Penso que sim

Na parede da agência vazia, um moço feliz rabisca seus traços. Digo a ele que um grande poeta ensinou que a arte existe porque a vida não basta. Ele me responde que grafiteiros fazem rimas coloridas. Se fosse uma disputa, Ferreira Goulart teria meu voto. O dia inteiro o cheiro da tinta Pilot perseguiu os espaços vazios, acompanhado do som que acontece quando a pena sintética da caneta faz seu ziiiiizz contra a parede. O resultado ficou bom, melhor do que o registro inicial. O poeta tem razão. Só a vida não basta.

Só está escondido

Está certo, será preciso procurar um pouco. Achar motivos aqui e ali, redesenhar velhas crenças, enfrentar certezas e mesmo evidências. Mas só está escondido. A um milímetro de mim e de você, existe um bom motivo, o princípio ativo do seu lugar no cosmos. Te pisca, dança, se apresenta, encanta e seguirá tocando sua flauta, até que venhas pra frente do palco que te pertence e acolhe. Ou não venhas e, mesmo assim, será brilhante. Talvez se disfarce de frase perdida em pesquisa na web, uma série, um pedaço de pão para alguns, um abraço distante para outros tantos, sonhamos diferente e realizamos de um modo pessoal. O significado de uma bicicleta, pra mim, será totalmente diverso da representação que tenha para alguém que não seja eu coisas como casamento, um apartamento, uma mudança, a visita, a quarentena, a impossibilidade, a árvore, a visita, a aliança, a esperança ou o gol do Inter.

Em conversa linda com a alma que amo, aprendi a coar a moral dos meus cafés existenciais. O sabor das coisas feitas ou não feitas fica mais puro ou, pelo menos, mais próximo daquilo que realmente é, caso de fato deseje saber o que de fato seja esse tal algo. Mas só está escondido, embaixo do abraço, da cura, do quadro, do livro, da palavra dita ou calada, do gesto, de imobilidade, de não ir ao encontro de quem se quer bem exatamente porque se quer bem esse alguém. Vive ali, no perdão, no copo d’água, numa nota de 50 encontrada no bolso, na música que toca e relembra. No sinal que fica verde, uma sopa, um SPA, a tarefa terminada, no dia bem feito, o sono profundo.

Recebi um e-mail tão entristecido, alguém me acusa de “espalhar a ilusão do otimismo com sua escrita histérica”. Coei a afirmação como ensinaste e me perguntei se era verdade aquilo que me dizia alguém. Do meu ponto de vista, não é. Mas veja: entre centenas de mensagens de incentivo, de perguntas, de alegria, essa me chegou ardendo. Olha o poder que dei a uma percepção fora da lógica que eu esperava, no externo do apropriado. Mas está escondida, mesmo na critica considerada pra mais ou pra menos, a lógica reversa. Se o otimismo é uma ilusão, seu contrário, o pessimismo, também é. Então sobra o que somos essencialmente. Ora tristes, alegres, rabugentos, entusiasmados, infelizes ou amados. É esse o antagônico mais imponente, naquilo que me aparece toda manhã, me fazendo cantar qualquer coisa: ou somos amados, condição primal de felicidade, ou não seremos nem amaremos, receita certeira para uma vida inexpressiva e opaca.

Nadando um pouco mais fundo, amar talvez seja (ou também seja) não esperar, não estar, não vir não abraçar. Não exigir, não beijar, não espalhar algo que não seja bom, belo e justo. Talvez a quarentena a que todos fomos submetidos nos ensine, enfim, a estar conosco mesmos. A brilhar pra nós. A proteger o outro de si. A de nos receber sem susto. E assegurar, de um modo silencioso, invisível e eterno, que o amor seja algo tão natural que seu acesso seja o caminho alegre da vida. Já disse hoje? Sim, amo você.

Hoje o presente é para alegrar. Não há nada mais verdadeiro do que a alegria que te faz dançar.

Tudo a declarar

Tenho aprendido a calar o que é dispensável dizer. Tento te ver e sendo isso impossível, me conforta a imaginação, minha própria versão do tempo errante, da realidade mutante, dos bolos e cafés, uma chuva de fim de tarde, dessas que tocando a terra a deixam alvoroçada e cheia de aromas. Quem topa uma pizza, uma rotina amena, um cinema, um festival de Friends, a playlist inteira, a primavera toda, uma torrada com açafrão, é açafrão que chama? Já ouviste hoje o que te digo de mil formas todo dia? Posso te fazer um chá de hortelã, um suco de laranja cedinho e por cedinho entenda-se 9, que antes é abuso afetivo.

