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Encontrei um ponto final perdido e desinformando um texto e deslocado da sua finalidade de por enfim um fim na frase final e finalmente recomeçar o serviço que é o ofício de quem escreve bem ou mal e ponto

Expliquei ao ponto final encontrado que não era natural estar tão longe do seu destino finalizante e que lugar de ponto final e seus afins como interrogações duvidosas exclamações gritonas são o encerramento de um argumento por melhor que ele seja

É imperdoável a um ponto final qualquer sinal de desorientação já que ponto final nasceu para justamente orientar leitores sobre quando respirar ou amar ou suspirar ou esperar algo como um telefonema ou a presença quase implorada por uma saudade cuja intensidade é um ponto à parte

Informei ao ponto final que recebi o recado nem tão sutil assim porque olhando de perto não era um ponto final mas um silêncio tão imposto quanto impostor e já que falamos disso assim sem falar de fim não quero mais nem esse verso nem mais essa prosa sem verbo direto e desejo descanso aos cansados de textos mais densos porque se é WhatsApp que precisam não terão de mim que antes de ser presumido necessito ser lido de ponto a ponto

Disse ao ponto final desorientado que o compreendia porque o utilizo em alguns textos e sei da sua finalidade que é marcar o fim mesmo do que há de infinito e não pude deixar de ouvir um choro ou talvez fosse um soluço ou quem sabe aqueles ditos que são ditos em fins de tarde ou benditos em reuniões de família em fim de ano quando trocamos presentes ou tocamos ausentes ou percebemos que o ponto final não estava perdido e concluímos por obvio que ele estava no lugar certo e que o escritor é quem continuou escrevendo apesar de não o lerem mais e ponto

Leve, mas não muito

Não sei se uma mosca tem ou não terminações nervosas. Confessando minha completa indiferença quanto a isso, nem pesquisar fui. Conto a quem interessar possa: cortei as asas de uma mosca.

Em minha defesa, eraquase uma criança à época do crime. Ela não se mexia e meu irmão mais velho afirmou que era por dor. Acreditei nisso minha vida toda. Depois de uma conversa, já não sei se uma mosca tem, mesmo, terminações nervosas. Se por acaso sentem dor. Ou se lhes cortando as asas, paralisam por isso ou por não saberem muito bem o que fazer com a nova situação. Teoricamente, sem parte das asas, moscam se tornam ainda mais leves. No entanto, não voam. Ficam paradas, não sei se por inabilidade pós cortes ou outra reação mecânica qualquer. Ficar paralisado não é a mesma coisa que se amedrontar por algo. Muitas coisas podem nos acovardar, sem anestesiar os movimentos. Mas a dor, tem esse condão. Amarra, gerando em nós (os humanos) uma série de bilhões de sinapses, impulsos bioelétricos, lembranças ancestrais, reações expontâneas, ativações inconscientes, conclusões precipitadas, decisões gerais e comportamentos específicos. No fim, iguais às moscas, ficamos paralisados por pura e tão somente ignorar como deve ser depois de um término, de uma demissão, de um rompimento, de uma perda significativa, de uma derrota, de despedidas, de partidas indigestas, de uma pancada existencial, de um dedão contra a quina da máquina de lavar roupa. Dores em plena ocorrência nos dão golpes certeiros. Dores que já se foram têm, do ponto de vista cerebral, o mesmo efeito, abrindo cicatrizes no mínimo neuronais. É na dor que surgem acontecimentos musicais de grande monta. Você acha que o cara que escreveu “Meu coração, não sei porque, bate feliz quando te vê” estava curtindo a glória da reciprocidade? Não estava. Ele estava infeliz, sobrava nele a dor da não correspondência, que o talento transformou em canção. Dores, geradas por nós ou não, revelam do que somos feitos, de quem se trata quando se trata de sermos nós em dor. Sentenciadores da imperfeição do mundo ou espanadores de esperança, medrosos da experiência, abortantes da felicidade ou amorfos habitantes do meio termo. Odeio as dores que me fazem sentir, não gosto de sentir dor e senti amor uma única vez. Gosto mais é de pensar e pensar é entender o sentido das coisas, inclusive dos sentimentos. Entretanto, não precisei pensar o te amo, apenas sei decifrar, como a cada um dos nossos símbolos.

