Mariel Fernandes

Vistas do meu Ponto

Sempre

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Certos silêncios

silencioDiscursos são exuberantes. Eles e suas metáforas, lições, fábulas, escalas, estrofes e citações. Explicam, ponderam, transmitem, transformam. Há pra todo tipo de ambiente, circunstância ou gente. Mas alto lá, há muito dizquedizque, muito tititizmos, achistas de plantão, uma multidão teclando, blablazando, desconectados em rede. Quem ainda não reparou esse flerte entre o discurso e o falsete? Há uma intensa troca de olhares, mudanças de senhas, sinais codificados, claquetes profissionais, um acordo do clube dos perfeitos. Discursos e discursantes mantém verdades a uma boa distância porque isso mantém um mundo onde a harmonia se baseia na dissonância. Disfarçadas de eloquências, exiladas no país dos desmentidos, letras mortas, esquecidas em conversas sem tradução. Desmentidas, as palavras nos tornaram distantes, almas malditas e esquecidas do bendito que é o entendimento que proporcionam. E foi então que cada letra silenciada tornou-se um hino, um som, um sentimento, o descobrimento que viver são pontos de exclamação. Vivo descrevendo o dia da tua volta, palavra. Entre tantos, destaco. Entretanto, desacato. Palavra, pra mim, é lavra. Entre as safras, planto o muito que já passou. Te mantinham apartada de ti, palavra. Não está mais aqui quem falou.

Cheiro de terra molhada

colunaComeça do nada, o tempo seco, a terra inerte e cheia de pó. Primeiro, a brisa chega (leve, dançante e alegre, como as almas amantes). Em seguida, acontece um encontro inexplicável. É a saudade, até então exilada no céu, que se lança ao chão que só conhecia -até ali- o pó e nisso acreditava. O que ocorre é o encontro dos contrários, libertando o silêncio da escravidão das palavras. É um momento oceânico, gota a gota. Uma conversa entre a vida e seus extremos. Acontece naquele momento em que a chuva ainda não começou, mas já é chuva. Ocorre na precisa hora em que a terra recebe um líquido inesperado e agradece, num sorriso só aberto aos atentos de todos os sentidos. Quando a água toca a terra, nasce algo que é a soma das duas. É uma canção, um presente, a calma vestida de urgente, o eterno do amor revelado num instante. Uns chamam de chuva. Eu chamo de sempre.

Admirável mundo velho

mariel fernandes.releituras.alma enluardada
O carteiro gritava o nome das pessoas, fulano! E andava ruas e ruas gritando nomes, crianças o cercavam. Ele andava com um maço imenso de cartas, postais, avisos, emoções escritas à mão, algumas perfumadas. Um batalhão de coisas precisa acontecer para você receber uma carta, havia um ritual a ser superado entre suas idas e vindas, o que lhe conferia graça e aura. Nada é tão especial quanto o mistério e o tempo que leva para ser descrito.
O torcedor comemorava o nome do ídolo. Fulano joga tudo! E no próximo ano, ele estaria ali, correndo pelo seu time. Não por outras cores, mas aquelas de sempre, fulano era nosso ou deles. Não se amava dois escudos, não sem enfrentar o desprezo infinito e a vaia eterna, lembrando sempre a falta cometida. Nada é tão eletrizante nem tão manipulado quanto a fidelidade coletiva.
O professor dizia “ele veio de São Paulo”. Fulano era paulista! E todos o olhavam como se a cidade ficasse do lado direito de Marte e ele próprio tivesse oito olhos. Ser de um lugar que não o nosso, o de sempre, o mesmo lugarejo, da vila de todos, era em si só uma aventura cercada de lendas, admiração e uma certa dose de mentiras. Nada é tão longe quanto o que não conhecemos.
Os amigos cochichavam “fulano tem um Kichute”. Fulano é rico! E todos ficavam alucinados com as voltas imensas que o cadarço exigia, as travas de segurança no solado, a cor preta do produto e o sorriso vencedor do seu proprietário. Não chuteiras de várias cores, nem marcas piscantes em neon, não. Um Kichute era um marco social. Nada como a ignorância para manter certas inocências.
Todos comentavam que os fulanos estavam separados. E já não haveria lugar na igreja para ele e – principalmente – para ela. Ser divorciado era ser transformado em uma pessoa-bomba, um monstro do lago, o Sacy Pererê, um perigo para lares bem formados. E os filhos, a família, tudo desapareceria no inferno para onde Deus nos mandaria em caso de separação.  Nada como moral e bons costumes para comemorar bodas de infelicidade.
Quando penso no passado, lembro de praças com campinhos de futebol, ninguém praticava outra coisa. Recordo telegramas (uma espécie de Twitter impresso). Revivo, mas não o quero de volta, mesmo remodelado feito o New Beatle. Estive lá, vivi o melhor que pude, me transformei no que existo hoje. Olho pra trás e cumprimento o caminhante que fui e a coragem com que foi em direção a si mesmo. Entre a chegada há tanto tempo e a partida sem tempo definido (mesmo depois do susto), há o espaço do meio. Intenso, imenso, cheio. Nada como o amor do sempre para nos guiar entre o ser e o estar.

M(eu) módulo lunar

mariel fernandes.blog.sempre.crônica

Olhei a alma do mundo surgindo. Então vi, de coração partido, meu coração partindo, mas ainda assim sorri. Não sabia o que viveria, apenas vivi, um dia depois de outro dia.

Nesse tempo onde tudo passa menos as horas, fui meu barco e o porto de onde posso olhar o sol se opondo, se subtraindo, indo, renunciando à luz que possui para embriagar-se em noites onde nunca fui.

Minha saudade anda de bicicleta, é uma atleta que não se importa se tudo se contrai e o corpo dói. Não vivo ali. Vivo no que vivi. Amanheço no amor que pari. Anoitecendo, me refaço e conquisto luas e seus mares da tranquilidade. É um pequeno passo para mim. E um grande abraço para minha humanidade.

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