Guarânia

Não sei se é o espírito paraguaio que anda me rondando. Ou a lembrança das canções tocadas no violão pelo pai e acompanhadas por um coral manco formado pela mãe, guinha e nita, além da minha participação, claro.

Diferente do tango e seus toques neuróticos ou trágicos, uma Guarânia é dançável e cantável pelos humanos. Tem um balanço simples, 4 ou 5 notas e deve ser interpretada com paixão. Um bom grupo de Guarânias revela o lado romântico do mais impenetrável coração russo. Ursos choram. Bolsonaristas se abraçam com seres do mesmo gênero e está tudo bem. É que India teus cabelos nos ombros caídos tem poder. India sangue tupy, tem o cheiro da flor. Ter o cheio da flor é mais do que um elogio, é um pedido (atendido) de eternidade. De um jeito brega, mas é. Eu gosto dessa inocência afetada, essa coisa meu primeiro amor, nessa solidão, o que me alivia sem ter alegria são meus tristes ais. Como não se solidarizar?

Amor, eu quero teus carinhos porque eu vivo tão sozinho. Quer uma explicação melhor do que isso, junto com o pedido para encostar sua cabeça no meu ombro e chorar?

Penso que essas canções, suas letras simples e arquitetura imprudentemente poética são como os antigos times da África. Vez ou outra, um deles se classifica para uma Copa do Mundo e nos presenteiam com as peladas da rua. Eles entram em campo deslumbrados não com o tamanho do estádio ou as milhares de pessoas ali. O que os encanta é a grama, tem grama! Eles acabaram de receber chuteiras, meias, camisetas, aquilo já é o máximo. Vão jogar com a Alemanha, aquela coisa perfilada e perfeita. Ganham de 4 a 0 no primeiro tempo. Depois perdem para o Equador e não se classificam. Mas têm aquela coisa no olho de quem ainda é capaz de se admirar com algo belo por ser comum, por dizer verdades, por ter grama, por ser algo que se perde e se ganha. Por estar ali e ali ser bom porque é ali. Jogam moleques, é só um jogo, uma brincadeira deliciosa, algo que você não quer que acabe, tão especial que é ver o Roger Milá desfilando suas meninices, pernas alegres e negras driblando, rindo enquanto dribla, fazendo gol e dançando zumba em comemoração.

Uma Guarânia é um pouco isso. Estar à vontade com a paixão, o amor, a história. É viver sua importância sem esquecer (e principalmente por isso) a essência do encontro. Suas facilidades, a única coisa a ser feita é estar porque estar é mais do que bom, é o que precisa acontecer para que a felicidade seja plena e plenitude, compartilhada. Nos torna pessoas melhores, mais puras no que desejamos e oferecemos. A gente fica menos enroscados em explicações e projeções sofisticadas e complexas. Não se trata de querer casar ou ter isso como objetivo, o que seria um sonho tiquinho demais. Uma aliança precisa representar uma escolha pela liberdade. Se trata de querer estar junto, de doer se não acontece ou se não é o tempo do outro, entendendo que é uma pena (no sentido de penar) quando acontece o descompasso. Uma Guarânia conta sobre exílios invisíveis, impossibilidades pessoais ou do outro, fala do que quer e o que quer é o presença natural (e compartilhada) entre amantes. E se a realidade não é aquela, surge a Guarânia que muda o real ou chora de saudade, não sendo possível a mudança. Amar é se mudar pra dentro da alma do outro. Mais Guarânia, impossível.

O lago azul de Ipacaray, onde se cantava velhas melodias em Guarany. Onde estás agora, Cunhatai, se teu suave canto não chega a mi?

Talvez a Guarânia seja o amor disfarçado de simplicidade, única forma de compreensão que conheço. Porque cada vez mais me despeço do complexo. Nessas horas, é preciso poder olhar ao lado e cruzar contigo, não por coincidência, mas porque sim. Um sem dúvida sim. Porque o tanto que há, é. Se há outra coisa a fazer, sempre haverá afazeres, a questão é como se faz isso junto. E se acomodar isso é complicado, vale a regra guarânica: é simples ou não é. “Não sei se a saudade fica ou se ela vai embora, se ela vai embora porque gosta de mim”, que lindeza. É Guarânia, alma que amo. É Guarânia.

