decreto

repreendo crenças, limbo,

sufoco, doença, desânimo, água parada,

virose, gremistas. desautorizo juízos finais,

falta de voz, insistências febris,

desistências, tristeza, impaciência, pressão alta,

pressão baixa ou só pressão.

invasão, falta, excesso de velocidade, crise

de meia idade, desentendimento, ausência

de cinema, ausência sistemática, mau estar repentino, dedo ruim,

dor no rim, ressentimento, livro e papo chato,

fome, dores em geral, Bolsonaros no particular,

certezas absolutas, topada no dedão, gente com

babinha no canto da boca, sopa de aipo, sermão,

universal, mania de perfeição, solidão, gente demais,

multidão, multa ou tombo. o ruim está proibido, junto

com a cara fechada e a falta de libido. alma que amo,

não aceito nada menos que dias extraordinários

e revogo a qualquer disposição em contrário.

O presente de hoje é fantasia, com Chico, Bethânia e eu na vigia.

Respostas

Não tem jeito, um texto reflete. Pula de alegria com as vindas de quem ama. Se atordoa com suas partidas, descreve o amor que sente. Mostra que se ressente do afeto distante, da presença faltante. Das falas, passeios, toques, surpresas, passagens de tempo, encontros e seus conexos. Nunca entendi que a felicidade seja algo de acesso pedregulhoso, exigindo um arco só possível a eleitos, heróis, seres especiais. De onde vejo, isso sim é coisa de filme. Eu sei que você concorda porque age assim não mandando para o exílio gestos carinhos, afetos cotidianos, planos, conversas, pequenas proteções, grandes surpresas, fazer a sobremesa preferida, comprar uma lapiseira para quem você quer escrever uma história que possa ser renovada. Nos acostumamos tanto com Hollywood fazemos da vida real não um lugar que moldamos, criamos e construímos à nossa imagem e semelhança, mas um espaço que decoramos, memorizamos textos e rimos às sextas. Sabe o que significa quando digo te amo? Que sinto te amo. Que me melhora te amo. Que me agrada te amo. Que me faz falta te amo. Que confio te amo. Te amo é um signo que abre portas e portais, janelas, novas perspectivas, acalma angústias e se compromete, além de fazer bem para a pele. Te amo é prático, enfático, liberta. Toma remédio, faz exercício, cuida, ouve Bob Dylan e vive o te amo da maneira mais feliz que consegue. Fica triste? Fica triste. Vai embora? Acontece. Mas não parte. Está ali, de algum jeito faz do afeto algo efetivo, assertivo, que chega e toca toda vez que vem. Chega e toca toda vez que fala. Chega e toca toda vez que conta. Chega e toca toda vez, cada vez e sempre. Não é entendimento contínuo, mas a contínua busca pelo espaço comum arejado, onde o outro não deixa de ser o outro por conta de nada e de ninguém, ainda bem por isso. É a vida real do tipo levinha, com alminha serena. Vou ver um filme hoje. Um que tenha passagem de tempo que sempre nos encanta. Com filosofia, que me encanta. Com a vida como ela é, que te encanta. Um onde a trilha seja protagonista, provando que o artista faz para a existência, ainda que isso cause em mim um ciúme dos brabos. Ainda atordoado? Bah em doses sartreanas. Mas somos capazes de nos fortalecer, de nos importar nos amando e protegendo de um modo criativo. De qualquer jeito, concordo em número, gênero e grau: somos melhores ao vivo.

Rede

Afeto é colo, um tipo de resistência, algo que se mantém e que te toca porque sim. Não há consolo possível quanto se vai e isso doerá sempre, uns dias menos, noutros mais. Afinal, diante de tanta lucidez tacanha, de falta de ligação, de conexões falhas, das coisas rasas que vemos ou vivemos, amores reais atordoam. Se perdoam. Se acolhem, se surpreendem, sentem um ao outro, liberam, cuidam, esperam, precisam, choram a falta e comemoram presenças. Às vezes, por essas necessidades incompreensíveis, separam-se, param, partem, se recolhem em silêncios devastadores, lembranças limitadas, espaços apertados, antíteses de setembro. Resgate é o que o amor pede. Se o amar te visita, vem acompanhado de festa, de uma intimidade que te percebe, que te recebe, que te enaltece e te vê, não explique. Não justifique. Não conte, nem tente entender. Haverá tese de todo tipo, dirão coisas, profetizarão futuros os que não conhecem, os esquecidos, os distraídos de si, os que não sabem do que falam. Sendo amor, não se verá amor partindo, mesmo que pareça indo. Sendo amor será presença, será presente, será sempre bem-vindo.

