Resumo

Cheguei pra mim e disse o que precisava na minha cara. E o que eu queria era um tempo sem que eu ficasse atrapalhando com minhas opiniões, olhares e desejos. Ofereci e aceitei um gole de Malzebier pura e gelada e pensei comigo que estamos juntos há praticamente 61 anos, É tempo ou não é? Sabia que em algum momento me surpreenderia com um pedido desses. Mas me olhei nos olhos e percebi um cansaço geracional, uma preguiça cósmica, o sentimento ancestral que mais parece um vanerão com toque de rap.. Peguei minha mão e me autoproclamei em estado de ócio. Enquanto não acordo, sonho com rumos. ***

10

Tirei essa foto na Praça do Por do Sol, hoje. A simetria, a cor, a composição e os detalhes da florzinha me chamaram a atenção. Pensei nas tuas falas. Torci para conseguir uma foto centralizada, desejando um encontro contigo. Pensei nos teus silêncios. Aprendi a tocar “Canto de um povo de um lugar”, onde chega a tarde, a Terra cora e agente chora porque finda a tarde. Pensei em te fazer rir e chorei. Uma saudade, os impedimentos, o tanto que é. O encontro. Os deslizes. Pensei no teu nervosismo. E no meu, cada vez que te vejo. Hoje tem Inter na Libertadores e fiz meus primeiros 10 quilômetros de pedal. É um avanço e tanto. Então quis te ver pra ficar nadando do teu lado. Olhei pra você. E disse o que sinto todo dia. ***

Outrossim

O significado de outrossim é algo como “igualmente”, “também”, “além disso”, “do mesmo modo”. É um advérbio, sei. Faz muito tempo que não uso outrossim. Vou mais na linha “além disso”. Vai ver porque a origem do termo é erudita e eu vivo com maior constância no popular e corriqueiro. outrossim é um elemento de coesão, serve como ponte para continuar uma ideia. Coesão é aquilo que une, não é interessante o quanto outrossim funciona bem? Olhei a palavra, tirei uma letra e quebrei o termo em dois. Por que em dois? Porque assim encaixa no meu raciocínio. Ficou “outro sim”. Tem o mesmo som, mas é outra coisa, representa algo diverso de outrossim. O ponto aqui é que a sonoridade e a circunstâncias me fizeram ver que raramente agimos dizendo sim ao outro. Sim no sentido de existência, valores, necessidades, expressão e visão de mundo. Queremos convence-lo, torna-lo do clube a que pertencemos, à igreja que nos consolamos de Deus, a ter nossas opiniões, a concordar conosco e a existir para confirmar nossos modelos pessoais. Não se trata de empatia com alguém do outro lado do balcão na vida que, às vezes, dividimos. Se trata de algo mais sutil e com uma um definidor menos estético do que empatia. Falo do umbigo. A sabedoria popular não é uma coisa? Criou a expressão “(…) vive olhando para o próprio umbigo”. A imagem de alguém olhando para o umbigo enquanto vive é soberana. Cabeça baixa e visão 100% prejudicada, falta de senso de direção. Não quero convidar ninguém a ver os dias a partir do que os outros desejam, querem, sonham ou pedem. Quero refletir sobre quanto aquilo que sinto, penso, faço, declaro, acredito, creio, temo ou percebo interfere com maior ou menor violência na vida do outro, qualquer outro. Entende o que digo? Empatia seria aquilo que faço por cultura ou educação e se molda no limite dos esforços que despendo para compreender os valores alheios a mim. Mas não é empatia o ponto. Ela, quando se transforma em consciência, pondera qual é o impacto pessoal sobre a existência do síndico, do filho, da professora, do marido, do motorista do Uber, da mãe, dos grupos de pagode, da mulher, do tio, até o Bolsonaro entra na listinha. Não compreender o outro, mas respeita-lo. Observa-lo com delicadeza para entender o que possa lhe fazer bem. Ouvi-lo com o prazer de uma platéia atenta. Não pelo outro, mas por nós. No fundo, no meio e no início, é por nós que devemos enxergar o outro e abraça-lo como se aquilo fosse nós ou nosso. Afinal, é. Não, isso não significa fazer o que o outro quer, pautar-se pelo que o outro pensa. Devemos ser originais sim. Desenvolver padrões próprios e nos guiar pelos parâmetros que julgarmos adequados. Mas essa equação só fecha se o outro é visto em sua grandiosidade. Não pensei nisso por me sentir invadido ou desconsiderado. A ideia me veio porque invado e desconsidero o outro em seu direito de escolha, gostos pessoais, cores preferidas, autores, ideias, considerações, vestimenta, profissão, talento, cor, gênero e raça. Das micro relações aos macro relacionamentos com minha comunidade, uso mais o umbigo do que a consciência. Está assim, na primeira pessoa, porque não quero que isso pareça um texto de autoajuda, aconselhamento, essas coisas. Não. Desde que comecei a ouvir “Praia dos Ossos”, um podcast que recomendo porque fala sobre machismo, feminismo, hipocrisia, cultura de época, costumes. Outrossim, “Praia dos Ossos” remonta em 8 capítulos como viveu e por quem morreu Ângela Diniz. Seu algoz, Doca Street, tinha uma linha de defesa para um ato indefensável e isso quase colou. Era o umbigo armado. Umbigos se magoam, não se olham, não podem enxergar, estão de cabeça baixa. Quanto eu uso a lógica Doca Street para justificar meus atos? Eis a manga a ser chupada. Nossa, Que Saudade da gente. Outrossim *** e sempre.

