Bom findi

Tem árvore que vai ganhar abraço. (e uns beijinhos)

Sobre palavras e silêncios, preciso te contar que as minhas precisam ser extintas se não forem espaço, abraço, sol ou aconchego. É isso que tenho a dizer porque é o que existe em mim para mostrar, confirmar ou descrever. Se chegam tortas, borradas, estranhas, cobrantes ou insanas não servem nem ao tempo nem ao portal de acesso específico, exclusivo e intransferível que está sempre em construção. Palavras cortantes, acusantes, diminuidoras ou pedintes não são bem-vindas. Vale o mesmo para aquelas que no espaço de paz que visitamos, descrevam qualquer outro artigo que não o bem e o bom contigo. Essas devem seguir para o exílio até sintam e sentindo sejam amor, amizade, afeto, riso, chocolate, bicicleta, gol do Inter, instante, arroz com siri, café de manhã, escurinho, cinema, pipoca, espaço de conversa, fé e desejo. Que o silêncio seja confiança, força, pensamento, crescimento, torcida. Que esteja presença, bolo de fubá, sabiá, beija-flor, árvore de estimação, alguma solidão, um parque, uma vista pra brisa e caminhar na fronteira do mar com a costa. Isso posto, não há espaço de dúvida escrita, dita ou silenciada. Que nossos ditos ou calados em todo momento sejam a dança suave do encontro bom da alma amante com a alma amada.

O presente de hoje é uma lembrancinha de talentos enormes e Antunes. De amores de Montes e carinhos do Carlinhos. Se alguém gostar, o dia melhora.

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Alguns silêncios são constrangedores, outros iluminados. Eloquentes, silêncios são fluentes em todas as línguas. Alguns entram para a sociedade secreta dos dialetos, ou viajam escondidos em textos, canções, barulhinhos, sussurros, frestas, arestas, vãos, poesias ou diálogos imaginários.

Ouçam os silêncios exilados dos seus significados. Eles entristecem pelo que não dizem, se tornam mudos, partem calados e não se transformam em tudo que poderiam ter florescido. Tudo que seriam, caso fossem ditos. Tudo que poderiam ser entoados quando chegasse seu tempo de sinfonia.

Silêncios são um espaço na pauta, um hiato, algo que se completa a partir de cada repertório. Também se disfarçam de pausa. Acontecem um momento antes do pouso de uma ave, do avião, quando abro uma pequena bolsa, o que produz um determinado som. O tuc, tuc, tuc, tuc da minha máquina de escrever. O tic tic tic tic das teclas. O chiado do mouse ou no momento que antecede uma prece pelo amor que nasceu feliz para viver bem-vindo.

Há sons docemente despertados da quietude onde hibernam. A porta se abrindo, o alarido da cebola se encontrando com o quente da panela, o canto de onde descrevo o que se passa, a introdução de Enluarada, as mãos tocando um livro, o zunido de um motor poderoso. Gosto de ouvir Elis Regina e seus silêncios, quando canta “O que tinha que ser” e me encanta o ruído do plástico que envolve os quindins. Há um agradecimento no chuá marítimo, no zunir das tempestades, na calmaria dos afetos compreendidos em si mesmos e falando o quanto quiser. É ali que a vida se banha e silenciosamente sorri pra você.  

A respeito do tempo

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O absurdo que viraliza, a bolsa que oscila, o saldo do seu Visa. O Bolsonaro, o próximo carro, o espanto, os cursos de Esperanto, o sossego, a continuação de O Segredo, o último Kung Fu Panda, o próximo show do Wando. O escândalo da hora, a hora, o tempo, a parada militar, a primavera árabe, Lula e todos os ídolos de araque, o casual sorridente e o sisudo de fraque.

Aquele sujeito esquisito, a lembrança dos gols do Zico, o preço do palmito, a poesia ruim, as polêmicas com o Chico, zeus e os deuses infinitos. O bem maldito e o mal bem dito, os reis, os Maias, o comprimento das saias, as notas oficiais, os combos, os hashtags e os heróis da Marvel. Esquecidos ilustres, os lustres do Titanic, os sotaques, as meninas, os homens de Marte e as mulheres do interior de Minas, os tiques, o carnê do IPTU, o samba de uma nota só.

O presente, o futuro, os bifes bem passados, os amantes, os abandonados, os farsantes, a taxa Selic, a minha Montblanc, os carinhos da manhã e as conclusões bestas, tipo a maioria das Bics perderam as tampinhas azuis. Logins, senhas, redes, conta da luz. Ultrajes, fronteiras, carro do ano, amores partidos, os mocinhos, os bandidos, as ações da oi e o selo de qualidade da Friboi. Arte, bondade, emprego, verdade, ego, usinas, aviões e sossego. As latas, o luto, a esquerda os reaças. Tudo vai, tudo cai, tudo passa.

