Mariel Fernandes

Vistas do meu Ponto

Posts tagged ‘carinho’

Prometo

Começa a semana e lá vou eu te contar que se a rua fosse minha, eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhante para você passar. E assim que isso acontecesse, te diria que se roubei o teu coração, tu roubaste o meu também.

O presente de hoje é a lembrança do quanto a inocência surfa no tempo, qualquer tempo e o tempo todo. Muito, sempre e tanto: é assim.

Anúncios

Sempre

marielNão é que eu não saiba nada sobre física quântica, a teoria das dobras no espaço-tempo, como se calcula o combustível necessário para ir e voltar a Marte ou o estudo exigido para formação do preço de um Mac Lanche Feliz. Essas coisas, definitivamente, ignoro e estão fora do meu alcance cognitivo, é fato consumado.

Pensando bem, isso não é nada diante da estupefação que todos os dias os interruptores de luz me provocam. Os sensores de presença, então, que coisa. O patinete, a forminha de gelo e aquele coisico que enche pneus de bicicleta, senhor do céu! Também fico extasiado com o puxador de portas, o sobre-lençol me emudece e acho o Código Morse, junto com a caixa de fósforos, invenções quase sobrenaturais.

Desisti de entender de aviões, navios, submarinos, carros e a engenharia de qualquer coisa que se mova sem a ajuda de dois marmanjos, o que inclui elevadores com ou sem aquela tevezinha genial que sabe como está o tempo lá fora.

Nesse momento, estou concentrado na assimilação do autofalante, da Chave Philips e do acolchoado de penas. A bola, a cama e as meias antiderrapantes são normais para você? Eu ainda estou me adaptando à fita K-7, ao telegrama e ao Orkut. Há invenções completamente fora do alcance de pessoas medianas como eu. No meu depósito de sustos encontraremos a aliança de compromisso, a Penicilina, Rick Wakeman, a escada rolante, o plástico bolha, o abridor de vinho, a campainha, o alarme e o vidro elétrico, além do cadarço, da máquina de costura e dos óculos de leitura. Os cortadores de grama, de unha e de cabelo também estarão por ali, junto com o interfone, o disk entrega e o pager.

Passei por coisas incríveis como o cheque pré-datado, a pochete, o Corel 8 e as calças de Nylon. Radiola, vitrola, 3 em 1, o controle remoto com fio e a Caloi 10 confirmam: somos insuperáveis em invenções que serão superadas por novas invenções, pré-estreias de invenções mais novas ainda. Tudo isso cabe numa gaveta.

Minha infância inteira vive no homem que sou. O jogo de bolita, carrinhos de rolimã, guerra com bolinhas de cinamomo, o Partenon Futebol de Regatas, cuja escalação era a seguinte: Gordo (porque gordo sempre vai pro gol), Falta (um zagueiro que não perdia viagem, além de ter 8 metros de altura), Aleijadinho (motivos óbvios), Chulé (pelo cheirinho em tempo integral), Nego (eu, acho que pela afro boca que tenho), Torto (estava sempre bebum), Anjinho (não falava nome feio), Felipe (era forte e não gostava que lhe dessem apelido), Vesgo (vesgo), Tarado (maluco por jogo) e Larica (tinha fome de bola). Fiz questão de dar o time completo para que você entenda que ali, ninguém sabia o que significava o regata do Partenon Futebol de Regatas. Achávamos que era um tipo de camiseta apropriada para o futebol. Nossos treinos eram na pracinha, até sermos expulsos pelos mais velhos, sem mágoas, era assim que funcionava.

Entrei num estádio de verdade mais velho, ali pelos 10 ou 11. Era um Gre-Nal, no antigo Olímpico, à noite. Jamais vou esquecer o encanto que as luzes do estádio me causaram: o time do Partenon também jogava depois que o sol ia embora. Sem luz, corríamos atrás do som da bola, até ouvirmos o som da voz das mães chamando os craques. Gooordddooo… Vesgooooo. Toooorrtooo. Havia 3 tons nessas convocações: o normal, que ninguém ligava. O ameaçador, que nos deixava atentos. E o não vem pra ver o que te acontece, que só os muito corajosos (e alguns desaparecidos) pagavam pra ver. Mariellllllll… (minha mãe jamais me chamou pelo apelido). Eu sempre voltava depois segunda e antes da última entonação.

De volta ao estádio, meu irmão mais velho era puro entusiasmo. Estava me apresentando ao Grêmio, o time pra quem ele queria que eu torcesse. Os gremistas entram em campo, a torcida vem junto, ovacionam, festejam, gritam, incentivam a equipe azul e eu ali, seguro no colo do Nel. Então começam as vaias. É ensurdecedor, amedronta, acanha qualquer um certo? Errado. O motivo de tantos apupos é o Inter, que está na boca do vestiário. Trata-se do vermelho mais lindo de todos os tempos, é um encanto, um encontro, algo grandioso se posta altivo e orgulhoso diante do adversário. Eles são enormes, entram em campo correndo, confiantes, soberanos e invencíveis. Então vão até a pequena torcida que os festeja enquanto o estádio inteiro os xinga e ameaça, mas não os enverga. Digo pro Noel algo como “vamos lá, eles precisam da gente!”. Ali, para decepção do meu anfitrião e para a glória do desporto brasileiro, nascia um torcedor do Internacional. Entretanto, é justo admitir que sinto um certo desconforto quando o Grêmio precisa ser batido. Nessas horas, meu irmão vem à mente (e ao coração) e ele ainda segura minha mão. Ainda explica que não tem como a gente ir na torcida vermelha, mas que se eu vibrasse quietinho, mesmo assim o Inter receberia minha força e que isso ajudaria o meu time a vencer. Até hoje acredito que meu comportamento influencia o Inter em campo.

O Olímpico não existe mais e a maioria das invenções que lembro foram substituídas por outras melhores ou mais novas porque essa é a sina e a senha das coisas, o esquecimento. Do Biotônico Fontoura à Inteligência Artificial, o desaparecimento é o fim de tudo e não há saída: tudo que existe para passar, no fim passará. No entanto, o que sentimos está sempre em algum lugar. No Partenon Futebol de Regatas, a camiseta 5 é a minha. Chulé estará à minha frente, Anjinho de um lado e Larica do outro.  No estádio do Grêmio, a mão firme é de Nel, que me levou ao eterno da paixão colorada. Suas luzes ainda estão lá, iluminando cada um dos torcedores na noite que seria pintada com um tricolor 3 x 0.

Não sei mais como se anda de carrinho rolimã. Mas posso sentir agora o vento risonho e as dores do joelho machucado depois de uma curva mal feita. Cada coisa que há pode ser uma ponte para cada dia que é. Podemos esquecer todas as marcas de todas as bugigangas já feitas. E vamos lembrar no sempre o primeiro peixe fisgado, o nome na lista do vestibular, o susto nos olhos do filho ao me ver, depois uma queda quase fatal e a alegria de conseguirmos superar isso. No fundo, preenchemos um instante da vida e cabe a nós decidir do que será feito o nosso tempo. Pode ser o esquecimento das coisas. Ou pode ter a fúria do fogo,a beleza da terra, a fluidez das águas e a força dos ventos.

%d blogueiros gostam disto: