O que é o que é?

Não importa o que é, sendo bom. Ao contrário, o que importa o que se oferece ou se recebe se um ou outro são ruins? Todo encontro precisa fazer bem. Arrancar risos ou roupas. Estancar tristezas e criar raizes fundas das conversas constantes. Acho que é isso que nos salva e salvará da rotina, as rodas de conversa. Elas são feitas de silêncios. De saudades. De pesares e de prazeres. De piadas invisíveis ou palavras código, indecifráveis aos olhos. De sorrisos indecifráveis aos que falham nas conexões do afeto. Não por falta de desejo ou mesmo de amor. Mas por fazer do outro uma projeção do que lhe falte, seja alegria, originalidade ou inconsciência pura e simples. O que importa de fato é o entendimento que não nos torna iguais porque é entendimento, não submissão. O que importa é que se vamos, voltamos por escolha ou impossibilidade, já que sem o outro, algo essencial nos aparta de nós mesmos. É assim que és em mim. É do que sentiria falta, do que és em mim. Não para mim. Não por mim, mas em mim. Quando te vejo, não me vejo e isso é um espetáculo. Quando te ouço, me cala o que te dizes. Quando te toco, é a canção que amo sentir.

Silvo

Canto do Povo de um Lugar (link aqui e ali na lateral) é uma observação macia. Fala de rotinas, de inícios, meios e fins. De recomeços. De certeza sobre a constância das mudanças. De humildade diante do inevitável que é isso. De alegria pela descoberta que consagra a vida. Tudo isso em 3 estrofes e algumas notas musicais. Apesar de não ser interprete, fiz uma leitura da canção do Caetano. Abri um pouco os tempos, ritmei de um jeito parecido mas nem tanto e ficou um rascunho que gosto. Tem um cachorro no backing vocal, umas semitonadas, mas no todo um ok carinhoso. A música me sugere cordas, um coral sutil, condução de contra-baixo acústico. É quase uma prece, pra mim. Se trata de algo singelo. Você escuta enquanto caminha ou está em uma rede, quem sabe um balanço. Quem compôs a melodia parecia observar o povo de um lugar, usando o genérico da localização para dentro de cada um. Ao comentar o dia a dia desses seres que povoam “um lugar”, o baiano fala de integração e inocência. É uma lembrança boa, um suspiro de alivio, um picolé de chocolate, a mão que encontra outra mão e as duas se querem bem.

Também é uma oração esses bichinhos, que beijam as flores. Capazes de parar no ar e impossível de serem trancafiados em cativeiro, são uma expressão de leveza e comunhão. Dizem que ver um beija-flor é sinal de afeto e tudo nele me encanta. Faz tempo que não os vejo e anda frio para visitas. Onde ficam no inverso? Será que migram? Será que dormem em ninhos secretos?

Gosto de te-los por perto, sapequando no ar e sapecando beijos certeiros. Quando for verão, virão com certeza. Eles são a alma do povo de um lugar.

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Como água para sede

É preciso ser simples para existir. Simplesmente vir. Simplesmente ser. Simplesmente florescer. Parece haver uma sincronicidade entre o tempo, a simplicidade e a beleza. É um triângulo amoroso, quem sabe. Um carinho em exposição. Um toque entrelaçando o amarelo, o vermelho e o branco. Nenhum exagero, cores em harmonia e a passagem dos dias. Olha o macio sugerido pelo branco. O vermelho em presença tão discreta quanto espetacular. E o amarelo que mais parece a complexa teia da vida e seus milhões de detalhes, impossibilidades e conexões.

Nem lembro quando tirei essa foto, mas prometo que não há retoque, equilíbrio de cor, intervenção de software, nada. Foi um momento capturado, um instante, um click, uma flor. Por que parei? Não sei, faz tempo. Mas ao reencontrar o registro, me alegrei pela beleza ter feito o convite e por te-lo aceito.

Há silêncio no simples. Claridade. Encontro. Troca e constância. O simples é o amor feito água para sede. Quem não viu isso é porque ainda não olhou direito.

