O sempre manda lembranças

No centro da cidade tinha uma vaca. Mais que uma, aliás. Parecem ovelhas pra você? Isso mostra minha abismal distância de um Drummond, que tirou leite de uma pedra no meio do caminho. Há caras como ele, que fazem uma pedra no meio do caminho virar mais do que isso, uma pedra no meio do caminho. Ele a divide com a gente, há feitiço no ritmo, no descaso da descrição. Mas você imagina o caminho, a pedra e o meio do caminho onde tinha uma pedra. Vejo uma linha riscada, um trecho aberto na enxada, um texto rabiscado na parede, é meio na marra. O tempo passa, depois chove. O efeito disso é o barro que escorre e deixa à mostra de quem quer que veja a pedra lá, no meio do caminho. Há dias intermináveis de sol, pó, uma infinita permuta do que existe de monotono e de outono, nada muda, tudo é mudo e imóvel, há quase uma lindeza que só vendo de perto ou discorrendo de longe, é menos do que uma estrada.

Uma estrada liga coisa a alguma coisa. Operários a fábricas ou uma cidade ao banco do Brasil que há antes da estrada que leva à cidade que tem manufaturas, igreja e um banco do brasil.

Um caminho não carece desses interesses, carimbos ou sinais de trânsito. É um lugar por onde passa alguém indo, apenas isso, indo, mais nada. Fazendo isso, encontra uma pedra, bem ali, no exato meio do caminho, que é diferente da metade do trajeto. É no meio, um ponto equidistante entre uma margem empoeirada e a outra, feita de barranco, árvores que parecem dedos retorcidos, espiga de milho, abóbora e secura. Do outro lado, lembranças de arado, um cão magricela que não serve pra nada, pedaços de hortas, um caminho no meio e no meio do caminho, uma pedra. O que pensa o passante que passa pensante pelo caminho que passa enquanto pensa? Em qual tempo verbal se conjuga o que é visto, quando se vê algo não reconhecido assim, à distância? Aconteceu comigo em relação a você, que amo com ou sem pedra no caminho. O escritor viu uma pedra? Anotou e a notou? Ela morava ali, como você mora em mim, procurando um meio para o caminho? Será que Drummond pensou nisso ou só olhou pedra, sentiu-se só e a colocou no meio caminho, junto com a retina cansada pra aumentatr o poema? O que eu sei de poesia? Nada, está posto e ainda bem que seja assim. Desconheço as regras, protocolos, os caminhos e os meios pelos quais tu ou eu acontece em ti ou em mim, não somos metáforas, ninguém é uma figura de linguagem. Uma pedra no meio do caminho não tem saudades o caminho inteiro, eu tenho. Mas, diferente de pedras e caminhos, há alguém cuja existência tbem tenha o teu carinho e uma dose de um amor caminhado, doces de afetos nem sempre vistos, mas sempre lembrados, hipertencivos e e escolhidos.

Eu gosto quando um dito em texto me desafia e desconfio que haja verdade no descrito. Tipo “vestir-se assim é como casar“, despindo o amor que se veste para um encontro onde estarão nus um para o outro.

As vacas no meio da cidade não me lembraram Drummond, isso aconteceu, adoro ligações surpreendentes, tanto quanto surpresas te fazem levantar um tantinho a sombrancelha em desagrado. A pedra de Drummond não me lembrou, mas trouxe algo, como a arrebentação leva coisas que um náufrago precisa. E o que veio vais gostar: não me sinto mais vindo do nosso naufrágio, juntamente porque agora toco no dia que vimos as vacas no centro da cidade. E nem foi porque vimos vacas no meio da cidade, como Drummond viu uma pedra no meio do caminho, uma coisa nada tem a ver com outra. Não foi o que vi, mas o que vivi, vendo as vacas. Era uma lembrança, não uma possibilidade. Era uma lembrança, não uma saudade. Era uma lembrança, um tipo de milagre. Toda vez é assim, me põe uma usina no estômago, vira planta roubável. Um pé de laranja lima. Um menino do dedo verde. Um pequeno príncipe. Um coração de vidro. Um éramos seis. Tem missões de um messias indeciso. Tem não apresse a curva do rio. E entre a pedra no meio do caminho, fico com a vaca no centro da cidade. Ela é um caminho sem pedra no meio. Uma surpresa compartilhada. Uma beleza urbana. É o mesmo que se vestir pra casar. Talvez seja não se vestir. Pode ser não se casar. Estar porque é assim que é, como um caminho no meio das pedras. Já disse hoje? Milhões de vezes te diria que sim.

