Mariel Fernandes

Resposta

Captura de Tela 2017-07-27 às 21.10.10
“Eu, passarinho”

“Desfaz o vento o que há por dentro desse lugar que ninguém mais pisou”. Assim começa a bela, melancólica e quase enigmática canção “Resposta”, uma parceria de Nando Reis e Samuel Rosa. A letra, inspirada pelo fim do relacionamento de Nando com Marisa Monte, é um folk gostoso de ouvir e foi lançado lá em 1998, pelo Skank.

Nei Matogrosso é o protagonista disfarçado de passarinho em um poema famoso de Cazuza: “eu protegi seu nome por amor, em um codinome beija-flor”.

Com versos maravilhosos que começam com um calmo “ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida” Cartola deu um jeito de explicar à filha que o mundo é um moinho. A canção era um poema-pedido (não atendido, aliás) para que ela não saísse tanto de casa.

Sartre não acreditava em Deus, mas levava a maior fé nos homens: “é como se toda a humanidade esperasse por nossas escolhas para definir quem ela mesmo é”. Da física quântica à chave de fenda, não há o que não me surpreenda. Mas entre tantos entretantos, me impressiona mais que tudo a capacidade humana de drenar suas dores, expressar prazeres, lamentar perdas, festejar conquistas, questionar, responder, acalentar, aprender e ensinar com a delicadeza das almas sensíveis. Um dos discursos motivadores mais legais que já pude ver aconteceu no vestiário do Inter, antes da partida contra o Barcelona, em 2006. O senso comum, chegou à decisão óbvia, como todo senso e todo comum: meu colorado perderia, a questão era apenas saber de quanto.

Antes de entrarem em campo, os jogadores viram um filme, onde por efeito especial, os goleiros, zagueiros, meio campistas e atacantes históricos do clube se somavam a eles na partida decisiva. Falcão, Manga, Tafarel, Carpegiane, Dario, Figueroa, Valdomiro, Escurinho, Claudio, Mauro Galvão, tantos e todos. A locução afirmava que eles não estavam sozinhos contra o mais poderoso time do mundo. Que, junto com aquele time, jogaria uma torcida imensa e aqueles que conquistaram o título mais importante de todos: a reverência e o respeito dos apaixonados pelo inter. Que contra a vontade colorada, o Barça estava perdido. E perdeu. Não sei quanto daquele último discurso influenciou os atletas. O fato é que naquele dia o mundo deixou de ser azul para tornar-se vermelho.

Acho que isso aconteceu porque o tempo abre seus portais para quem está disposto a fazer história. A se arriscar por uma causa, a seguir em frente, a viver a intensidade das coisas. A amar algo ou alguém com a força da verdade que liberte para si mesmo esse algo ou alguém. Pode ser um novo emprego, uma carreira que se inicia, um nascimento, uma fórmula, um aplicativo, o campeonato, a viagem para o estrangeiro, o livro. Pode ser comandar a equipe, o departamento, a empresa. Pode ser um movimento, salvar o polo, limpar os rios, amar uma árvore, não comer mais carne. Pode ser qualquer coisa: se a gente quiser, o portal se abre e escrevemos uma história no sempre.  Ainda era bem jovem quando li algo que me impressionou, que dizia algo mais ou menos assim: “Um dia, é inevitável, você vai encontrar-se consigo mesmo. E não depende de mais ninguém que esse seja o momento mais pleno da sua vida”.

Nando fez uma canção ao final de uma caminhada. Cartola fez um convite não aceito pela filha amada. Cazuza protegeu alguém e seguiu adiante. Sartre desafiou Deus. O Inter venceu os deuses. Não se trata de heroísmo, mas de nos mantermos humanos e ternos. É assim que deixamos de ser instantes e nos transformamos em eterno.

 

PS ao Corintiano Voador, que ouvindo Enluarada entendeu o instante eterno: grato por me traduzir tanto.

 

Anúncios

O amor é à prova D’água

Imagem

 

Está na alma das ventanias essa sede marítima por navios. É da natureza adversa das correntezas diversas o ataque, a surpresa e o barulho assustador das tempestades. No momento do naufrágio, hora das águas, o  frio te acolhe, o calor te abandona e a ilha mais próxima está a uma distância atlântica da vida que havia. O que se verá por um tempo impreciso serão marinheiros singrando por mares difíceis. O resgate depende da rapidez com que se compreende algumas coisas: nenhuma terra é firme. Boiar, às vezes, é a única providência possível. Sobreviver não é o bastante.  Então, no momento que virá no tempo misterioso em que você deixa de se debater e desiste de mandar cartas náufragas a amores distantes. Quando você abre mão do sonho de resgates e ganha calo fazendo a balsa que salva, isso liberta em você o mistério que você mantinha cativo no outro. Se abre então um novo caminho em milagres, onde todo encontro é de feito de um perdão profundo e inexplicável. O meu veio sob a forma de um farol iluminando a beleza oceânica da vida. Nada mal para quem tinha medo de nadar.

