À benção, Silvio.

Sobre Silvio Rodrigues tenho pouco a falar. É um poeta, o que se sabe dos poetas? Mas esse cubano tem algo, ah tem. Ele é dos bons, desses capazes de falar de coisas como o amor ou liberdade alargando o conceito, a percepção e o próprio senso comum sobre o tema. “A Quem Merece o Amor”, cantada aqui pelo Magrão + MPB4, é um ótimo exemplo do que falo.

Se você ouvir distraída como a maioria de nós, pode pensar que se trata de uma canção-desabafo, feita por alguém cujo amor incompreendido ou não aceito dedica a quem não pode aceita-lo, recebe-lo ou mesmo compreender. A gente poderia conversar sobre os muitos afetos que nos propiciam as leituras de textos, sejam eles a Ilíada ou letras de música. Talvez porque sejam metáfora ou códigos que nos aproximam. Talvez pelos significados pessoais que tenham e que nos reflitam um no outro, ainda que me sinta não um, mas no universo formado de infinitos chamado outro. Viu? Sou ruim de metáforas. Voltemos a Silvio e “A Quem Merece o Amor”.

Trata-se de uma canção que faz da revolução (a cubana, no caso) um gesto de amor. Não por acaso, o músico escolhe uma palavras distante daquela associadas ao aspecto romântico desse sentimento. “Te perturba esse asse amor?” é a pergunta que a canção faz para responder a que veio ou ao que é. Concordar ou não com as respostas que dá é algo que me importa menos. Mas o questionamento é fenomenal. Te molesta esse amor? O molesta, em espanhol, grita um pouco menos que o português “perturba”. É menos agressivo, um pouco menos perturbador.

Como o amor pode perturbar, talvez você me pergunte. Ou talvez não, só posso mesmo saber se você me disser. E se tomarmos ao pé da letra, me pediram para que eu desse um jeito de ficar quieto no canto de cá do silêncio e das conclusões a que se chega pelo que ele não diz. Então respondo à pergunta imaginária que se o amor não te perturba, não bagunça a tua lógica, não te eleva ao teu exato lugar no cosmos, não te faz feliz pela simples ideia da existência do outro, não te aumenta a potência de agir, não te faz amar mais a humanidade, que coiso de amor é esse? Silvio afirma que o amor revolução (era literalmente a revolução) “alivia e acalma, é o remédio da alma pra quem quer se curar “. O poeta adverte que é preciso querer, reconhecendo o até ali vivido como algo que pode ter sido qualquer coisa, mas que colocado em perspectiva, fica na prateleira do belo, enquanto que o amor revolução é irresistível, por isso perturbador.

Enquanto nos encanta descrevendo um amor pessoal, Rodriguez revela seu amor pelo coletivo, pelo oprimido, pelo solitário, pelo triste, pelo desencorajado, por uma Cuba Livre:

Meu amor, o mais apaixonado
Pelo injustiçado
Pelo mais sofredor
Meu amor abre o peito pra morte


E se entrega pra sorte
Por um tempo melhor
Meu amor, esse amor destemido
Arde em fogo infinito
Por quem merece amor.

Arder em fogo infinito “por quem merece o amor” é uma raridade poética porque impõe uma condicionante humana, o merecimento. É preciso ter coragem para oferecer e para retribuir. É preciso ter coragem para não oferecer ou retribuir? Eis uma boa pergunta, logo agora no final dessa conversa calada. Não sei dizer. O que me dou conta é que todo amor é uma revolução, não uma guerra. Portanto não se trata de vencer ou perder, mas de respeitar o que seria o ponto alto da história. Quanto a isso, a história, deixo para Pablo Milanez, outro cubano supimpa, uma definição formidável:

A história é um carro alegre,

cheio de um povo contente,

que vai levando, indiferente,

todo aquele que a negue.

O presente de hoje é um MPB4 que nem existe mais, quando Magrão ainda estava por aqui. Ouça as intervenções sutis do piano, são presenças tipicamente cubanas no jeito de tocar aquele instrumento. Sinta a alegria, sirvam-se, mereça.

