A falta que faz

Fico na dúvida quando dizem “sinto falta no máximo”. O que significa? Ter saudade de você é diferente de sentir sua falta? Quando chega o estado onde nada nada consola, é falta ou saudade? Sinto falta da ausência preenchida e saudade da presença plena de afeto. Quando tudo lembra, pede e chora, é saudade ou falta? A impressão que dá é que saudade é de algo ainda existente, como tua falta. E que falta é que mesmo não te vendo, és parte de mim, como a saudade que causas. Então, se perguntasse de que falta tenho saudade, diria teu nome, a possibilidade de ouvir ou de estar.

E então me ocorreriam conversas que fazem falta. Então lembro do teu jeito próprio de dizer coisas, que saudade. Eu sempre entendi a falta que fazes pela linguagem das saudades que trago. Tentei te ver, era saudade. Não consegui, era falta.

Como é possível gostar de alguém desde pequeno, saber desse ser, estar ali, compreender seus movimentos como quem sente a saudade e enfrenta a falta? Talvez seja isso, saudade é um sentimento e falta, um enfrentamento.

Então te digo que sinto falta e saudade e não dou de comer à esperança, que é uma espera com fé. Não espero, estou. Não creio, porque acreditar é diferente de saber, então te sei. Te sinto, como água para chocolate. E te protejo porque isso está em todos os meus idiomas a teu respeito. Tenho medo do esquecimento, de não produzir nem falta, nem saudade. Tenho confiança no tanto construído, sob a relutância da falta e a exposição à saudade. Sei falar tua língua, como entendes meus sinais. Sim, é você que nasce em mim e que renasce em nós todos os dias. Era uma pergunta fácil não porque te amo, mas porque é você. Como não ter saudade, como não sentir falta?

Não há nada no mundo que possa fazer
Eu deixar de cantar ou deixar de gostar de você
Não há nada no mundo, nem nunca haverá
De mais alto ou mais fundo
O meu canto é meu céu e você é meu mar
Duas coisas que dentro de mim
Não podem ter fim
Dois azuis no mesmo azul
Meu horizonte
Sem nuvem nem monte
Em mim o eterno é musica e amor
Eu deixar de cantar ou deixar de gostar de você
Não há nada no mundo que possa fazer
Não há nada no mundo e nunca haverá
De mais alto ou mais fundo
O meu canto é meu céu e você é meu mar
Duas coisas que dentro de mim
Não podem ter fim
Dois azuis no mesmo azul
Meu horizonte
Sem nuvem nem monte
Em mim o eterno é musica e amor

O presente de hoje é uma canção, sua letra, sua intérprete e a poesia que vem depois. Senti falta dos sinais. A saudade acentua isso. Enjoy!

Outro

Todo mundo é ao contrário, feito ao avesso, uma distopia, de ponta cabeça, diferentão, tem outro por dentro. Falamos sobre isso, encontramos um ponto, o elo perdido entre o que vemos e o que achamos que entendemos. Passamos desapercebidos e talvez os que se amem se olhem e ao se olharem, se tornem melhores. Quem sabe por isso se chame encontro. Ficamos melhores quando nos encontramos. Ganha-se um poder, acho. Entendemos outra lingua, tateamos outro corpo, criamos um idioma, definimos sinais. Só se pode gostar de alguém havendo alguém ali. Pai, mãe, tio, prima, marido, um amigo chamado Olavo. Uma pessoa que não sei. Alma que não sabemos nem nunca estaremos no lugar, um espaço dela, dele, esse outro que coletivizamos, coletamos, reduzimos e julgamos. É um outro de conveniência, o outro que precisamos. O de verdade é o que é, tem marido, meia, barriga, mulher. Negocia com o Itau, torce para o Santos, conhece São Sebastião do Caí. Reconhecer o outro é inevitável, porque somos o tempo todo outro. Anjos tortos. Santos do Pau Oco, Mayas, miragens, vertigens, dotes. Ao olhar para você enxergo outro ou uma projeção entristecida do que não sou capaz de ser. Essa é a essência de um julgamento: eu sei, tenho certezas. E você? é um outro que não sabe, um rosto, um fato de estimação, ação indevida, opinião contrária, audácia vivida, fraqueza a corrigir. Admiro isso em você, que vê no outro o que ele traz, o que foi capaz, a história escondida, a curiosidade estendida, tapete macio onde o outro se deita e descansa de um dia longo e cheio. Me enriquece isso em você, me torna maior, resgata o humano, essa ideia maluca que à medida que cresce, nos torna únicos e lindamente desiguais.

Simples

Vamos pra casa, onde é simples. Não, não disse fácil. Fácil é diferente de simples. Fácil é ter uma chave que abre a porta de uma casa, colocar a chave no local certo, girar a chave, acionar a maçaneta, entrar. Viu? Fácil, nem precisa pesquisar no Google. Simples é querer te ver ao abrir a porta e propor um brinde com água vinda de outra fonte, bebida de outra sede. Umuarama, Sampa, Assuncion, Curitiba, onde? É fácil pensar em propostas, mas não é simples nem fácil se não puder te ver ao abrir a porta, não saber o que estás fazendo, ou aquilo que te apaixona, dona de ti, plena de mim, escolha arejada, como quem se apronta e se veste de simples, é quase uma forma de casar.