Elas, as coisas

as mesmas coisas de sempre

Fui ao shopping. E ali percebi um desfile de iguais, inexpressivas e hipnotizadas mulheres. Todas vestem a mesma coisa, caminham da mesma forma, usam a mesma bolsa, do mesmo lado do corpo, comem no mesmo restaurante, onde desfilam o mesmo penteado, o mesmo rosto sem rugas ou expressão, obtidos (com certificado) no mesmo cirurgião. Até quando e até onde vai isso, me pergunto. Não há uma desigualdade, uma assimetria, um objeto sem a assinatura de alguém, o mesmo alguém que assina tudo, o sorriso é o padrão rede social, têm o mesmo gosto, o mesmo manequim mine-PP, o mesmo shortinho minúsculo, mostram o mesmo gominho traseiro, a mesma carteira de dinheiro e, parece, caminham para o mesmo destino, a mesma casa, no mesmo bairro, das mesmas cidades, vivendo a mesma vida e morrendo das mesmas mesmices.  Como o tempo fez isso a vocês? Depois dos homens, da moda, o emprego, a dupla jornada, o amigo ausente, o filho doente, o ir sozinha na escola, é presidente ou presidenta? As perguntas idiotas, as exigências do caminho, o salto agulha. Depois dos mal tratos todos, de gostar errado da pessoa certa, de ser ciência, cientista e descoberta, depois de liberadas para uma nova gaiola dourada, depois da asa delta, de se transformar em mulher maçã, pera ou melancia, de fingirem o gozo ou a alegria, depois de todos os santos, de sumirem do mapa, de exigirem uma atitude feminina num mundo terno e gravata, depois vocês ainda vão iguaizinhas ao shopping para agradar quem mesmo? Mal dormidas, bem acordadas, bem resolvidas, mal humoradas, as mesmas nos mesmo carros, com os mesmos planos, os mesmos panos por cima. A mesma falta de ideia de si mesmas, à mercê de todo tipo de elemento. A mesma coisa, coisa alguma, muitas coisas, coisas sem muita vida por dentro.

Deus te pague

– Deus te dê em dobro, me disse, – Amém, respondi. Mas depois pensei melhor. Ou melhor, pensei. Considerando que dei um real, se

marielfernandes blogDeus atendesse o meu mendigo, eu receberia de volta (um dia, um dia) dois reais, que é o dobro de um. Então, mesmo cem por cento de retorno, não é lá essas coisas como resultado. Mas quem dá aos pobres empresta a Deus, certo? Huuummm, pensei. Sempre penso fazendo hummmmm e coçando o queixo, o que é uma dificuldade sempre, já que enfrento uma eterna dúvida entre usar ou não o x no queixo. Mas com j fica queijo e com ch fica um estranho queicho. Mas enfim, faço huuuummm. Se dando aos  pobres empresto a Deus, adeus doação? E por que Deus, que criou tudo que existe entre o céu e a terra, aceitaria um Real, pra multiplicar e depois só me devolver um real a mais? Então não seria Deus, mas a  Angela Merkel, que estaria levando à sério demais essa coisa expansionista alemã, agora na versão o universo é meu. Há outra questão: Deus me daria em dobro o dinheiro ou o que o meu mendigo comprasse com ele? Porque isso pode complicar o raciocínio. O meu mendigo poderia apostar na loteria. Como quem ganha é sempre uma lavadeira do interior do Brasil Central ou um mendigo da Central do Brasil e é mais fácil pobre ficar rico, comprar um camelo e vocês sabem, camelos não entram no reino dos céus a não ser que o rico tenha uma agulha ou seja pobre, tudo fica bem confuso do ponto de vista de quem tem um mendigo e um real na mão. Ou você deixa o meu mendigo na mão ou deixa o real na mão do mendigo, decisão difícil em se tratando da possibilidade de retorno, o tal Deus te dê em dobro. Bom, um real a menos no bolso não me torna pobre, nem deixa meu pobre mais rico. Em compensação, quando finalmente receber, meus dois reais de retorno não me tornariam mais rico, mas a devolução de 2 pra 1 tornariam os pobres mais pobres ainda. Pensando nisso, apostei eu mesmo na loteria. Ganhando, não vou me vangloriar de nada, pelo contrário, aceitarei os milhões com humildade e os humildes herdarão a terra. É muito mais retorno por um real.