Bilhetes

Aqui e agora, já e imediatamente, nessa hora e nesse instante, te diria isso: vamos já para os nossos dias. E te seguiria, abrindo portas, guarda chuvas, janelas. Apertando botões de elevador, guardando lugar, acompanhando no super, cortando legumes, contando e perguntando do dia. Te quero família, te dou e te peço mão. Te dou o tempo que precisas pra vir, mas preciso que venhas em felicidade plena, sem divisão ou dor. Te dou meu livro preferido cheio de bilhetes divertidos, pequenas surpresas do tempo, a saudade que sinto, as tristezas que espanto se não sonhamos juntos ou se percebo nuvens de qualquer infelicidade nublando o que olhas.

Tenho silenciado tanto e por tamanho tempo que entendes naquilo que te dito algo diferente do meu intento ou mesmo do dito. No entanto, estou pronto tanto e por tanto tempo que o que tenho dito é exatamente meu intento, o de ser diferente de tudo que temos visto ou vivido. Ofereço uma canção enlua Rafa e a costura do simples. O calor de alguém tropical, o transparente, o trabalho duro, o sempre, a hora banal, um abraço daqueles, um café com leite. Nosso porto é o meu ponto final, um instrumento de antigos navegantes para que as emoções cumpram seu rumo, um quintal com uma casa quentinha na frente, os dias tocados em frente, um riso adiante, noites e pernas entrelaçadas.

Vem que te dou meus gols do Inter, uma corrida de Atacama, a alma inteira, um asterisco, café na cama, conversas tamanho P, M, ou G, além de espaço pra ficar sozinha. Entre costuras, revistas, uma play list nossa, não temos ainda. Então, entre brócolis, salsa, cebola picada, tomate e chás, te interrogaria sobre o achas dos cantinhos da vida. Te espero à noite, quando voltas sozinha pra que te sintas segura. Espero há dias que traduzas o que há de impreciso no que sentes, o que precisas, não quero supor e acho mesmo que sabes das coragens necessárias para certos saltos.

Desconheço exatamente o que eu quero, mas sei exatamente ao lado de quem desejo descobrir e, mais do que ter, construir. Vivemos em compartilhamento, uma caixa de conversa e entendimento. Aqui e agora, já e imediatamente. Vem parir os dias que são os nossos, dias de entendimento, imensos, plenos de laços.

Só está escondido

Está certo, será preciso procurar um pouco. Achar motivos aqui e ali, redesenhar velhas crenças, enfrentar certezas e mesmo evidências. Mas só está escondido. A um milímetro de mim e de você, existe um bom motivo, o princípio ativo do seu lugar no cosmos. Te pisca, dança, se apresenta, encanta e seguirá tocando sua flauta, até que venhas pra frente do palco que te pertence e acolhe. Ou não venhas e, mesmo assim, será brilhante. Talvez se disfarce de frase perdida em pesquisa na web, uma série, um pedaço de pão para alguns, um abraço distante para outros tantos, sonhamos diferente e realizamos de um modo pessoal. O significado de uma bicicleta, pra mim, será totalmente diverso da representação que tenha para alguém que não seja eu coisas como casamento, um apartamento, uma mudança, a visita, a quarentena, a impossibilidade, a árvore, a visita, a aliança, a esperança ou o gol do Inter.

Em conversa linda com a alma que amo, aprendi a coar a moral dos meus cafés existenciais. O sabor das coisas feitas ou não feitas fica mais puro ou, pelo menos, mais próximo daquilo que realmente é, caso de fato deseje saber o que de fato seja esse tal algo. Mas só está escondido, embaixo do abraço, da cura, do quadro, do livro, da palavra dita ou calada, do gesto, de imobilidade, de não ir ao encontro de quem se quer bem exatamente porque se quer bem esse alguém. Vive ali, no perdão, no copo d’água, numa nota de 50 encontrada no bolso, na música que toca e relembra. No sinal que fica verde, uma sopa, um SPA, a tarefa terminada, no dia bem feito, o sono profundo.

