Gigante

Há muitos anos conhecei o Eucaliptos, um espaço acanhado onde o Inter jogava. Não é que desgostasse do lugar. Tinha vergonha, pra falar a verdade. E por que? Porque o Grêmio era dono do Olímpico, algo majestoso, até o nome conferia uma certa superioridade, eles eram os deuses e nós, os reles mortais. Fui a muitos jogos no Eucaliptos e no Olímpico. Não, não havia possibilidade de alguma dúvida bondosa à nosso respeito, nem do pedigree mulambento do nosso clube. Os gremistas não nos deixavam esquecer disso, dentro ou fora do campo. O Inter era ruim e pobre e mesmo assim disputava campeonatos nacionais. Fazia isso por disputar, sabia que perderia. E perdia.

Não é lógico torcer pra um time assim, mas esportes não têm nada a ver com lógica, mas com o inexplicável. Eu, por exemplo, não perco tempo tentando entender porque o time se comporta em campo exatamente como me sinto em frente à TV. Apenas sei que é assim, preciso estar atendo, não posso dormir, nem atender telefonemas urgentes, Obama que espere. Nem pensar prestar atenção em coisas menores como a possibilidade da Coreia do Norte jogar uma bomba H na Rússia. Meu trabalho é marcar os adversários, lembrar a tática, ficar assistindo com atenção. Aí sim, vai. Apenas sei que precisam de mim. Mas dizia que o time era ruim demais. Todos eles, ao longo de anos. Tão péssimo que um dia o Inter foi jogar contra o Santos de Pelé. Na volta, a equipe foi recepcionada na rodoviária (você não estava pensando que eles viajavam de avião, estava?) com direito a carro de bombeiro. A manchete da Zero Hora registrava a proeza em letras garrafais: EMPATAMOS!! Assim, com duas exclamações.

Hoje, torcer pro Inter acontece por osmose. Depois de ganhar o gauchão, o brasileirão, a copa do Brasil, a libertadores duas vezes, o mundial (contra o Farça), a recopa, a copa sul americana, o campeonato interplanetário de par ou impar, não há o que esse time não tenha conquistado. Entre seus feitos, um estádio maiúsculo, construído (literalmente) por seus torcedores por anos à fio. Nunca estive no Gigante da Beira Rio, esse monumento ao impressionante. Nunca entrei lá e sei que um dia isso vai acontecer, com outros eventos que pretendo ir. F1 fora do Brasil, um torneio daqueles de tênis. Andar na Tour de France. A feira do livro em Parati. Há uma casa a ser construída ali. Um lugar de não espera, fora das expectativas, além de certas compreensões, deslocado da lógica relapsa dos argumentos remendados e repetidos, das certezas absolutas, do tem que que ser assim porque é assim que tem que ser. Decididamente, origem não é destino.

Então, quando me sinto só ou desamparado, lembro dos Eucaliptos (que, por sinal, nem existe mais). Foi ali que começou uma trajetória de suor, lágrimas e risos. Cambalhotas, sustos e festejos. Derrotas, conquistas e peleias memoráveis. Hoje é o Inter que cuida de mim. Reajo como o time se comporta e talvez seja isso que o amor ensine: o importante é o que construimos juntos, o resultado do que vibra em em nós e a felicidade de estar do mesmo lado da festa. E que me desculpem os torcedores de todos os outros clubes: amar assim é gigante.

