Mariel Fernandes

Vistas do meu Ponto

A respeito do tempo

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O absurdo que viraliza, a bolsa que oscila, o saldo do seu Visa. O Bolsonaro, o próximo carro, o espanto, os cursos de Esperanto, o sossego, a continuação de O Segredo, o último Kung Fu Panda, o próximo show do Wando. O escândalo da hora, a hora, o tempo, a parada militar, a primavera árabe, Lula e todos os ídolos de araque, o casual sorridente e o sisudo de fraque.

Aquele sujeito esquisito, a lembrança dos gols do Zico, o preço do palmito, a poesia ruim, as polêmicas com o Chico, zeus e os deuses infinitos. O bem maldito e o mal bem dito, os reis, os Maias, o comprimento das saias, as notas oficiais, os combos, os hashtags e os heróis da Marvel. Esquecidos ilustres, os lustres do Titanic, os sotaques, as meninas, os homens de Marte e as mulheres do interior de Minas, os tiques, o carnê do IPTU, o samba de uma nota só.

O presente, o futuro, os bifes bem passados, os amantes, os abandonados, os farsantes, a taxa Selic, a minha Montblanc, os carinhos da manhã e as conclusões bestas, tipo a maioria das Bics perderam as tampinhas azuis. Logins, senhas, redes, conta da luz. Ultrajes, fronteiras, carro do ano, amores partidos, os mocinhos, os bandidos, as ações da oi e o selo de qualidade da Friboi. Arte, bondade, emprego, verdade, ego, usinas, aviões e sossego. As latas, o luto, a esquerda os reaças. Tudo vai, tudo cai, tudo passa.

 

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Cheiro de terra molhada

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Toda vida nasce original, cheia de perguntas, repleta de saltos sobre o impossível. É aos poucos que vamos nos tornando uma produção em série, tomando partidos, partindo de nós mesmos, repetindo refrãos e repartindo certezas absolutas.

Tudo nascimento é uma surpresa se espreguiçando, não há pressa, somos presas fáceis para os risos pendurados no rosto de quem dorme bem. Não se trata de não crescer. Falo de não envelhecer. De resistir com bom humor à tentação de ingressar no clube dos perfeitos, esse lugar que só aceita sócios que gostem de 40 tons de cinza. De respostas fáceis. Dos textos que você entende de prima. De citações da Clarice no Face. De ser de direita ou de esquerda. De escrever tudo em caixa alta. De achar normal a miséria que a racionalidade séria produz em cada esquina do mundo.

Viver é gradiente, não cabe numa equação exata, não exija lógica de uma vida feliz. Coloque uma lupa ali e você vai encontrar decisões estranhas, joelhos machucados, cicatrizes diversas e alguma infelicidade. Parece incoerente? Só no clube dos perfeitos, onde tudo é cinza, há um compromisso fechado com o previsível. A proposta dessa turma é acompanhar você, aplaudir você, entender você, orientar você. Em troca por tanta gentileza, só precisamos transformar nascer, crescer e morrer num processo monótono e sem sobressaltos. O clube dos perfeitos acredita que só uma existência sem imaginação e originalidade vai nos levar ao paraíso certo, onde nos vingaremos dos impuros.

Pessoalmente, não acredito em velas acessas a anjos intermediários. Meu Deus não faz trocas. Ele trabalha como taxista numa cidade do interior e seu maior projeto não é o amor nem o perdão. É o fato de criar almas destinadas a si mesmas, incapazes ao ódio ou ao pecado. Concordo que isso não consola muito quando você vê o amor da sua vida partir. Entendo que sorrir não é o suficiente depois de um tombo feio. No entanto, são momentos. Por mais que doam ou durem, são um instante. Acredite quando digo que há sempre um milagre em curso, a surpresa da chuva, a terra molhada, a alma de tudo surgindo. Não precisamos nem acreditar. Basta saber pra onde não estamos está indo.

PS:

Estou devendo (não nego, pago em seguida) uma crônica sobre o Opala e um post sobre o que senti ao assistir “Show de Truman”. Em breve, tudo será quitado.

