decreto

repreendo crenças, limbo,

sufoco, doença, desânimo, água parada,

virose, gremistas. desautorizo juízos finais,

falta de voz, insistências febris,

desistências, tristeza, impaciência, pressão alta,

pressão baixa ou só pressão.

invasão, falta, excesso de velocidade, crise

de meia idade, desentendimento, ausência

de cinema, ausência sistemática, mau estar repentino, dedo ruim,

dor no rim, ressentimento, livro e papo chato,

fome, dores em geral, Bolsonaros no particular,

certezas absolutas, topada no dedão, gente com

babinha no canto da boca, sopa de aipo, sermão,

universal, mania de perfeição, solidão, gente demais,

multidão, multa ou tombo. o ruim está proibido, junto

com a cara fechada e a falta de libido. alma que amo,

não aceito nada menos que dias extraordinários

e revogo a qualquer disposição em contrário.

O presente de hoje é fantasia, com Chico, Bethânia e eu na vigia.

Pequenas partidas

Não partir. Esse é o maior perigo de uma viagem. E a forma mais trágica de naufrágio” (Amir)

Te escrevo depois de um tempo sujeito a chuvas e trovoadas, querida. Fez frio, ventou aquele vento que uiva, gelou aquele frio que nos curva e encolhe. O turvo e o nublado não fazem meu tipo, você sabe. Então deixei que Almir me tocasse a alma com canções que nascem do interior das matas, dessas que brotam verdes e verdadeiras, daquelas  que andam devagar por que já tiveram pressa.

Suspirei com Renato afirmando que cada um de nós compõe a própria história, o que é trabalho de uma vida inteira, assim no sentido de plena. O profeta que vive no interior de si mesmo me conta, como quem canta uma verdade libertadora, algo capaz de desafiar o desencanto: cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz. Não sou caipira pira pora, mas por Nossa Senhora, como discordar disso? Certamente concordo, mas há uma distância enorme entre a concordância e sua outra instância, a crença que nos leva a escolher entre o intenso das massas ou a leveza das maçãs.

O ponto, no entanto, não é alinhar-se com Sater e Teixeira, essa é a parte fácil. Os bons matutos matutaram muito até sorrir o sorriso que se abre na velocidade de um sol chegando ou indo e suas tantas nuances durante o dia. Eles dizem algo que não queremos ouvir. É uma afirmação irretocável, que revela um profundo, sofisticado e cascudo caipirez:  é preciso chuva para florir. Os danados usaram uma imagem suave para avisar aos caminhantes que o caminho nasce da escolha de se por em marcha. É bonito, mas produz calos. É emocionante, mas provoca câimbras.  É maravilhoso, mas a pele racha.

Por anos, contei os dias para te contar sobre os dias e sobre tudo que te contaria. Enchi os bolsos de estrelas e de alma enluarara, compreendi os sons das matas, a algazarra dos bichos, a hora certa de abrir clareiras, os homens, seus sotaques, histórias e cantos, além de línguas estranhas, como o Esperanto. Estive calmo, mesmo quando o tempo esteve fechado e a única esperança era chegar ao porto dos desesperados, onde chegaria são e calvo.

O fato é que fomos e indo, nos separamos. Aos poucos, esqueci tua voz e talvez isso tenha sido necessário para que ouvisse ou houvesse a minha. Foi então que recomecei a agradecer pelo tempo das descobertas, as trilhas abertas, a alma curiosa, a fome de escrita. Revi os livros, revivi os risos, os gestos e o dia em que me deste um coração capaz de repulsar tudo que fosse amorfo, mofado e inconsistente. Entre voltar para o ontem, onde moram as lembranças ou viver no amanhã, onde tudo que existe é o inexistente, habito no hoje, que hoje é o melhor dia do sempre.

Ando devagar porque já tive pressa, ensina a linda canção de Amir e Renato. É uma música que marca mais um parto entre nós, uma noite sem lua e serenamente em paz, ainda que o ventinho avise que o tempo vai mudar. Pensando bem, para o tempo não há outra coisa a realizar, não te parece? Afinal, como nós, ele também precisa de amor para poder pulsar, de paz para poder sorrir e da chuva para florir.  Por isso passa, tange e une tudo que inspira: viver às vezes é rock. Noutras, viola caipira.