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O título que não veio

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Era um jogo do Inter. Angustiado e atento, eu era um garoto grudado no rádio. O locutor descrevia a cena e exagerava como todo locutor faz. Nos levava aos trancos, solavancos e chiados ao estádio adversário, gritando que “o colorado enfrenta de tudo aqui na Argentina. São heróis da pátria rio-grandense, são gaúchos, são vermelhos, são poucos, mas são imbatíveis”. Assim que disse imbatíveis, houve um silêncio. Algo longo e estranho, incompatível com a fé de quem transmitia o jogo, descrito como “uma luta de gigantes, centímetro por centímetro do campo”. É impossível tentar determinar quanto tempo durou aquele momento parado, tenso e mudo. Mas passado aquele hiato repleto do nada dito, o gol do River Plate foi anunciado. Procurei certeza de reversões num irmão mais velho. Sua expressão era lívida e apenas me disse “pode não acontecer”. Como era possível não acontecer? Já já entra o nosso, alguém vai passar por um, passar por dois e então viria o gol salvador, o gol dos imbatíveis, o gol da redenção, o gol que não veio. Lembro de uma tristeza só possível aos inconsoláveis e aos apaixonados, aos lunáticos e aos esperançosos sem motivo. O garoto que era não compreenderia a reação do homem que reviu aquele jogo graças às coisas da tecnologia. Achei a partida ruim, lenta, desprovida de maiores emoções e, sinceramente, o River era melhor. Não havia heróis e o placar deixou claro, não eram nem imbatíveis, sequer havia uma pátria rio-grandense. Por anos lembrei dos sons daquela partida. Quando a vi dia desses, quase não a reconheci. Algumas emoções são assim, acho. Precisam de tempo para que o apego das lembranças afetivas não surta mais o efeito que um dia teve sobre a forma como entendemos amores, rancores, vitórias e derrotas. Imagino que a experiência dos dias nos ofereça a chance incrível de perceber a falta de importância de certos fatos, ainda que fatos sejam. O que me faz torcer para o Inter não foram suas vitórias e sim o fato de tê-las acompanhado, acabando com as unhas e cutículas, dependendo do jogo. Foi o tempo que vi o time crescer e que eu mesmo cresci. Foi saber decor e salteado as escalações, foi ter acordado cedo quando o jogo era no Japão. Será que meu amor pelo Inter nasceu porque gostei do vermelho e do símbolo do clube ou por que estava ao lado do meu irmão, os dois grudados no rádio e ouvindo o narrador exagerado? Talvez essa resposta venha com o tempo, talvez não. O que entendo agora é que o essencial na construção de qualquer história é a oportunidade que ela te dá de experimentar forças que temos em nós. Somos formados por inexplicáveis possibilidades, o que inclui certezas que serão abaladas, confirmadas ou esquecidas. O Inter, naquela noite fria de chuva, perdeu. E isso não o impediu de ser campeão mundial de clubes. O garoto esteve triste. Isso inspirou o homem a lhe mandar boas notícias.

D(eu)S

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Acho que Deus tem um bom humor danado. É a minha explicação para a zebra, o rinoceronte e o veado. O bife no ponto, o arroz com linguiça e o ovo cozido pra mim são manifestações divinas, junto com o feijão e muita calda. Estão ali ali com a bicicleta, o pão com margarina e as tirinhas da Mafalda. Ele sopra e faz cosquinha no universo, brinca de pega peca com os cometas e, até onde vejo, consegue equilibrar a vida entre o clássico e o sertanejo. Deus é textual, apaixonado, um grande romântico. Quem mais faria o oceano índico tão lindo quando o marzão atlântico? E as inspirações do Chico? E o slogan da Nyke? E o gol de placa? Por favor, alguém me diga o que é que Ele viu na barata? Deus tem um gosto exuberante, única justificativa para o elefante. Claro que Ele não inventou os vícios, isso é coisa do Vinícios. É de Sua a autoria o Gandhi, a borboleta azul e o cheiro de terra molhada. Bisteca é coisa Dele e sim Senhor. Foi criada por Ele um pouco depois da TV de 58 polegadas. Deus é humor em cada esquina (e não tem nada a ver com aquele gol de mão da Argentina). Seu amor é pleno e incondicional, até mesmo pelos hereges que não torcem pelo Internacional. Inventor de luares, Deus trata com o mesmo carinho absoluto tudo que vive, que respira e transgride. É por isso que peço que Deus nos livre dos medíocres, dos míopes da verdade. Daqueles que confundem efêmero com eternidade, tempo com idade, beleza com vaidade. Deus é escritor, tanto que antes tudo era escuro, até que veio o verbo, a palavra e o Ipad. Foi o que reabilitou a maçã em toda a Sua obra. De qualquer forma, pessoalmente não engoli Adão, Eva e aquela história da cobra. Não acredito num Deus vingança, sem perdão, sem esperança, um Deus solidão. Meu Deus é leve, breve, sorridente e acho que enquanto lia os salmos comia um bom salmão. Deus é uma piada, uma praia vazia, uma lembrança antiga, aquele pulo na lagoa, um dia à toa, uma notícia esperada, todas as chegadas, todas as partidas, um punhado de vida e um bocado de tropeções.