Estações

 

Te diria que os dias de inverno passaram e que alguns foram especialmente lindos. Nessa esseasons-of-the-year-1127760_640tação as coisas se recolhem, como se a vida refletisse sobre si mesma sem apressar-se em conclusões. As horas também passam assim, construídas sob um silêncio invernal, enquanto se dá uma boa espiada nos abismos que as pontes (feitas de saudade) nos ajudam a atravessar. Te diria que passaram tantos dias de inverno que nem sei se escrevo direito.  Só sei que tremo enquanto lembro o tamanho das geleiras. Li Fernando Pessoa, que me aconselhou a “seguir meu destino, regar minhas plantas e amar minhas rosas, já que o resto são as sombras de árvores alheias”.  Vi gente encapotando seus corpos gelados, chorei pelas almas tiritando de frio e confesso: meu coração é tropical demais pra o tanto de nublado que foram certos dias.  Te diria que o inverno passou porque é isso que as estações fazem. Às vezes trazem o verão, às vezes nos trazem o não. Será que você poderia me contar como foram teus dias aí e como é a vista onde você está?  Te diria que isso é a única coisa que conta, que todo o resto passará. Passaremos porque (como as estações e as estrelas) é isso que fazemos.

Te diria para ouvir a primavera, anunciada por um som brando nas suas manhãs. Escutas? Passei por elas, são inesquecíveis. Têm o aroma do caminho da faculdade, o cheiro da rua perto de casa e da água quando se encontra com a terra, que saudade. Mesmo nos dias mais tristes, tudo dança, surge, gorjeia, se engraça, gargalha, se espalha, se alimenta, suspira, inspira, se torna enluarada. Afinal, num pio, a primavera chega com os filhotes de passarinho. Mistura milagres, aromas, leituras e curas. Mergulhe nisso tudo e verás que não existe nada que não possa ser ultrapassado ou deixado, nada é nosso ou está definitivamente conquistado. Toque no intenso prazer dos encontros que se transcendem, encaixam, iluminam e se transformam, ainda que tenham outras coisas a fazer. A primavera existe pra gente se colorir com a palheta de milhares cores, todas perfeitas, todas feitas (como qualquer coisa) para serem passageiras. Ela nos lembra que não somos mais os mesmos agora mesmo, nascemos crescemos e morremos nesse exato momento. Nunca estamos no lugar de antes. Nunca respiramos o mesmo ar. Somos outros em tempo integral, instante a instante. Por isso só é possível entender o eterno aos poucos, o imenso em seus detalhes e ela, a primavera, como essa pintura que dura uma primavera inteira.

Te diria que uma vez passada, a estação te trará de presente os tons do verão. Talvez ele seja a inspiração para vivermos entrelaçados. Cães, peixe-boi, jacaré, arlequim, hortelã, gato, ovelha, terra, rio amazonas, uma árvore de estimação, tudo nos impulsiona, tudo pulsa, é verão de vez em quando, mesmo que sejamos (e somos) um zapt, um pluft, um zimp. Tempo das águas, das fresquinhas, daquele vento cheio de magia que refresca e não refresca, alivia e não traz alivio. É o silvo, o grunhido, o bicho, o sol a pino, Bahia, alegria, Havana, chinelos e o trenzinho do caipira. Da viola, de Tom Zé, verão é um sorridente toma lá dá cá. É a angústia se afogando no mar e ressurgindo como Iemanjá. No verão, o verão está em alta, o verão não falta, está ali, pleno de ser verão. E passará, quente, urgente, feliz. Irá cheio de vitamina D, sem eleição, todos eleitos, todos feitos de verão em seus exageros, sua elegância à vontade e temperos de sol a sol. Partirá sem desculpas, sem culpas, para cumprir sua era quente, bronzeando as gentes, saltitante em suas areias. Seguirá seu destino dentro dos elementos, resgatando a promessa de ser passageiro por lealdade à verdade. E eterno, por fidelidade ao tempo.