A pedra

Era criança, estudava no Grupo Escolar Jerônimo de Albuquerque, um amontoado de salas, cadeiras, quadros negros e a professora Rejane, que era apaixonada por mim mas não sabia. Ela não sabia, deixo claro. Eu tinha certeza. Afinal, era um charme, uma escultura, pura atitude. Ela, esclareço. Eu era um piazito de 9 ou 10 anos, desengonçado, um graveto que calçava Kichute e lia, lia, lia,lia. Foi então a professora (essa mania de chamar de tia nunca entendi) nos chama e séria grau 10 anuncia com pompa e cerimônia: – Vamos conhece-la amanhã

Amstrong deu um pequeno passo por ele, mas foi um enorme para a humanidade e tal. Eu fiquei pasmo. Não tanto com o fato de chegarem à Lua, explico. Mas aquele uniforme, que coisa linda, quis morar em um e poder pular desligado da gravidade, ignorante dos tumultos terráqueos, longe dos gols do Grêmio. De algum jeito, realizei o sonho: eu e Marcos Pontes, o primeiro astronauta brasileiro conquistar o espaço, temos o M em comum.

– Vamos conhece-la amanhã, nos disse Rejane. E se ela disse, iria acontecer. Afinal, era a professora e estava ao lado da Dona Lurdes, a Diretora. – Mas conhecer quem? perguntamos em coro. – Amanhã vocês saberão, nos responderam, rindo uma para a outra.

Quem dorme com uma dúvida sartreana como essa, indo e voltando feito balanço de praça? Na pracinha, na padaria, na esquininha da árvore japonesa, onde houvesse uma criança do Jerônimo, havia também uma certeza: amanhã prometia.

Pra chegar amanhã falta sempre um dia. Ou só falta um, depende como você programa seus horários. Nos meus, sempre faltava um. Aproveitei o tempo para pensar nas coisas que poderia conhecer amanhã. O mar, nossa o mar seria algo espetacular. Mas eu já conhecia o mar. Elas falaram “conhece-la”, algo no feminino. Nãaaaaaaao. Não pode ser uma nova professora. Rejane não poderia ir embora sem saber que me amava mais do que as histórias da Brigite Montford, filha de Giselle Montfort, ambas espiãs internacionais. Essa mulher salvou o mundo dezenas de vezes, em espanhol inclusive.

Mas como diria Carrigan, “baby, quando você não sabe quem é o pato num jogo de pôquer, o pato é você”. Ao entrar no ônibus fretado (ônibus fretado!!!), imaginei horas e horas de viagem onde conheceríamos nosso dest. Não deu nem para terminar a frase e chegamos. Estamos no Planetário, um lugar mágico onde se pode ver as estrelas e conhecer o espaço. E lá estava ela, a pedra. Não uma pedra qualquer. Não uma pedra de rua. Mas a pedra da Lua que Amstrong nos trouxe no bolso. Minúscula, tímida, acanhada, sob uma redoma e protegida por dois gigantes vestidos de guarda. A Pedra Lunar, penso agora. Uma pedra enluarada, conhecedora da gravidade zero e do silêncio espacial. Olhos surpresos, olhe a pedra, veja que bela, te roubo a pedra e a coloco num signo especial, junto com pedrinhas de brilhantes. Ou compraria com a pedra uma rua que sendo minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar. Seria um grande passo para a humanidade dar mais espaço pra gente se amar.

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O que sinto não há como ser extinto. São datas de outro calendário. São festas de aniversários invisíveis. São pontos indivisíveis e que se multiplicam em si mesmos. Penso, logo vejo a alma do infinito e toco o cotidiano das coisas. Eu tomo, chamo e tenho. Tenho uma alminha feita de silêncio eloquente, feita de um amor antigo da gente e feliz por permanecer em erupção.