Amarelo

Não é lindo como a passagem das coisas pinta o tempo de amarelo? O nome da cor é a menor poesia existente e um resumo genial do que nos acontece. Amarelo é uma mistura e uma união. Trata-se da soma entre amar e criar elo, estabelecendo laços, daí sua beleza e capacidade de chamar atenção. Parece que é o tom da alegria, algo que ascende nos amantes e os acende em afetos, delicadezas e risos fáceis. Viva, entusiasta, cheia de si, é girassol e o próprio astro em nossa imaginação. Qual característica tua merece um destaque em amarelo? Acho que é a capacidade de encantar pelo acolhimento amoroso, você e os seus carinhos que abraçam a alma. Que adotam árvores, batizam praças, fazem do sempre um até, que vão e vem. Que cada vez que vais, parte de mim um pedaço amarelo e solto do dia. Quando vens, é a festa do retorno, um pulo feliz no que criamos de infinito e simples. Nossa humanidade se troca numa permuta permanente, afetando o que vemos, orientando de onde viemos, mapeando onde estamos e construindo para onde vamos. No fim das contas, as cores de tudo que dão forma ao que temos estarão num quadro bonito. Será gostoso apreciar, mas não esqueça: isso será sempre uma pequena parte da obra toda. ***

Costura

O que mais atrai nela, me pergunto. Penso nas nuances e curvas, as sugestões, as delicadezas, a afirmação, a beleza. Não é melancólica, nem tem alegria em excesso, apenas chega e chegando, fica. Bica, pergunta, se apresenta e vem. Quem a recebe, bebe de outra bebida, nada em outras águas, lembra de novas vidas, tece sua própria moda. Ela é “A Linha e o Linho”, algo que Deus soprou pra Gil, que sentiu que ali o encontro do lindo com o simples. O arranjo de sopros e cordas é uma delicadeza só. Quem puder, ouça o poema de mãos dadas, nem que seja consigo mesmo. O presente de hoje é ela, “A Linho e o Linho”, cantada em um especial que reuniu o próprio, Caetano e Ivete.

Tarsila do Amaral

Manhãs ou fins de tarde, somos partes. Formamos imagens, pedaços soltos, choros em festas estranhas, dança de pijama, transitamos entre alardes, somos partes. Pontos entrelaçados, estamos em cada quadrado, nos montamos, um por todos e todos do outro lado. Moldamos homens de Vênus, mulheres de Marte, somos partes. Trazemos a pessoa amada, trançamos pernas, olhamos fundo, sentimos muito e algumas algumas vezes citamos Sartre, somos partes. Assinamos peças, ensaiamos mitos, nos olhamos dentro, aprendemos a dança da chuva e que a vida é fogo que arde, somos partes. Somos passageiros, nos vemos de passagem, jogamos sinuca, nos confessamos e rimos porque alguns encontros alegram. Ou porque amores são amizades com arte, só precisam de um minuto para que fiquem à vontade, para que vivam bem-vindos, para que façam parte.

Resposta

Sobre canções e as lições que trazem

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“Eu, passarinho”

“Desfaz o vento o que há por dentro desse lugar que ninguém mais pisou”. Assim começa a bela, melancólica e quase enigmática canção “Resposta”, uma parceria de Nando Reis e Samuel Rosa. A letra, inspirada pelo fim do relacionamento de Nando com Marisa Monte, é um folk gostoso de ouvir e foi lançado lá em 1998, pelo Skank.

Nei Matogrosso é o protagonista disfarçado de passarinho em um poema famoso de Cazuza: “eu protegi seu nome por amor, em um codinome beija-flor”.

Com versos maravilhosos que começam com um calmo “ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida” Cartola deu um jeito de explicar à filha que o mundo é um moinho. A canção era um poema-pedido (não atendido, aliás) para que ela não saísse tanto de casa.

Sartre não acreditava em Deus, mas levava a maior fé nos homens: “é como se toda a humanidade esperasse por nossas escolhas para definir quem ela mesmo é”. Da física quântica à chave de fenda, não há o que não me surpreenda. Mas entre tantos entretantos, me impressiona mais que tudo a capacidade humana de drenar suas dores, expressar prazeres, lamentar perdas, festejar conquistas, questionar, responder, acalentar, aprender e ensinar com a delicadeza das almas sensíveis. Um dos discursos motivadores mais legais que já pude ver aconteceu no vestiário do Inter, antes da partida contra o Barcelona, em 2006. O senso comum, chegou à decisão óbvia, como todo senso e todo comum: meu colorado perderia, a questão era apenas saber de quanto.

Antes de entrarem em campo, os jogadores viram um filme, onde por efeito especial, os goleiros, zagueiros, meio campistas e atacantes históricos do clube se somavam a eles na partida decisiva. Falcão, Manga, Tafarel, Carpegiane, Dario, Figueroa, Valdomiro, Escurinho, Claudio, Mauro Galvão, tantos e todos. A locução afirmava que eles não estavam sozinhos contra o mais poderoso time do mundo. Que, junto com aquele time, jogaria uma torcida imensa e aqueles que conquistaram o título mais importante de todos: a reverência e o respeito dos apaixonados pelo inter. Que contra a vontade colorada, o Barça estava perdido. E perdeu. Não sei quanto daquele último discurso influenciou os atletas. O fato é que naquele dia o mundo deixou de ser azul para tornar-se vermelho.

Acho que isso aconteceu porque o tempo abre seus portais para quem está disposto a fazer história. A se arriscar por uma causa, a seguir em frente, a viver a intensidade das coisas. A amar algo ou alguém com a força da verdade que liberte para si mesmo esse algo ou alguém. Pode ser um novo emprego, uma carreira que se inicia, um nascimento, uma fórmula, um aplicativo, o campeonato, a viagem para o estrangeiro, o livro. Pode ser comandar a equipe, o departamento, a empresa. Pode ser um movimento, salvar o polo, limpar os rios, amar uma árvore, não comer mais carne. Pode ser qualquer coisa: se a gente quiser, o portal se abre e escrevemos uma história no sempre.  Ainda era bem jovem quando li algo que me impressionou, que dizia algo mais ou menos assim: “Um dia, é inevitável, você vai encontrar-se consigo mesmo. E não depende de mais ninguém que esse seja o momento mais pleno da sua vida”.

Nando fez uma canção ao final de uma caminhada. Cartola fez um convite não aceito pela filha amada. Cazuza protegeu alguém e seguiu adiante. Sartre desafiou Deus. O Inter venceu os deuses. Não se trata de heroísmo, mas de nos mantermos humanos e ternos. É assim que deixamos de ser instantes e nos transformamos em eterno.

 

PS ao Corintiano Voador, que ouvindo Enluarada entendeu o instante eterno: grato por me traduzir tanto.

 

Ensaio Crítico Sobre Tendença

Cricri, o crítico
Ele é prefeito, vereador, ex presidente da Liga da Justiça. Atualmente vem sendo muito utilizado como meio campo, mas nunca se sabe.

” Há todo um expressar, entende? Dá pra ver de imediato que trata-se de um impressionante representante da Escola de Kotescusturá, que se movimenta espontaneamente por perto e próximo, algo evidente pelas formas, ângulos e notas fiscais. É também  um entendimento de quem entra, sai ou fica com muita facilidade no meio extremado do entre uma coisa ou outra, talvez ou certamente ambas. Nada é certo,  é o que não parece, a não ser – possivelmente – o Newmar. Merece nota os tons de golfismos, muito presentes pela ausência de um substrato qualquer. Ou, como diria Pelé, “entende?”. Finalmente o metaquântico espírito de  Joseph mouth the goat vai se manifesta para que o espectador médium perceba o espírito da coisa. Não esquecer e levar em conta que trata-se de uma obra Ilza Carlística por ocupar com autoridade um espaço enorme. O artista faz um passeio perturbador e estrondoso num mundo estranho, onde consegue unir em uma mesma tela (acho que é uma tela), o melhor de Marisa, Luiza e Renner, ainda que apenas essa última realmente faça tudo em 12 vezes no cartão “