 

O vale tudo não vale nada

ImagemEles tinham um ensinamento, um valor, um conhecimento pra passar. Ou – vá lá – pelo menos o Bruce Lee era bonitinho. Sou do tempo do Ted Boy Marino, entendo que ninguém saiba do que estou falando, já que se trata de alguém dos anos 70, época onde tudo foi inventado. Eu devo ser o último representante vivo (ou que ainda sabe o próprio nome) da safra de 59. Ted Boy era o queridinho do Brasil, um astro da Luta Livre, morreu há um tempo e chegou a fazer parte do elenco de apoio dos Trapalhões, quando eram engraçados. Meu filho me cutuca e diz que ninguém tem ideia do que falo. Pergunto se ele acha que não vão se lembrar de quando Os Trapalhões foram engraçados. Ele me diz que não vão se lembrar dos Trapalhões, que devo ser o único que viu e que achou graça naquilo. Bom, eu acho graça em programa religioso, mas isso é história pra outro dia. Às vezes, não falar é consentir e não quero flertar com a estupidez: podemos nos apaixonar, ter filhos, presidir o Brasil, enfim, é um perigo.

Que dois homens fortes troquem socos até que um caia ensanguentado no chão, ok, vivemos tempos difíceis. Que se ofendam antes, morram depois e sejam uma aberração durante, isso é problema deles. Que façam cara de mau um pro outro, como se ninguém soubesse que se trata de representação de atores ruins, isso é do jogo, um jogo de cenas ruins, tristes, sem significado e que apenas comprova a nossa imensa capacidade de produzir idiotices. Que no final de tudo ainda se abracem suados, exaustos, feridos, deformados, transtornados, transformados em bichos, tudo isso é com eles. Por que não homens contra tigres? Por que não anões bezuntados contra os gaviões da fiel? Por que petistas contra os juízes do supremo ou uma luta entre irmãos siameses? E eu, que achava que a mulher barbuda era o máximo que chegaríamos, percebo que nossa sede de circo é infindável e que além de um gosto pelo mal, temos um imenso mau gosto. Porque ninguém sai inteiro daquilo, nem lutadores nem plateia, nem juízes e médicos, estes uma ironia neste tipo de evento. E no entanto, o Galvão os chama de “Os Gladiadores do 3º Milênio”, eles dão entrevistas dizendo que são profissionais, que lutam em honra da família, dos filhos e dos amigos, fazem sinais orientais que pretensamente indicam reverência ou humildade diante daquilo que seria um local sagrado, mas que na verdade é um ringue que recebe dois caras que trocam sopapos por dinheiro.

Querem proibir a transmissão dessas lutas. Eu sou contra qualquer interferência do legislativo, do executivo ou do Anderson Silva no meu controle remoto: deu um trabalho danado aprender a lidar com ele, então não se preocupem que a gente sabe trocar de canal. Por outro lado, não sou contra a proibição das lutas em si. Elas nada ensinam, nada acrescentam e nada são a não ser rinhas de galos sem galos. Não fosse pouco, ainda têm a desvantagem de ouvirmos um sujeito com o olho pendurado, um pedaço do fígado aparecendo e sem uma das narinas dizendo que deu “o melhor de si, urrruuú Ezequiel, eu te falei!”. E agora, preenchendo a cota de empreendedores da porrada, nossos lutadores mais velhos estão voltando dos Estados Unidos. Falam um inglês engraçado, um português medonho e uma língua que todo mundo entende: dinheiro. A nível de brasil, eles querem difundir o esporte, assim enquanto MMA, uma proposta de integração, entende, assim, essa coisa tipo entende, certo? Eles querem ensinar MMA para crianças para que elas cresçam saudáveis,aprendendo todos os profundos ensinamentos desse esporte, como a ética do supercílio arrebentado com o cotovelo ou a moral de não bater no amiguinho  se ele estiver morto.  Por mim, não. Preciso que os pequenos lembrem das coisas, saibam quem são e entendam a vida como a expressão maior do entendimento, do amor e da conversa como ponte entre diferenças. Quem ganha a vida na pancada termina obrigatoriamente como o Ted Boy Marino: alguém que ninguém sabe quem foi.

