Bebo desse dia

Ganhei Tribalistas de presente, uma canção saltitante, dessas que a gente ouve e se apaixona, ou continua apaixonado, o que será sempre o meu caso. Marisa tem uma coisa na voz que não carece de entendimento. É como se fosse possível decifrar o som da pureza. Antunes é Antunes, um gênio que brinca com o tom das palavras, até que fiquem inocentes e digam a que vieram. E vieram azular um dia tão chuvoso quanto ventante. Um sábado comemorado com a lembrança que o grão do amor germina, vai e volta, acorda e sorri o contentamento do momento do entendimento.

“A Terra é azul”, declarou o primeiro astronauta que a viu de longe, enfeitada de encantamento. O que ele não sabia é que o tempo também é. Hoje foi um sábado azul. O último sábado de um longo ciclo. O primeiro de um novo que começa em breve. Entre eles, o ponto zero, o big bang, a festança de um certo dia, o dia certo onde tudo começou.

O presente de hoje é Enluarada, cantada em noite de alma cheia e que você escuta aqui

Calmante

Ouvimos eu, minha mãe e meu pai. Estávamos estátuas pertinho do rádio, respirando baixando e torcendo para que os astronautas americanos da Apollo 11 chegassem bem. Havia todo tipo de boato contra. Iam desde erros em cálculos gravitacionais até a ira divina, que não deixaria que o homem tivesse êxito na conquista da Lua.

Chegaram, era um grande passo para a humanidade e tal. Foi quando ouvi algo como “eles pousaram perto do Mar da Tranquilidade”. Mar da Tranquilidade, olha que nome lindo para um oceano banhado por um tipo quântico de água, que molha mas não molha. Que lugar especial para olhar a Terra e acenar, enquanto se caminha pela areia fofa sem dificuldade ou afobação. Mar da Tranquilidade, onde as ondas massageiam, não há vendedores de saída de praia e toda cena se dá em fast.

Mar da tranquilidade, alma serena, espaço perfeito para o momento leve e sem gravidade, onde acalmamos nossos lobos e podemos olhar para a lua pelo tempo que quisermos.

Simples

Silente. Impar. Calma

Acontece às vezes, quando lembro de mim. É como um portal, está tudo ali, ainda que nem sempre na ordem ou tempo desejados. No entanto, há paz disponível, cantis com água boa, algum cheiro de terra, uma espera sem impaciência. Estive distante, milhas de casa, cercado por mares e marés, meu lar eram lugares. Uma árvore, uma ilha, a pipa confirmando a existência do céu. Era simples, livros poucos, muitos encontros e uma vontade invencível de conhecer a fonte da vida, beber do seu igarapé fundamental, líquido e incerto. Tristeza havia, porque não? Quem suporta algo alegre em tempo integral? Talvez somente aqueles que se iludem com histórias felizes para sempre. Corria muito e posso sentir agora o aroma inesquecível da cozinha, a consistência saborosa de comidas deliciosas não por elas mesmas, mas por serem preparadas em quase festa por mãos de mãe, chamar por mãe e ouvir “diz, filho”, minha nossa. Como achei que sobreviria sem isso vida adiante? Ou que não haveria nada mais importante, como poderia saber? Ainda assim acontece, às vezes. Contar consigo mesmo é fundamental. Mas é mais fácil contar consigo mesmo sabendo que se tem alguém com quem contar histórias, compartilhar memórias duplas. Um descreve algo. Então, vem o outro e descreve o mesmo fato de uma outra janela, um olhar distintamente igual. É um portal onde se entra, se partilha, somos todos da ilha de Lost. Nossos medos não nascem pelo desconhecido da viagem, mas pelo conhecido do destino. No entanto, ele é bom. Às vezes silente e calmo como o encontro de todos os amores. Em outros momentos, apenas são o que são.