Tem que veja nessa foto, eu incluso, um passarinho bicando a ☁️. Ou se como um peixinho desse um salto incrível em busca de falta de ar. Qualquer que seja a conclusão a que se chegue, o fato é que todo momento é de tirar o fôlego e os milagres brincam de esconde esconde com quem não esteja no longo sono das certezas totais. Há sinais de que nos pertencemos por toda a parte. Fomos nos construindo em silêncios, em hiatos, nos tornando inesquecíveis, nos lembrando em desenhos, senhas e livros onde lemos que existimos e que somos íntimos de um modo inédito. E como se isso não fosse o bastante, fomos ver o mar depois que se torna Atlântico. É assim que se vive a um olhar de distância. É preciso silêncio, uma quietude pacífica de quem, sabendo onde o amor vive, também sabe que só ele é capaz de te ver.

A vista de lá

Tenho uma árvore bondosa fincada só sempre que há na gente. Tem um colo que vem da raiz, tem silêncio que balança, a paciência que me protege das chuvas mas não tanto a ponto de secar. Ela mora num bosque e anda cheia de visitas, crianças descobriram seu banquinho feito de tronco, dá um misto de ciúme e orgulho vê-la ocupada. Já fui todos os dias, estive longe por um bom tempo e quando nos vemos, nós damos um abraço de vento, um carinho com aroma de madeira, um amor na sombra fresquinha, a vista do lago onde vive. Diante dela, a calma de quem cresce na medida do tempo que lhe é próprio. Se desgasta porque é isso que acontece com quem vive. Penso nisso enquanto calculo o número de andares do edifício que olho devagar, como quem espera que o afeto se faça um fato-sintese do que nos acontece, do que sentimos e queremos. A espera pode ser inesperada e dura, nenhum inverno garante primavera. Ainda assim olho e imagino seus andares, menino espiando de longe o amor que vem de antes da sua árvore existir.

Ps

Tenho um mar de saudade, vivo a um instante de distância, choro de lonjura, falo do sol pra que me aquecer do frio, fico te olhando de longe, te desejando perto, me deixo quieto e canto baixinho que gosto de ti. Acabei de dizer que te amo. Estou andando de bike. Tenho estado com fome. Logo começa um novo job. Acostumei a dormir cedo e sonhar, só sonhar, me deixa esquisito. A hora é de resistência, me conto isso momento a momento. Me animam as conversas, o tempo é imenso e sinto, sinto, sinto. Não dou espaço pra tristezas, ando cuidadoso comigo, quero te despreocupar e meu sonho de consumo e um abraço sem hora de desabraço.

De sol a sol

Gosto de capturar cenas, como essa aí em cima. Todo dia o sol se põe ali, um depoimento de beleza e de rotina. Esteja onde estiver, acontece, não depende de mim pra nada, nem do meu olhar ou admiração, é da natureza desse espetáculo apresentar-se. Não, não vou seguir o caminho fácil de concluir que as grandes coisas estão nos pequenos acontecimentos. Mesmo porque de pequeno, um por de sol não tem nada. É uma roda gigante no poente, um poema escaldante. É por sí só e por ser sol, surge e depois se vai, iluminando os dias entre um tempo e outro. O sol e sua existência são como perguntas do dia pra mim. O que você iluminou hoje? Quanto orientou alguém? O que você fez por ser você quem você é? Quem você é? Quem você é? Enquanto se pergunta quem você é, você compreende que você é uma contínua possibilidade iluminativa? Que será e se apagará, fim de toda estrela que se preze. Que enquanto o processo acontece, quem você é terá menos e menos importância, quem quer que você seja. Do que me desfiz hoje, de qual certeza, em que altura da vida me imagino? O que aprendi, como fui feliz, onde minha saudade se põe? O teu (o meu e o nosso) amor é solar. A noite, ilumina um lado. De dia, deixa que o outro sonhe. Isso não acontece por acaso, retire qualquer possibilidade de coincidência. A relevância do sol não a sua existência, mas o fato de renascer todo dia.