Simples

Silente. Impar. Calma

Acontece às vezes, quando lembro de mim. É como um portal, está tudo ali, ainda que nem sempre na ordem ou tempo desejados. No entanto, há paz disponível, cantis com água boa, algum cheiro de terra, uma espera sem impaciência. Estive distante, milhas de casa, cercado por mares e marés, meu lar eram lugares. Uma árvore, uma ilha, a pipa confirmando a existência do céu. Era simples, livros poucos, muitos encontros e uma vontade invencível de conhecer a fonte da vida, beber do seu igarapé fundamental, líquido e incerto. Tristeza havia, porque não? Quem suporta algo alegre em tempo integral? Talvez somente aqueles que se iludem com histórias felizes para sempre. Corria muito e posso sentir agora o aroma inesquecível da cozinha, a consistência saborosa de comidas deliciosas não por elas mesmas, mas por serem preparadas em quase festa por mãos de mãe, chamar por mãe e ouvir “diz, filho”, minha nossa. Como achei que sobreviria sem isso vida adiante? Ou que não haveria nada mais importante, como poderia saber? Ainda assim acontece, às vezes. Contar consigo mesmo é fundamental. Mas é mais fácil contar consigo mesmo sabendo que se tem alguém com quem contar histórias, compartilhar memórias duplas. Um descreve algo. Então, vem o outro e descreve o mesmo fato de uma outra janela, um olhar distintamente igual. É um portal onde se entra, se partilha, somos todos da ilha de Lost. Nossos medos não nascem pelo desconhecido da viagem, mas pelo conhecido do destino. No entanto, ele é bom. Às vezes silente e calmo como o encontro de todos os amores. Em outros momentos, apenas são o que são.

Ela é um arco

” A saudade dói como um barco
que aos poucos descreve um arco
e evita atracar no cais” (Chico)

A ilustração é de um artista que tem como primeiro nome Adão. É tudo o que sei dele, achei bonita a imagem que -de imediato- me levou para a mais bela tradução de saudade que conheço. A palavra é linda e bem poucas culturas são capazes de traduzir em letras este sentimento. Não é um “sinto sua falta” e tão pouco se refere a um vazio. Saudade é mais cruel do que sentir falta e não pode ser um vazio justamente porque nos preenche. Chico, que é o Chico, nos mostrou em “Pedaço de Mim” tudo o que a saudade devasta, chora, implora ou sorri. Saudade não é triste, é um pedaço como sugere o título da canção, o que torna Buarque de Hollanda um sujeito a ser visto, ouvido e dito buana, buana. Importante não confundir melancolia (mais reflexiva, como um pensamento numa cadeira de balanço) com saudade, uma anti-ponte, que nos reafirma o desligamento do que vivemos a partir de algo ou partilhamos em algum momento com alguém. Há quem sofra  de saudade do cachorro, de um determinado tempo, dos Beatles ou do Médice. Mente quem diz que não tem saudade de nada. Não sabe, mas tem. Da infância, do jeito que ele ou ela sorriam, dos filhos pequenos no colo e deles grandes na escola. Saudade são as Mães da Praça de Maio, pedindo seus anjos em praça pública. Passou tanto tempo, mas quem se importa? Saudade se alimenta dos dias de falta. Saudade não é voltar no tempo. É saber que o tempo não volta. Os passeios naquela rua, o encontro entusiasmado, um casal de namorados, a conversa longa, o entendimento fácil, que saudade te acompanha? Uma dancinha, o jeitinho de menina, o futebol de rua, o frio na barriga na primeira vez de um tobagã, a cozinha de casa, a fumaça da lenha, um carrinho de rolimã. O primeiro prêmio, a bicicleta branca, uma vida franca é cheia de saudades porque segue, é inerente. A ilustração de Adão mostra um homem sem face, num barquinho frágil no meio do oceano. As cores não são nítidas e a falta do sol indica fim de tarde. É uma boa hora para sentir saudade.