Ir pra casa precisa ser simples, ninguém volta pra casa porque é fácil. Não há casa fácil, mesmo (ou talvez principalmente) para quem vive só. Simples é um portal, um estágio, não um formato, é um estado. Uma casa não é casa porque me ou te pertence, mas porque pertencermos àquele espaço e suas desarrumações, linhas retas, poltronas, cães e lugar de fala, além da sala. O tamanho importa pouco. O onde pouco importa, as casas são todas do interior, nosso interior. O que vemos fora é feito da matéria que rima com o que temos dentro. Cada coisa em seu devido lugar ou em improváveis encontros entre o pano de prato e mil homens de mil filhos e a mulher de mil livros e alguns panos de prato. Não há como se despir disso, a vida ficaria nua e crua, área muito mais para Nelson Rodrigues e suas solidões diárias. Sou menos complexo, simplesmente sigo o que persigo, como ensinou Walter Franco: “Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo“.

Não é fácil ter uma casa simples. Uma casa simples precisa de elementos não sujeitos à força corrosiva do tempo, já que tudo que é sólido se desmancha no ar, ensina o mestre do comunismo, esse mesmo tão desfeito em sua pretendida eternidade. Esqueça projetos, concreto à vista, cozinha. Essas coisas só te darão a aparência das coisas com as quais se parecem, não com algo que de fato seja de uso plural, único e perece. Use outros materiais, saia do caos se queres mesmo ter o teu lugar no cosmos em casa. Ouse, use misturas inéditas como tijolos e riso. Boletos e esquecimentos. Distração e aquecimento. Romantismo é bom, sirva com chá e torrada. Trabalho é essencial, trabalhar é bom como gol do Inter. Saber o que você não faria de jeito nenhum ajuda. Mas entender o que te mantém conflitando com o normal, isso sim leva longe. Uma casa, portanto, precisa de amor espontâneo, Nescau, fruta, chocolate, pão de queijo congelado, livro, cuidado, filmes, massa, mais livros, um lugar oficial para enrosco e diversos extra oficiais. Uma casa completa é repleta de conversa, papo furado (se diz isso ainda?), portais quânticos, olhares sagrados, encontros, desgaste, rotina, entendimento, o menos de aspereza possível. Isso deixamos lá fora, onde não há o simples como ligadura, o simples e suas belezas, o simples no sofisticado estágio da simplicidade.

Fincar estacada no simples é, como tudo, uma escolha. Abre-se mão, abre-se portões, se dá boas-vindas e boas idas, nada é estanque. Precisa ser construida de dentro pra fora, gerando o cheiro de chuva batendo na terra e o parir de sonhos capazes de transformar realidades. Escrevo o que vejo, descrevo o que penso, vivo o que te conto e não sei se tens vindo. Ainda assim, permaneço concatenando, pensando, fazendo votos, torcendo, negociando frustrações, estou à caminho de mim mesmo. É um encontro, ouço já, cheio de sons e poucas palavras, de entendimento e nenhum perdão, nenhum pecado, nada a dizer e tudo a declarar. Estou tão forte que olho o horizonte e digo “é meu”. Então surge o que me pertence e me pertence o senso, o norte, o denso, o reconcilhado, o regenerado, que me entregaste com teu amor. Não mais banido, nem naufragado, nem exilado ou esquecido. És casa. Simples assim.

O presente de hoje vem com Zélia e Faria. Dois amigos e uma casa pra cantar.

Feliz

Se alguém desejasse que eu estivesse feliz, diria que a infelicidade exige esforço e eu sou um preguiçoso. É preciso desesperança, um certo rancor, doses de mágoa e falta de amor. Essas coisas devem ser fáceis de ter (há tantos com tanto), mas difíceis de se desfazer (há tantos desejando mais). Então diria que sim, estou feliz por que não há muros e onde existem, pintamos de azul. A felicidade recebida é tanta, tão grande e aconchegante que o momento dura um instante eterno, se prolongando em afetos azulados. Receba o que há de repleto de sim e de teu: é infinito e sempre.

Mercedes diz que é triste. Não percebo assim, só vejo e sinto azul.

Bebo desse dia

Ganhei Tribalistas de presente, uma canção saltitante, dessas que a gente ouve e se apaixona, ou continua apaixonado, o que será sempre o meu caso. Marisa tem uma coisa na voz que não carece de entendimento. É como se fosse possível decifrar o som da pureza. Antunes é Antunes, um gênio que brinca com o tom das palavras, até que fiquem inocentes e digam a que vieram. E vieram azular um dia tão chuvoso quanto ventante. Um sábado comemorado com a lembrança que o grão do amor germina, vai e volta, acorda e sorri o contentamento do momento do entendimento.

“A Terra é azul”, declarou o primeiro astronauta que a viu de longe, enfeitada de encantamento. O que ele não sabia é que o tempo também é. Hoje foi um sábado azul. O último sábado de um longo ciclo. O primeiro de um novo que começa em breve. Entre eles, o ponto zero, o big bang, a festança de um certo dia, o dia certo onde tudo começou.

O presente de hoje é Enluarada, cantada em noite de alma cheia e que você escuta aqui