Recebi um e-mail tão entristecido, alguém me acusa de “espalhar a ilusão do otimismo com sua escrita histérica”. Coei a afirmação como ensinaste e me perguntei se era verdade aquilo que me dizia alguém. Do meu ponto de vista, não é. Mas veja: entre centenas de mensagens de incentivo, de perguntas, de alegria, essa me chegou ardendo. Olha o poder que dei a uma percepção fora da lógica que eu esperava, no externo do apropriado. Mas está escondida, mesmo na critica considerada pra mais ou pra menos, a lógica reversa. Se o otimismo é uma ilusão, seu contrário, o pessimismo, também é. Então sobra o que somos essencialmente. Ora tristes, alegres, rabugentos, entusiasmados, infelizes ou amados. É esse o antagônico mais imponente, naquilo que me aparece toda manhã, me fazendo cantar qualquer coisa: ou somos amados, condição primal de felicidade, ou não seremos nem amaremos, receita certeira para uma vida inexpressiva e opaca.

Nadando um pouco mais fundo, amar talvez seja (ou também seja) não esperar, não estar, não vir não abraçar. Não exigir, não beijar, não espalhar algo que não seja bom, belo e justo. Talvez a quarentena a que todos fomos submetidos nos ensine, enfim, a estar conosco mesmos. A brilhar pra nós. A proteger o outro de si. A de nos receber sem susto. E assegurar, de um modo silencioso, invisível e eterno, que o amor seja algo tão natural que seu acesso seja o caminho alegre da vida. Já disse hoje? Sim, amo você.

Hoje o presente é para alegrar. Não há nada mais verdadeiro do que a alegria que te faz dançar.

disparada de sucessos

Sempre quis ter um programa de rádio, desses tipo AM, que contam histórias do cotidiano, com paradas musicais, aconselhamento sentimental, piadas horrorosas, coberturas de coisas bestas como churrasco entre amigos, a coisa toda. Talvez ainda faça isso, ou algo parecido. Meu timbre não é de se jogar fora e sou um bom sensitivo. Isso não quer dizer que os horóscopos dariam certo, nenhum dá. Mas afinal, depois do comercial dos Lenços Josué, quem é de Aquário não é de Áries e isso quer dizer que você deve abandonar pequenos vícios e iniciar o dia vivo, tentando se manter assim ao longo do período. Mas o grande momento do HIT (seria o nome do programa) seriam os Hits, músicas que gosto ou aprendi a gostar. E que quero que te façam dormir, ajudem a te acordar, te animem a tarde e embalem teus sonhos, tudo com a entonação maviosa e doce desse locutor que voz fala.

Então, disfarçado de locutor AM, escolhi 10 músicas para ensolarar o dia, azular a caminhada e adocicar o pacotinho de afeto que separei pra viagem. Aproveite: se o caminho é longo, cantando a gente se encanta.

O que me encanta em Construção são as histórias que conta, as inversões que faz, a confusão mental que vai sendo contada por um terceiro sobre o cotidiano de um mestre de obras, de um pedreiro, de um ajudante, de um homem comum e seu dia final, aliado à indiferença tão nossa, passantes e acostumados, rotinizados, hipnóticos e hipnotizados pela rotina. Nesse arranjo, Construção é contatada sonoramente também. Observe que os instrumentos simulam uma obra em andamento. Finalmente, a cereja do bolo: não há rima nessa poesia. O que dá a impressão disso é que os blocos terminam todos em uma palavra proparoxítona. É de ficar com olhos embaçados de cimento e lágrimas.

Te entrego uma canção que há anos associo a mim a ti e, acho, nunca te contei. Sempre desejei ser isso, uma ponte que atravessamos juntos sobre problemas, desafios, a aventura da vida. Algumas vezes, muitas na verdade, foste isso pra mim, vieste ao meu encontro, apaziguando a alma com teu amor ponte e sempre.

