Costura

O que mais atrai nela, me pergunto. Penso nas nuances e curvas, as sugestões, as delicadezas, a afirmação, a beleza. Não é melancólica, nem tem alegria em excesso, apenas chega e chegando, fica. Bica, pergunta, se apresenta e vem. Quem a recebe, bebe de outra bebida, nada em outras águas, lembra de novas vidas, tece sua própria moda. Ela é “A Linha e o Linho”, algo que Deus soprou pra Gil, que sentiu que ali o encontro do lindo com o simples. O arranjo de sopros e cordas é uma delicadeza só. Quem puder, ouça o poema de mãos dadas, nem que seja consigo mesmo. O presente de hoje é ela, “A Linho e o Linho”, cantada em um especial que reuniu o próprio, Caetano e Ivete.

Tarsila do Amaral

Manhãs ou fins de tarde, somos partes. Formamos imagens, pedaços soltos, choros em festas estranhas, dança de pijama, transitamos entre alardes, somos partes. Pontos entrelaçados, estamos em cada quadrado, nos montamos, um por todos e todos do outro lado. Moldamos homens de Vênus, mulheres de Marte, somos partes. Trazemos a pessoa amada, trançamos pernas, olhamos fundo, sentimos muito e algumas algumas vezes citamos Sartre, somos partes. Assinamos peças, ensaiamos mitos, nos olhamos dentro, aprendemos a dança da chuva e que a vida é fogo que arde, somos partes. Somos passageiros, nos vemos de passagem, jogamos sinuca, nos confessamos e rimos porque alguns encontros alegram. Ou porque amores são amizades com arte, só precisam de um minuto para que fiquem à vontade, para que vivam bem-vindos, para que façam parte.

Resposta

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“Eu, passarinho”

“Desfaz o vento o que há por dentro desse lugar que ninguém mais pisou”. Assim começa a bela, melancólica e quase enigmática canção “Resposta”, uma parceria de Nando Reis e Samuel Rosa. A letra, inspirada pelo fim do relacionamento de Nando com Marisa Monte, é um folk gostoso de ouvir e foi lançado lá em 1998, pelo Skank.

Nei Matogrosso é o protagonista disfarçado de passarinho em um poema famoso de Cazuza: “eu protegi seu nome por amor, em um codinome beija-flor”.

Com versos maravilhosos que começam com um calmo “ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida” Cartola deu um jeito de explicar à filha que o mundo é um moinho. A canção era um poema-pedido (não atendido, aliás) para que ela não saísse tanto de casa.

Sartre não acreditava em Deus, mas levava a maior fé nos homens: “é como se toda a humanidade esperasse por nossas escolhas para definir quem ela mesmo é”. Da física quântica à chave de fenda, não há o que não me surpreenda. Mas entre tantos entretantos, me impressiona mais que tudo a capacidade humana de drenar suas dores, expressar prazeres, lamentar perdas, festejar conquistas, questionar, responder, acalentar, aprender e ensinar com a delicadeza das almas sensíveis. Um dos discursos motivadores mais legais que já pude ver aconteceu no vestiário do Inter, antes da partida contra o Barcelona, em 2006. O senso comum, chegou à decisão óbvia, como todo senso e todo comum: meu colorado perderia, a questão era apenas saber de quanto.

Antes de entrarem em campo, os jogadores viram um filme, onde por efeito especial, os goleiros, zagueiros, meio campistas e atacantes históricos do clube se somavam a eles na partida decisiva. Falcão, Manga, Tafarel, Carpegiane, Dario, Figueroa, Valdomiro, Escurinho, Claudio, Mauro Galvão, tantos e todos. A locução afirmava que eles não estavam sozinhos contra o mais poderoso time do mundo. Que, junto com aquele time, jogaria uma torcida imensa e aqueles que conquistaram o título mais importante de todos: a reverência e o respeito dos apaixonados pelo inter. Que contra a vontade colorada, o Barça estava perdido. E perdeu. Não sei quanto daquele último discurso influenciou os atletas. O fato é que naquele dia o mundo deixou de ser azul para tornar-se vermelho.

Acho que isso aconteceu porque o tempo abre seus portais para quem está disposto a fazer história. A se arriscar por uma causa, a seguir em frente, a viver a intensidade das coisas. A amar algo ou alguém com a força da verdade que liberte para si mesmo esse algo ou alguém. Pode ser um novo emprego, uma carreira que se inicia, um nascimento, uma fórmula, um aplicativo, o campeonato, a viagem para o estrangeiro, o livro. Pode ser comandar a equipe, o departamento, a empresa. Pode ser um movimento, salvar o polo, limpar os rios, amar uma árvore, não comer mais carne. Pode ser qualquer coisa: se a gente quiser, o portal se abre e escrevemos uma história no sempre.  Ainda era bem jovem quando li algo que me impressionou, que dizia algo mais ou menos assim: “Um dia, é inevitável, você vai encontrar-se consigo mesmo. E não depende de mais ninguém que esse seja o momento mais pleno da sua vida”.

Nando fez uma canção ao final de uma caminhada. Cartola fez um convite não aceito pela filha amada. Cazuza protegeu alguém e seguiu adiante. Sartre desafiou Deus. O Inter venceu os deuses. Não se trata de heroísmo, mas de nos mantermos humanos e ternos. É assim que deixamos de ser instantes e nos transformamos em eterno.

 

PS ao Corintiano Voador, que ouvindo Enluarada entendeu o instante eterno: grato por me traduzir tanto.