Ding Ding

O primeiro soco assusta muito e dói. Depois, só dói e assusta. Na sequência, a reação natural some, há uma conformidade, o entendimento que o nocaute virá.  Você puxa, mas o ar não vem. Preciso fugir dessa direita, você pensa. Mas a pancada entra como que dizendo “se não for hoje, é amanhã”. Preciso fugir dessa esquerda, você conclui, junto com outras frases cortantes. Quero comprar um casal de pinguins, você diz para um vendedor de salsas cubanas, já zonzo. É o sinal que você não raciocina mais, o coração vira uma azeitona e o endereço de casa é um reino longe, longe daqui.

Então não se sabe mais porque se diz o que se diz ou se faz o que se faz. Há braços defendendo o corpo, mas alma, quem entende? Abraços são cancelados, a exaustão tira o chão do lugar, a gravidade te convida e o contato do teu queixo com a luva que argumenta tira tudo da lógica e do lugar. Você quer descansar, procura o seu lado do ringue para cair em paz.

Tudo pesa tanto, será mesmo exagero? Não pode ser exagero, os cortes não são pequenos. O seu famoso jab está tocando jazz em algum bar que fica na esquina entre o você-passado com a você-cancelado. O direto de direita não resolve e o monstrengo na sua frente saltita como se tivesse 17 anos. Ele tem 17 anos, não é possível. O cansaço te faz lembrar da ternura não reconhecida. O suor te recorda que você falhou e agora alguém que você ama está só e sem experiência num lugar onde não deveria estar. Ainda nas cordas, você tenta se convencer que avisou sim, que convidou sim, mas não sabe ao certo, é confuso.

Enquanto uma saraivada de golpes entra no rosto, fígado, costelas e rim, a esperança ganha a forma de gongo. Plaft, zupt, scrum. Tudo acaba ali, para recomeçar em dia sem prazo? Qual o prazo desses dias que não terminam? Enquanto isso, a surra não tem fim, a campainha não toca, as pernas bambeiam, o medo jorra e os olhos ficam inchados. Deitar ali seria um alivio, mas não há alivio. Há, mas não você não tem acesso. Não dá pra ligar, é preciso ficar ali e você sabe que agora é uma questão de tempo. As pancadas aumentam e parece que você escuta “preciso ficar com ele”. Algo jorra e você entende “quero ficar com ele”. Alguma coisa na perna não obedece mais e você ouve “vou ficar com ele”. Agora o barulho é dentro da sua alma, não há corpo disponível e mais uma cerveja seria bom. Então tudo fica escuro. A espinha se curva, o joelho não suporta e o que dói de verdade é não ter ficado de pé só mais um pouquinho, ver mais um pouquinho, escutar mais um pouquinho. Mas o cansaço bate. A realidade bate. A saudade bate. A vida bate. É tudo peso pesado. É tudo tão sincopado e a lona está ali, acolhedora e confortável. A toalha corta o ar pesado. Faz uma curva imaginária. Nos encontramos no tablado, digo para a toalha que voa.  Quero essa toalha, parece tão limpinha. Então o gongo toca. Dormir tem suas vantagens.

