Mariel Fernandes

Vistas do meu Ponto

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As coisas que não esquecemos num táxi

R1 descansando na praia


Uma vez fiquei horas dentro do Lami, um riozinho do Guaíba, procurando minha primeira bicicleta. Ela se chamava Yara, assim com Y e nunca a encontrei. Esses dias conversei com Cristovam Buarque, o educador. Ele estava gravando um comercial que tinha roteiro meu. Foram momentos intensos, desses praticamente felizes. O riso de quem amo tem um pouco de acanhado, um tanto de reflexivo, vem de um lugar que não é a boca. Ela ri num reflexo de alma, acontece iluminando. Posso presenciar mil vezes a chuva acariciando a terra seca. Mesmo assim, o cheiro da terra molhando se transformando em cheiro de terra molhada será único de mil jeitos diferentes. Tenho uma amiga inglesa e estamos longe, longe, longe de dominarmos um o idioma do outro. No entanto, fomos capazes de conversar sobre as bases filosóficas da dialética marxista por horas. Há lugares por onde passo que despertam em mim o instante exatato em que passei. É como se passando, o presente se olhasse num espelho e visse o beijo, o tombo, a gargalhada, o assombro, o medo, a chuvarada, o sol vindo, a ideia nascendo, o passeio de mãos dadas, o chá, a árvore de estimação e a própria lembrança de cada estação. Sthephen Hawking em “Uma Breve História do Tempo” se pergunta se ele (o tempo), teve um início e se haverá nele um fim, compreendido como final. Acho que tem, mas num viés de significado: o fim como objetivo, meta ou legado. Penso que o fim do tempo é não esquecermos o nosso fim. Não de onde, mas para que vim. Não quem sou, mas tudo que pode me tornar pleno. Não para onde vamos, mas se nossa caminhada alegra o caminho. Não é preciso sim para tudo, nem não é algo impronunciável. Talvez viver seja uma plantação de lembranças, sementes de histórias e encontros dissonantes. Que seja nossa melhor memória e traga o sabor inigualável do instante que nos tormamos o que viemos fazer.


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Acontece

Primeiro, alguém toma a iniciativa de fazer um pedido. Pode ser um carro, um amor, uma música, uma cura, qualquer coisa. Mas peça agradecendo o recebimento, gratidão é fundamental. Chame seus santos, pratique seus rituais, reze suas rezas e se quiser, dance a dança da chuva. Na verdade não importa se você pertence aos povos do deserto, se pratica chamanismo, se é ranzinza ou vascaína. O essencial é saber que tudo é uma prece e que alegria é o mínimo que acontece quando você fala com o Maioral. No meio de um show, o fã mandou um bilhete ao Bruce Springsteen, essa lindeza simpática e grande músico ao mesmo tempo. Qual era o desejo? Ouvir uma canção fora do repertório. Bruce se incendeia, motiva a plateia, pede ajuda, os músicos se inspiram, se tornam o pedido, o embelezam, nos tocam. Do nada, o que era um bilhete pedindo uma música num show em estádio lotado, vira uma festa de sons, de participação e de compartilhamento. Meu presente de hoje é dizer que acho que milagres são a explicação que a nossa ignorância dá à nossa vaidade. E se soubermos disso com o coração, seremos o extraordinário da invenção, do escrito, do bem dito. Não existe qualquer razão para nos sentirmos perdidos, me escuta? Se dirija a Buda ou a Bruce, tanto faz. O certo é que a vida está sempre atendendo a pedidos.

Sobre o real

Se alguém me perguntasse sobre a matéria-prima da imaginação ou do fato, diria que não são forças separadas. Pontes, livros, amantes, sinos, igrejas, milagres, filmes, alianças, crenças, canetas, esperanças, relógios, canções e luares, tudo depende de sonhos e o poder transformador dos seus olhares. Se alguém me dissesse que vem para entender suas dúvidas, alegrias ou tristezas, discordaria. Acho que viemos confirmar nossas certezas.