Silêncio

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Falamos demais, enchemos a vida de palavras, devíamos poupa-la. Que lavra é essa, que pressa estranha, cadê o freio, do que estamos mesmo falando? Sobre o preço do pepino, se é genuína a prisão do Genuíno, sobre o tempo, se teremos Natal no pernil e, importantíssimo, se o Lulu Santos deveria mesmo continuar no The Voice Brazil. Falamos muito sobre tantos, sobre tudo, nos sobressaltamos. Você já reparou que tem gente que ao desligar o telefone termina a conversa dizendo “nos falamos”? Há uma enorme demanda por opinião, é o que dizem por aí. Especialistas em sapatos de bico fino, pós graduados em poesia boliviana, doutores em esperanto, mestres por todos os cantos que falam, exprimem, traduzem, induzem o que devemos concluir, pensar e sentir. Parece ser uma operação de um Bope comportamental, criado especialmente exterminar qualquer possibilidade se você permanecer original ou, pelo menos, de possuir seu próprio pensamento. O fato é que temos muita malandragem e pouco Capitão Nascimento. Na dúvida, se fala, quando no fundo o que cala é mais substancial. Manchetes, terapias, videntes, colunistas, o Jabor, então, da onde ele tira tanta opinião?  Há uma falação que nos mantém inquietos. O novo lançamento, a cor do momento, a tendência, o que vem forte na estação, que tipo de margarina passar no pão, o que dizer para os filhos e dúvidas das dúvidas: leito ou mel no sucrilhos?  O que colocar na mesa, quem será a nova globeleza, a última novela, o próximo destino e -assunto dos assuntos- se o irmão da Sandi é mesmo um menino. O verdadeiro amor, a descoberta de um falso Paraguay, a mulher certa, um homem atrapalhado, o velho continente, o novo chinelo e se finalmente a Ferrari provou que Felipe não é melhor do que Barichello.  Por mim, chega, por mim, basta às palavras malditas, aquelas que existem porque vaiam. Não consigo mais ouvir o óbvio, a louvação, a falsa discussão, o argumento desconexo, e -sempre isso- ver na capa da Claudia tudo o que eu queria saber sobre sexo. Pelo silêncio criativo, pelo crivo, azar se ficar esquisito, que bom se achar bonito. Pelo senso particular, pelo bem geral da nação e pelo pensamento não declarado, vou usar mais o meu direito de ficar calado. 

Medo

O maior segredo do medo é que ele não serve pra nada. Se alimenta de sombra e de criaturas da areia, lendas contadas sob luzez de lanterna e barracas improvisadas.

[ O maior segredo do me

do é que ele não serve pra nada. Se alimenta de sombras e de criaturas da areia, lendas contadas sob luze de lanterna e barracas improvisadas ]

Olhos arregalados, respiração suspensa, coração parado. E assim, congelados de medos, ouvimos melodias descompassadas, correntes se arrastam na parte de cima da casa, as janelas batem e o vento é gelado. Tenho medo de cavalos, são bichos grandes. Manadas de elefantes e de rinocerontes, além de todos os outros mastodontes. Cobras não gosto. Baratas me causam asco, o mesmo acontece com ratos. Mas medo de Saci Pererê, como ter? O carinha possui uma perna só e ainda por cima fuma. E mula sem cabeça, coitada? Deve se bater tanto entre as árvores enquanto corre de madrugada. Fantasma da meia noite, que emprego medonho. Assusta quem nesse horário de sonhos?

Tenho medos mais concretos, como receber uma ligação de alguém que trabalhe com marketing direto. Medo não me tira o sono, a não ser que me sinta em estado de abandono. Medo é um cão cego te servindo de guia, serventia zero, proteção nenhuma, morderá a mão que lhe pede orientação. Ter medo é pedir companhia para a solidão.

Tive medo de água por um longo tempo. Disso o afeto me curou. Ainda exige um esforço de confiança pegar a barca que une dois pedaços de terra repartidos pelo mar. Vou de olhos fechados, como se assim não houvesse um oceano abaixo de mim. Pensando bem, vivemos a milhares de quilômetros por hora, confiando num piloto automático, um maestro invisível. Ultrapassamos asteróides, dependemos de humores solares, ninguém nunca sabe quando haverá um terremoto, um mar revolto, se vai chover e por quanto tempo. – É o El Ninho, dizem os cientistas. Não quero saber quem é, quero saber porque. Acontece isso em função do encontro das águas calmas com correntes mais nervosas e quentes. Se sabem tanto, por que não avisam dias antes?  O ponto é que vivemos cercados de perigos e nós mesmos (como raça) não somos exatamente um bando de escoteiros. Os bichos preguiça, as tartarugas do casco mole, a flora de um modo geral e os pobres de um modo particular que o digam.

Atacamos tanto pelos medos que temos. E tememos até as coisas que sabemos que vai acontecer, as controláveis. Você já reparou que dizemos “se eu morrer”? Como “se”? Não há cláusula nesse contrato. Vamos bater as botas, falar com Deus, ouvir o chefe, jogar no Santos, ver a grama pela raiz, ir dessa pra melhor, subir um andar, falar com as almas. Há milhares de escapismos para morte, menos não morrer. Não há condicional. No entanto, batemos 3 vezes na madeira sempre que o assunto surge. Talvez não seja da idade, da morte ou das perdas que tenhamos medo de fato. Possivelmente nos apavore mais do que assombração é o aparente descontrole disso. Um cara legal morre e o Maluf lá, firme. Qual é o critério? Talvez os fantasmas de uma vida medíocre sejam os verdadeiros motivadores desse pavor coletivo por tantas coisas.