Sindrome

Dormi estranho, fazia tempo que não me deitava com esse sujeito tipo quieto e sonâmbulo. Estava tão cansado, mas por dentro, uma falta, um incômodo, mas não queremos falar sobre isso, claro que não.  Na verdade, não queria conversa, nem afeto ou consolo, apenas que o sono viesse, fazendo o que vem fazer. O silêncio me abraçava e era bom, apesar de ser horroroso com sua barba cerrada.

Fiquei me perguntando algumas vezes o porque de não mandar pra mim o pedido de localização ou de socorro. Teria ido a pé, enfrentado índios, tornaria plana a região toda, venceria cowboys e chefes do tráfico. Me respondi que se pede ajuda a quem se deseja fazer tal pedido, um pedido de ajuda, um me ajuda que estou pedindo. E não foi pra mim, porque seria? Cheguei a tantas conclusões que uma delas me colocou pra dormir e dormi estranho, fazia tempo que não me deitava com esse sujeito tipo quieto e sonâmbulo. Recusei sonhos, adormeci para parar um pouco de sonhar ou sentir. Hoje, o que quer que encontre será fácil, escrito ou falado. Dito ou calado, não importa, desde que seja simples. Lido ou ignorado, apenas será coisa ou outra e seus motivos. Sem culpas ou perdões, dedos apontados, nada. As horas serão vindas sem espera, agenda, trabalho, códigos ou senhas. Lentas ou apressadas, serão as minhas, ninhos ou ruas, minhas. Danças ou duras, minhas. Sem pensar se virão, se têm um trabalhão danado por 15 minutos, hoje não serei justo ou ponderado. Vou passar o dia ao meu lado. Tomara que consiga ser boa companhia. Farei discursos, todos curtos até às 8, há um tempo máximo para as promessas. Depois acho que uma cerveja. Hemingway ja disse que bebia para que as pessoas ficassem interessantes. Eu, pra que o sono venha antes.

Meu dia da árvore

Assim que chego, me pergunto se ela estará lá, é uma dúvida contínua, quem sabe injusta. A aproximação é sempre cautelosa e alegre, uma mistura de foto e síntese do abraço longo que trocaremos. Reapresentações feitas, entendimento renovado, saudade revista e ajustada no carinho que recebo, único capaz de transformar a toxidade que nos separa em raiz, constância e silêncio que dividimos. Você tá bem, benzinha? Gosto tanto.
O lago não tem casa e não reflete belezas, exatamente. Mostra mais o belo que sobra pra se ver, enorme ainda. Mas confuso entre pedra e pó. Até os gansos estão entre curiosos e em duvida. É o lago que reflete a cidade ou o que acontece é o contrário disso? Não sei, mas rezei e tu estavas ali, eu que gosto mais um tanto.
Num canto, bichos alados avuam, em nados sincronizados. Rasantes, costuras, zig zags e nenhuma multa com que se preocupar. Nossos anjos da guarda municipal não têm asas, ainda bem. Pedi aos outros que cuidassem de ti. E se não fizerem isso, lhes arranco as penas.
É um amontoado de água, uma toada de sons esgarçados, sem tanta graça e vindo das garças. Se alguém jogar um pacotinho de pipoca, a bicharada, peixes inclusos, ficará em estado alfa de agitação, mas logo passa. Como tudo que te ou me preocupe. Fica calma, allminha. Tudo está bem cuidado.
A gente celebra o fim do dia, como canta Caetano. Que ele tenha sido de sonhos e de cura.
A noite chega, traz a hora das horas escuras, além  de saudade tua. Fico bem ao teu lado, de onde não saio faça sol ou faça lua. Sim, claro que amo.