Te diria que assim que ele vença a curva e aponte na reta para sua inevitável despedida, encontrará um outono enfeitiçado pela falta que sinto de ti e porque a partir disso me refaço, enquanto renasço. Outono tem um equilíbrio necessário, um recolher as velas. Ainda assim, tudo nele será breve, já que tudo é um piscar de olhos. Outono é a vida em fresta. Outono não se apressa, chega na hora. Passará nos olhando nos olhos, lembrando quem somos, perguntando o que viemos fazer aqui, desenhando propósitos.  Outono estende lençóis brancos no varal imenso dos sentimentos e nos presenteia com perspectivas variadas como as frutas da estação. É tempo de goiaba (prefiro as vermelhas e as roubadas), tem a banana que é um aviso sobre nós mesmos: uma delícia, mas se tiramos a casca é melhor. Tem a preferida dos chilenos e da Neidoca, o abacate. Outono não vem com respostas prontas ou fáceis. Não conte com equações óbvias ou práticas simples para ser feliz. Outono é gradiente, feito de reticências, um coating que nos vê uma vez por ano, até que se vai de uma vez por todas. Penso que há algo de mágico em cada estação. Não pelo que nos trazem, mas porque disfarçam o tempo e seus elementos, os emoldurando, durando o necessário, guardando aniversários, indo e vindo de repente. Te diria que não são as estações que passam. É a gente.

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Sempre

marielNão é que eu não saiba nada sobre física quântica, a teoria das dobras no espaço-tempo, como se calcula o combustível necessário para ir e voltar a Marte ou o estudo exigido para formação do preço de um Mac Lanche Feliz. Essas coisas, definitivamente, ignoro e estão fora do meu alcance cognitivo, é fato consumado.

Pensando bem, isso não é nada diante da estupefação que todos os dias os interruptores de luz me provocam. Os sensores de presença, então, que coisa. O patinete, a forminha de gelo e aquele coisico que enche pneus de bicicleta, senhor do céu! Também fico extasiado com o puxador de portas, o sobre-lençol me emudece e acho o Código Morse, junto com a caixa de fósforos, invenções quase sobrenaturais.

Desisti de entender de aviões, navios, submarinos, carros e a engenharia de qualquer coisa que se mova sem a ajuda de dois marmanjos, o que inclui elevadores com ou sem aquela tevezinha genial que sabe como está o tempo lá fora.

Nesse momento, estou concentrado na assimilação do autofalante, da Chave Philips e do acolchoado de penas. A bola, a cama e as meias antiderrapantes são normais para você? Eu ainda estou me adaptando à fita K-7, ao telegrama e ao Orkut. Há invenções completamente fora do alcance de pessoas medianas como eu. No meu depósito de sustos encontraremos a aliança de compromisso, a Penicilina, Rick Wakeman, a escada rolante, o plástico bolha, o abridor de vinho, a campainha, o alarme e o vidro elétrico, além do cadarço, da máquina de costura e dos óculos de leitura. Os cortadores de grama, de unha e de cabelo também estarão por ali, junto com o interfone, o disk entrega e o pager.

Passei por coisas incríveis como o cheque pré-datado, a pochete, o Corel 8 e as calças de Nylon. Radiola, vitrola, 3 em 1, o controle remoto com fio e a Caloi 10 confirmam: somos insuperáveis em invenções que serão superadas por novas invenções, pré-estreias de invenções mais novas ainda. Tudo isso cabe numa gaveta.

Minha infância inteira vive no homem que sou. O jogo de bolita, carrinhos de rolimã, guerra com bolinhas de cinamomo, o Partenon Futebol de Regatas, cuja escalação era a seguinte: Gordo (porque gordo sempre vai pro gol), Falta (um zagueiro que não perdia viagem, além de ter 8 metros de altura), Aleijadinho (motivos óbvios), Chulé (pelo cheirinho em tempo integral), Nego (eu, acho que pela afro boca que tenho), Torto (estava sempre bebum), Anjinho (não falava nome feio), Felipe (era forte e não gostava que lhe dessem apelido), Vesgo (vesgo), Tarado (maluco por jogo) e Larica (tinha fome de bola). Fiz questão de dar o time completo para que você entenda que ali, ninguém sabia o que significava o regata do Partenon Futebol de Regatas. Achávamos que era um tipo de camiseta apropriada para o futebol. Nossos treinos eram na pracinha, até sermos expulsos pelos mais velhos, sem mágoas, era assim que funcionava.

Entrei num estádio de verdade mais velho, ali pelos 10 ou 11. Era um Gre-Nal, no antigo Olímpico, à noite. Jamais vou esquecer o encanto que as luzes do estádio me causaram: o time do Partenon também jogava depois que o sol ia embora. Sem luz, corríamos atrás do som da bola, até ouvirmos o som da voz das mães chamando os craques. Gooordddooo… Vesgooooo. Toooorrtooo. Havia 3 tons nessas convocações: o normal, que ninguém ligava. O ameaçador, que nos deixava atentos. E o não vem pra ver o que te acontece, que só os muito corajosos (e alguns desaparecidos) pagavam pra ver. Mariellllllll… (minha mãe jamais me chamou pelo apelido). Eu sempre voltava depois segunda e antes da última entonação.

De volta ao estádio, meu irmão mais velho era puro entusiasmo. Estava me apresentando ao Grêmio, o time pra quem ele queria que eu torcesse. Os gremistas entram em campo, a torcida vem junto, ovacionam, festejam, gritam, incentivam a equipe azul e eu ali, seguro no colo do Nel. Então começam as vaias. É ensurdecedor, amedronta, acanha qualquer um certo? Errado. O motivo de tantos apupos é o Inter, que está na boca do vestiário. Trata-se do vermelho mais lindo de todos os tempos, é um encanto, um encontro, algo grandioso se posta altivo e orgulhoso diante do adversário. Eles são enormes, entram em campo correndo, confiantes, soberanos e invencíveis. Então vão até a pequena torcida que os festeja enquanto o estádio inteiro os xinga e ameaça, mas não os enverga. Digo pro Noel algo como “vamos lá, eles precisam da gente!”. Ali, para decepção do meu anfitrião e para a glória do desporto brasileiro, nascia um torcedor do Internacional. Entretanto, é justo admitir que sinto um certo desconforto quando o Grêmio precisa ser batido. Nessas horas, meu irmão vem à mente (e ao coração) e ele ainda segura minha mão. Ainda explica que não tem como a gente ir na torcida vermelha, mas que se eu vibrasse quietinho, mesmo assim o Inter receberia minha força e que isso ajudaria o meu time a vencer. Até hoje acredito que meu comportamento influencia o Inter em campo.

O Olímpico não existe mais e a maioria das invenções que lembro foram substituídas por outras melhores ou mais novas porque essa é a sina e a senha das coisas, o esquecimento. Do Biotônico Fontoura à Inteligência Artificial, o desaparecimento é o fim de tudo e não há saída: tudo que existe para passar, no fim passará. No entanto, o que sentimos está sempre em algum lugar. No Partenon Futebol de Regatas, a camiseta 5 é a minha. Chulé estará à minha frente, Anjinho de um lado e Larica do outro.  No estádio do Grêmio, a mão firme é de Nel, que me levou ao eterno da paixão colorada. Suas luzes ainda estão lá, iluminando cada um dos torcedores na noite que seria pintada com um tricolor 3 x 0.

Não sei mais como se anda de carrinho rolimã. Mas posso sentir agora o vento risonho e as dores do joelho machucado depois de uma curva mal feita. Cada coisa que há pode ser uma ponte para cada dia que é. Podemos esquecer todas as marcas de todas as bugigangas já feitas. E vamos lembrar no sempre o primeiro peixe fisgado, o nome na lista do vestibular, o susto nos olhos do filho ao me ver, depois uma queda quase fatal e a alegria de conseguirmos superar isso. No fundo, preenchemos um instante da vida e cabe a nós decidir do que será feito o nosso tempo. Pode ser o esquecimento das coisas. Ou pode ter a fúria do fogo,a beleza da terra, a fluidez das águas e a força dos ventos.

Depois dos temporais

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Daqui de onde te escrevo vejo muitas árvores. Pela quantidade de pius, não estamos em falta de ninhos, nem de pais-passarinhos super atarefados. A cena tem a mágica de uma alquimia intensa. Primeiro, transformou-se de brisa suave em tempestade furiosa num zapt. Depois fez exatamente o contrário, silenciando trovões, acalmando ventos e as almas da mata, lugar que só entro depois de pedir licença e me sentir autorizado. Sim, sou desses que acreditam que os elementais têm a chave dos portais, que eles habitam em todas as formas de inspiração e que estão em tudo que pulsa, sente ou pensa. De qualquer forma, como acredito, nada que existe ou inexiste depende de mim ou das minhas crenças. Não sei porque, mas acho que a chuva é Deus fazendo geometria e balanceamento na natureza. Há o atendimento à sede na terra cheia de saudade das águas, o verão aplacado em suas paixões, o inverno reconhecido em seus silêncios solitários e a primavera em seus renascimentos espetaculares. Somos um instante de tempo em movimento. Nesse exato momento nos lemos, nos descrevemos, nos reconhecemos, nos perdemos, vagamos, vamos, chegamos e partimos. É assim ou por isso que nos perdemos, nos amamos, nos encontramos e somos a expressão daquilo que demonstramos ou que deixamos inexpressado, mesmo que seja uma verdade. Entendi que também existo pela união das nossas humanidade, sempre tão repleta de sentimentos densos, deixados ou incompreendidos em sua extensão, origem e destino.