Odeio significar dor e o motivo é simples. Quero ser autor de prazeres, é um tipo de egoísmo, um jeito de fazer uma troca vantajosa com a vida e seus convivas, onde a ninguém caberá o fardo que a experiência dolorida representa. Ser motivo de um riso que se abre, de um problema que se fecha, da solução que encontrada, do abraço calmaria, do sono que vem, do Homer compreendido, ser a não dor de todos os sentidos, a valentia cristã diante do leões de Roma. Então não é dor do que falo. Não é algo que fere ou que possa ser apontada, colocada em salas de ressonância, investigada em poltronas terapêuticas, vidas passadas, fogo indígena, palestras motivacionais, posts da escola mundial de filosofia. Não. Falo do que paralisou aquela mosca, havendo ou não terminações nervosas em suas asas. O fato é que ela não era mais uma mosca, posto que moscas têm asas. Falo disso, de não conseguir voar.

Um pouco

Passeava muito com meu pai, um ser silencioso por natureza. Ele gostava de caminhar, de observar por observar e de se divertir com o silêncio da sua vida morena de um sol constantemente apanhado. Lembro de um gesto de carinho. Eu te amo acho que não escutei. Mas as caminhadas, as risadas profundamente ecoantes e aquele riso aberto, só o seu Norberto (com o perdão da rima involuntária) pra dar. Aquele sorriso era uma bênção, uma oração ou gosto de lembrar assim. Nos passeios (de barco, a pé ou na Chimbica, um Jeep DKW que tínhamos), era a festa do quem fala menos. Acho que meu des/crever começou ali nos silêncios dos não ditos, nos subentendidos, nos entendimento sublimares, nos textos escondidos entre os olhares trocados. Tenho horror a essa linguagem, a que dita tudo que não é permitido dizer. A que se supõe entendida, a que vive escondida, expressamente silenciada. Uma palavra, no entanto, é semente. Você planta um gosto tanto, um admiro isso, um que orgulho tenho, um vem cá, um se enrosca. Então nasce um eu te amo, um me perdoe, um foi engano, um vá com Deus. É no outro que nos construímos e a palavra é a testemunha disso. Como você cresceu. Nossa, está mocinha. Grávida? Passou? Que saudade…. Não chega tarde. Não vá tão cedo. Foi um prazer. É uma honra.

Vale o que está escrito. Ou às palavras restará o triste de ficar vivendo no dito pelo não dito.

01.01.21

Acho que sempre fui assim. Tanto, que lembrei agorinha da história do porto e da espera. Acabo de batizar a lembrança, inicialmente era “Só, espera”. Assim, com uma virgula que é mais uma constatação existencial do que ponto ortográfico.

Um dia, senti algo estranho. Tão estranho que não me deixava parar no lugar. Tanto e tão grande que eu corria de um lado pra outro. O tom de voz, talvez. Queria ouvir o tom da voz. Ou olhar naqueles olhos de rio. Ou rir aquela gargalhada de mar. Era uma pororoca, esse encontro do oceano se entendendo com água doce para ser água doce e oceano ao mesmo tempo. Tudo isso eu sentia perto do meu pai e ele não sabia. Acho que foi quando decidi lhe contar. Sobre como amava a mão grossa, o sorriso largo, o timbre profundo. O jeito bondoso de olhar para o mundo.

Pais deveriam saber a importância que têm. E não sabem. Ou sabem, mas é uma informação tão cheia do desconhecido que não conseguem fazer nada a respeito. Entendem tudo de cortes, cicatrizes, prestação do colégio, pernas quebradas, febres, meleca e alguma algazarra. Mas serem amados? Isso pais desconhecem que são. E são. Alguns ignoram por completo o que fazer com o fato. Professores só ensinam o que sabem, hum? O resultado pode ser catastrófico, com crianças aprendendo que afetos podem ser ameaçadores ou abandonantes.

Então fui ao porto. Ele não trabalhava no porto, mas nas embarcações de onde se diz “terra à vista”. Acho que é como o amor, sabe? Primeiro, são sinais. Gaivotas, o aroma do ar, o seu deslocamento que não é vento nem brisa. Depois, pontos de referência, paisagens nubladas. Mais tarde, o reconhecimento e a festa pela chegada.