O lapso

Um dia nos pesquisarão, tenho certeza. E será um problema, porque em uma das transversais do tempo em que nos transmitimos, todos os arquivos de cada coisa do nosso instante terá sido extraviado. Nenhum backup, nuvem, pendrive, discos rígidos, documentário, nada. Restará a transmissão oral, feita por um velhinho que fala búlgaro, o conhecimento de uma época que chamarão cautelosamente de “o lapso”.

Um por um, os pensamentos serão fragmentos de lembranças, memórias lá longe, olhares idos. Sabe a roda que você vê em quase tudo, de carro a estações espaciais? Então. Isso já foi uma invenção história, de um mundo que desconhecemos, nem velhinhos que falem em búlgaro temos pra saber. Escrita, disquete, vacina, telégrafo, trincheiras, canhões, Oldisséia, relógios, luvas, aviões, Dumont, Drumond, Sigmund, anestesia, platão, Sartre. Brinco, nexo, prisão em 2ª instância, paraquedas, cavaquinho, vinil, Amazon, violão, garrafa, Berlim, Veríssimo, jardins suspensos da Babilônia, água tônica, Tônia Carreiro, 19 de fevereiro, peste negra, lápis de cor, apontador, mouse, lentes, closet, gripe espanhola, Rússia, pia, marcos de todas as naturezas, cubas, feiuras e belezas. Tudo que somos agora (que logo será tudo que fomos) precisa ser realmente tocante, tocável e emocionante. Não para que dure, mas para que exista em seu momento, para que não o tornemos resistentes e ausentes ao existente. Todos o homens e mulheres importantes, a Escola de Sagres, o que sei e o que sabes viaja no instantinho que é do tamanho impermanente de um olhar cruzado.

Se saibam

Ah, os existencialistas que esperam que a gente defina quem somos para que a própria humanidade descubra quem é. Não o que desejamos, o que sonhamos, mas o que fizemos. Nossas renúncias, textos, risos e falhas. Os vacilos, os brilhos, as mulheres, os maridos, os amores nos vãos criados para que permaneçam quentinhos. O melhor pedaço de um sanduba oferecido a um estranho, o melhor momento da juventude ofertada a um filho, Os sustos calados, o riso mantido, a coragem de gostar de si apesar de tanto a fazer. Se saber medida livre, régua perfeita no que há de humano, profano, profundo, estranho e mundano. Um dia nos pesquisarão, tenho certeza. Que o velhinho búlgaro diga aos perguntantes que fomos mais do que o bastante. Que trocamos de lugar para conhecer imenso do outro. Que muitas vezes não nos escolhemos e que choramos por isso. Que todos os dias nos amamos e celebramos a isso. Que ao viver, vivemos. Que nos protegemos um ao outro. Que nos vimos e que nos temos. Que no instante que somos, nos amamos e bebemos da água limpinha do sempre.

Entre

Na esquina de todas as ruas que vivo, há um artista que tece presentes improváveis. Um pacote de suspiros, uma lata de vontades, várias duchas de água fria, um pé de alegria, todo tipo de prece pra qualquer desejo pendente.

Entre em portas entalhadas por mãos habilidosas ou pelo tempo que as torna hábeis e estarás de frente pra todas as ruas onde piso descalço. Ali lembro de ti se faz sol ou quando chove um pouco, bem mirrado, um trapo de água doce, um naco fino de uma noite aguada, um veio dos diamantes azuis e seus brilhos silenciosos.

Já disse hoje? Já dei sinais, acendi fogueiras e subi na arvinha que a gente tem. O certo é que estou ali, onde parece que adormeço mas o que faço é vigiar a noite para alma que amo encontre o sol, brinque na rua e se quiser dormir, esteja tudo bem.