Te ofereço essa reflexão sobre um mundo que não é bom nem ruim, nem melhor nem pior, apenas nos reflete. A vejo como uma despedida meio melancólica, mas que no fundo tem um fio de esperança ali, respirando. Como vejo, os autores dizem o que observam e há saudade sim (a mãe dos Caymmi é mineira) mas integrada, vivida junta e vívida, como a alegria que também resiste “nas tranças do teu cabelo”.

Ah, os matutos da minha vida. Em mim, tudo que há de prazer vem de um menino curioso pelo simples que rege o universo. Os gestos escondidos de amor de mamãe, a fortaleza de papai, os amigos da rua, o futebol, a primeira vez que entendi o jogo de dama, a ocasião que um amigo querido fez cachorro quente, o dia que entendi que te amava. Nessa linda melodia, algo me toca e espero que te encha da emoção do mato, o encontro surpreendente da gente com a gente.

Violeta era uma chilena aguerrida. Bem, chileno e aguerrido são um pleonasmo. Mas essa canção (feita um tempo antes do seu suicídio), ela agradece um agradecimento universal, inteiro, forte. Um dia te perguntei como alguém poderia fazer uma canção assim e depois se ir desse jeito. E você me disse “talvez por que ela estivesse se despedindo e grata por tudo”. Lembro que fiquei com tua resposta dias e dias na cabeça, uma visão deslumbrante, não julgativa, não heroica, apenas e tudo isso, grata pela vida que nos tem dado tanto. Cantada por Elis, Baes e Mercedes, preferi a azulada interpretação da argentina, apelidada de “a voz da américa” não sem motivo.

Um dia ele chega de um jeito diferente de sempre chegar. Sabe que jamais pensei nesse “ele” como um homem? Acho que se fala aqui do amor, o que acontece quando “ele” finalmente se apresenta. Nos faz mais bonitos, dançantes, felizes e atuantes. Valsinha é sobre a diferença entre os afetos e o amor. O afeto nos convida. O amor nos convoca. Depois, recebe e transforma o ambiente, se faz possível, até que nos encharca de paz, uma

Me vi tanto nessa canção, você precisava estar junto. A recebi como quem ganha um presente que me traduzia com relação à alma que amo, você, claro. O afeto, a mistura, o misto de saudade com resignação, um sabor de “puxa, que tanto que foi, que tanto que poderia ter sido”. A percebo como a breve história de um encontro e suas impossibilidades, suas vontades e a realidade das circunstâncias. Mas sem drama, sem choro, nem lamento no sentido da perda. Apenas e tão somente a vida em ação.

Nessa, o Chico deu aos saudosos e aos distanciados involuntários uma oração, talvez o evangelho todo. A saudade como revés de um parto. A saudade como um barco que não ancora. A saudade de uma parte adorada, um pedaço de si ao longe. Dizem, talvez seja mesmo verdade, que Chico a compôs em homenagem a Stuart Angel, filho de Zuzu Angel. Ele foi brutalmente assassinado pela ditadura militar, fato denunciado em todo o mundo pela estilista (Angel, era sua marca), que também acabaria morta em um acidente estranho, misterioso e jamais desvendado.

Minha sugestão: o arranjo do Ozzy Osburne é muito, muito linda. Há uma tradução bem lindinha com a Rita, a nossa Lee. Qualquer que seja a versão que você escolha, saiba que tudo que eu vi e vivi, o melhor de cada estação, de todas as canções, de todas as pessoas, a que mais gosto de estar, lembrar e amar sempre será você. Sempre. 