Descompasso

Não acho que só o azul, que é magnífico, faça do céu o que há pra ver nele. Cinzas são espetaculares e alguns finais de tarde, nossa. Esse aconteceu hoje, não exatamente assim, mas quase isso. Uma camada já descolorida pela hora. Mas ali no meio, senhora azul, que coisa. Era pantone de tudo, uma geléia geral, um vermelhidão fim de dia, um até amanhã solar. O descompasso entre o que eu via e o que havia não diminuiu o que houve, o que olhei ou como traduzi o havido e o olhado. Não é a verdade, como esse céu que era quase isso, mas não exatamente assim. É um pedaço, talvez devesse ser menos grená ou o magenta pudesse subir um pouco. O fundo de tecido, quem sabe ficasse melhor em aço escovado ou alto relevo. São entalhes que faremos, os detalhes dessa obra que é existir enquanto se busca a essência. Amar, às vezes, é deixar a proximidade a uma escolha de distância.

Plim pirilim

Sempre é sempre

Adoro UP. O desenho me deixa animado e sim, o trocadilho foi horrível, é a especialidade da casa. Faço luxuosas piadas ruins, sou uma espécie de Chandler tropical. Esse filme conta a história de encontros, lares, amores mágicos, além de coisas feitas do eterno que há no sempre. Acho que você não se deu conta do achado que encontrou em sua curiosidade pensante. Sempre não é um lugar, mas a natureza sobrenatural de amores, lares e encontros, mágicos. Associam muito magia aos ilusionistas. Entretanto, seus portadores originais vêm da Pérsia, eram sábios que compreendiam a composição dos mistérios, o destino dos profetas e o porque do inexplicável. A razão fechou as portas para o intuitivo, necessita de uma constante, carece do inusitado, primo-irmão da criatividade. Mas como o ego tem seu lado belo, entregamos o direito ao extraordinário a estúdios, esportista de alto desempenho, escritores, artistas, observadores da vida, pensadores em geral, estetas no particular, alguns cientistas, além de poucos humanos. A eles, permitimos o acesso à realidades pelas quais torcemos mas não temos coragem de acreditar na possibilidade da concretude. Então, certos de que o mágico e a magia são feitos de fantasia, duvidamos de quem percebe que a vida tem palavras e gestos feitos de encanto e palavras-senha. E se houvessem portais em dimensões desniveladas do tempo, esse elemento imóvel por quem passamos?

UP, dizem alguns e a Pixer nega, foi baseada na história de Edith Macefield, que vivia em Seatle e não vendeu sua casa centenária de jeito nenhum. Posso passar o resto da vida escrevendo sobre o óbvio: a arte faz sucesso quando reproduz a vida, seus desejos e realidades submersas. É preciso crer em algo para vê-lo em suas cores indizíveis, entalhes, detalhes, pureza e poder. Desconfiamos que pode ser verdade que hajam encontros, lares e amores mágicos. É por isso que ficamos duas horas vendo uma animação onde um homem perde sua amada, foge em uma casa com balões, inspira um escoteiro e acaba abduzido por ele da sua ranzinice. Ambos encontram um bicho raro enquanto carregam uma casa (carregam uma casa!) que ficará ao lado de uma cachoeira, como imaginado pelo amor daquela vida.

Casa de Edith em Seatle. A dona se foi, a casa continua lá, resistindo e inspirando.

Não posso deixar de pensar na coragem que é preciso para criar as histórias que vivemos porque as permitimos, sonhamos ou desejamos. Como em UP (e que se encontrará no arco de qualquer grande narrativa), muita coisa dá errado até que o amor faça a platéia suspirar. Até que casais se apertem as mãos. Até que homens e mulheres chorem feito crianças pela humanidade habitante naquele desenho. Até que se faça paralelos com o o vivido. Até que algo te ligue àquela história de um homem, sua mulher, desse encontro, daquele lar e de um amor mágico, tudo disfarçado de animação. Mas como desconfiamos que aquilo existe, a mágica acontece. Então torcemos contra o vilão desenho. Rimos do cone da vergonha desenho. Conhecemos o escoteiro desenho de algum lugar. Sofremos com a perda da mulher desenho. Sentimos as dores nas juntas do homem desenho. Tocamos na madeira da casa desenho. No fundo, não queremos que seja um desenho. Mas como é um desenho, permitimos que o impossível aja naturalmente, mostrando o que é: moléculas em movimento, com espaço em volta. Pensamentos. Eletricidade e magnetismo em ação. Fissão. Fissura. Fagulha. Fatos. Eletrons. Sons. Força. Tato. Sentido. Fusão. Vontade. Sede. Suor. Azul por inteiro. Inseparáveis, mesmo quando não juntos. Impares. Par. Passeio. Um vazio preenchido. A mulher. O marido. A parede. Outro exílio. A escolha imutável. Uma dor à espreita. A notícia inesperada. E no entanto, lembrando de UP, pensei em contar isso pra você:

Era uma vez um homem que encontrou seu amor. Era o que lhe fazia falta por uma vida. Então ele a quis tanto a ponto de a querer feliz. Não porque lhe desejava isso, mas porque recebia.

Era uma vez um homem que desejou um lugar. O lar, com um espaço de leitura, 3 cães, uma estrela, uma pedra da lua, livros e ela. Não fechou as portas. Não trancou janelas. Foi por isso que ela ficou.

Era uma vez um homem que fez-se melhor na magia do encontro. Então, encantado, ofereceu o que havia de puro em sua alma. E sendo verdade, viveu em reciprocidade.

Não sei como será. Mas, como o velhote ranzinza, farei o que for preciso. Tenho a sentimentos contraditórios, talvez como a Edith da vida real. O certo é que há uma mistura inesperada que dói. Vai ver essa é verdadeira jornada do herói.

Um dia

Um dia, isso é sagrado, você será motivo de praça, festa ou feriado. Não nome de rua, onde tudo passa. Uber, bike, ifood, tempo, táxi, vento ou por de sol. O fato de você existir vale um bosque, onde só se chega devagar, se fica em volta de árvores e se estende toalhas, em companhia de livros e gente que escolhem estar juntas. O teu dia terá um número específico, o ímpar da família formada e com o mundo crescendo em volta. Um dia de sanduíches, raízes, amores felizes. Não natal e presentes. Não namorados e presentes. Não de santo antonio ou marias cheias de graça. Serás um dia pagão, liso, fundo azul ou branco. Um cão correndo daqui pra lá e o tempo parando para espiar o que nunca passa e vive no sempre. Um dia que se demora e arruma, um pouco casar, um tanto nem pense isso.

Amar é saltar para algo maior do que você.

Um dia de cantos arredondados, feito à mão, inesperado e surpreendente, sol amigável e brisa de 9 por hora. Sem esperas, sem esperar, sem disfarces, bloqueios na pista, cheio de guardanapos, vazio de barulhos agudos, uma rede, um jeito de receber o vento sem que ele atrapalhe. Horas vivas, com panos auxiliares, papeis diversos, carimbos tatuadores, experiências do prazer sem culpa ou sofrimento, um dia intenso, inútil para a contabilidade, afeito a despensamentos, druidas florais, sonos, bocejos e sereno, além de uma certa quietude que não tem motivo para obstrução, parágrafos únicos, explicações, notas de repúdio ou discordâncias ocas. Algo indeciso, que não carece de nada, bom de estar lado a lado sendo esse o desejo, perto de beijos e quindim.

Onde você está, teu coração faz parte da paisagem

Precisamos de feriados feitos daquilo que amamos e onde somos simplesmente o que somos. Ali estaremos distraídos e conversantes. Esquecidos de invernos, aquecidos na alma, gratos pelo perene sem a carranca das rotinas. Cientes de que elas são assim porque as deixaram ali, desprovidas da magia que lhes abrilhantariam, pequenas destrezas, olhares passantes, cores, bilhetes e pontos para linguas e suas linguagens. Uma delicadeza, uma piada, um riso, a louça guardada, a cama desarrumada, biscoito de forno, bom dia, feriado. Uma brecha amanhecida, uma fresta solar, um portal multiversal onde se pode entrar porque a vinda é franca, a temperatura é boa e ficar faz bem. Acrescente o fato que a Maria Gadú vai cantar pra gente, junto com Milton e, dando um tempo, Erick Clapton. Machado irá, tem tanta coisa a dizer, acompanhado de Pessoa e Violeta Parra.

