Hakuna

Soprada entre dentes, a história flui rio à dentro, noite à flora e fala na alma das matas. Escuta, apalpa, olha que água sonora, que brisa, que Nala, que coisa, que sonho sussurrado onde quer que a brisa brise. Olha que coisa, Mufasa. A sala, o quarto, a paisagem, o mato, tudo insiste e quando menos se espera, existe. Saboreia a lembrança nascente, a semente lançada e aceita na terra pronta a semeadura de sentir-se amada. Cheira o aroma, Scarbi porque Scar não te pega. Nem Shenzi aguenta Simão e a delícia de Hakuna Matata. Toca o teu sonho no colorido de Zazu e seus tons de azul até que amanheçam junto com o sol. É assim que Simba vem e cresce nas frestas da floresta, nas brechas da inocência, onde pulsa o puro e a pureza, a natureza, a beleza e tudo que transforma o real.

O presente de hoje são as vozes da floresta e a alegria da bicharada.


A viola, John Donne e o violeiro

John Donne viveu invisível na sua época. Esteve aqui entre 1572 e 1631 e era um baita poeta, o que só foi reconhecido muito tempo depois que partiu. Ele inspirou Hemingway no seu “Por quem os sinos dobram”, o que não é pouca coisa. Na introdução do livro, o que Donne afirma em forma de um dos mais primorosos textos já feitos? Mais ou menos que “nenhum homem é uma ilha. Que todo homem é um pedaço do continente e uma parte do todo. Que se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa inteira fica diminuída. Que a morte de qualquer pessoa me afeta, porque sou parte do gênero humano. Por isso, não pergunte por quem os sinos tocam. Eles tocam por você”.

Almir Satre e Renato Teixeira olham um olhar de natureza para o amor iniciado ou extinto, existente ou ido. John Doone, Almir Satre, Renato, que trio para se iniciar uma semana carinhosa com a gente, em paz com o que se é e com o que se sente, compartilhada em sua totalidade. Dita, escrita, feita por ti. Preciso que você esteja plena, que se apresente a si mesmo e nos entregue, em nome da tua humanidade, o pedaço de eternidade que completa o tempo de quem se ama.

O presente de hoje vem lá de 2008, uma leitura doce, intensa e feliz de uma canção feliz, intensa e doce.

Tropical

Não é possível prender quem transforma a vida em busca e se descontenta, desorientando o caos e desafiando a ordem. Não se trata de partir ou ficar, mas de singrar em direção ao que intuímos. Não se trata de amar ou ferir, apenas do que sentimos. Não se trata de ser ou estar onde estamos, mas de ser quem somos.

O presente de hoje é João Bosco, é Djavan, é Corsário. São mais que artistas. São inspirações para que a vida seja plena das coisas que acreditamos. Bom Find!

Acontece

Primeiro, alguém toma a iniciativa de fazer um pedido. Pode ser um carro, um amor, uma música, uma cura, qualquer coisa. Mas peça agradecendo o recebimento, gratidão é fundamental. Chame seus santos, pratique seus rituais, reze suas rezas e se quiser, dance a dança da chuva. Na verdade não importa se você pertence aos povos do deserto, se pratica chamanismo, se é ranzinza ou vascaína. O essencial é saber que tudo é uma prece e que alegria é o mínimo que acontece quando você fala com o Maioral. No meio de um show, o fã mandou um bilhete ao Bruce Springsteen, essa lindeza simpática e grande músico ao mesmo tempo. Qual era o desejo? Ouvir uma canção fora do repertório. Bruce se incendeia, motiva a plateia, pede ajuda, os músicos se inspiram, se tornam o pedido, o embelezam, nos tocam. Do nada, o que era um bilhete pedindo uma música num show em estádio lotado, vira uma festa de sons, de participação e de compartilhamento. Meu presente de hoje é dizer que acho que milagres são a explicação que a nossa ignorância dá à nossa vaidade. E se soubermos disso com o coração, seremos o extraordinário da invenção, do escrito, do bem dito. Não existe qualquer razão para nos sentirmos perdidos, me escuta? Se dirija a Buda ou a Bruce, tanto faz. O certo é que a vida está sempre atendendo a pedidos.

José Saramago

Saramago, o do “Ensaio sobre a Cegueira”, tem contos deliciosos. Num deles, a frase da foto ficou abanando pra mim, se exibindo toda prosa e provocante. De bate pronto me ocorreu que ele quis dizer que é preferível gostar de ter do que ter que gostar. Depois me ocorreu que isso de “você quis dizer” é coisa do Google. Saramago é Saramago. Ele disse o que quis dizer. E eu gosto disso.

Em paz

“Ame-o ou deixe-o foi o slogan da ditadura, tempos ruins e sujeitos a bordoadas. Ali, o Brasil viveu um desses momentos exaltados pelos seus extremos e triste pelas dores causadas, cicatriz ainda intocável, tantas foram suas reaberturas sem a cura do perdão que só a justiça é capaz. É nesse quadro que Os Doces Bárbaros (Gil, Betânia, Caetano e Gal) surgem e dão à frase um destino mais humano, como só os bons artistas são capazes. No lugar do amor condicionado (ame-o ou deixe-o), propõem o lado pacificado do amor, com seu “ame-o e deixe-o”. Às vezes, ser o que ele é não preencherá nossos desejos e expectativas. Noutras, ir onde quiser não será ao nosso lado, mas ainda assim será preciso. Pode ser que você não faça parte da paz do seu afeto e isso não nos isenta de torcer para que durma tranquilo. O silêncio impera? ame-o e deixe-o. Precisa não vir, não estar, partir? Ame-o e deixe-o livre para amar. Os Veloso (Caetano e seus filhos) fazem uma bela interpretação da canção de Gil, cujo significado é intenso e atual. Estamos a milhas de distância, cheios de certezas à respeito uns dos outros, encharcados de lama, brigando por maço de cigarro, reduzindo os dias e dividindo a vida entre esquerda e direita. Há pouco em excesso, há cercas imensas e centenas de nada a declarar. Ainda assim, é preciso protegê-lo e deixar ser o que ele é.

Costura

O que mais atrai nela, me pergunto. Penso nas nuances e curvas, as sugestões, as delicadezas, a afirmação, a beleza. Não é melancólica, nem tem alegria em excesso, apenas chega e chegando, fica. Bica, pergunta, se apresenta e vem. Quem a recebe, bebe de outra bebida, nada em outras águas, lembra de novas vidas, tece sua própria moda. Ela é “A Linha e o Linho”, algo que Deus soprou pra Gil, que sentiu que ali o encontro do lindo com o simples. O arranjo de sopros e cordas é uma delicadeza só. Quem puder, ouça o poema de mãos dadas, nem que seja consigo mesmo. O presente de hoje é ela, “A Linho e o Linho”, cantada em um especial que reuniu o próprio, Caetano e Ivete.

Vem, vem, vem, Pixinguinha

Pixiguinha é um músico de coração carinhoso. Desses mestres populares, com seus olhares bondosos para nós e para a vida. Uma das suas mais famosas canções é um hino aos apaixonados, essa gente no divino estado onde o essencial é a entrega ao outro ao que ao outro pertence. Não posso esquecer de João de Barro (que nome doce), autor da letra que se uniu de um jeito encantado à melodia inesquecível. Yamandú Costa é um gênio das cordas, um instrumentista que chegou ao avançadíssimo estágio da simplicidade. Unir Pixinguinha, João de Barro, Yamandu e uma platéia hipnotizada pelo amor que a canção revela é o meu presente de hoje. E minha presença de sempre. Feliz, bem feliz.