sobre fins

sobre fins

Anúncios

Fé, irmãos

Imagem

Gente, um pouco de subversão, por favor. Alguém arrote no teatro ou passe a mão na bunda do Papa. Por um pouco de indisciplina, está tudo muito certinho, no lugar, bonitinho, cheio de supostas inteligências, parecemos um texto do Bial. Nelson Piquet, ensina a rapaziada como se guanha no braço. Chega dessa coisa aborrecida, tipo fazendo bico, perdendo tempo, criando regras, jogos, estipulando metas, agregando valor, adorando o Eike, tremendo de medo do Roberto Justos. Salve Garrincha, fala Cartola, surja Dona Ruth Cardoso, perdoa Dom Helder, ficamos sem fé no taco da gente, até o Blater começou a nos dar conselhos sábios. Então importamos palavras e gestos, medidas, decisões, nos tornamos sérios, respeitosos, seguidores de slogans, temos opiniões razoáveis, sonhamos esquerda, acordamos direita e na real, perdemos a noção de centro. Elegemos o Tiririca e fingimos surpresa ao ver o circo pegando fogo com o respeitável público dentro. Desliguem as TVs por dois fins de semana seguidos pra ver se as emissoras não melhoram rapidinho a programação do domingo. Mas não aguentamos, aguentamos? Então dê-lhe Faustão. Volta Newmar, reencarna Sartre, orienta Dalai, estamos à deriva, perdemos a graça, ficamos sofisticados demais para simplesmente viver e complexos em demasia para viver simplesmente. Gente, cadê a turma que fez o governo tremer? Quem diria, o Gabeira se entalou na GNT. Precisamos de uma geração inteira dizendo não estudo em colégio ruim, dispenso bolsa esmola, é impossível jogar bola de gravata e Nike, eu sei quem costura suas chuteiras. Por um drible indescritível, por uma cinema incrível, por um livro inesquecível, por um governo que não atrapalhe e por ex-presidentes que consigam ir embora. Precisamos de alguns milhares de homens de muita fé, antes que esses caras que plantam montanhas achem que podem mesmo ganhar o jogo. 

O fim de tudo

Imagem

Pra viver leva uma vida inteira para viver leva uma vida inteira para viver leva uma vida inteira, muito cuidado: a repetição pode parecer interessante. É por isso que  a realidade não pode ser essa dança pavorosa dos senhores de farda, os donos da mídia, os agregadores de valor para coisas inertes. O fim do escuro é o que a claridade revela, ainda que às vezes, para entender, a gente precise rezar em alguns cantos e oferecer velas para tudo que existe de santo naquilo que não compreendemos como simplesmente natural. Transformamos a vida em algo que acontece lá fora enquanto o que somos adormece em nós. Mas não teremos êxito nisso: o  fim de tudo é a alegria das partidas inevitáveis, a saudade que deixa, o tempo vivido, ainda vívido em detalhes como esse, que você acabou de lembrar, ou que se lembrará ou que lamentará não deixar de herança para si mesmo: lembranças são fundamentais na vida . Mas nos esqueceremos disso porque o fim do amor são os sinais que traz, nos faz mensageiros de um portal. Habitá-lo exigirá mais coragem do que deixar que se feche, é o que mais acontece, é quando o mundo entristece e surgem os lamentadores dos amores perdidos, os deprimidos, o olhar fixo no que não está mais lá. Quem não honrar seu amor, verá o amor passar. E feliz, porque o fim do amor é ser feliz desde o início de tudo, quando tudo eram trevas e veio o verbo e do verbo se fez o amor iluminado, também conhecido por luz. É assim que vejo o novo ano, um novo dia, um novo projeto, um novo texto, a nova ideia, o projeto novo, o novo rumo, um novo amigo, um novo amor. Seu fim é ser totalmente surpreendente, impressionante, fascinante, contente, constante, bem dito. No fim, o fim de tudo é o infinito.

Homens, ao mar

Imagem

Todo marujo que se preza  sabe que não se reza por terra à vista. Corsários ou capitães da esquadra inglesa têm um inimigo comum: a vontade de aportar, lançar cordas, ancorar. Pra eles, voltar pra casa é alto mar, portos são um desvio. Um lobo do mar não se forma em águas rasas, precisa conhecer a força dos repuxos, os humores das correntes submarinas, a mistura perigosa entre sol e sal, a imensidão oceânica e a impressionante falta de esquinas. Um bom marinheiro não espera que suas viagens sejam feitas de sonhos, vento sempre à favor e primaveras azuladas. São inevitáveis as cicatrizes, as tempestades, a inspiração de sagres e as lutas inesquecíveis com os deuses de todos os mares.  Só então, depois de  rufados os tambores, Tufão separa entre os lutadores os melhores. É assim que os deixa singrar suas dores e contar histórias sobre tesouros escondidos em ilhas inacessíveis aos conformados de água doce. Nenhuma sorte aos resignados, aos sepultados em si mesmos, aos que vivem à esmo do que sentem. Abandonados, náufragos, solitários, renegados, perdedores, esquecidos, perdidos, ressentidos, sem pátria, exilados, enganados, estejam certos quanto aos mapas, rotas, guias e todo tipo de instrumento disponível à navegação. Serão imprecisos, mas fundamentais. Farão surgir histórias de conquistas e aventuras, ventos e vendavais. Soltar amarras, içar velas, enfrentar o medo e deixar o cais. Lá vamos nós, tripulação improvável de um tempo formidável, capaz de enfrentar os elementos, os transformando em um tremendo instante, transatlânticos sonhos, plenos de descobertas, muito além das ilhas desertas, um lugar nosso, nele não seremos intrusos. Enquanto ele não chega, homens, aos mar. Homens, ao mar, marujos.