Carta aberta pra Deus

Pra que não fique nenhuma dúvida entre nós: confio em Você. E pra que não fique nada por dizer: mas tá difícil. Veja só. O mundo dá um solavanco de aflição cada vez que o Mandela espirra. Até onde lembro do combinado, o líder africano era pra ser imortal. Alguém errou os nomes ou o Maluf assaltou o Teu pessoal que entrega os salvos condutos? Outra coisa que não tá nem um pouco certa é essa conversa de você (desculpa a intimidade, mas corrijo: Você) levar o Dominguinhos, nosso melhor sanfoneiro, quando existem pelo menos um 5 mil péssimos tocadores de cavaquinho em plena atividade. Sei, Deus, você tem um plano e -talvez- por isso o Elano tenha se machucado e jogue

Mafalva, Mariel e a Carta para Deus

apenas no Grêmio, livrando a seleção daquela tralha. Tem o lance do novo papa, nunca bem explicado. Como assim um argentino, Senhor? Não bastava o Maradona em 78 passando pelo time inteiro do Brasil? Ainda por cima carismático, bacana, sorridente, olha eu gostando dele, Chefia. Pessoalmente não gosto de sertanejo, e entendo que exista quem aprecie. Mas o ninho disso tinha que ser o Brasil? Por que não as Malvinas, a Escandinávia ou o avião do Evo Moraes? Claro que a nossa agenda tem muito assunto, como a

cura do resfriado, um bom treinador pro Inter e o lance das células tronco. Mas penso falar em nome de todos os terráqueos quando Te digo que ninguém mais aguenta o Faustão, que parece que foi enforcado a partir da cintura. Trata-se do único magro gordo do planeta e se o milagre é Teu, vou ser sincero: não ficou legal. Agora, o momento TV Educativa, Deus. É o instante em que o mistério dos mistérios será perguntado e, quem sabe, respondido:

Pra que serve o Equador?

Até a próxima, Querido.
Fica com Você.

Goiabas, go home

mariel fernandes wordpress
Quem rouba uvas não sabe o que é roubar goiabas

Sou de uma geração sortuda, do tipo que acha que futebol não se aprende na escola e que goiaba é um direito de quem está do lado de lá ou do lado de cá do arame farpado. Isso é completamente diferente daquelas uvas surrupiadas em supermercados. Ali você tem que enfrentar, no máximo, um gerente do Carrefour. Para pegar uma boa goiaba, minha turma tinha que enfrentar (de pés descalços) as rosetas (se não souber o que é, manda uma mensagem que eu conto), pular pelo menos duas cercas e correr de 4 cachorros, mais um dono de sítio bem chateado com você. Garotos sabiam pescar, pronto, assim, só sabiam. E assobiar com dois dedos na boca, um som infinito, cheio de autoridade e atitude. Garotas subiam em muros e ninguém dizia “poxa, uma garota…”. Elas também jogavam bola (cansei de levar bordoada da tica, uma zagueira infernal). Preto era preto e não afrodescendente. Gordo era gordo e não forte ou avantajado. E o Paulo muleta foi um dos melhores goleiros de uma perna só com quem joguei.  Com ele era preciso um certo cuidado ao comemorar os gols, já que Paulo Muleta costumava jogar seu (dolorido) instrumento nos metidos a goleador. Não sou um saudosista, mas não me faz falta ter um personal food, treiner, hair, lover, house. Acho que uma das únicas vezes (certo, há outras) que precisei de um celular urgente foi quando roubaram o meu carro, mas o celular estava dentro. Acho as tecnologias disponíveis um grande milagre. Mas penso que o milagroso mesmo é entender como as crianças atuais chegam ao banheiro sem um app. Enquanto não lançaram um personal life, vou vivendo os dias que virão. Um olho no mac pró, outro na goiabeira que plantei do lado de fora do quintal. Acho que não vai aparecer ninguém para roubá-las, mas não custa inspirar as novas gerações.

PS. Roubar goiaba no pé é uma arte. Surrupiar uvas em supermercado é para amadores.

 

 

%d blogueiros gostam disto: