Mariel Fernandes

Vistas do meu Ponto

Eclipeser

mariel fernandes.lua.luz.estranho

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Ânima

beijaLembro como se o agora estivesse aqui, se espreguiçando e com tempo de sobra. Acontece quando me aproximo dos portais onde meu amor esteve, algo me ascende, se assenta e acende. É quando inexiste chance para incertezas com seus olhares reticentes e cheios de tristezas. Quando abro a porta e o portal me encontra, entro sem medo. Revejo as bolitas de gude, o carrinho de rolimã, os milhões de peixes dando sopa no açude e o colégio de manhã. Estão ali, você vê? Olha a goiabeira, experimenta as uvas japonesas, as canções, os livros, a mãe chamando para o café da tarde, a fumaça vindo da cozinha, tudo circundado por uma certeza: tem um jogão rolando no campinho ao lado da igreja.

Quando descobri a vida em seu estado permanente, percebi (às vezes surpreso, noutras confuso ou preso) que tudo se trata de uma dança. É a mesma que anima a viagem dos cometas, as piruetas dos atletas, ou que te ajuda a contar as estações pelos tipos de passarinho. Uns cantam, outros beijam flores, todos inspiram mãos dançarinas. É onde se aninham todo tipo de esperança, acho que existe um vão ligando as mãos.

Na rotina em busca de razões enluaradas para as noites insones, penso que a melhor coisa que encontrei para o tanto e para o todo é que Deus não me deve explicações. Ele é breve, se entendermos suas cataratas, rios e canções. Ouça o riso que colocou em alguns luares, sua presença misteriosa e plena em todos os lugares, o humor enorme que demonstrou nos rinocerontes e a lembrança de tudo que entregou aos elefantes. Deus é terno, eterna memória de si em nós mesmos, mesmo quando estamos à esmo.

Aprendi que esquecido ou exilado, amando o amor vindo, chorando o amor indo, tudo me trouxe até aqui. E olha só: sorrindo. Estou nem pronto nem forte, mas ninguém pode dizer que desisti. Nem que a morte plena, a vida desistente de si mesma, tenha me atingido. Olhei teu lindo farol, segui Marte e vi os caminhos sendo iluminados. Entretanto, mais preciosos do que a chuva chegando na terra molhada são os lumes que surgem do nada, gente que te empresta um riso e que vela os sonhos que não tive em muitas madrugadas.

O tempo em que estive à deriva? Não saberia precisar. Apenas aceitei como precioso o impreciso e que às vezes é preciso se mentir contente para manter verdadeiro o riso. Mas vou dizer: que noites impressionantes, que ventos formidáveis, que ilhas, que fantasmas, que piratas, que praias. Minha nossa, quantos presentes quando a vida me trouxe tuas mil ausências. Quase perdi a voz gritando “amor à vista!”. Escrevi cartas náufragas ao amor distante. Descrevi a chegada tumultuada das caravelas, a vinda dos invasores, contei o que vi, do descobrimento aos descobridores. Entendo que a hora é de um andar lento, coração incerto (não sobre o que sente, bah, mas sobre como seguir batendo) caminhos retos. Então lembro que somos pequenas histórias, somos um momento, um olhar, uma lembrança, algum esquecimento. Somos uma brisa, um terremoto, um vendaval, um pensamento. Somos um sonho, somos um pedaço, estamos de partida, vivendo na chegada dos sentimentos.

Carta aberta aos meninos da seleção

Meninos, saibam que eles chegam, devidamente acompanhados de suas certezas absolutas, Estão por todos os lados, os que sempre sabem exatamente o que fazer, como agir, o que falar. Eles tem um mantra: “eu avisei”. Não tremeriam diante de um adversário mais poderoso, mais preparado e melhor. Nem gaguejam, não tropeçam no cadarço, não têm tatu no nariz. Ele têm direito à vaia porque jamais esquecem de nada, se antecipam e são precavidos. Ninguém sabe como conseguem ter as rotas todas impressas, as conversas repassadas. Nem que tempo usam para treinar tanta sabedoria, os eles todos, esses que não fariam nada daquilo, que diriam tudo na cara e nunca, jamais teriam algum traço de dúvida.

