Mariel Fernandes

Vistas do meu Ponto

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Bom findi

Tem árvore que vai ganhar abraço. (e uns beijinhos)

Sobre palavras e silêncios, preciso te contar que as minhas precisam ser extintas se não forem espaço, abraço, sol ou aconchego. É isso que tenho a dizer porque é o que existe em mim para mostrar, confirmar ou descrever. Se chegam tortas, borradas, estranhas, cobrantes ou insanas não servem nem ao tempo nem ao portal de acesso específico, exclusivo e intransferível que está sempre em construção. Palavras cortantes, acusantes, diminuidoras ou pedintes não são bem-vindas. Vale o mesmo para aquelas que no espaço de paz que visitamos, descrevam qualquer outro artigo que não o bem e o bom contigo. Essas devem seguir para o exílio até sintam e sentindo sejam amor, amizade, afeto, riso, chocolate, bicicleta, gol do Inter, instante, arroz com siri, café de manhã, escurinho, cinema, pipoca, espaço de conversa, fé e desejo. Que o silêncio seja confiança, força, pensamento, crescimento, torcida. Que esteja presença, bolo de fubá, sabiá, beija-flor, árvore de estimação, alguma solidão, um parque, uma vista pra brisa e caminhar na fronteira do mar com a costa. Isso posto, não há espaço de dúvida escrita, dita ou silenciada. Que nossos ditos ou calados em todo momento sejam a dança suave do encontro bom da alma amante com a alma amada.

O presente de hoje é uma lembrancinha de talentos enormes e Antunes. De amores de Montes e carinhos do Carlinhos. Se alguém gostar, o dia melhora.

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Alguns silêncios são constrangedores, outros iluminados. Eloquentes, silêncios são fluentes em todas as línguas. Alguns entram para a sociedade secreta dos dialetos, ou viajam escondidos em textos, canções, barulhinhos, sussurros, frestas, arestas, vãos, poesias ou diálogos imaginários.

Ouçam os silêncios exilados dos seus significados. Eles entristecem pelo que não dizem, se tornam mudos, partem calados e não se transformam em tudo que poderiam ter florescido. Tudo que seriam, caso fossem ditos. Tudo que poderiam ser entoados quando chegasse seu tempo de sinfonia.

Silêncios são um espaço na pauta, um hiato, algo que se completa a partir de cada repertório. Também se disfarçam de pausa. Acontecem um momento antes do pouso de uma ave, do avião, quando abro uma pequena bolsa, o que produz um determinado som. O tuc, tuc, tuc, tuc da minha máquina de escrever. O tic tic tic tic das teclas. O chiado do mouse ou no momento que antecede uma prece pelo amor que nasceu feliz para viver bem-vindo.

Há sons docemente despertados da quietude onde hibernam. A porta se abrindo, o alarido da cebola se encontrando com o quente da panela, o canto de onde descrevo o que se passa, a introdução de Enluarada, as mãos tocando um livro, o zunido de um motor poderoso. Gosto de ouvir Elis Regina e seus silêncios, quando canta “O que tinha que ser” e me encanta o ruído do plástico que envolve os quindins. Há um agradecimento no chuá marítimo, no zunir das tempestades, na calmaria dos afetos compreendidos em si mesmos e falando o quanto quiser. É ali que a vida se banha e silenciosamente sorri pra você.  

A respeito do tempo

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O absurdo que viraliza, a bolsa que oscila, o saldo do seu Visa. O Bolsonaro, o próximo carro, o espanto, os cursos de Esperanto, o sossego, a continuação de O Segredo, o último Kung Fu Panda, o próximo show do Wando. O escândalo da hora, a hora, o tempo, a parada militar, a primavera árabe, Lula e todos os ídolos de araque, o casual sorridente e o sisudo de fraque.

Aquele sujeito esquisito, a lembrança dos gols do Zico, o preço do palmito, a poesia ruim, as polêmicas com o Chico, zeus e os deuses infinitos. O bem maldito e o mal bem dito, os reis, os Maias, o comprimento das saias, as notas oficiais, os combos, os hashtags e os heróis da Marvel. Esquecidos ilustres, os lustres do Titanic, os sotaques, as meninas, os homens de Marte e as mulheres do interior de Minas, os tiques, o carnê do IPTU, o samba de uma nota só.

O presente, o futuro, os bifes bem passados, os amantes, os abandonados, os farsantes, a taxa Selic, a minha Montblanc, os carinhos da manhã e as conclusões bestas, tipo a maioria das Bics perderam as tampinhas azuis. Logins, senhas, redes, conta da luz. Ultrajes, fronteiras, carro do ano, amores partidos, os mocinhos, os bandidos, as ações da oi e o selo de qualidade da Friboi. Arte, bondade, emprego, verdade, ego, usinas, aviões e sossego. As latas, o luto, a esquerda os reaças. Tudo vai, tudo cai, tudo passa.

 

O vale tudo não vale nada

ImagemEles tinham um ensinamento, um valor, um conhecimento pra passar. Ou – vá lá – pelo menos o Bruce Lee era bonitinho. Sou do tempo do Ted Boy Marino, entendo que ninguém saiba do que estou falando, já que se trata de alguém dos anos 70, época onde tudo foi inventado. Eu devo ser o último representante vivo (ou que ainda sabe o próprio nome) da safra de 59. Ted Boy era o queridinho do Brasil, um astro da Luta Livre, morreu há um tempo e chegou a fazer parte do elenco de apoio dos Trapalhões, quando eram engraçados. Meu filho me cutuca e diz que ninguém tem ideia do que falo. Pergunto se ele acha que não vão se lembrar de quando Os Trapalhões foram engraçados. Ele me diz que não vão se lembrar dos Trapalhões, que devo ser o único que viu e que achou graça naquilo. Bom, eu acho graça em programa religioso, mas isso é história pra outro dia. Às vezes, não falar é consentir e não quero flertar com a estupidez: podemos nos apaixonar, ter filhos, presidir o Brasil, enfim, é um perigo.

