01.01.21

Acho que sempre fui assim. Tanto, que lembrei agorinha da história do porto e da espera. Acabo de batizar a lembrança, inicialmente era “Só, espera”. Assim, com uma virgula que é mais uma constatação existencial do que ponto ortográfico.

Um dia, senti algo estranho. Tão estranho que não me deixava parar no lugar. Tanto e tão grande que eu corria de um lado pra outro. O tom de voz, talvez. Queria ouvir o tom da voz. Ou olhar naqueles olhos de rio. Ou rir aquela gargalhada de mar. Era uma pororoca, esse encontro do oceano se entendendo com água doce para ser água doce e oceano ao mesmo tempo. Tudo isso eu sentia perto do meu pai e ele não sabia. Acho que foi quando decidi lhe contar. Sobre como amava a mão grossa, o sorriso largo, o timbre profundo. O jeito bondoso de olhar para o mundo.

Pais deveriam saber a importância que têm. E não sabem. Ou sabem, mas é uma informação tão cheia do desconhecido que não conseguem fazer nada a respeito. Entendem tudo de cortes, cicatrizes, prestação do colégio, pernas quebradas, febres, meleca e alguma algazarra. Mas serem amados? Isso pais desconhecem que são. E são. Alguns ignoram por completo o que fazer com o fato. Professores só ensinam o que sabem, hum? O resultado pode ser catastrófico, com crianças aprendendo que afetos podem ser ameaçadores ou abandonantes.

Então fui ao porto. Ele não trabalhava no porto, mas nas embarcações de onde se diz “terra à vista”. Acho que é como o amor, sabe? Primeiro, são sinais. Gaivotas, o aroma do ar, o seu deslocamento que não é vento nem brisa. Depois, pontos de referência, paisagens nubladas. Mais tarde, o reconhecimento e a festa pela chegada.

Esperei por horas. Cheguei cedinho e fiquei até o anoitecer. Aquela criança não entendia porque o barco não aparecia no horizonte. Alguns adultos não entendem quando a vida anuncia “amor à vista!”, assim com exclamação. Quem sabe é por isso que não consigam reconhecer suas feições e efeitos, é preciso os consolar por isso. Por muito tempo, me ressenti daquele desencontro. Mas, pensando bem, não foi isso, um desencontro. De longe, hoje vejo que o velho lobo do mar não sabia que estava sendo amado naquele grau. Quando lhe contei a história, riu aquele riso atlântico que ele tinha. Então me abraçou sem hora pra desabraçar, enquanto eu soluçada um choro de perda e reencontro.

Será que amar é para amadores? Talvez sejam para os capazes de esperar o tempo necessário, mas não todo o tempo. Existem seres incapazes de amar? E se existem, como poderíamos ensina-los a não ter medo? Porque não é o amor, mas o desconhecido do amor que causa isso. Não é a presença, mas a ausência de amar que os aflige e os fazem decidir por mais aflição. Querem confirmar a inexistência dos afetos profundos porque têm motivos para tanto. E como precisam que desafetos existam, eles se apresentam e fazem o que fazem.

Mas, às vezes, os barcos surgem. Noutras, não. Quando acontece, a aproximação é lenta e boa. Quando atracam, é como um abraço no porto. Mas o destino dos navios não são seus portos, mas os mares, suas correntes marítimas suas àguas quentes, seus naufrágios e grandes aventuras.

O destino do amor é amar de modo expressivo e singrar seus amares. Hoje entendi que não preciso ser escolhido. Que amaria ser escolhido, mas não preciso. Que a ninguém deve ser dado o poder de escolher quem quer que seja para receber, dar ou trocar afetos. A substância mais essencial desse sentimento não é a retribuição, mesmo que ela se dê. Amar é um risco, você se torna uma nau, há sempre o perigo do naufrágio. Portanto, não se trata de partir ou esperar, essa dualidade cujo controle é ilusão. Amar se trata de silenciar. Se trata de sorrir seus muitos risos e chorar seus muitos prantos.

Aos que me alegram com a companhia, desejo um super ano, desses legendários. Vou tirar uns dias. Não sei quantos dias. Vou continuar lendo todo mundo, combinado? Foram ótimas conversas, ótimas mesmo. *** é sempre. Direi todos os dias. Se precisarem de mim, é só dizer a frase mágica. Grato, de coração, por tantas e tantas esperanças trazidas.