Como será que se aprende sem o furo, sem a parte escura dos dias, sem as alegrias de um remendo bem feito? Qual virtude existe na canela sem cicatriz? Não há glória na derrota, mas pode ser glorioso o que se faz com ela. Aos 54 anos do meu segundo tempo, digo sem medo de errar: se fosse vocês, eu teria muito medo de errar. Penso que choraria antes, durante e depois do hino. Que não conseguiria entrar em campo, marcar alguém, correr. Ficaria paralisado caso 60 mil pessoas resolvessem me apoiar. Quando aos que vaiaram, acho que são um bando de traíras reunidos num amor condicionado ao sucesso. Que exigência é essa, onde só presta quem ganha sempre? Quem consegue viver sem errar o pênalti, a frase, sem perder a chave ou sofrer por besteira? Quem nunca tomou uma rasteira, não percebeu a tramoia, nem perdeu a namorada? Quem nunca teve um apagão, não soube o que dizer, esqueceu a senha na boca do caixa, soltou um pum sem querer, ou usou um sapato novo com a etiqueta aparecendo? Eu não preciso da seleção para amar ou odiar o Brasil. O meu país não fica maior se um time seu foge à luta. Torci pelos meninos e dessa vez não deu, vão brincar que essa dor já passa. Mas os donos do olimpo não perdoam o que existe de humano nas quedas, mesmo as volúveis como as esportivas. Na verdade, eles têm medo de saltar, naufragar e morrer na inanição que os mantém vivos. A vista, aqui do meu ponto, pondera que o pavor certo talvez devesse ser outro, o de existir num tédio bem decorado e com vista para o mar. Então, inexpressivos, viveríamos à salvo de naufrágios não porque enfrentamos as correntezas, mas porque evitamos (prudentemente) a aventura de navegar. Então, meninos, esqueçam os falsos comandantes, os reis do marketing, os caras dos discursos emocionantes. Eles queriam isso, justamente isso, pra poder olhar para a câmera e dizer: “bem que eu avisei”

Está escrito

enluarada

Aos covardes do amor, cem anos de solidão. Que vivam nas sombras das suas desculpas razoáveis, cheias de bom senso e justificativas plausíveis. Os conspiradores sabem por quem os sinos dobram e os abandonam, transformando a si mesmos em fantasmas da terra do nunca. Não se aventuram, por isso não se perdem. Evitam desafios marítimos, por isso não naufragam. Se acreditam à salvo das tempestades, por isso transformam a vida em sonhos de uma noite de verão.

Aos covardes do amor, uma certeza: vivem em guerra e paz com eles mesmos, são um estado de alma e escolhem ver a vida no cartão postal por acreditar que podem abrir mão da paisagem. Crendo nisso, se condenam a uma existência menor e seguem sorrindo em direção à outras vidas secas.

Aos covardes do amor a consciência de que crime e castigo andam juntos, mas não como pensam. Crime é abrir mão. Castigo é apenas sentir em rotina sonolenta o tempo e o vento passando.

Aos covardes do amor, mil e uma noites recheadas do sempre, esse que elege eterno tudo aquilo que não dura, se transformando no oposto da chama. Aos covardes do amor, a minha alegria perene. Sou o náufrago. Vivo em cidades invisíveis. Acho paris uma festa. Existo súdito de um pequeno príncipe. Escrevi cartas ao amor distante. Embarquei num bonde chamado desejo. Enfrentei mil léguas submarinas, acredito em histórias extraordinárias e num admirável mundo novo. Sobretudo não troco meu naufrágio real pela irreal que separa o velho e o mar. No fundo, prefiro ser um estrangeiro num mundo simpático aos miseráveis.

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