Aqui de onde te escrevo, já não te vejo e mesmo assim quero te contar uma descoberta. Ela começa com essa pergunta: e se os dias fossem de nossa autoria, qual parte seria? Eu, final de tarde. Vivendo entre inícios, afim de infinitos, sem nada da noite e com tudo de todos os dias. Eu final de tarde, no início do princípio, ali na fronteira enluarada da vida. É daqui que te descrevo os mistérios, os silêncios os murais. Um beija flor me trouxe um beijo. Não sei se foi você. O que sei é que não o ganharia se fechasse a alma para o mundo, seus dias amenos, os verões intensos e seus muitos temporais.

PS

Bom ano, queridos.

Vamos nos vendo,

vamos nos lento:

2017 será um tempo

ímpar.

 

Cheiro de terra molhada

colunaComeça do nada, o tempo seco, a terra inerte e cheia de pó. Primeiro, a brisa chega (leve, dançante e alegre, como as almas amantes). Em seguida, acontece um encontro inexplicável. É a saudade, até então exilada no céu, que se lança ao chão que só conhecia -até ali- o pó e nisso acreditava. O que ocorre é o encontro dos contrários, libertando o silêncio da escravidão das palavras. É um momento oceânico, gota a gota. Uma conversa entre a vida e seus extremos. Acontece naquele momento em que a chuva ainda não começou, mas já é chuva. Ocorre na precisa hora em que a terra recebe um líquido inesperado e agradece, num sorriso só aberto aos atentos de todos os sentidos. Quando a água toca a terra, nasce algo que é a soma das duas. É uma canção, um presente, a calma vestida de urgente, o eterno do amor revelado num instante. Uns chamam de chuva. Eu chamo de sempre.

Carta aberta aos meninos da seleção

Meninos, saibam que eles chegam, devidamente acompanhados de suas certezas absolutas, Estão por todos os lados, os que sempre sabem exatamente o que fazer, como agir, o que falar. Eles tem um mantra: “eu avisei”. Não tremeriam diante de um adversário mais poderoso, mais preparado e melhor. Nem gaguejam, não tropeçam no cadarço, não têm tatu no nariz. Ele têm direito à vaia porque jamais esquecem de nada, se antecipam e são precavidos. Ninguém sabe como conseguem ter as rotas todas impressas, as conversas repassadas. Nem que tempo usam para treinar tanta sabedoria, os eles todos, esses que não fariam nada daquilo, que diriam tudo na cara e nunca, jamais teriam algum traço de dúvida.

Como será que se aprende sem o furo, sem a parte escura dos dias, sem as alegrias de um remendo bem feito? Qual virtude existe na canela sem cicatriz? Não há glória na derrota, mas pode ser glorioso o que se faz com ela. Aos 54 anos do meu segundo tempo, digo sem medo de errar: se fosse vocês, eu teria muito medo de errar. Penso que choraria antes, durante e depois do hino. Que não conseguiria entrar em campo, marcar alguém, correr. Ficaria paralisado caso 60 mil pessoas resolvessem me apoiar. Quando aos que vaiaram, acho que são um bando de traíras reunidos num amor condicionado ao sucesso. Que exigência é essa, onde só presta quem ganha sempre? Quem consegue viver sem errar o pênalti, a frase, sem perder a chave ou sofrer por besteira? Quem nunca tomou uma rasteira, não percebeu a tramoia, nem perdeu a namorada? Quem nunca teve um apagão, não soube o que dizer, esqueceu a senha na boca do caixa, soltou um pum sem querer, ou usou um sapato novo com a etiqueta aparecendo? Eu não preciso da seleção para amar ou odiar o Brasil. O meu país não fica maior se um time seu foge à luta. Torci pelos meninos e dessa vez não deu, vão brincar que essa dor já passa. Mas os donos do olimpo não perdoam o que existe de humano nas quedas, mesmo as volúveis como as esportivas. Na verdade, eles têm medo de saltar, naufragar e morrer na inanição que os mantém vivos. A vista, aqui do meu ponto, pondera que o pavor certo talvez devesse ser outro, o de existir num tédio bem decorado e com vista para o mar. Então, inexpressivos, viveríamos à salvo de naufrágios não porque enfrentamos as correntezas, mas porque evitamos (prudentemente) a aventura de navegar. Então, meninos, esqueçam os falsos comandantes, os reis do marketing, os caras dos discursos emocionantes. Eles queriam isso, justamente isso, pra poder olhar para a câmera e dizer: “bem que eu avisei”