Mariel Fernandes

Vistas do meu Ponto

No topo

” Uma das coisas mais estranhas, de todas as que acontecem? Eles crescem ” (Dicodallma)

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Ela é um arco

” A saudade dói como um barco
que aos poucos descreve um arco
e evita atracar no cais” (Chico)

A ilustração é de um artista que tem como primeiro nome Adão. É tudo o que sei dele, achei bonita a imagem que -de imediato- me levou para a mais bela tradução de saudade que conheço. A palavra é linda e bem poucas culturas são capazes de traduzir em letras este sentimento. Não é um “sinto sua falta” e tão pouco se refere a um vazio. Saudade é mais cruel do que sentir falta e não pode ser um vazio justamente porque nos preenche. Chico, que é o Chico, nos mostrou em “Pedaço de Mim” tudo o que a saudade devasta, chora, implora ou sorri. Saudade não é triste, é um pedaço como sugere o título da canção, o que torna Buarque de Hollanda um sujeito a ser visto, ouvido e dito buana, buana. Importante não confundir melancolia (mais reflexiva, como um pensamento numa cadeira de balanço) com saudade, uma anti-ponte, que nos reafirma o desligamento do que vivemos a partir de algo ou partilhamos em algum momento com alguém. Há quem sofra  de saudade do cachorro, de um determinado tempo, dos Beatles ou do Médice. Mente quem diz que não tem saudade de nada. Não sabe, mas tem. Da infância, do jeito que ele ou ela sorriam, dos filhos pequenos no colo e deles grandes na escola. Saudade são as Mães da Praça de Maio, pedindo seus anjos em praça pública. Passou tanto tempo, mas quem se importa? Saudade se alimenta dos dias de falta. Saudade não é voltar no tempo. É saber que o tempo não volta. Os passeios naquela rua, o encontro entusiasmado, um casal de namorados, a conversa longa, o entendimento fácil, que saudade te acompanha? Uma dancinha, o jeitinho de menina, o futebol de rua, o frio na barriga na primeira vez de um tobagã, a cozinha de casa, a fumaça da lenha, um carrinho de rolimã. O primeiro prêmio, a bicicleta branca, uma vida franca é cheia de saudades porque segue, é inerente. A ilustração de Adão mostra um homem sem face, num barquinho frágil no meio do oceano. As cores não são nítidas e a falta do sol indica fim de tarde. É uma boa hora para sentir saudade.

CRBio plantando sementes

Dir de arte Danilo Olympio, atendimento Katia Barbieri, dir criaçao e textos de mariel. A peça “comemorava” com ares pouco humorados o dia da árvore. Setembro do ano passado. Se vc clicar na imagem, ela fica maior. 

O amor tem raízes

***

Todo mundo devia amar uma árvore. Um cachorro, um gato, um chiuaua é mais fácil, acho. Uma árvore de estimação não ronrona, não se esconde embaixo do sofá nem abana o rabo. Mas te ensina a apreciar o tempo e, mais que tudo, te lembra da infância em seus galhos que sustentam lembranças do pedaço mais inocente da existência. Tenho sorte: há duas árvores em minha vida. A Japa dava “uvas japonesas”, delícias entre o doce e o nem tanto assim. Ela ostentava um galho mais forte, cabiam dois ou três moleques ali, confortavelmente instalados e normalmente bem suados. Era baixinha, mas encarou ventos de mais de 100 por hora, me protegeu do sol, me escondeu, me tornou mais alto e deixou raízes de coisas boas, lembranças entre o doce e o mais doce ainda. A árvore da filosofia aconteceu por acaso. Estava voltando de um treino de bicicleta, super cansado e extremamente feliz, havia obtido o índice necessário para a participação em um corrida que nem sei mais qual foi. Então a vi, a terceira à direita de quem vai. Tem uma altura boa e recebe como poucas, com seu tronco que parece feito para amparar as costas. Duas raízes saem da terra e formam um descanso inigualável para os braços. Ali estive feliz pelo amor aportado e triste pelo amor que segue suas viagens. Entre livros e cigarros, silêncios e canções, minha árvore acompanha essa alma intrigada e curiosa por todo tipo de vida que há. Retirou-me tantas dores e acalmou tempestades de tamanhos diversos apenas estando aonde estava, a terceira árvore à direita. Passo por ela às vezes e nos sabemos um do outro, confidentes de florestas dos sentidos que damos à vida que vemos passar, eu a a árvore que me acompanha. Nas manhãs de domingo, nos fins de tarde entre segunda e sábado, ela está lá e tem a pouca eloquência dos sábios, o calar dos prudentes, as raízes profundas do sempre.

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