Esperei por horas. Cheguei cedinho e fiquei até o anoitecer. Aquela criança não entendia porque o barco não aparecia no horizonte. Alguns adultos não entendem quando a vida anuncia “amor à vista!”, assim com exclamação. Quem sabe é por isso que não consigam reconhecer suas feições e efeitos, é preciso os consolar por isso. Por muito tempo, me ressenti daquele desencontro. Mas, pensando bem, não foi isso, um desencontro. De longe, hoje vejo que o velho lobo do mar não sabia que estava sendo amado naquele grau. Quando lhe contei a história, riu aquele riso atlântico que ele tinha. Então me abraçou sem hora pra desabraçar, enquanto eu soluçada um choro de perda e reencontro.

Será que amar é para amadores? Talvez sejam para os capazes de esperar o tempo necessário, mas não todo o tempo. Existem seres incapazes de amar? E se existem, como poderíamos ensina-los a não ter medo? Porque não é o amor, mas o desconhecido do amor que causa isso. Não é a presença, mas a ausência de amar que os aflige e os fazem decidir por mais aflição. Querem confirmar a inexistência dos afetos profundos porque têm motivos para tanto. E como precisam que desafetos existam, eles se apresentam e fazem o que fazem.

Mas, às vezes, os barcos surgem. Noutras, não. Quando acontece, a aproximação é lenta e boa. Quando atracam, é como um abraço no porto. Mas o destino dos navios não são seus portos, mas os mares, suas correntes marítimas suas àguas quentes, seus naufrágios e grandes aventuras.

O destino do amor é amar de modo expressivo e singrar seus amares. Hoje entendi que não preciso ser escolhido. Que amaria ser escolhido, mas não preciso. Que a ninguém deve ser dado o poder de escolher quem quer que seja para receber, dar ou trocar afetos. A substância mais essencial desse sentimento não é a retribuição, mesmo que ela se dê. Amar é um risco, você se torna uma nau, há sempre o perigo do naufrágio. Portanto, não se trata de partir ou esperar, essa dualidade cujo controle é ilusão. Amar se trata de silenciar. Se trata de sorrir seus muitos risos e chorar seus muitos prantos.

Aos que me alegram com a companhia, desejo um super ano, desses legendários. Vou tirar uns dias. Não sei quantos dias. Vou continuar lendo todo mundo, combinado? Foram ótimas conversas, ótimas mesmo. *** é sempre. Direi todos os dias. Se precisarem de mim, é só dizer a frase mágica. Grato, de coração, por tantas e tantas esperanças trazidas.

Sinceramente,

Mariel

Paisagem

É como ver um pedaço do cosmos e lá, meu lugar guardado. Porque há, penso. E se penso, existe. Ao ver essa paisagem, ao meu lado estava Einstein e a sua teoria do tempo relativo a explicar os movimentos universais. Os pontos de fuga, o espaço curvo, a influência dos astros na configuração do que? Do cosmos, ora. Então me senti profundamente grato por te procurar. Porque tempo não é a medição da velocidade de um deslocamento, da energia necessária para efetivar o movimento e mesmo da quantidade de segundos exigidos na empreitada. Tempo, assim, não seria uma medida, mas o lugar onde guardamos nossas coisas, as experienciamos e as modificamos no processo. Depois disso, colocamos o resultado desse contato onde? No cosmos, ora. Voltava para casa, entre pensativo e melancólico. Fui buscando a alegria de um encontro. Retornei me distanciando da frustração que o desencontro causa. Li algo da Martha Madeiros que dizia mais ou menos isso, olha que interessante.