Ufa

Definitivamente, sou um vexame dos grandes. Qualquer malandro com uma história fajuta me tira uma grana em sinaleiro. Da grávida parindo e precisando de uma ajuda pro táxi ao office-boy que perdeu cinquentão e conta comigo senão já era, caio em todas.

Choro por coisas sérias e estúpidas. Saudade, amor, topada na mesa, comercial do Itaú, os textos da Clarice, uma passagem bíblica, lembranças infantis, pequenas gentilezas, grandes amizades, as coisas me comovem, algumas me paralisam, outras me movem, mas eu nunca deixo de perguntar algo fundamental: viver é pavê ou pra comer?

Pode ser no cinema, uma recordação enluarada, a sensação de presença da alma amada, um som, uma convicção, um olhar límpido, aquele gol do Inter no Olímpico, definitivamente, sou a terra do fiasco. Quer cerveja mais mimimi do que a Malzibier? É a minha preferida e juro, não faço pra chocar, por pose ou por tipo. Acho que sou mesmo um esquisito, que presta atenção no joio e nem sempre escolhe o trigo. Por que? Porque acredito que viver zumpé simples, mas não é 2+2. Requinte é um requisito da simplicidade. Pressupõe se propor ao que é simples de verdade. Como pra quase tudo, há muitos caminhos pra isso. O meu não dispensa (às vezes) pão, queijo, salaminho e aquela do Roberto. Ah sim, ajuda muito se o seu amor estiver por perto. Não sei dos adequados, nem de quem padeça de certeza absoluta, ranhetice aguda, velhice doentia, indelicadeza crônica: sempre estive ao lado dos naufragados em águas turbulentas, onde nascem os bons marinheiros. Os que salvam mulheres e crianças primeiro, os engraçados, os prontos para ficar, os decididos a partir, os emocionantes, os emocionados, os amantes, os abandonados, os esquecidos, os deixados na terra dos temporais e dos absurdos. Olho para os vitoriosos do meu tempo quando o meu tempo faz aniversário. Nunca me senti tão bem jogando no time dos otários.

A única

Foi impressionante, reinou absoluta na minha vida, até entrar no rio de onde jamais sairia. Antes dela mergulhar pra sempre no que há de bom a recordar, é fundamental dizer que não haverá outra. Yara, assim com y, foi amor em todas as direções. Começou no exato momento em que a vi chegando e permanece criando memórias pelo tanto que andamos juntos. Antes do acidente que terminou no rio onde a deixei, percorremos juntos dias felizes e suspirantes. Entendimento completo, equilíbrio absoluto, uma intimidade que enfrentou, alegre e divertida, o que havia de tempo e suas chuvas, além do que existia de sol e as sedes que provoca. Não houve distância entre nós. Posso sentir agora mesmo minha mão percorrendo suas formas proporcionais, unidas por curvas e retas diversas. Sempre fomos táteis, sutis e fáceis um para o outro. Gostava de ver seus enfeites, conhecia um a um os sons que emitia e até o baque no rio, não olhei para outra. Lembro do dia exato, era um domingo dedicado à pescas no Guaíba, praia do Lami, Porto Alegre, 11h45. Chegamos cedo, sem pressa, não sabia que jamais a veria novamente. Nem que não haveria nada que eu pudesse fazer. O sol escaldante exigia Minuano, um refrigerante local, doce como cana de açúcar. Fmariel fernandes.monarcomos buscar e na volta, aconteceu o descuido. Um gesto em falso, a ponte chega, uma batida seca, ela cai no rio. Depois do susto, apareceu gente de todo tipo, eu em desalinho, sem fôlego e descrente daquela separação. Foi como chegou, causando uma surpresa. Quando meu irmão mais velho me tirou à força do rio, já tarde da noite, ninguém mais acreditava que a encontraria. E foi mesmo a última vez que vi minha primeira bicicleta, uma  Monareta Dobramatic, Yara para os íntimos.

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