Mariel Fernandes

Vistas do meu Ponto

Filosofia dá em árvore

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A única

Foi impressionante, reinou absoluta na minha vida, até entrar no rio de onde jamais sairia. Antes dela mergulhar pra sempre no que há de bom a recordar, é fundamental dizer que não haverá outra. Yara, assim com y, foi amor em todas as direções. Começou no exato momento em que a vi chegando e permanece criando memórias pelo tanto que andamos juntos. Antes do acidente que terminou no rio onde a deixei, percorremos juntos dias felizes e suspirantes. Entendimento completo, equilíbrio absoluto, uma intimidade que enfrentou, alegre e divertida, o que havia de tempo e suas chuvas, além do que existia de sol e as sedes que provoca. Não houve distância entre nós. Posso sentir agora mesmo minha mão percorrendo suas formas proporcionais, unidas por curvas e retas diversas. Sempre fomos táteis, sutis e fáceis um para o outro. Gostava de ver seus enfeites, conhecia um a um os sons que emitia e até o baque no rio, não olhei para outra. Lembro do dia exato, era um domingo dedicado à pescas no Guaíba, praia do Lami, Porto Alegre, 11h45. Chegamos cedo, sem pressa, não sabia que jamais a veria novamente. Nem que não haveria nada que eu pudesse fazer. O sol escaldante exigia Minuano, um refrigerante local, doce como cana de açúcar. Fmariel fernandes.monarcomos buscar e na volta, aconteceu o descuido. Um gesto em falso, a ponte chega, uma batida seca, ela cai no rio. Depois do susto, apareceu gente de todo tipo, eu em desalinho, sem fôlego e descrente daquela separação. Foi como chegou, causando uma surpresa. Quando meu irmão mais velho me tirou à força do rio, já tarde da noite, ninguém mais acreditava que a encontraria. E foi mesmo a última vez que vi minha primeira bicicleta, uma  Monareta Dobramatic, Yara para os íntimos.

Um dia por vez

amor

A mais bela definição para saudade que conheço vem do Chico. “É como um barco, que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais”. A descrição chega a ser cruel. É possível ver a cena, a nau se movimentando lentamente, a esperança à vista, o olhar descrente, o abandono vagaroso do porto, o mar impondo distâncias entre você e as suas lembranças. Ainda que seja mais bonita do que a verdade, sugiro uma atenção cuidadosa da saudade. Ela arde, dá boa poesia, mas não liberta. Ah, o pão de queijo da minha vó. Bom mesmo era o Opala. No tempo dos militares isso não teria acontecido. Acontece que passado é fascinante porque passou, não está mais lá, pode ser editado e prosseguir te confundindo infinitamente. O passado não é um lugar, é um covarde que descreve um arco e evita atracar no cais. O futuro é um bom inspirador de filmes, contos, livros e pessoas. Mas se trata, ele também, de um farsante. Trata-se de uma promessa, uma premissa, uma aposta. É assim e por isso que desejo algo além da poesia. É o amor que levo de presente em cada um dos teus dias.

Quando o existencialismo me mandou parar com o mi mi mi

Uma das coisas mais lindasmariel fernandes.sartre.blog.asteriscos já ditas a respeito da conexão existente entre nossas ações, sobre quem somos e a realidade na qual vivemos vem de Sartre. “É como se a humanidade inteira lançasse holofotes sobre o que você fará de si próprio para definir quem ela mesma é.” Então é comigo? O que me tornei tem minha assinatura? Não posso indicar um amigo desatento, a falta de oportunidades, o chefe injusto, o destino frio ou um ataque cardíaco seguido de dores diárias por todos os ocorridos? Pode, me conta o existencialista. Mas adverte, se divertindo por certo: “o que define alguém não é o que lhe aconteceu, mas o que fez com isso”. Assim, sem mais nem menos, o irresponsável colocara a vida que me cabe em minhas mãos. Não é pouca coisa, olhando bem. E sem desculpas católicas apostólicas romanas, sempre tão bem-vindas, eis a existência esculpida à nossa imagem e semelhança. Antes de livros, ensaios, filmes, peças, teses, ou músicas enluaradas, somos autores de nós mesmos. Produzimos e estrelamos o maior espetáculo da Terra, somos o que fomos capazes de tornar existente, é a vida. Ela e seus percalços, solavancos, encontros, abandonos, mãos bailarinas e despedidas cruéis ou injustas. E se não temos mais desvios e escapes, eis a boa notícia: deixamos de nos reduzir a desculpas para assumir as escolhas que nos pertencem, seus pesos, tristezas, risos e as experiências que produzem. Caminhar é o único caminho e acredite: estamos nessa sozinhos, ainda que possamos ser solidários às vezes. Nos amarão pouco, seremos abandonados, o Grêmio vai ganhar algumas e o mundo se mostrará muito competente na ideia de desfazer sonhos. Ainda assim, a natureza humana se distingue quando não desiste de si mesma e passa a construir abrigos onde a dor se exile, a esperança brinque, o perdão repare e os encontros tenham o aroma da terra molhada. Não há garantias, nem salvo condutos e talvez o amor da sua vida o ignore solenemente. Ainda assim, a decisão é sua. O que fazer com o excesso, com a falta, com a saudade, com o presente, com as alianças, com as lembranças, com a saudade, com o fugaz que se esconde em cada instante da eternidade? Na verdade, importa pouco o que vamos achar. Viver é sempre um grande espetáculo e o show não pode parar.

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