Para não esquecer

lembrança

Rita Lee me encanta com sua voz suave. Pertinho do ouvido, ela conta que “há pessoas que a gente não esquece, mesmo se esquecer”. É uma música romântica e o romantismo parece ser o último reduto das coisas, inclusive dos roqueiros. Se não for isso, a conclusão sobre o tema poderia ser que os dias são puro rock, mas que gente sonha mesmo é com uma versão acústica da vida.

“In my Life” (a música que Rita adaptou dos Beatles) fala que entre tudo e todos, a poeta lembra realmente é de alguém específico. E descreve “cenas do meu filme em branco e preto que o vento levou e o tempo traz. Entre todos os amores e amigos, de você me lembro mais”.

Não percebi desespero, rancor ou saudosismo na letra. Ouço ali a constatação leve e branda de um registro que dorme tranquilo, vive na lembrança que o tempo tem do passado. Já não é o frio na barriga, nem a emoção estreante, não é mais forte ou galopante, não tem mais os sinais corajosos dos rompantes apaixonados. Trata-se mais um suspiro de melancolia sobre o momento alegre e intenso que venceu o cinza para ganhar cores e entonações vívidas. O problema é se nada do lembrado tenha sito, de fato, vivido.

Dizem os que entendem das mentes (e do quanto elas nos mentem) que editamos um pequeno percentual do que vivemos, seria algo em torno de 100%. Gente, gestos, fatos históricos, paixões, vitórias esmagadoras, brados retumbantes, olhares fulminantes, frases poderosas, derrotas inesquecíveis, abandonos e erros fenomenais, além dos comerciais das facas Ginsu, nada teria sido exatamente assim, caso tenha sido. Se existiu, foi dentro de outro molde. Entalhamos fatos de estimação, retocamos textos, burilamos reações e encaixamos detalhes sobre o que aconteceu? Será que somos artesãos, artistas quânticos, tingindo no espaço e no tempo acontecimentos que nunca estiveram lá? Nada, ou quase nada, teria acontecido daquela forma, de tal maneira, naquele instante, em tal momento, de todo modo, o que quer que seja, não importa o que? E se foi de outra maneira, o amor, o tom da voz, o professor, a cadeira de balanço, a comida da mamãe, a primeira vez, o último encontro, a derradeira escolha, a escola, o gol de placa, o rigor do inverno, o frio que passamos, o tempo que existimos, os arrepios que causamos? E se o que houve de fato, fosse um pouco menos torto ou um pouco mais exato do que um retrato falado, desses que descrevemos o bandido enquanto ainda estamos assustados? Era um gigante, com 8 olhos, 7 braços e 12 baionetas. Era para sempre. Era tão lindo. Era entrega. Era saudade. Era feliz. Era amor. Era o caminho. Era a causa. Era incansável. Era de ferro. Era verdade. Era mistura. Era mentira. Era menina. Era de barro. Era esquerda. Era esquina. Era direita. Era cigano. Era cigarra. Era uma canção bonita. Era álcool. Era erva. Era escarlate, era cheiro de terra molhada. Era Sartre, éramos 6, era o ser, não era nada.

Rita Lee fala de “lugares que me lembram minha vida por onde andei”. Mas se não podemos -e não podemos- confiar plenamente nas lembranças, que lugares serão esses? Existem ou foram criados e depois entregues? Batuquei na mesa de madeira onde trabalho, gosto do som que o movimento produz. A mesa foi feita a partir de uma antiga janela, que se abria já não sei bem para onde. Ao toca-la, é uma mesa. Ao lembra-la, foi janela. E, finalmente, chego onde In my Life me levou. A música pode ser um convite para a que gente seja grato pelo que houve, não como houve. Não precisamos concordar ou repetir o que quer que seja. Mas precisamos deixar que siga em paz o amor e suas escolhas, as separações, as descobertas, as uniões, as medalhas. Deixar partir exclusões, canções feitas em noites de lua cheia, o dito, o entendido, o descrito, as frases caladas, o coração seco, os olhos marejados, a vida e suas mudanças. O segredo de hoje é que hoje só vale para hoje. A nossa parte, quem sabe, seja transforma-lo em algo maior, melhor e mais real do que nossas lembranças.