Que dois homens fortes troquem socos até que um caia ensanguentado no chão, ok, vivemos tempos difíceis. Que se ofendam antes, morram depois e sejam uma aberração durante, isso é problema deles. Que façam cara de mau um pro outro, como se ninguém soubesse que se trata de representação de atores ruins, isso é do jogo, um jogo de cenas ruins, tristes, sem significado e que apenas comprova a nossa imensa capacidade de produzir idiotices. Que no final de tudo ainda se abracem suados, exaustos, feridos, deformados, transtornados, transformados em bichos, tudo isso é com eles. Por que não homens contra tigres? Por que não anões bezuntados contra os gaviões da fiel? Por que petistas contra os juízes do supremo ou uma luta entre irmãos siameses? E eu, que achava que a mulher barbuda era o máximo que chegaríamos, percebo que nossa sede de circo é infindável e que além de um gosto pelo mal, temos um imenso mau gosto. Porque ninguém sai inteiro daquilo, nem lutadores nem plateia, nem juízes e médicos, estes uma ironia neste tipo de evento. E no entanto, o Galvão os chama de “Os Gladiadores do 3º Milênio”, eles dão entrevistas dizendo que são profissionais, que lutam em honra da família, dos filhos e dos amigos, fazem sinais orientais que pretensamente indicam reverência ou humildade diante daquilo que seria um local sagrado, mas que na verdade é um ringue que recebe dois caras que trocam sopapos por dinheiro.

Querem proibir a transmissão dessas lutas. Eu sou contra qualquer interferência do legislativo, do executivo ou do Anderson Silva no meu controle remoto: deu um trabalho danado aprender a lidar com ele, então não se preocupem que a gente sabe trocar de canal. Por outro lado, não sou contra a proibição das lutas em si. Elas nada ensinam, nada acrescentam e nada são a não ser rinhas de galos sem galos. Não fosse pouco, ainda têm a desvantagem de ouvirmos um sujeito com o olho pendurado, um pedaço do fígado aparecendo e sem uma das narinas dizendo que deu “o melhor de si, urrruuú Ezequiel, eu te falei!”. E agora, preenchendo a cota de empreendedores da porrada, nossos lutadores mais velhos estão voltando dos Estados Unidos. Falam um inglês engraçado, um português medonho e uma língua que todo mundo entende: dinheiro. A nível de brasil, eles querem difundir o esporte, assim enquanto MMA, uma proposta de integração, entende, assim, essa coisa tipo entende, certo? Eles querem ensinar MMA para crianças para que elas cresçam saudáveis,aprendendo todos os profundos ensinamentos desse esporte, como a ética do supercílio arrebentado com o cotovelo ou a moral de não bater no amiguinho  se ele estiver morto.  Por mim, não. Preciso que os pequenos lembrem das coisas, saibam quem são e entendam a vida como a expressão maior do entendimento, do amor e da conversa como ponte entre diferenças. Quem ganha a vida na pancada termina obrigatoriamente como o Ted Boy Marino: alguém que ninguém sabe quem foi.

Silêncio

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Falamos demais, enchemos a vida de palavras, devíamos poupa-la. Que lavra é essa, que pressa estranha, cadê o freio, do que estamos mesmo falando? Sobre o preço do pepino, se é genuína a prisão do Genuíno, sobre o tempo, se teremos Natal no pernil e, importantíssimo, se o Lulu Santos deveria mesmo continuar no The Voice Brazil. Falamos muito sobre tantos, sobre tudo, nos sobressaltamos. Você já reparou que tem gente que ao desligar o telefone termina a conversa dizendo “nos falamos”? Há uma enorme demanda por opinião, é o que dizem por aí. Especialistas em sapatos de bico fino, pós graduados em poesia boliviana, doutores em esperanto, mestres por todos os cantos que falam, exprimem, traduzem, induzem o que devemos concluir, pensar e sentir. Parece ser uma operação de um Bope comportamental, criado especialmente exterminar qualquer possibilidade se você permanecer original ou, pelo menos, de possuir seu próprio pensamento. O fato é que temos muita malandragem e pouco Capitão Nascimento. Na dúvida, se fala, quando no fundo o que cala é mais substancial. Manchetes, terapias, videntes, colunistas, o Jabor, então, da onde ele tira tanta opinião?  Há uma falação que nos mantém inquietos. O novo lançamento, a cor do momento, a tendência, o que vem forte na estação, que tipo de margarina passar no pão, o que dizer para os filhos e dúvidas das dúvidas: leito ou mel no sucrilhos?  O que colocar na mesa, quem será a nova globeleza, a última novela, o próximo destino e -assunto dos assuntos- se o irmão da Sandi é mesmo um menino. O verdadeiro amor, a descoberta de um falso Paraguay, a mulher certa, um homem atrapalhado, o velho continente, o novo chinelo e se finalmente a Ferrari provou que Felipe não é melhor do que Barichello.  Por mim, chega, por mim, basta às palavras malditas, aquelas que existem porque vaiam. Não consigo mais ouvir o óbvio, a louvação, a falsa discussão, o argumento desconexo, e -sempre isso- ver na capa da Claudia tudo o que eu queria saber sobre sexo. Pelo silêncio criativo, pelo crivo, azar se ficar esquisito, que bom se achar bonito. Pelo senso particular, pelo bem geral da nação e pelo pensamento não declarado, vou usar mais o meu direito de ficar calado. 

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