Mariel Fernandes

Vistas do meu Ponto

Indivídua

Assim, sem pensar muito, João Cavalcanti é dos bons. Um cantor que não é só seu canto, ainda que seja uma delícia ouvir apenas. Então ele me aparece com esse tango manifesto e penso: precisamos conversar sobre isso. Presta atenção na letra enquanto alguns babam na Pitanga Camila, o que vier primeiro. A letra é um absurdo de leve, descrevendo alguém tomado da demência momentânea que a paixão causa. Mas entenda. Se durar mais do que dois anos, não é mais paixão, nem demência. Aí também é mais do que tango, do que arte, do que letra. É mais ou menos como um bom filme ou um livro clássico. Algo que você vê (como um Lugar Chamado), nunca mais esquece e ao lembrar não é uma lembrança, mas um combo de memórias envolvendo você e seu amor. Ou lê, como Perdas Necessárias, e pensa no motivo da autora escrever tudo aquilo especificamente pra você. Mas voltando ao João, que saudade. Bom isso não é voltar ao João, mas estar em mim, que vivo em estado de saudade, como agora. E antes um pouco de agora, é um estado, eu lido. Então se vens, que festa. Se não vens, nossas lembranças são atômicas, quânticas, estão lá, existem não porque existiram, mas porque resistimos. Não a resistência heroica, apostólica romana, essa coisa hosanas, distante, projetada, prisioneira. Por todos os meu amor, ah se eu pudesse te abraçar agora, trata-se de um fato e eu não discuto com o que está ali, concluso e pronto para sair do TCC para entrar para a história. Então voltemos ao João. Digita João Cavalcanti no Spotify e escute o “Não Sós”, uma salsa deliciosa sobre o Rio de Janeiro, claro. Enquanto presta atenção na letra formidável, tente acompanhar o luxo que é um piano salseiro convidando pra baila. Salsa é tempero gostoso, cheio de possibilidades sonoras, vem de Cuba direto para mexer com quem está respirante. Ouça, ouça: Salsa é mais ou menos como gostar de alguém, além de ama-lo. Alegra e tira o fôlego.

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O melhor de nós

O que difere os afetos que chegam? São todos únicos, essencialmente. Mas só os essenciais têm as propriedades do sempre e se você tem algo assim, não há dúvida possível: você sabe, aquilo te informa, te contorna, entra, se instala e quando fala, senhor, que voz. Você topa comer salada, nada é assim longe, pertencer te faz salivar. Então, se ficamos juntos, o como importa menos. Eu disse menos, não que não importa. Mas o que une não é papel, casa, promessa. E quem trouxer o argumento de que defendo “uma cabana e nós dois” vai levar um cascudo. Construções, revoluções, manifestações artísticas, mudança de tipos variados, alterações culturais significativas e todo tipo de evolução que mereça esse nome tem uma fonte de inspiração concreta e que atende por amor. O amor pelo outro é um conceito recente e não existia antes? Concordo se você aceitar que a gravidade só passou a existir depois que a nomeamos. Amor é bigbang, você começa ali, se reinicia, reinventa, refaz, representa, requer, ressurge, reanima e reabre os portais de nós mesmos. É uma pressa que acalma, te chama pelo nome de alma, te seduz porque sabe quem manda. Te faz falta pela qualidade da presença. Te encanta porque sabe ser momentos de ausência. É o olho infalível do amigo perto. É quando o afago é certo e o conta comigo, uma verdade concreta. Vem de um talento inventor de tempo, capaz de abrir buracos em agenda, antecipar feriados, driblar impedimentos, ir ao superado atrás de picolé de milho. Talvez seja deixar de comer Sucrilhos. É conhecer o umbigo, brincar com a falta de assunto, aproveitar silêncios e resistir às distâncias. Acho que o amor se sabe, se acha e constrói confianças.

Alakazup

Estamos precisando de curiosidade analógica, digital, fora do tempo, desobediente ao elementos, urgente em pleno domingo, capaz de de ver por uma frestinha uma galinha que surfa, um Gold Retriever sorridente, o elefante elegante, Aladin e os 3 patetas. Histórias de encantos que se encontram, gente real, banana com canela, Paulinho da Viola, Sartre e boas canetas em um estojo de madeira entalhada. Andamos precisando de carinho, de cantar alto e de falar sem pressa. De encontrar caminhos, de passar um café, de esquentar a conversa, de caminhar de almas dadas, dividindo mais um dia vindo ou indo. Respira o ar da graça e da cura. Meu amor repara em ti e se restaura cada vez que vens, cada vez que lembra e canta a nossa dança. Te deixa descansar. Te deixa vir. Recebe plena e aprendiz o abracadabra que te faz feliz.

Bom findi

Aos amantes o tempo passa devagar se distantes e é um raio, um zapt quando juntos. Abre o dia que embrulhei em papel graft, está ali, desenhado um sol quadrado que sorri. Repare, a casinha tem chaminé e uma árvore de uva japonesa em frente. Dá uma fruta ardidinha, você precisava conhecer a criança que falava com ela, escondida entre seus galhos, voltando do colégio. Atento ao tanto que há pra contar, tento manter a conversa animada e te levo no bolso, polegar. Também cuido da temperatura e faço o possível para narrar o que se passa, pode me pedir mil léguas submarinas, meu coração de vidro te dá, menos o que não há, como meu amor passar. A raposa, a rosa, o pequeno de Exupéry não te contaram nada? Não é como enfeitou Vinícius, tipo eterno enquanto dure. Está mais pra Eu Sei Que Vou Te Amar. Dizem os mestres do oriente, os mouros dos desertos e o Menino do Dedo Verde, toda sede é saudade de rede e de ninar as coisas que sonhamos para que acordem.

Histórias

a foto é de Anthony, um inglês que sabe mesmo como fazer um click

Ando de mãos dadas com Sartre ultimamente. Mas olha se essa frase não é de ficar fascinado, num cantinho, pronto para sair do nada e chegar ao ser:

Escolher é um exercício de liberdade. Mesmo que sua opção seja a de não escolher, ainda assim será uma escolha. E ainda assim será liberdade“.

Respeitar escolhas, olha como as coisas se comunicam, é um dos preceitos do budismo. No cristianismo, há muitas passagens sobre isso, do tipo “existem muitas moradas na casa do meu pai”, como quem diz haver um universo de escolhas a serem feitas. Platão é dual, o mundo das ideias e o mundo real: são poucas as possibilidades, mas são pelo menos duas. Onde amarro Sartre nisso tudo? É que se a existência precede a essência (conceito dele), vejo nisso o que? Escolhas. O que fazemos do que nos fizeram. O que construímos nos atos cotidianos que habitam em nossas narrativas. O que escolhemos viver e ser a partir disso, apesar disso, por causa disso.

A impressão que me dá é que fomos criando trilhas culturais, desculpas tolas, regras de bom comportamento, aceitações gerais, zonas coletivas de conforto e carimbos emocionais tantos e tão numerosos que é praticamente impossível ter uma “vida que valha a pena ser examinada“, como diria Sócrates a respeito da existência bem aproveitada, assim, no sentido de plenitude e alcance.

É uma forma, uma das muitas, inúmeras, diversas formas de ver o mundo, de dar um sentido aos dias. É mais ou menos como entender que “o destino do caminhante não é o caminho, é o caminhar“, tomando emprestada a linda frase do Antonio Machado para coloca-la na prática dos Joãos, das Flávias, dos Egbertos, dos Gismontes. A humanidade não é uma perspectiva, uma opinião, um certo ou um errado. Reduzir o que temos de humano a um jogo entre casados x solteiros é quase má fé filosófica, outro conceito sartreano. Elevar o que representamos como humanidade a um nível divino também, porque não nos sobraria nada. Somos os erros que cometemos, os acertos que obtivemos. As pessoas que inspiramos. As histórias que escrevemos, os horizontes, os desejos e as escolhas que registram o que fomos capazes de realizar a partir delas.

No fim das história, pra trazer Sartre de volta na nossa conversa, só no fim dela é que seremos. É depois da nossa viagem que a humanidade dirá no que ela se transformou após a nossa passagem. Canto contigo. Conta comigo. Leio em você. Tenha comigo. Estou do teu lado porque sendo amor é isso que ele gera, as janelas do sempre. A minha escolha é a gente.

O presente de hoje é uma história encantada, quem sabe porque o amor nos deixe puros e tontos se alegria

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