Respostas

Não tem jeito, um texto reflete. Pula de alegria com as vindas de quem ama. Se atordoa com suas partidas, descreve o amor que sente. Mostra que se ressente do afeto distante, da presença faltante. Das falas, passeios, toques, surpresas, passagens de tempo, encontros e seus conexos. Nunca entendi que a felicidade seja algo de acesso pedregulhoso, exigindo um arco só possível a eleitos, heróis, seres especiais. De onde vejo, isso sim é coisa de filme. Eu sei que você concorda porque age assim não mandando para o exílio gestos carinhos, afetos cotidianos, planos, conversas, pequenas proteções, grandes surpresas, fazer a sobremesa preferida, comprar uma lapiseira para quem você quer escrever uma história que possa ser renovada. Nos acostumamos tanto com Hollywood fazemos da vida real não um lugar que moldamos, criamos e construímos à nossa imagem e semelhança, mas um espaço que decoramos, memorizamos textos e rimos às sextas. Sabe o que significa quando digo te amo? Que sinto te amo. Que me melhora te amo. Que me agrada te amo. Que me faz falta te amo. Que confio te amo. Te amo é um signo que abre portas e portais, janelas, novas perspectivas, acalma angústias e se compromete, além de fazer bem para a pele. Te amo é prático, enfático, liberta. Toma remédio, faz exercício, cuida, ouve Bob Dylan e vive o te amo da maneira mais feliz que consegue. Fica triste? Fica triste. Vai embora? Acontece. Mas não parte. Está ali, de algum jeito faz do afeto algo efetivo, assertivo, que chega e toca toda vez que vem. Chega e toca toda vez que fala. Chega e toca toda vez que conta. Chega e toca toda vez, cada vez e sempre. Não é entendimento contínuo, mas a contínua busca pelo espaço comum arejado, onde o outro não deixa de ser o outro por conta de nada e de ninguém, ainda bem por isso. É a vida real do tipo levinha, com alminha serena. Vou ver um filme hoje. Um que tenha passagem de tempo que sempre nos encanta. Com filosofia, que me encanta. Com a vida como ela é, que te encanta. Um onde a trilha seja protagonista, provando que o artista faz para a existência, ainda que isso cause em mim um ciúme dos brabos. Ainda atordoado? Bah em doses sartreanas. Mas somos capazes de nos fortalecer, de nos importar nos amando e protegendo de um modo criativo. De qualquer jeito, concordo em número, gênero e grau: somos melhores ao vivo.

Prometo

Começa a semana e lá vou eu te contar que se a rua fosse minha, eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhante para você passar. E assim que isso acontecesse, te diria que se roubei o teu coração, tu roubaste o meu também.

O presente de hoje é a lembrança do quanto a inocência surfa no tempo, qualquer tempo e o tempo todo. Muito, sempre e tanto: é assim.

Bom findi

Tem árvore que vai ganhar abraço. (e uns beijinhos)

Sobre palavras e silêncios, preciso te contar que as minhas precisam ser extintas se não forem espaço, abraço, sol ou aconchego. É isso que tenho a dizer porque é o que existe em mim para mostrar, confirmar ou descrever. Se chegam tortas, borradas, estranhas, cobrantes ou insanas não servem nem ao tempo nem ao portal de acesso específico, exclusivo e intransferível que está sempre em construção. Palavras cortantes, acusantes, diminuidoras ou pedintes não são bem-vindas. Vale o mesmo para aquelas que no espaço de paz que visitamos, descrevam qualquer outro artigo que não o bem e o bom contigo. Essas devem seguir para o exílio até sintam e sentindo sejam amor, amizade, afeto, riso, chocolate, bicicleta, gol do Inter, instante, arroz com siri, café de manhã, escurinho, cinema, pipoca, espaço de conversa, fé e desejo. Que o silêncio seja confiança, força, pensamento, crescimento, torcida. Que esteja presença, bolo de fubá, sabiá, beija-flor, árvore de estimação, alguma solidão, um parque, uma vista pra brisa e caminhar na fronteira do mar com a costa. Isso posto, não há espaço de dúvida escrita, dita ou silenciada. Que nossos ditos ou calados em todo momento sejam a dança suave do encontro bom da alma amante com a alma amada.

O presente de hoje é uma lembrancinha de talentos enormes e Antunes. De amores de Montes e carinhos do Carlinhos. Se alguém gostar, o dia melhora.

Feliz

Se alguém desejasse que eu estivesse feliz, diria que a infelicidade exige esforço e eu sou um preguiçoso. É preciso desesperança, um certo rancor, doses de mágoa e falta de amor. Essas coisas devem ser fáceis de ter (há tantos com tanto), mas difíceis de se desfazer (há tantos desejando mais). Então diria que sim, estou feliz por que não há muros e onde existem, pintamos de azul. A felicidade recebida é tanta, tão grande e aconchegante que o momento dura um instante eterno, se prolongando em afetos azulados. Receba o que há de repleto de sim e de teu: é infinito e sempre.

Mercedes diz que é triste. Não percebo assim, só vejo e sinto azul.

Plural no singular

Que a alegria te alcance em sua plena forma e cante algo de ninar. Em silêncio, entre, abaixo, acima e ao lado, o que existe de lindo vai serenar o tempo das esperas, a terra seca e reger os rios flutuantes em tua direção. Guarde o triste no baú dos esquecimentos e perceba: estás naquele momento infinito, o instante eterno em que a noite vai descansar e o dia dá por iniciado um acústico de Deus. Toma um abraço, bebe do simples e espalha o inesquecível. Expressa tua arte, conte tuas vontades, enxerga onde ninguém mais vê. É assim que a vida sorri pra você.

“Smile”, de Chaplin é o meu presente de hoje, um dia depois que cheguei pra derrubar as bancas. Quem canta? Ninguém mais, ninguém menos do que Nat King Cole, a voz que Deus colocou no portfólio pessoal.

Já disse hoje?