As vindas não passam desapercebidas. Ao mesmo tempo, tudo é presente, presença e espaço de conversa

Um dia, seremos feriado. Lembrados pelos resistentes do amor, o calor que fabrica, a conexão que oferece, sua expansão, o big bang, o tempo que atinge, o nada que finge ou joga, o quanto pinça o que atrapalha. Que se torna possível como eras, subindo muros, embelezando o que seriam apenas momento, cimentos, tijolo, decoração, impedimentos. No meio de tantos sós, de tantos sozinhos, de tanto que perece perfeito, irretocável, que estão longe juntos, ausentes in loco. Será feriado porque existimos em vida e fizemos do real uma nobreza, uma realeza, a possibilidade de uma outra realidade, um nicho, um suspiro, um feriado chamado dia do enfim nós.

Prece

Que o deserto não me desertifique. Nem o mar me afogue. Aos contrários, ofereço me transformar em utilidade real. Que o silêncio não me cale. Que meu verbo crie. Ao caminhar, que ignore os atalhos fúteis e as inutilidades, mesmo (ou principalmente) as que considere importantes. Que meu tempo seja agora. Nem mais, nem menos, que certezas não me enganem e o inexato me receba sempre ao assimétrico da vida. Que não me iludam nem mudança nem movimento. Que eu não confunda uma e outra coisa ou tente usa-las em proveitos sonsos. Que a lucidez não me transtorne. Que o amar não me entristeça, nem o amor me pertença. Ao conhecimento, entrego o que trago de curioso ou belo. Que o outro me importe. Que eu me sinta parte, mesmo quando não faça. Que eu seja o que vim fazer. E que, desconhecendo o destino, que não esqueça a origem. Que pergunte a quem sabe, entendendo que todas as respostas também estão em mim, mas não apenas ali. Que eu frutifique as terras, mesmo as distantes e desconhecidas. Que inspire as inférteis com presença e punhados de água. Que meus argumentos não sejam punhais, nem arma a serviço da farsa. Que me baste ser e estar e que nem seja ou esteja entre os apontados por desumanidades. Que a riqueza não me impressione, pelo menos não a ponto de pertencer a isso. Que a pobreza não me use, pelo menos não a ponto de me socorrer disso. Que eu não espalhe medo ou finja afetos. Que aprenda a nadar e a não fazer nada, aquietando o que me acelera. Que receba tarefas e as execute com talento de amador. Que seja uma boa lembrança a minha passagem. Uma recordação que desperte algum riso. Uma ameaça aos covardes de toda a natureza. Que minha vida e minha vinda seja um aviso sobre os campos abertos para a felicidade. Que eu não volte ao pó, nem seja sal da terra, coisas incompreensíveis. Que eu seja dito. E que tenha feito tudo e qualquer coisa à minha imagem e semelhança. E havendo Deus, ele me diga “filho, que orgulho”. Que não havendo, meu pai sinta isso. E minha mãe e irmãos. E tu, a que amo tanto. Que meu viver seja terno, carinhoso, musical. Que possa escrever às vezes. Bilhetes a toa, rotinas da família, um gato que mia, um cão que uiva, pós de estrelas, fatos do dia e os segundos que nos presentearam. Que te conhecer seja permanente ato de reconhecer o talento, o colo, a nau frágil, os naufrágios, as rupturas, os elementos em atuação, a sintonia com a beleza, o sempre, o instante, a alegria, o ato de criação, o encontro atômico, a explosão transformada em portal, a fissão expandindo energia, o big bang, o lugar no cosmos e o azul. Que eu esteja à altura do que vivo. Que seja delicioso lembrar. Que seja emocionante reviver.

O corte e a costura

É da natureza das coisas a possibilidade de parir seus contrários

Quando li isso ontem de manhã, imediatamente uma canção me veio à cabeça e me fez levantar. O dia inteiro a melodia me bicava, até que o teu recado me chegou como um barco que não descreve um arco e acalma corações que caminham no porto a espera de notícias, chegadas e partidas. É preciso interpretar o dito a partir do que a poesia afirma, a forma que é cantada, o tipo de arranjo que recebe. Essa música veio duas vezes, não é uma coisa a gente? O bilhete continha algo diferente da afirmação original do poema. Um acento e a reviravolta que ele (o acento) provoca na lógica do escrito. Eis a manga:

A vida é mesmo assim

Dia e noite, não é sim

Nelson Mota (autor da letra, que ganhou linda música e uma interpretação tipo uau do Lulu), escreveu “Dia e noite, não e sim”. Nota que o acento dá conotação diferente ao poema e o que ele passa a significar? Acho uma manga e tanto. Dia e noite não é sim. É um contrário nada sutil de Dia e noite, não e sim. Na primeira frase, é a afirmação da contrariedade, a negação cotidiana do desejado. Afinal, não é sim. Revela uma conformidade, quase uma a rendição às rotinas, mesmo indesejadas: a vida é mesmo assim, dia e noite, não é sim.