O amor tem raízes

***

Todo mundo devia amar uma árvore. Um cachorro, um gato, um chiuaua é mais fácil, acho. Uma árvore de estimação não ronrona, não se esconde embaixo do sofá nem abana o rabo. Mas te ensina a apreciar o tempo e, mais que tudo, te lembra da infância em seus galhos que sustentam lembranças do pedaço mais inocente da existência. Tenho sorte: há duas árvores em minha vida. A Japa dava “uvas japonesas”, delícias entre o doce e o nem tanto assim. Ela ostentava um galho mais forte, cabiam dois ou três moleques ali, confortavelmente instalados e normalmente bem suados. Era baixinha, mas encarou ventos de mais de 100 por hora, me protegeu do sol, me escondeu, me tornou mais alto e deixou raízes de coisas boas, lembranças entre o doce e o mais doce ainda. A árvore da filosofia aconteceu por acaso. Estava voltando de um treino de bicicleta, super cansado e extremamente feliz, havia obtido o índice necessário para a participação em um corrida que nem sei mais qual foi. Então a vi, a terceira à direita de quem vai. Tem uma altura boa e recebe como poucas, com seu tronco que parece feito para amparar as costas. Duas raízes saem da terra e formam um descanso inigualável para os braços. Ali estive feliz pelo amor aportado e triste pelo amor que segue suas viagens. Entre livros e cigarros, silêncios e canções, minha árvore acompanha essa alma intrigada e curiosa por todo tipo de vida que há. Retirou-me tantas dores e acalmou tempestades de tamanhos diversos apenas estando aonde estava, a terceira árvore à direita. Passo por ela às vezes e nos sabemos um do outro, confidentes de florestas dos sentidos que damos à vida que vemos passar, eu a a árvore que me acompanha. Nas manhãs de domingo, nos fins de tarde entre segunda e sábado, ela está lá e tem a pouca eloquência dos sábios, o calar dos prudentes, as raízes profundas do sempre.

Coisas inesquecíveis

” Amar é o bastante. E sutil, como uns elefantes ” (Dicodallma)

As coisas não são inesquecíveis pela nitidez das cores que vindo, vão surgindo límpidas. As coisas não são inesquecíveis ao serem comemoradas em dia específico ou com hora marcada, ainda que tenham data e momento. As coisas não são inesquecíveis pelos sons que produzem, posso ouvir agora o de uma caixinha de música sem abri-la. Há mistério nas coisas inesquecíveis. Um murmurar que embala seu estado impar. Um sopro que percorre a pele e carrega seus sinais, pequenas luzes que desconhecem normas, são coisas inesquecíveis. Invisíveis aos olhares que vigiam, proíbem, prendem ou mentem, as coisas inesquecíveis são feitas de material surpreendente, independente da matéria, jamais ficam velhas. Moram na gente, dançam conosco e têm gosto, às vezes rosto, mas não precisam de imagens. Se subdividem, se multiplicam, se disfarçam, se apresentam, surgem, somam, jantam conosco, nos pegam no colo, amanhecem nos dando bom dia. Não caia na armadilha de confundir coisas inesquecíveis com lembranças. Lembrar é um registro da mente, pode ser montada, editada e uma vez exposta ao tempo ou à vontade, esquecida. As coisas inesquecíveis são presenças, têm sua própria existência e mesmo exiladas, não cumprem tal pena. Para saber quanto amo, basta que eu diga “como um elefante” e surgirão o infinito, o constante e o pleno. Para sentir o aroma, basta dizer verbena.

Enluarada 3×4

Enluarada, silente e calma

Caminho tranquilo diante da madrugada. Não me assustam os sons, nem divido humanos entre maus e bons. Das aparências digo adeus sempre, há muita coisa para se ver, lançando olhares além delas. Ouço uma música do Toquinho com Vinícios, devo ser o único. Se chama  “Aquarela”  e acho tudo ali muito melancólico. Minhas noites são enluaradas, lutei por elas. E cada hora que passa é inteiramente minha, como me pertencem os dias, esses milagres que acontecem ao longo do tempo. Há muita posse no planeta e creio que esse é o lixo que mais o esquenta, atrapalha, ilude. Não pertenço a nada, nenhum clube, sou uma imperfeição completa e impermanente, o que não faz da coerência o meu forte. Mas tenho noites enluaradas, é preciso gostar muito de luxo para encantamentos sem grifes, marcas, releases. Hoje, mais uma fez aposto na alegria que ilumina e guia as almas deslumbrantes, amantes e felizes.