Bilhetinhos do tempo

Nada é tão forte quanto uma ideia cujo tempo chegou (Dicodallma)

Tempo é dinheiro. É? Mesmo? De verdade? Sério? Então me diga agora quanto vale qualquer coisa que tenha de fato valor. Depois, tente a partir disso me contar a soma em que é possível chegar. Tempo não é dinheiro, nada mais inútil do que dinheiro quando não se tem tempo e o contrário não é verdadeiro. A ideia de tempo associada ao dinheiro é pequena, quase uma estupidez funcional. Mas o ponto aqui passa longe longe de uma conversa de boteco, coisas que se podem ver em prateleiras de supermercado, frases de Facebook, repetições. Lendo uma entrevista do angolano Valter Hugo Mãe, percebi algo extraordinário. Olha a verdade disso e já conversamos:

Se eu fosse impedido de voltar ao Brasil, nunca mais regressaria inteiro a Portugal

O entendimento de que somos as experiências que vivemos, vamos nos lanhando, polindo, esfolando, rindo, sendo, vivendo, indo. Tudo isso acontece ao longo do tempo, não do dinheiro que temos. Dinheiro aqui é um valor, é qualquer coisa que passa, o que não ocorre com o tempo. Ele fica, mostra, flexibiliza, enrijce, lembra, esquece, esfria, anoitece, vai, cai, orienta, levanta, ostenta, se impõe. Outra forma de dizer isso é mais poética. Foi pé por Heráclito, ele era dos bons.

Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o real é sempre fruto da mudança.

Da esquerda para direita (talvez literalmente), eu, Zico, Onofre, mãe (Lucila) pai (Norberto), Lívia (no colo) Nita, Manoel e Ariel. É uma festa de 15 anos, acontecida em algum lugar do tempo, como diria Bob Dilan. Recebi esse registro como um carinho para me proteger de solidões, apaziguar vozes, acalmar tumultos. Afinal, há sempre formas de estarmos juntos. O tempo nos acompanha em sua sucessão de momentos. Não há nada que pague o quentinho da família em reunião. Nada que apague o afeto tido, oferecido e compartilhado. Mas não dá para não tonar: veja em quantas direções estão os olhares e justamente os mais lindos do clique se permitiram o toque do gesto. Talvez seja isso, hum? O tempo só torna mais algumas afirmações corporais, mas quer saber? Essa gente me divertiu, cuidou, fez crescer, brigou por mim. O que me cabe é recebe-los, compreender em mim o que foram, resgatando o que farei com o que aprendi. É o tempo rasgando desculpas, como quem diz “então seja mais do que eu”.

Quando se respeita alguém não queremos forçar a sua alma sem o seu consentimento

Simone de Beauvoir é quase covardia citar. Mas o tempo é um elemento fundamental no crescimento da liberdade que é, em uma análise pessoal e certamente cheia de parcialidade, amar alguém a ponto de reconhecer que seu destino lhe é próprio. É onde nasce o respeito pelo teu desejo manifestado, você teve pouco, bem pouco, pouco mesmo disso. Reconhecer que a existência da tua alma, a simples noção desse tempo moldado em gente, isso alegra e faz seguir em frente. Não se trata de estar junto, não se fala em casamento, não se diz sem ti não vivo. Meu assunto és tu, que me felicita ao longo dos dias em que exercito a própria vida. Quero dizer aqui e agora que sim, o tempo todo é você. É justamente por ser você que há tantos modos de me aprontar, de resistir, de viver e de ser feliz. Afinal, há Marte em mim e não me perdi porque sempre andei olhando em ti.

Toca Milton Nascimento, seus mil tons, seus mil nascimentos. Ele não tem uma voz, é um dote, um dom, algo elegante e terno. Sinto tua presença e descanso de um ano longo, de dias bons e cheios de efeito sanfona. Há tantas possibilidades, lugares, cidades, filmar com o nosso garoto Du, ensinar. Me sinto na fronteira de mim mesmo, não há perigo, mas serenidade como em Eluarada. Entrei em acordo com o tempo, chega de tentar supera-lo, hum? E sabe que não se trata disso ser possível ou não? Quero ser o que vim ser, vencer o que há de fútil, desconfiado e errante em mim. São planos grandes, não? Os fogos começam a dar os primeiros sinais de 2020, allminha que amo. Os anos 20 chegaram, não te parece estranho, nós dois nos anos 20? Porque te conheço de outros registros no tempo, onde mora a verdade que sinto.