Viajar é um ato de desaparecimento

Na verdade, a frase é de um escritor dos EUA, chamado Paul Theroux. Martha o usou para justamente se contrapor a afirmação. A escritora acha que é ao viajar que a sua essência aparece, você se torna um você mais legitimo e pleno. Ao ir ao teu encontro, lembrei como gosto de estrada. De parar para uma foto como a que trouxe aqui. De andar em uma velocidade maior do que estou acostumado. De cantar enquanto dirijo. Chegar sem hora. Ou nem chegar, apenas ir. Por isso, diferente de Paul ou Martha, acho que viajar é um ato de coragem. Corre-se riscos como não encontrar o esperado. Do tempo não ser aquele. Do dito não ser ouvido. Das coisas serem o que são. Mas também é possível dar de cara com um momento como o dessa foto, onde o tempo está num modo off gigantesco. A imensidão do lugar diminui qualquer coisa. Solidão, pressa, alegria, certezas, alívios, discursos ou ele mesmo, o grande, majestoso e imponente tempo. A nuvem e a rocha que habita a nuvem convivem sem urgências ou qualquer sinal do definitivo. Estão ali e agora porque seu tempo é agora e ali. Não se procuram, apenas compartilham seus instantes de existência.

Viagens ensinaram a Ulisses os caminhos para volta à Itaca. Ele não era infeliz na Ilha de Calipso. Mas feliz, isso não era. É o que o cosmos nos cobra pelo show que nos apresenta: que sejamos as pessoas certas para um certo lugar, prontos para sermos a pessoa certa, na hora certa e em seu lugar. Estar distante do que se quer não é o contrário de certo. Não se trata de uma luta entre o correto e o errado. Nem é uma luta. É a necessidade de se fazer algo, o seu próprio algo, à respeito de alguma coisa cuja feitura se transforme em propósito. E o que é o propósito? É você ocupar seu lugar no cosmos, ora. E para isso, é essencial viajar. (sempre e muito)

Invernada

Faz um rigoroso inverno, desses que gelam os ossos por onde passa um vento cortante e seu som sibilado fshiiiiiooooo.
Lá, adiante do morro dos réus, o sol se dispõe a ir e o céu abre passagem. É lindo de ver, a ponto de levar a saudade de qualquer verão pra longe. Depois de um dia inteiro tiritando, um dia não, dias. Dias não, meses. Foram meses tiritando.
Então, finalmente um descanso no feno e seu aroma de feno, a consistência de feno, o cansaço que acolhe sem saber de nada, afinal, é um punhado de feno. Serve para deitar, depois de meses tiritando de frio e pensando impropérios correspondentes.
Aos poucos, a pálpebra pesa e os pensamentos se acomodam em cima do trator. Atrás do ancinho. Ao lado do balde. Nos dentes do rastilho. Nas costas da pá. Junto com os marrecos. Nos lampiões na madrugada. É o seu tempo de sonhar-se. Ali, escondido no celeiro e acolhido entre o feno e o frio, dorme depois de mais um dia. Tem a sensação boa de um dia bem feito. É quando adormece.

Resumo

Cheguei pra mim e disse o que precisava na minha cara. E o que eu queria era um tempo sem que eu ficasse atrapalhando com minhas opiniões, olhares e desejos. Ofereci e aceitei um gole de Malzebier pura e gelada e pensei comigo que estamos juntos há praticamente 61 anos, É tempo ou não é? Sabia que em algum momento me surpreenderia com um pedido desses. Mas me olhei nos olhos e percebi um cansaço geracional, uma preguiça cósmica, o sentimento ancestral que mais parece um vanerão com toque de rap.. Peguei minha mão e me autoproclamei em estado de ócio. Enquanto não acordo, sonho com rumos. ***

Oh Oh Oh

Não sei como são feitos os milagres ou de que matéria-prima eles são constituídos. Apensas os ouço e me tocam quando os vejo, se experimento seus saborosos aromas e me esqueço dos sentidos, seja quantos forem.

Não pergunto para que servem as magias, alegremente me cansei das explicações. Apenas me assombro com a destreza hábil do mistério que transita aqui e ali, encantador e anônimo.

Não entendo como são possíveis certas maravilhas. Evito saber, perderia a graça, talvez. Apenas aceito que existem, me contento em te-los e os admirar na medida das minhas surpresas. Deixo que me cerquem com seus contornos e, então, me aquieto. É assim que fico perto e me adormeço. Olhando o rio que me esconde as pedras justamente para que as encontre.

Era para ser um conto de Natal, mas veio outra coisa. A praça do por do sol estava linda, sempre está. *** todos os dias.