeu todas as cartas, que resistiu em lapsos do tempo, se alimentando de pouco mais do que nada. Amar entre nós tem todas as formas, todas as fôrmas e a sede de um saciada na fonte inconfundível e bem-vinda do outro.

Alma, deixa eu tocar sua alma. Isso do medo se acalma

Amor nos tempos de Corona

Essa é uma história líquida, milagrosa e pagã. Fala de seres que não vivem plenos longe um do outro, comprometidos por um laço que é mais do que aliança. Vivem um casamento inteiro a cada encontro. Experimentam a intensidade do reconhecimento do outro como aquele que se quer. Se aproximam cautelosamente, se tateiam, se conectam, se fundem, se fogem, se encontram, se perdem, se pedem, se dão e, então, se despedem.

Aí, depois de cada ida, serão outros na volta. Ilhas rodeadas de tempo por todos os lados. Tempo de casa. Tempo de filhos. De marido. De estudo. De emprego. De exílio. De saudade. De gripe. De almoço. De viagem. De camas diferentes. Do outro ausente e mais ali do que qualquer outra coisa que tenha forma. Que fiquem séculos mudos e inacessíveis. Ainda assim, em um micron de tempo, serão capazes de manter intimidade.

Separados, enfrentaram invernos, distâncias Homéricas, Oldisséias, Ithacas. Como conseguiram? Com seus códigos próprios, aprendendo linguagens, olhando estrelas e encontrando ali mensagens e significados. Então, mais do que juntos, são únicos em união e rendição amorosa, ainda que nem sempre entendam o motivo, a razão ou a força que os impulsiona. Não se fala aqui de romances, ah não. O lugar é real, desenhado por gente real, compostas de falhas reais, desejos reais e entrega surreais de tão intensas. Não substime o poder da prática aos amantes entre si. Vencerão todo tipo de barreira, um fio de voz trará toda a indulgência, paciência e alimento que necessitam. Almas nessa altura de entendimento são capazes de viver entrincheirados em suas batalhas pessoais, mas não esquecem do outro, o protegem e dignificam seu sentimento, são instrumentos do que têm que ser feito.

Amar o amável é uma delícia. E o detestável no que se ama, como é? E uuvir o que não se quer? Dizer o que não se ouve? Se manter silente. Conversar a cada passo. Entender cada parada. Compreender que nenhuma escolha é simples ou fácil e que o outro é ele em sua majestade.

Aboli o felizes para sempre de todos os meus dias, lição tua. Exercito isso porque não há, me ensinaste, reação ideal nem posição permanente. Inexiste controle, nem antes nem adiante, certo e errado. Até que se chegue ao sempre, tudo é aprendizado. É onde vive essa história que se conta por ela mesma, chega de explica-la, quero garantir que viva por que é você, amada. Mãe do céu, que saudade. Sinto falta da conversa aberta, franca, risonha e direta. Me sinto só e tenho medo. Diz que vem, que me comporto. Diz que vem, eu quero ir. Diz que vem, preciso tanto dormir. Diz que vem porque precisa de algo que te entrego. Diz que vem porque me ama. Diz que vem, só diz que vem.

O presente com significado sou eu. Desejo que ames e que sejamos. É isso que espero de você: que venha.

Recite

” Isto é reconheceram-se, comprometeram-se, submeteram-se ao que estava determinado antes mesmo que ambos existisse esse justíssimo encontro”.
Cite, acredite, releita, creia, eleja, seja, se proteja, comemore, se namore e pense agora: o que você me daria de seu? O que você se daria de meu para me e te engrandecer? Bebe da alegria. Come da leveza. Veja os sons. Ouça o tudo de bom que há e te comemora.

JR.

Onde anda o que você gosta de fazer. Ler, escrever, pintar, permanecer de allminha quieta, aprender um instrumento de sopro ou acompanhar a rota das formigas. Se enrosque e tente não pensar em nada.

Brilhante

Há uma canção que conta que o sorriso que você sorri agora pode ser o reflexo de um riso dado a horas em um outro lugar do planeta. Quem sabe haja mesmo uma conexão nas alegrias, nas travessias, nos renascimentos. Linha branca ou candomblé é indiferente para quem não acredita. Você feliz, pra mim, faz toda a diferença. Seja, por favor, seja.

Escondidos

Bilhetes podem brincar de esconde esconde com o tempo. Você vai encontra-los em bolsos de casaco, carteira, no porta luvas do carro, embaixo do travesseiro e dentro de livros. São presentes inesperado, alguns vindo do passado, outros apontando o futuro e aqueles escrito no agora, para acompanhar teu dia. Não se perca de si, se releia e se restaure. Leve o tempo que precisar, apenas não se atrase.