Tem que ser puro

E fomos felizes para o sempre

A vida é rock ou viola caipira? 
Alguém me perguntou isso, depois de ler uma das conversas que posto por aqui. De pronto, percebi que esse é um questionamento de porte. Senti uma certa dúvida, tipo cansaço nível F6 na pergunta, não sei bem. Normalmente, Platão me ajuda com nesse tipo de situação, mas não foi o caso. Aristóteles fala demais e sempre acaba provando que a gente é uma besta, o que procuro são respostas para o que não sei. Descartes e Kant são bem cheios de grandes opiniões, mas foi o bom e velho Nietzsche que me veio com essa:

E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”. 

Possivelmente ele queria dizer algo mais complexto, como “cada um sabe onde aperta o calo”. Eu creio que se refere à nossa pouca empatia uns com os outros, esse cacoete hipócrita que nos faz acreditar que faríamos mais e melhor do que qualquer um, como se quem observamos fosse um qualquer, tudo mundo é muito bom naquilo que não viveu. Diariamente e há anos me lembro que não há nem bom nem ruim, nem melhor ou pior, apenas circunstâncias e algumas escolhas. O filósofo, que de bobo tinha nada, também era poeta, músico e estava um pouco lelé antes de ir verificar pessoalmente a existência de Deus. A mulher que amou, não o correspondeu, o que pode ter inspirado frases como essa: 

aquele que tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como”.

Foi o caso dele, acredite. Os sensíveis, quem procura motivadores para uma humanidade mais bela e menos fera, os estéticos e os estetas ficam pouco à vontade no mundo. Isso não os dispensa em habita-lo, de fazer dele um lugar mais turístico ou de evitar vícios difíceis de abandonar, como o sertanejo universitário. Em outra encarnação cunhei a expressão “clube dos perfeitos”, sobre uma gente capaz de julgar num trink qualquer coisa, tendo opiniões e solução para os desprovidos do mesmo talento e, portanto, impedidos de frequentar tal agremiação. Dependendo do caso, de respirar o mesmo ar. De habitar o mesmo país. De viver o seu amor. De “tornar-se o que se é”, como afirmou Nietzsche. Fico pensando se Deus nos dissesse algo como “seja feita a sua vontade”, o que faríamos? Loteria uma vez por semana? Corpo do Brad Pit? Cura da gripe? Abel treinando o Inter? E se todos os nossos desejos fossem atendidos assim na terra como no céu, seria bom? Se houvesse possibilidade da vida ser sempre 2+2, o resultado sempre seria previsível, sem escalas de cinza, sem gradiência ou sujeito à chuvas e trovoadas no decorrer do período? Não sei, mas a cada um o seu cada qual, diz um ditado mineiro.

Há 3 dias estou naqueles estados lastimáveis que só nós, os homens, somos capazes de ficar. Cama, cara de triste, um ohhhh constante, seguido de gemedeira geral. É uma das 7 pragas do Egito (homens, homens), mas vai passar, assim como o Bolsonaro. Entre comprimidos e água de côco, relembro Quintana na mesa de costurar onde escrevo (tuc, tuc, tuc, tuc). Ele e seu eterno “vocês que atrapalham meu caminho, vocês passarão, eu passarinho”. Ter ficado amuado me tirou a bike por uns dias, mas me trouxe o poetinha gaúcho, não é má troca. Gosto de pensar que se escolhemos o amor, algo nos anima, embeleza ou eterniza. Então viver é puro rock, magnifico, universal, potente. Produz quadros, boa poesia, tricota, olha e te vê. Como Clapton, é possível ficar um pouco surdo, mas não é má troca: ele namorou a Carla Bruni-Sarkozy, gente. Chego hoje ao meu post 200 e é uma delícia ter a honra de receber mais de 15 mil conversas, curtidas e compartilhamentos. Profissionalmente, faço o que gosto e pessoalmente vivo enquanto espero. Imagino que estamos constantemente no caminho, na busca, tateando. Não há linhas retas, nem bússolas certeiras em período integral. É preciso resolver coisas e as coisas têm sua própria agenda. Então existirão as horas de apreciar o gosto das matas e das maçãs, como aquela música ensina. O importante é estar em paz com aquilo que se ama e com tudo que isso inspira. Então tanto faz ser rock ou viola caipira.

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