sobre um poema

“Cantiga para não Morrer” foi escrita em Moscou, por Ferreira Gullar. Por mim, ele poderia ter ficado na linda frase “a arte existe porque a vida não basta”. Já teria valido o ingresso, com direito a aplauso de pé, mas não. O artista embeleza o dia frio, emoldura a tristeza e resiste à despedida certa com um afeto-poeta, quase um pedido de exílio na alma da amada.

Quando você for se embora,

moça branca como a neve,

me leve

O poema é uma declaração de amor, também uma despedida, mas (acima de tudo), descreve um pedido quase implorado de existência para o outro. É como se Gullar, lentamente, abrisse mão de qualquer coisa para permanecer vivo de alguma forma naquele afeto.

Se acaso você não possa

me carregar pela mão,

menina branca de neve,

me leve no coração 

A separação é inevitável, pelas circunstâncias de ambos. Ferreira, um exilado que não pode mais ficar na Rússia. A moça branca de neve seguirá para Mongólia (não sei se o poeta brinca ou não ao tratá-la de “branca de neve”. É uma referência ao inverno russo ou ao personagem do Disney?). Segundo ele mesmo, nevava quando ambos se despediram e no dia em que o poema foi feito. Não se verão mais, mas há sempre a possibilidade da lembrança como forma de resistência.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar. 

Gullar deixa escapar em uma entrevista que ela pede por sua volta, o que não aconteceria. Diz isso de um modo impassível, como quem só consegue lidar com aquilo sem lidar, apenas indo.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Está nos detalhes

As pequenas coisas
Andam devagar
porque nunca tiveram pressa

Entre tantos entretantos, estamos, no entanto não somos. No sumo das coisas, entrevistas, entre vistas e pontos de exclamação, usar ou não? Um caminho, dez caminhos, quantos ninhos, quantas vertentes tentei ver. Desatento, vivo no momento inexato da partilha, sou um ato, um fato, uma anatomia. Não é muito, mas basta. Do eterno a terna parte que gasta.