O poema é uma declaração de amor não declarado?Adormece o sentimento ou cala o que ele desperta? O fato de amar calado é, em si, uma demonstração de amor? Trata-se de uma constatação ou é biográfico? É um oferecimento direto do portal? Definitivamente, tenho algo a discutir com as sutilezas, o design das emoções. O amor nos tempos de corona precisa ser literal ou é a hora de lançar mãos de todos os simbolismos? Talvez as duas coisas. Mas sinto que algo me escapa, o cenário é incompleto, há muito escuro, olho o teto, tateio em busca da confirmação simples do pertencimento completo do afeto que me resgata tantas e tantas vezes, como agora mesmo. Lulu e Nelson te representam nessa canção? E porque? Mesmo que o outro saiba, é preciso dizer.

Eu não te amo calado. Mas ouço a sinfonia de silêncio.

Olha onde vou escavar, buscando significados. O ato de pensar não é um barato? Como diria Álvaro Campos (que não quer ter razão) e que se pergunta “pra que serve uma sensação se há uma razão externa para ela?” Que bom para quem pode revoltar-se em comício dentro da alma, em uma lucidez irritante, olha isso. Sim, é o Jô interpretando Pessoa.

Sou um vadio pedinte?

Outra canção cheia de significâncias é essa. “Ame-o ou Deixe-o” foi o slogan do Brasil entre 64 e 79, quando o bicho da irracionalidade e do desprezo rugiu. Era uma ameaça: você deveria amar seus pais (na verdade seus governantes) sem questionamentos. Ou isso ou seria mais saudável deixar-lo, ir-se, banir-se, tornar-se invisível. No caso da invisibilidade, ou você sumia ou os milicos fariam o serviço por você.

Então veio Caetano e tira a máscara violenta daquele amor-medo da ditadura. O baiano ressignifica aquela dor e nos presenteia com uma anistia que reencaminha o engano tentado pelos farsantes. O amor, ali, abandona o condicional, “amar ou deixar” e encarna seu contrário. Com a troca de uma letra, acontece então o “amar e deixar”. Novamente, uma letra e a perspectiva ganha novos rumos. Receber uma música assim é um pedido? Deixe que o amor siga? Não transtorne seu caminho? Ame-o e deixe-o livre para amar é uma constatação do que acontece, ou uma oração para que isso se dê? Que meu amor intenso sempre liberte teu melhor.

Que meu amor sempre liberte o melhor do outro.

A foto lá em cima e essa aqui mostram a transformação que une arte e uma dupla de artistas. Eram velhas máquinas. Não costuravam, nem alinhavavam mais nada. Sem chance de bordados, nem o tuc, tuc, tuc, tuc tão característico das suas ferragens, engrenagens e mecanismos. A obra de arte é um achado pelo encontro das retas e curvas, a beleza da releitura, o objetivo revivido e que contraria a condenação ao ferro velho dos esquecimentos. Não somos máquinas, claro. Mas somos medo e desejo, luz e sombra, sim e não. Eu te amo calado? Também.

Estava tão cansado ontem que dormi com Friends, numa época em que Mônica não consegue fazer isso porque luta contra uma separação afetiva. Tenta de tudo, até que tem notícias do seu amado, quando enfim Morfeu a recebe e a descansa. Se foi bom? Se é Friends é bom.

Canções transformadas em significados e formas de resistência. Poemas que exorcizam perdas e autorizam revoltas. Obras de arte que exploram as novas possibilidades para cortes e costuras. Séries antigas que nos oferecem o vazio aconchegante para o sono. Tudo isso, de alguma forma, lembra da importância de estarmos juntos. Sendo e deixando ser, sempre dizendo presença, entoando carinhos, alinhavando o amor que serze e serve a “saudade de tu, do teu abraço gostoso, de passear no teu céu. Quando estou com você, estou nos braços da paz”.