O fim das coisas

As coisas acabam. Há, parece, um objetivo nisso, talvez a vinda de novas coisas que acabam. Jamais acreditei nas coisas que acabam e  trazem consigo novas coisas que acabam. Nisso sou um seguidor de Mikhail Lomonosov. Ele sacou que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Quem entendeu a importância da descoberta foi Lavoisier. Portanto, há quem tenha a informação e aqueles que transformam isso em conhecimento. Concordo se você disser que devo me sentir só por crer nas coisas que não acabam. Faço isso, mas com um data vênia: jamais quis lhe convencer a acreditar nas coisas que não acabam. Na maior parte do tempo e mesmo nesse exato momento, qual é o fim das coisas que acabam? Elas deixam de existir quando acabam ou se transformam, as reciclamos enquanto buscamos informações surpreendentes no Google? Outro dia vi num programa de TV que cientistas finalmente descobriram uma pírula. Não é, ainda, a da eterna juventude. Por agora apenas retarda o envelhecimento, engana as células, ilude o célebro, permite que sigamos vivos (não obrigatoriamente altivos) até uns 120 anos. Perguntaram ao Niemayer se ele tomaria a pírula da juventude eterna. Hum?, perguntou. Já não ouve bem o velho arquiteto. Tenho dúvidas se algum dia escutou alguém, teimoso que é. Sei que defendeu com unhas e dentes seu conceito de forma e função. Projetou mundo à fora obras que são uma poesia aos olhos, apesar de vocação pouca para uso diário. Arcado (mas não triste) diante da passagem que se avizinha, o bom comunista declarou que não tomaria a pírula da juventude. O que ele não disse é  mais revelador, trata-se de uma pergunta. Se as coisas acabam, ser eternamente jovem pra que? Visitamos os monumentos, as quedas d’água, as ilhas gregas, os túmulos dos faraós e as pirâmides. Vamos a Machu Pichu, andamos pelos Caminhos de Santiago, Niágara, Capela Sistina, gostamos de nos mover entre as coisas que resistem por sabemos que resistentes ou não, as coisas acabam. O fim das coisas, desde o início das coisas, é que cada coisa tem um fim. O fim das coisas que acabam talvez seja a de nos chamar atenção para o que há de perene, interminável, eterno. Um solo de fagote, um foguete que deixando o solo revela a sede de companhia que temos, tanto que procuramos vida em outros lugares. De tanto que nos sentimos sós, temerosos de detectar em nós o gem das coisas que acabam. E tremendo, tomamos drinks inusitados, fugindo do velho futuro para fingir num passado novinho em folha. Há milhares de anos, os Sufis falavam de um Deus presença, um Ser para o qual não havia distâncias. Que vivíamos em vãos da nossa própria história. Que insistíamos em existir em sótãos, fazendo a partir daquilo nossa ideia de casa. As coisas acabam por serem coisas, seu fim é dar passagem a mais coisas que acabam. Mas você não é uma reunião caótica de átomos, células, pele, osso e algum recheio. Entre o pouco que vemos e a maior parte que ignoramos, há algo no meio. Não o paraíso culpado, apostólico e romano. Não a desistência covarde dos suicidas, nem a vida conformada das manadas. É o nosso encontro com o outro, essa batucada universal de sons, luzes e danças. Não é um terremoto. É o povo sobrevivente do Haiti cantando em honra aos seus mortos. Há em ti algo que toca a canção essencial, algo que te chama sempre, uma chama que mais do que aquecer, te aproxima desse espaço que é feliz por nos ver contentes. Quando Deus disse “faça-se a luz”, Ele não falava para as coisas que acabam. Ele falava da gente.

Simples

” Alguns suspiros são de tirar o ar ” (Dicodallma)

Antes das coisas terem alma, onde estão? E quando recebem o sopro da vida, para onde vão? Tudo o que é preciso está feito nos atos eternos dos gestos gentis. Ser feliz é impreciso e tem tantas faces, não te parece? Um abraço para saudades. Um espaço para verdades e para os domingos, torça para que sejam longos dias azuis. Os íntimos serão os primeiros a se ofertarem primaveras em todos os momentos. Há calma no sentimento quando ele aponta o caminho de casa. Quando você lhe dá a alma, o amor ganha asas.

Aos amores, vãos

Vãos são espaços onde se conversa, preferencialmente sem pressa. Ali, não há necessidade que nos abrigue ou obrigue, apenas escolhas pessoais, nem menos nem mais. Certo e errado são opiniões em cercas de arame farpado, precisam ter razão ou perdem o sentido. Portanto, por definição, errado e certo é só uma questão de lado. O amor nos recebe sem maiores perguntas e deixa partir os viajantes cujo destino não era ainda ele, por mais que assim se deseje. Todo restante dito sobre amantes, amores e amor é invenção do cinema: todo mundo vive sem todo mundo, ninguém deveria sair de casa se não pode ser feliz sozinho, felicidade é um estado pessoal. O amor é multiplição, depilação, um vão, abraço da alegria, é um contentamento, um samba enredo, não uma solução para os nossos medos inventaImagemdos ou reais. Provoca suspiros, motiva camisas novas, banhos mais demorados, os enamorados são um tipo lindo de se ver. Se ainda não aconteceu, um dia vai ocorrer e afirmo, será uma correria por tudo, por nada, por um beijo a mais na escada, um minutinho de plenitude. Viver dá muito trabalho, mas o salário compensa. Por amor, é quase tudo de graça, entende a diferença? Então não comprometa seu amor com responsabilidades que estão longe da sua competência. Seu amor não serve para fazer você feliz como nunca. Ele existe para saber você feliz como sempre. Deixe que o amar faça exercício, o mantenha em movimento ou ele vai se transformar em espelho, imagem, vício, um amar o amor prejetado, planejado, um amor sem o sentido do amor. Caminhe procurando não confundir costume com saudade, te amo com bom dia, ciúme com cuidado. Não dependa de nada para ter uma grande vida. Então, talvez, você será um vão onde seu amor pode viver tranquilo.