Mariel Fernandes

As vistas do meu ponto

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Mora na filô

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Muda

Aos Dias de Inverno

diasdeinverno.mariel fernandes

Então é assim que acontece, aos poucos e sem pressa. O coração, antes acelerado e enfrentando mato, chuva, sol, riso e vento, de repente suspende, num grito, todo e qualquer movimento e diz para. Haverá um momento de descrença, uma desconfiança, como se a surpresa fosse uma mistura imprópria do excesso de entendimento com a falta da beleza. Serão horas inacreditáveis e tristes, possivelmente a própria tristeza virá sorrindo e de dedo em riste. A tribo de todos os medos, as sobras, as sombras, o tempo das distâncias, os implacáveis ursos da terra do gelo e a alma (exilada de si mesma) caminhará zonza, tonta, à esmo.

Nas cavernas escondidas da vida, nos buracos e frestas, buscando um quentinho, unhas pretas de tanto cavar, a voz pequena e perdida das coisas caladas, desditas, desfeitas, os falsete das canções não ouvidas, a vida em loopings perigosos, os segundos flexíveis, os meses rigorosos em desprezo abaixo do zero. Também haverá o prazer que te ignora, o silêncio, o mar dos constrangimentos, os sentimento, não se iluda: o tempo vai ser de ranger os dentes.

De qualquer modo, parece que retirantes, retirados, expulsos de mil paraísos, derrotados, esquecidos, julgados, calados e abandonados são feitos de outras coisas. Não são melhores do que os outros, os que fazem outras escolhas, seguem outros caminhos, se exilam em terras mais vistosas e bebem outros vinhos. O que nos separa uns dos outros é bem sutil. O que nos põe em portos distintos é, justamente, os lugares em que somos (ou não) bem-vindos, além do tipo de porre do qual estamos fugindo.

Qualquer que seja a trama, o prazer ou o drama, o que nos coloca longe é se apunhalamos o amor naquilo que ele tem de mais sagrado, o seu significado. É o que gera em ventre frio o acolhimento indeferido, o desnecessário dito e o essencial calado.

Dias de inverno surgem, é a lei das estações na roda atemporal que nos ronda e a todos submete. Parece que é isso que mantém as alegrias acessas em suas cantorias, inspira a dança das estrelas, a viagem de células e planetas, embalando sonhos de encontrar vacinas ou amores, o que no fim é a mesma coisa. O mais bonito dos dias de inverno não são seus azuis celestes, as noites em breu completo e quase indecifrável. O mais veemente nos dias de inverno não são suas manhãs esfumaçadas nas ruas onde a vida se manifesta.

O segredo desses dias é o quanto somos capazes de festeja-los, ainda que nos diminuam a visão pelas vidraças que embaçam. O que há de mais impressionante nesses dias de inverno? É que eles passam.

(ps. Neidoca, você é a minha melhor amiga, em todas as estações.)

Cheiro de terra molhada

colunaComeça do nada, o tempo seco, a terra inerte e cheia de pó. Primeiro, a brisa chega (leve, dançante e alegre, como as almas amantes). Em seguida, acontece um encontro inexplicável. É a saudade, até então exilada no céu, que se lança ao chão que só conhecia -até ali- o pó e nisso acreditava. O que ocorre é o encontro dos contrários, libertando o silêncio da escravidão das palavras. É um momento oceânico, gota a gota. Uma conversa entre a vida e seus extremos. Acontece naquele momento em que a chuva ainda não começou, mas já é chuva. Ocorre na precisa hora em que a terra recebe um líquido inesperado e agradece, num sorriso só aberto aos atentos de todos os sentidos. Quando a água toca a terra, nasce algo que é a soma das duas. É uma canção, um presente, a calma vestida de urgente, o eterno do amor revelado num instante. Uns chamam de chuva. Eu chamo de sempre.

Palavras de lua cheia

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Essa mania escrita, a palavra dita um terno falar sobre o eterno que passa, isso me acalma enquanto desoriento as palavras. Penso um tanto nos tantos desencontros e nos desencantos que trazem consigo. Há dias esperando um bilhete, há horas aguardando mensagens, anos de aguardente, anos de guardanapos, bilhetes pra si mesmo, flores em seu nome, lembretes. Essa mania de manter a palavra alerta, o verbo atendo, a espinha reta, um treino cotidiano de não curvar-se, isso ainda me acorda toda noite, o peito ensopado, o coração ofegante, são palavras não ditas, engasgadas, impedem a passagem do ar, entopem as veias, o coração bate mas estranha a cadência, bate outra vez, tudo está por um triz, um por cento, um aprendiz, uma cena feliz, um beijo, um gol do inter, o encontro das coisas, a resposta do amor, o mar da tranquilidade lunar, a lida que tudo é lavra, o peito aberto, a lua, a terra, a vida e suas palavras.

Aos amores, vãos

Vãos são espaços onde se conversa, preferencialmente sem pressa. Ali, não há necessidade que nos abrigue ou obrigue, apenas escolhas pessoais, nem menos nem mais. Certo e errado são opiniões em cercas de arame farpado, precisam ter razão ou perdem o sentido. Portanto, por definição, errado e certo é só uma questão de lado. O amor nos recebe sem maiores perguntas e deixa partir os viajantes cujo destino não era ainda ele, por mais que assim se deseje. Todo restante dito sobre amantes, amores e amor é invenção do cinema: todo mundo vive sem todo mundo, ninguém deveria sair de casa se não pode ser feliz sozinho, felicidade é um estado pessoal. O amor é multiplição, depilação, um vão, abraço da alegria, é um contentamento, um samba enredo, não uma solução para os nossos medos inventaImagemdos ou reais. Provoca suspiros, motiva camisas novas, banhos mais demorados, os enamorados são um tipo lindo de se ver. Se ainda não aconteceu, um dia vai ocorrer e afirmo, será uma correria por tudo, por nada, por um beijo a mais na escada, um minutinho de plenitude. Viver dá muito trabalho, mas o salário compensa. Por amor, é quase tudo de graça, entende a diferença? Então não comprometa seu amor com responsabilidades que estão longe da sua competência. Seu amor não serve para fazer você feliz como nunca. Ele existe para saber você feliz como sempre. Deixe que o amar faça exercício, o mantenha em movimento ou ele vai se transformar em espelho, imagem, vício, um amar o amor prejetado, planejado, um amor sem o sentido do amor. Caminhe procurando não confundir costume com saudade, te amo com bom dia, ciúme com cuidado. Não dependa de nada para ter uma grande vida. Então, talvez, você será um vão onde seu amor pode viver tranquilo.

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