Resposta

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“Eu, passarinho”

“Desfaz o vento o que há por dentro desse lugar que ninguém mais pisou”. Assim começa a bela, melancólica e quase enigmática canção “Resposta”, uma parceria de Nando Reis e Samuel Rosa. A letra, inspirada pelo fim do relacionamento de Nando com Marisa Monte, é um folk gostoso de ouvir e foi lançado lá em 1998, pelo Skank.

Nei Matogrosso é o protagonista disfarçado de passarinho em um poema famoso de Cazuza: “eu protegi seu nome por amor, em um codinome beija-flor”.

Com versos maravilhosos que começam com um calmo “ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida” Cartola deu um jeito de explicar à filha que o mundo é um moinho. A canção era um poema-pedido (não atendido, aliás) para que ela não saísse tanto de casa.

Sartre não acreditava em Deus, mas levava a maior fé nos homens: “é como se toda a humanidade esperasse por nossas escolhas para definir quem ela mesmo é”. Da física quântica à chave de fenda, não há o que não me surpreenda. Mas entre tantos entretantos, me impressiona mais que tudo a capacidade humana de drenar suas dores, expressar prazeres, lamentar perdas, festejar conquistas, questionar, responder, acalentar, aprender e ensinar com a delicadeza das almas sensíveis. Um dos discursos motivadores mais legais que já pude ver aconteceu no vestiário do Inter, antes da partida contra o Barcelona, em 2006. O senso comum, chegou à decisão óbvia, como todo senso e todo comum: meu colorado perderia, a questão era apenas saber de quanto.

Antes de entrarem em campo, os jogadores viram um filme, onde por efeito especial, os goleiros, zagueiros, meio campistas e atacantes históricos do clube se somavam a eles na partida decisiva. Falcão, Manga, Tafarel, Carpegiane, Dario, Figueroa, Valdomiro, Escurinho, Claudio, Mauro Galvão, tantos e todos. A locução afirmava que eles não estavam sozinhos contra o mais poderoso time do mundo. Que, junto com aquele time, jogaria uma torcida imensa e aqueles que conquistaram o título mais importante de todos: a reverência e o respeito dos apaixonados pelo inter. Que contra a vontade colorada, o Barça estava perdido. E perdeu. Não sei quanto daquele último discurso influenciou os atletas. O fato é que naquele dia o mundo deixou de ser azul para tornar-se vermelho.

Acho que isso aconteceu porque o tempo abre seus portais para quem está disposto a fazer história. A se arriscar por uma causa, a seguir em frente, a viver a intensidade das coisas. A amar algo ou alguém com a força da verdade que liberte para si mesmo esse algo ou alguém. Pode ser um novo emprego, uma carreira que se inicia, um nascimento, uma fórmula, um aplicativo, o campeonato, a viagem para o estrangeiro, o livro. Pode ser comandar a equipe, o departamento, a empresa. Pode ser um movimento, salvar o polo, limpar os rios, amar uma árvore, não comer mais carne. Pode ser qualquer coisa: se a gente quiser, o portal se abre e escrevemos uma história no sempre.  Ainda era bem jovem quando li algo que me impressionou, que dizia algo mais ou menos assim: “Um dia, é inevitável, você vai encontrar-se consigo mesmo. E não depende de mais ninguém que esse seja o momento mais pleno da sua vida”.

Nando fez uma canção ao final de uma caminhada. Cartola fez um convite não aceito pela filha amada. Cazuza protegeu alguém e seguiu adiante. Sartre desafiou Deus. O Inter venceu os deuses. Não se trata de heroísmo, mas de nos mantermos humanos e ternos. É assim que deixamos de ser instantes e nos transformamos em eterno.

 

PS ao Corintiano Voador, que ouvindo Enluarada entendeu o instante eterno: grato por me traduzir tanto.