Catalogamos medos, dando a isso o nome de “Síndrome”. E se conseguimos  catalogar de algum modo a desorientação geral, pronto, ufa, melhor assim. Quando alguém não se sente seguro nem dentro dele mesmo, chamamos isso de “Síndrome do Pânico” e estamos conversados. O problema é que não estamos conversados. O problema é justo esse: não temos conversado. O problema é exatamente aqui: não se conversa sobre isso, nem sobre aquilo, nem sobre coisa alguma. Terapia não é conversa. Análise não é falar. Nesses casos, estamos relatando nossas milhares de solidões a técnicos essenciais ao mundo contemporâneo. Falo de conversa, esse gesto em que alguém escuta como que enxergando a alma do outro. Falo de diálogo, esse momento em que o entendimento não depende de lingua, linguagem, idioma, mensagem, é apenas e tão somente entendimento. O silêncio entre partes pode estar cheio de verbetes, repleto de palavras, coberto de breus e julgamentos. Trocar frases e conversar são coisas completamente diferentes. Um espaço de conversa é a única forma de blindar relacionamentos, ligações, sentimentos.

É preciso sempre dizer o mais próximo de tudo que se tem a dizer de bom a alguém. Acredito que precisamos ser lembrados disso. Do quanto somos amados, queridos, bem-vindos, amigos, bacanas ou, sei lá, limpinhos. Não precisa ser toda hora, mas não pode ser um evento raro. Tenha medo de  tornar-se seco, durão ou invencível. De acreditar na desconfiança permanente como forma de vida, de preparar-se mais do que o necessário para qualquer atividade. Ninguém deveria ser impermeável às emoções sagradas do amor em suas manifestações diversas. Nem imaginar que esse sentimento é perfeição acima de tudo. O amor não é perfeito, apenas vê perfeitamente tudo e todos sob a lente da felicidade. Quem não ama pode ter medo do mar. Quem ama, anda sob as águas. De barco, com colete, mas anda. Parece estranho falar de amor e medo na mesma conversa. Talvez não seja. Talvez o medo básico seja o de não existir amor legítmo ou seguro o bastante. E que entre amar ou ter medo, a gente prefira o segundo, já que é mais conhecido. Isso é como escolher ser assaltado sempre pelo mesmo bandido.

E se por um instante pleno de nós mesmos abrirmos mão dos medos, uivos, grunidos, histórias apavorantes, criadas por criaturas de um mundo triste? Não sei de você, mas acho o amor e a janela duas grandes descobertas. Mas se precisar escolher, deixe a alma aberta.

O amor tem raízes

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Todo mundo devia amar uma árvore. Um cachorro, um gato, um chiuaua é mais fácil, acho. Uma árvore de estimação não ronrona, não se esconde embaixo do sofá nem abana o rabo. Mas te ensina a apreciar o tempo e, mais que tudo, te lembra da infância em seus galhos que sustentam lembranças do pedaço mais inocente da existência. Tenho sorte: há duas árvores em minha vida. A Japa dava “uvas japonesas”, delícias entre o doce e o nem tanto assim. Ela ostentava um galho mais forte, cabiam dois ou três moleques ali, confortavelmente instalados e normalmente bem suados. Era baixinha, mas encarou ventos de mais de 100 por hora, me protegeu do sol, me escondeu, me tornou mais alto e deixou raízes de coisas boas, lembranças entre o doce e o mais doce ainda. A árvore da filosofia aconteceu por acaso. Estava voltando de um treino de bicicleta, super cansado e extremamente feliz, havia obtido o índice necessário para a participação em um corrida que nem sei mais qual foi. Então a vi, a terceira à direita de quem vai. Tem uma altura boa e recebe como poucas, com seu tronco que parece feito para amparar as costas. Duas raízes saem da terra e formam um descanso inigualável para os braços. Ali estive feliz pelo amor aportado e triste pelo amor que segue suas viagens. Entre livros e cigarros, silêncios e canções, minha árvore acompanha essa alma intrigada e curiosa por todo tipo de vida que há. Retirou-me tantas dores e acalmou tempestades de tamanhos diversos apenas estando aonde estava, a terceira árvore à direita. Passo por ela às vezes e nos sabemos um do outro, confidentes de florestas dos sentidos que damos à vida que vemos passar, eu a a árvore que me acompanha. Nas manhãs de domingo, nos fins de tarde entre segunda e sábado, ela está lá e tem a pouca eloquência dos sábios, o calar dos prudentes, as raízes profundas do sempre.