Alegria

Espinoza foi um cara daqueles que pensam e ao fazer isso, nos dão de presente toda uma vida. Sua filosofia é clara, direta, complexa. Foi não dormindo que lembrei da definição de amor que ele nos trouxe. É um adorno, um anel dos lindos, desses que se usa aos domingos.

Amor é a alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior

Ou seja: você já tem que ter seus próprio motivos, lembranças, feitos, pensamentos, vida interior, planos, aquela porção de outros que você ama. Seu homem, sua mulher, filhos, amigos, família. Pode ser dança, água, bike, livros, filmes ou um sonho que inclua cachorros, cortinas em linho e janelas azuis. Pense em algo que te deixa alegre, aquele riso moleque, esse mesmo.

Então bastará que o que te deixa alegre seja acompanhado da ideia disso para te fazer suspirar. A ideia do outro com você. A ideia da canção, da dança, da bike, da filô. A ideia de estarmos juntos. A ideia de lermos, termos, de irmos ou sorrirmos pelo que nos causamos. Não é o máximo esse Espinoza? A ideia dele escrevendo e mandando isso pra gente discutir me alegra porque torna mais feliz outro dia de ilha, sempre tão cercada de te amar por todos os lados, motivos e razões.

Espinoza não atrela a presença do outro a honra de amar ou de ser amado. Não afirma nem que devam estar juntos, se bem que seria melhor, digo eu. Segundo o filósofo, à alegria que o amor causa basta a ideia da causa exterior vir à mente. Basta isso e sendo amor, o coração se sacode, o corpo ganha o que ele chama de “potência de agir” e o que eu chamo de “como é bom te ver sorrir”.

Acho que Platão (esse sim) não suportava a vida como ela é. Então, talvez por isso, tenha imagino um mundo distorcido (o “real”) e outro, perfeito, o das ideias. Sócrates sempre mostrava que as coisas não são bem como a gente acredita e convenhamos: alguém assim o tempo todo é um porre, mesmo que ele normalmente tivesse razão.

Espinoza chegou quando Clóvis reafirmou que é preciso escolher: ou você ama e não tem. Ou tem e não ama. Mesmo essa visão cinza e do afeto (bem platônica) pode ser remediada. Penso que o amor nos lapida, provoca, melhora. Então, poderemos amar o que alcançamos, já que somos outros continuamente e, portanto, sempre alguém a ser amado.

Disse hoje? Está dito e redito: sim e tanto. Por hoje, mais um dia, mais uma alegria, mais um tanto. O presente vem na voz de Adele, a quem devemos agradecer a existência para provocar algum ciúme.