Que o teu afeto sorridente, misturado à minha intensidade, nos transforme em nós, comunhão de dois, encontro de familia, a gente de volta pra casa. É sim, é sempre.

Se trata de viver

Algumas músicas me tocam, com o perdão do trocadilho besta. Estava ouvindo uma desses caipiras geniais Renato Teixeira e aquele outro, o Almir Sater, chamada “Um Violeiro Toca”. A bela canção começa assim:

Quando uma estrela cai no escurão da noite
E um violeiro toca suas mágoas
Então os óio dos bichos vão ficando iluminados
Rebrilham neles estrelas de um sertão enluarado

No escurão da noite, que lugar bom para uma estrela cair, hum? Mas acho mesmo que ele fala de começos e finais, a comunhão conectiva das coisas vivas. Sentimentos, momentos, cães, estrelas, leis universais e o cara que faz um gol pro Inter. Acredito que ao dizer que um violeiro toca suas mágoas há dois sentidos aí. Tocar no sentido violeiro, a capacidade de transformar em melodia e letra algo que não nem é uma nem outra coisa. Há um outro tocar, que penso seja no sentido de reconhecer a existência, tocar naquilo que se sente para que o sentido ganhe direção, força e forma. É quase um manuseio artesão. O que acontece depois que essas coisas acontecem? Então os óio dos bichos vão ficando ilumandos, rebrilham neles estrelas de um sertão enluarado. Esse naco de filosofia aplicada valeria o ingresso do show. É de uma sensibilidade profunda. Trata de contar, cantando, que há uma relação de causa e efeito entre tudo que vive ou pulsa, um relacionamento invisível e permanente, em eterno movimento. Em primeiro lugar, o acontecimento. Em seguida, a coragem essencial de tocar naquilo. Finalmente, o rebrilhar em outro ponto daquilo que já foi um lume estrelar. Eles podiam parar por ai, mas quem segura gente desse calibre?

Quando o amor termina, perdido numa esquina
E um violeiro toca sua sina
Então os óio dos bichos vão ficando entristecidos
Rebrilham neles lembranças dos amores esquecidos

Eles afirmam que sim, há o tempo do final do amor, mas não do seu fim. Aqui vejo um condicionante: “Quando o amor termina, perdido numa esquina e um violeiro toca sua sina”, o “e” se transforma num condicionante. É preciso que o amor termine e um violeiro toque sua sina. Não dele mesmo, mas do amor perdido numa esquina. Então o tocar ganha uma outra possibilidade às duas já existentes: a de significar seguir em frente, comandar, lidar com o que há naquele término. Nesse caso, a causa e efeito é o entristecimento na bicharada, porque se ressignifica neles o lembrar, talvez uivante, dos amores e amares esquecidos. Eu acrescentaria um uia aqui. Como se tudo isso fosse pouco, lá vem o refrão.

Tudo é sertão, tudo é paixão, se o violeiro toca
A viola, o violeiro e o amor se tocam
Tudo é sertão, tudo é paixão, se o violeiro toca
A viola, o violeiro e o amor se tocam

Não há nada fora, nada deixado ao largo, nada abandonado: tudo é um sertão apaixonado e, “se” o violeiro toca (é preciso agir, o “se” se presta a isso), a viola, o violeiro e o amor se tocam. Será que é tudo uma coisa só? Será que falam em fusão, em conexão? Será que são coisas inseparáveis não por uma obrigatoriedade, mas pela harmonia afetuosa que têm? Não sei, mas dá boa música. Que termina, enfim, de uma forma que deveria ser taxada pelo fisco,

Quando o amor começa, nossa alegria chama
E um violeiro toca em nossa cama
Então os “óio” dos bichos, são os olhos de quem ama
Pois a natureza é isso, sem medo, nem dó, nem drama

Ciclo de si mesmo, o amor começa, quando “nossa alegria chama e um violeiro toca em nossa cama“. Aqui a canção fica proibida para os recatados. O recado me diz que primeiro é preciso ser feliz para amar, só assim para a alegria chamar. E a cama é lugar sagrado de descanso e declarações acalmantes. O que acontece a partir daí? Os bichos e as almas, as almas e as plantas, as plantas e a água, a água e os ventos, tudo são “os olhos de quem ama“. Afinal, a natureza é isso. Sem medo, nem dó, nem drama.

