Como nascem as canções

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Por hoje, direi não às canções cansadas e tristes. Então, talvez, possa caminhar tranquilo pelas horas e suas pressas, abrandando gestos e silenciando o passado. Antes, isso é importante, será precioso agradecer aos dias que se foram por tudo o que foram, permitindo que partam felizes e em paz consigo mesmos.

Estarei só e livre do que não me pertença e de qualquer coisa que me possua. Lembranças, pessoas, expectativas, razões absolutas, autopiedade e certezas gerais. Indulgências, heroísmos, menosprezos, pesos, esperas e esperanças. Seremos eu e minhas travessias, contos e canções, menos as cansadas e tristes.

Vou olhar com carinho eterno para todo tipo de existência. Permanecermos conectados pelo entendimento gentil sobre tudo que não foi compreendido em seu valor, importância ou dimensão. Conhecerei a mim mesmo, despertando assim a humanidade com canções que não sejam cansadas e tristes.

Por hoje, libero sentimentos prisioneiros. Desamotinados e reconhecidos em sua sinceridade e existência, terão direito pleno às primaveras, se forem esses os seus desejos. É a estação dos reinícios e ali marcharão na plenitude dos reconciliados, se transformando em trilhas, cometas ou canções, mas não as cansadas ou tristes, que terão um destino mais nobre pelo tanto que significaram.

Seus acordes acordarão um universo esquecido, povoando de ritmo uma nota antiga, primária, essencial. Despertadas, serão inspirações itinerantes, parindo (descansadas e alegres) as canções que não puderam nascer antes.

O avião está caindo, mas a paisagem é maravilhosa

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Silêncio, alguns dos nossos se perderam.  Estavam aqui agora mesmo, falavam nossa lingua, riam conosco de piadas que entendíamos, compreendíamos gestos comuns e éramos tantos, todos, um. Silêncio, vivemos um tempo noturno. Nós, que já enfrentamos coturnos e fardas altas horas da madrugada, precisamos impedir a turma do tudo ou nada. A que transforma ladrão em prisioneiro, roubo em companheiro e que contrata incendiário como bombeiro. Estão por toda parte essa gente. Se sentem cada dia mais à vontade, têm argumentos razoáveis e expõem números, crescimentos, estatísticas. Repetem frases místicas como jamais perder a ternura, mesmo tendo que apoiar ditaduras. Que os deuses nos protejam, que pelo menos nos vejam e nos salvem de enchentes, da falta de água, do inverno rigoroso, do verão arrasador, do prazer, da dor, da copa, da falta de sopa, da crise do pão. Os comedores da esperança têm uma fome que impressiona. Nos olham em 3D com seus óculos escurecidos e seu apetite enfurecido é multinacional. Mas não nos venceram antes, não venceram hoje e não vencerão depois. Mesmo que seja preciso enfrentar os todos os textos do Bial, a programação global, o Gugú, os programas religiosos, a reprise dos trapalhões, o super cine, as ilusões, não importa. Ainda vamos aprender (ainda que da forma mais dura), que o Brasil não é só um PIB, a soma das coisas que somos capazes de produzir. Precisamos compreender que somos a soma das coisas que não queremos mais, para sempre ou para nunca mais. Que fomos, somos e seremos as escolhas que fazemos, as pessoas que elegemos, tudo o que sonhamos e o que somos capazes de despertar. Talvez a gente esteja à deriva, andando em círculos, procurando à esmo. Mas não esqueça: a vida reserva as melhores surpresas para cada pessoa e cada povo que não abre mão de si mesmo.