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Sextô

O escoteiro ao lado é um dos meus personagens preferidos de UP. Já conversamos sobre essa história de amor, amizade, coisas que dão errado, sinceridade, encontro, coisas que dão certo, vida e morte. Você já viu? Ele é a anti-sexta, a própria alegria por uma missão que, para muitos, pode parecer bocejante. Eu não gosto de sextas, tenho meus motivos. Depois que ela se tornou um passaporte para a felicidade, então, acho um dia aborrecido como passeios ansiosos no shopping. As pessoas transformaram a sexta no último dia de trabalho, como se trabalhar fosse um amontoado de tristezas a processar. Entendo, existe muito trabalho chato e alguém tem que fazer. Eu já fui o responsável por preencher cheques em uma empresa. Lembro de deixar post its nos mais graúdos, lembrando ao fornecedor as coisas que ele poderia comprar com aquele montante. Compras absurdas como 50 mil latas de sardinha. Ou 18 barras de ouro no formato de chinelos Havaianas. Virou uma febre aquilo no departamento, acho que se chamada de “Setor de Contas a Pagar”. Não fazia o que gostava. Mas dei um jeito de gostar do que fazia. E quando me ofereceram uma chefia ali, fui embora. O perigoso dos lugares que não servem para você é o risco de ficar lá. Acho que isso vale um pouco pra tudo, inclusive para as sextas. É como se houvesse um determinado tempo na semana em que você é finalmente autorizado, estamos livres. Finalmente sexta. Finalmente o namorando. Finalmente o carro. Finalmente o casamento. Finalmente o filho. Finalmente a aposentadoria. De finalmente a finalmente, vamos nos aborrecendo e ficando aborrecidos. Elegendo culpados, julgando inocência ou dolo, apontando o dedo para o destino ou apanhando da vida. Alguns dos encontros com o mundo são, mesmo, uma chatice.  Permanecer ali depende da gente, não do dia da semana.  Acho que a abordagem do Clóvis, o filósofo,  sobre o tema me influenciou. Hoje passei o dia olhando o céu papudo e choroso, o sono encroou em mim, fiz a reunião que precisava e saltei no colo da preguiça. Nem triste, nem feliz, ali, apenas, numa sexta. E ela, que sempre representou separação, ganhou outra perspectiva. Estamos onde desejamos, fazendo o que é preciso. De sexta a sexta. *** , forte e sempre.

10

Tirei essa foto na Praça do Por do Sol, hoje. A simetria, a cor, a composição e os detalhes da florzinha me chamaram a atenção. Pensei nas tuas falas. Torci para conseguir uma foto centralizada, desejando um encontro contigo. Pensei nos teus silêncios. Aprendi a tocar “Canto de um povo de um lugar”, onde chega a tarde, a Terra cora e agente chora porque finda a tarde. Pensei em te fazer rir e chorei. Uma saudade, os impedimentos, o tanto que é. O encontro. Os deslizes. Pensei no teu nervosismo. E no meu, cada vez que te vejo. Hoje tem Inter na Libertadores e fiz meus primeiros 10 quilômetros de pedal. É um avanço e tanto. Então quis te ver pra ficar nadando do teu lado. Olhei pra você. E disse o que sinto todo dia. ***