Vou dormir em paz, no escurão da noite. E desejo, de alma, o mesmo. O presente de hoje não poderia ser outra coisa senão esse hino. O arranjo reafirma: tudo é sertão, tudo é paixão se o violeiro e o amor se tocam. Toque. E se deixe tocar.

Renascimento

Comecei meus estudos em um lugar chamado Grupo Escolar Jerônimo de Albuquerque. Esse cara tem uma biografia macia, tipo “pacificou tribos no Maranhão”, o que normalmente significa “ajudou na carnificina dos índios”, mas o ponto é outro.

O Grupos Escolar era desses espaços feitos de madeira (será que gosto de casinhas de madeira por isso?), muito limpinho, um pátio enorme, campinho do lado, lanche e até professoras às vezes. Camisa branca e calça azul era o uniforme. Lembro de uma pasta, dessas de plástico, onde levava caneta, livro, caderno, régua e um compasso, além do livro do ano.

Ninguém em sã consciência, vindo para a cidade, escolheria o meu bairro para morar. O Partenon era longe, era pobre, era sistematicamente violento, havia uma mistura eterna de bagunça e falta de saneamento, tudo demorava a chegar, enfim, era uma delícia pela gente que havia lá. Tênis? Os corredores da Etiópia estão de sacanagem se pensam que foram os primeiros a correr descalços. Banho todo dia, como assim todo dia? Quente? Você disse quente? Quá, quá, quá.

Na Marista, 300 havia uma árvore de uva japonesa onde um meninote passava horas no segundo galho depois da forquilha, no meio do tronco. Ali, à salvo dos olhares adultos, eu tinha um programa de rádio, o B12, cantava, declamava e contava o número de fuscas que passavam. Normalmente 2. Dormia na cama de cima de um beliche, que dava exatamente naquilo que eu fingia ser a escotilha de um navio, já que era uma janela arredondada, muito bonita. Quando aberta, era possível mandar sinais sonoros ao amigo da casa da frente, até que o sono ou a mãe chegassem oficializando o final do dia, fosse ou não nossa vontade.

Franzino e muito rápido, adorava correr. Muitas vezes isso me ajudou a escapar de brigas onde a derrota era certa. No colégio, era imbatível na “corrida de costas”, uma competição bizarra onde os times eram formados por trios de mãos dadas. Dois deles corriam de frente e um de costas, de modo que eram fundamentais a sincronia e a falta do que fazer para entrar numa disputa desse tipo.

Ia cedinho pro Jerônimo, que ficava a uns 5 km de casa. Ao longo do trajeto feito à pé, íamos nos encontrando, chutando pedra, contanto vantagem, pulando valeta, cruzando o riacho, a turma ia engordando em número, as algazarras aumentavam e ali pelas 7 e meia ou 8, lá estávamos nós cantando que ouviram nas margens pláquinas do Ipiranga de um povo hebraico um sarro deslumbrante. Não era uma gozação com o hino, oh não. A gente não sabia mesmo e, em posição de sentido, cantávamos compenetrados do jeito que sabíamos. Quando minha mãe me ouviu um dia, quase teve um AVC com tantos erros e desentendimentos. “Você tem que entender o que está cantando, a letra é a parte falada do que a música quer dizer”. Foi assim que me tornei a forma escrita de tudo que vendo, vivo. Fui tomando gosto, descobrindo o que eram margens plácidas. O que é plácido? E retumbante? E fúlgidos?A liberdade é quente por que é um sol? (o sol da liberdade em raios fúlgidos). O que Djavan quis dizer com Açaí, guardiã, Zum de besouro um ímã? Não sei, mas branca é a tez da manhã.

Uma das nossas brincadeiras era ir no Lami, uma das muitas prainhas de água doce que o Guaíba oferece de graça. Chegávamos lá de todas as formas possíveis. A pé, de bicicleta, carona. Ônibus não havia para o trajeto. No Lami, aprendi a pescar e a caçar cobras d’água, algo que valorizava muito quem conseguisse, já que se tratava de ato de coragem, destreza e estupidez, virtudes escritas em bold na periferia de mim mesmo. Também ali aprendi a amarrar barbantes em perninhas de besouros, comandando na marra os seus voos. Garotos de drone, babem de inveja assim que descobrirem o que é um besouro. Lá perdi Yara, minha primeira bicicleta, num acidente envolvendo barberagem, fuga de uma turma rival e pneu dianteiro careca. Até os inimigos me ajudaram na tentativa de resgate, mas não houve jeito. Fiquei doente sem ela, minha emoção é regida pelo amor que disponibilizo ou sinto. O corpo só reage a isso.