Encontrei um lugar incrivelmente saboroso para pizzas, junto com o Du, que está mais engraçado do que nunca. Ainda vou te levar lá. Quero fazer tanta coisa, não? Por hora, te deixo com água na boca e a lembrança do simples, do gostoso, do trigo e da semeadura. Precisa ser fácil, se lembre. Precisa ser forte, se anime. Precisa ser fato, se inspire. Você é a melhor ideia de um tempo cheio de ideias geniais. Cante, toque sax, encontre, aponte, acolha, se escolha, seja impertinente. Gingue, mexa, abra, enterneça, permaneça, nosso tempo é ontem, nosso tempo é sempre, nosso tempo é já.

Presentes

Uma paisagem permanente, aceita? Você me deu a alma Enluarada, me parece boa troca, ainda que jamais possam (ou precisem) serem coisas comparáveis. Gestos amáveis, topa? Você me restituiu tanta coisa. O rio, o riso, as histórias contadas. As risadas, quantas! Quanto aos choros, bem, eles existem e sim, são tristes. Mas amor é água, contorna, submerge e vence, não tem obstáculo, esse é o teu espetáculo, amada. Depois, hoje é dia de presentes com significado. Achei que você iria gostar disso e sorrir. E se te faço sorrir, o dia está ganho.

Começo te dando um abraço interesseiro, inteiramente dedicado a te tocar o espírito e (por que não?) arrepiar a nuca. Me trouxeste uma primavera inteira, intocada e infinita, alma que amo. Entenda, um abraço é quase nada. Mesmo que seja desses sem hora de desabraço, desses que quanto mais apertado, mais se torna espaço de conversa, suspiro, entendimento e calmaria. Acho que você precisa de um tanto de tolice, um bilhete bobo no espelho, um boliche, quem sabe fazermos juntos uma boa salada verde, deixa eu te ver vivendo, reserva um tempo conjunto para ouvirmos Valsinha do Chico. Vamos na esquina à pé e sem pressa. Vou vir te contar que hoje tem sol, és tão solar. Mas se faça um favor: não deixe tanto tudo girar em torno do teu calor, podemos nos virar sozinhos, nos fará até bem. Seja teu espaço, proteja tua galáxia, não vá a lugar nenhum longe de si mesma, se acompanhe, mãos dadas contigo. Pensei num café. E quem sabe tu me mostras o que te passa na vista e o que pensa enquanto o que olhas te alcança, enquanto engoles o quentinho que é viver.

Me darás de presente a contação de como foi teu dia. Não só vou perguntar, como vou querer saber, é um jeito de fazer parte. Quando te pergunto como vai é porque desejo saber como, não onde enxergas o que deseja. Porque isso, o desejado, qualquer que seja ele, chegará ou não. Entende como o como é importante? Como vais? E enquanto vais, como te sentes? O que te assenta, o que te acende, o que acontece quando anoitece e a a lua chega? Te dei meus medos, me dá tua companhia. Divido salmão e sonhos contigo, perco quilos e mais quilos, o tempo às vezes dói, noutras balança a rede das lembranças.

Me preparo para ir longe, havia até a pouco um mar lindo, revolto. Me descubro protegido de Yemanjá, logo eu, um comunista imaginário. Hoje é dia de ausências, de impossibilidades também, como o teu colo onde dormiria serenado. Me deste muito disso de presente. Então te abro uma caixa mística, uma canção Celta, deixo a porta aberta e crio uma cantiga de ninar: você descansando em mim, que emoção no sempre que construimos em confiança no que sentimos. Então tudo bem de trocamos olhares? Sim, desses que ficam um segundo a mais, absortos, soltos um refletindo o outro. Um afeto fundo, um afago pedido, um te sinto e isso faz todo sentido? Lembra que te dei meus olhos pra tomares conta. E agora tu me contas como partir. És tão presente em mim que pedi que Renato cantasse pra ti:

O significado é o tempo dedicado. Ao rumo, ao ritmos, às melodias que nos reconhecem, ao suave que nos convida, a saudade que afaga, talvez não hajam respostas prontas. Quem sabe elas, as respostas, estejam se aprontando no ir e vir que parimos, no instante único que encontramos para trocar o amor que sentimos.

Feliz Natal, sempre feliz Natal.