Outrossim

O significado de outrossim é algo como “igualmente”, “também”, “além disso”, “do mesmo modo”. É um advérbio, sei. Faz muito tempo que não uso outrossim. Vou mais na linha “além disso”. Vai ver porque a origem do termo é erudita e eu vivo com maior constância no popular e corriqueiro. outrossim é um elemento de coesão, serve como ponte para continuar uma ideia. Coesão é aquilo que une, não é interessante o quanto outrossim funciona bem? Olhei a palavra, tirei uma letra e quebrei o termo em dois. Por que em dois? Porque assim encaixa no meu raciocínio. Ficou “outro sim”. Tem o mesmo som, mas é outra coisa, representa algo diverso de outrossim. O ponto aqui é que a sonoridade e a circunstâncias me fizeram ver que raramente agimos dizendo sim ao outro. Sim no sentido de existência, valores, necessidades, expressão e visão de mundo. Queremos convence-lo, torna-lo do clube a que pertencemos, à igreja que nos consolamos de Deus, a ter nossas opiniões, a concordar conosco e a existir para confirmar nossos modelos pessoais. Não se trata de empatia com alguém do outro lado do balcão na vida que, às vezes, dividimos. Se trata de algo mais sutil e com uma um definidor menos estético do que empatia. Falo do umbigo. A sabedoria popular não é uma coisa? Criou a expressão “(…) vive olhando para o próprio umbigo”. A imagem de alguém olhando para o umbigo enquanto vive é soberana. Cabeça baixa e visão 100% prejudicada, falta de senso de direção. Não quero convidar ninguém a ver os dias a partir do que os outros desejam, querem, sonham ou pedem. Quero refletir sobre quanto aquilo que sinto, penso, faço, declaro, acredito, creio, temo ou percebo interfere com maior ou menor violência na vida do outro, qualquer outro. Entende o que digo? Empatia seria aquilo que faço por cultura ou educação e se molda no limite dos esforços que despendo para compreender os valores alheios a mim. Mas não é empatia o ponto. Ela, quando se transforma em consciência, pondera qual é o impacto pessoal sobre a existência do síndico, do filho, da professora, do marido, do motorista do Uber, da mãe, dos grupos de pagode, da mulher, do tio, até o Bolsonaro entra na listinha. Não compreender o outro, mas respeita-lo. Observa-lo com delicadeza para entender o que possa lhe fazer bem. Ouvi-lo com o prazer de uma platéia atenta. Não pelo outro, mas por nós. No fundo, no meio e no início, é por nós que devemos enxergar o outro e abraça-lo como se aquilo fosse nós ou nosso. Afinal, é. Não, isso não significa fazer o que o outro quer, pautar-se pelo que o outro pensa. Devemos ser originais sim. Desenvolver padrões próprios e nos guiar pelos parâmetros que julgarmos adequados. Mas essa equação só fecha se o outro é visto em sua grandiosidade. Não pensei nisso por me sentir invadido ou desconsiderado. A ideia me veio porque invado e desconsidero o outro em seu direito de escolha, gostos pessoais, cores preferidas, autores, ideias, considerações, vestimenta, profissão, talento, cor, gênero e raça. Das micro relações aos macro relacionamentos com minha comunidade, uso mais o umbigo do que a consciência. Está assim, na primeira pessoa, porque não quero que isso pareça um texto de autoajuda, aconselhamento, essas coisas. Não. Desde que comecei a ouvir “Praia dos Ossos”, um podcast que recomendo porque fala sobre machismo, feminismo, hipocrisia, cultura de época, costumes. Outrossim, “Praia dos Ossos” remonta em 8 capítulos como viveu e por quem morreu Ângela Diniz. Seu algoz, Doca Street, tinha uma linha de defesa para um ato indefensável e isso quase colou. Era o umbigo armado. Umbigos se magoam, não se olham, não podem enxergar, estão de cabeça baixa. Quanto eu uso a lógica Doca Street para justificar meus atos? Eis a manga a ser chupada. Nossa, Que Saudade da gente. Outrossim *** e sempre.

Tec, tec, tec

Escrevo o que sei ou lembro. Não posso fantasiar escritas, teclar afetos ou feitos inexistentes. Se digito “vi um gato branco e preto” é porque um branco e preto gato passou por mim, nem mais nem menos. Com o que não sei ou não sinto não gasto tinta. Escrevo meu estado, divido olhares, falo de gente, da gente, descrevo. Minha máquina nem é tão velha quanto a da foto, tampouco mais linda. Eu fiz curso de datilografia e te amo. São duas coisas que me aconteceram, por isso escrevo. ***

Asterisco em flor

No meio da rua, de frente pro nada, com vista pra grama. Como assim “não existe flor azul”? Tem sim senhora. Vive ali, num canto de calçada. Na maior parte do tempo, fica aberta aos visitantes, sempre tão distraídos de si. Dos porquês, do será? Do quem, da onde e quando. É linda, baixa e breve a florzinha azul. Não têm nada de acanhadas, chegam aos montes, andam de turma e parecem um asterisco, dezenas deles, balançando com o vento.

Delicadas e resistentes, gostam de grama e de lugares baldios. Justo nesses espaços onde o nada é um acontecimento, há shows regulares de elementos, pequenos matinhos maquiados pra ninguém, micuins, rosetas, formigas e latas de coca.

Ali, na costeira da calçada, acenei para o filho e vi uma flor azul. Tão linda e boa de ver que me alegrou mesmo não te vendo. Parecia um asterisco no vento e lembrei de novo, queria te contar, descansar e oferecer colo. Uma florzinha azul me lembrou você. O que não lembra? ***