Estar no Jerônimo era estar com os caras e as gurias da rua, éramos todos da rua. Nos conhecíamos por apelidos cruéis, nos ajudávamos, a gente mesmo limpava a rua, prepara emboscada, se escondia no mato uns dos outros, pisava no barro em dia de chuva, rimos e choramos as perdas em comum. O sentimento de família, de grupo, a vontade de pertencimento teve no Partenon um bom momento. Aconteceu quando se foi o Bibum, um bêbado pouco anônimo, numa briga de bar. Tucano, um narigudo bom de bola, que foi-se para o ITA e voltou outro. Tanto, que seu apelido passou a ser Engomado. Teve o Deixa que eu Chuto, que levou tiros que não o acertaram, morreu mesmo foi de susto.

E teve eu que não morri de nada. Nem de medo, nem de noite, nem de faca, nem de fome, bala, navalha, soberba, angústia, ignorância, canivete ou a pior de todas as mortes, o falecimento da crença no amor. Não me mataram a ponto de não conseguir ver crescer o moleque que tornou-se mais do alguém que, estudando filosofia, não esqueceu de onde vinha. Foi assim que aprendi a cortar cordões umbilicais existenciais com Gilettes reais.

Nos lugares onde estive, fui me reconhecendo devagar, alvoroçando o ambiente, aplicando a lição básica da quebrada:

Chegue apavorando. Só quem não corre de nada é que vale a pena conversar

Não digo que isso está certo, apenas sei que fiz assim por um tempo. Afugentei, fugi, disse suma daqui, aprendi, li e recentemente desci da árvore, a que dava uvas japonesas. Arisco, fui tateando devagar, te achei vindo de um pais lá longe, onde tudo é dito em tom cordial, se pode dormir sem medo de acordar assustado ou tendo que correr. Bati o pé e continuaste ali. Urrei e você permaneceu, me perguntando de ilhas, contando histórias, trocando bilhetes, ouvindo, vendo, vivendo, sendo vista e visitada mais e mais. Me apaixonei pela tua força delicada. Tua escuta, nossa conversa. Tu, a canção, nós, uma dança. Não há letras de hinos a desvendar, nem segredos guardados, há um calor tropical que trocamos, a aliança pelo encontrado um no outro, sem tirar nem por, exigindo nada, que uma forma de entregar tudo.

Entendi, depois de tanto encantamento e afeto, que amar é um dialeto complicado. Tem crase onde vai vírgula, ponto junto com exclamação, não há futuro mais que perfeito e a conjugação é sempre nós. Regra um: respeitar tuas reticências como espaços sagrados onde eu expresso a liberdade que te pertence.

Tenho medo de ser esquecido, não é estranho? Gente tendo receio da queda da bolsa, de usar máscara, de acabar comida, de morrer, de viver, de faltar leito, de uma dor repentina no peito, de mil coisas diferentes como ter ou não ter emprego. E eu aqui, tendo medo de me tornar lembrança. Não para o mundo, isso é inevitável e não me importa. Tenho pavor é que agindo em tua proteção (desejo de quem ama) isso se torne um silêncio mal compreendido, uma distância e, finalmente, uma desimportância. Teus ditos me trouxeram essa sensação, a praticidade de tocar os dias sem que eu esteja neles. Nem foi o dito, foi a natureza do dito, a que torna possível me tornar invisível. A nossa sinceridade de sempre, indispensável é constitucional, não me relacionaria com você sem isso. Eu nem saberia como tocar as horas do meu dia sem minha allminha ao lado, não há como, existes em tempo total, falando ou não, estando ou estando.

Isso me rondou o dia inteiro e a minha criança está aqui do meu lado, tentando me acalmar do susto. Ela, que me ensinou a não ter medo de nada desde os tempos de Jerônimo, tirita de um frio estranho. Chegou um medo que não sei se passa. Disse hoje e é pra valer: é no sempre que amo você.

Feliz páscoa com a casa cheia de carinho. O céu estava assim no mês do nascimento, palavra da Nasa.