Sinceramente,

Mariel

Paisagem

É como ver um pedaço do cosmos e lá, meu lugar guardado. Porque há, penso. E se penso, existe. Ao ver essa paisagem, ao meu lado estava Einstein e a sua teoria do tempo relativo a explicar os movimentos universais. Os pontos de fuga, o espaço curvo, a influência dos astros na configuração do que? Do cosmos, ora. Então me senti profundamente grato por te procurar. Porque tempo não é a medição da velocidade de um deslocamento, da energia necessária para efetivar o movimento e mesmo da quantidade de segundos exigidos na empreitada. Tempo, assim, não seria uma medida, mas o lugar onde guardamos nossas coisas, as experienciamos e as modificamos no processo. Depois disso, colocamos o resultado desse contato onde? No cosmos, ora. Voltava para casa, entre pensativo e melancólico. Fui buscando a alegria de um encontro. Retornei me distanciando da frustração que o desencontro causa. Li algo da Martha Madeiros que dizia mais ou menos isso, olha que interessante.

Viajar é um ato de desaparecimento

Na verdade, a frase é de um escritor dos EUA, chamado Paul Theroux. Martha o usou para justamente se contrapor a afirmação. A escritora acha que é ao viajar que a sua essência aparece, você se torna um você mais legitimo e pleno. Ao ir ao teu encontro, lembrei como gosto de estrada. De parar para uma foto como a que trouxe aqui. De andar em uma velocidade maior do que estou acostumado. De cantar enquanto dirijo. Chegar sem hora. Ou nem chegar, apenas ir. Por isso, diferente de Paul ou Martha, acho que viajar é um ato de coragem. Corre-se riscos como não encontrar o esperado. Do tempo não ser aquele. Do dito não ser ouvido. Das coisas serem o que são. Mas também é possível dar de cara com um momento como o dessa foto, onde o tempo está num modo off gigantesco. A imensidão do lugar diminui qualquer coisa. Solidão, pressa, alegria, certezas, alívios, discursos ou ele mesmo, o grande, majestoso e imponente tempo. A nuvem e a rocha que habita a nuvem convivem sem urgências ou qualquer sinal do definitivo. Estão ali e agora porque seu tempo é agora e ali. Não se procuram, apenas compartilham seus instantes de existência.

Viagens ensinaram a Ulisses os caminhos para volta à Itaca. Ele não era infeliz na Ilha de Calipso. Mas feliz, isso não era. É o que o cosmos nos cobra pelo show que nos apresenta: que sejamos as pessoas certas para um certo lugar, prontos para sermos a pessoa certa, na hora certa e em seu lugar. Estar distante do que se quer não é o contrário de certo. Não se trata de uma luta entre o correto e o errado. Nem é uma luta. É a necessidade de se fazer algo, o seu próprio algo, à respeito de alguma coisa cuja feitura se transforme em propósito. E o que é o propósito? É você ocupar seu lugar no cosmos, ora. E para isso, é essencial viajar. (sempre e muito)

Invernada

Faz um rigoroso inverno, desses que gelam os ossos por onde passa um vento cortante e seu som sibilado fshiiiiiooooo.
Lá, adiante do morro dos réus, o sol se dispõe a ir e o céu abre passagem. É lindo de ver, a ponto de levar a saudade de qualquer verão pra longe. Depois de um dia inteiro tiritando, um dia não, dias. Dias não, meses. Foram meses tiritando.
Então, finalmente um descanso no feno e seu aroma de feno, a consistência de feno, o cansaço que acolhe sem saber de nada, afinal, é um punhado de feno. Serve para deitar, depois de meses tiritando de frio e pensando impropérios correspondentes.
Aos poucos, a pálpebra pesa e os pensamentos se acomodam em cima do trator. Atrás do ancinho. Ao lado do balde. Nos dentes do rastilho. Nas costas da pá. Junto com os marrecos. Nos lampiões na madrugada. É o seu tempo de sonhar-se. Ali, escondido no celeiro e acolhido entre o feno e o frio, dorme depois de mais um dia. Tem a sensação boa de um dia bem feito. É quando adormece.

Resumo

Cheguei pra mim e disse o que precisava na minha cara. E o que eu queria era um tempo sem que eu ficasse atrapalhando com minhas opiniões, olhares e desejos. Ofereci e aceitei um gole de Malzebier pura e gelada e pensei comigo que estamos juntos há praticamente 61 anos, É tempo ou não é? Sabia que em algum momento me surpreenderia com um pedido desses. Mas me olhei nos olhos e percebi um cansaço geracional, uma preguiça cósmica, o sentimento ancestral que mais parece um vanerão com toque de rap.. Peguei minha mão e me autoproclamei em estado de ócio. Enquanto não acordo, sonho com rumos. ***

Oh Oh Oh

Não sei como são feitos os milagres ou de que matéria-prima eles são constituídos. Apensas os ouço e me tocam quando os vejo, se experimento seus saborosos aromas e me esqueço dos sentidos, seja quantos forem.

Não pergunto para que servem as magias, alegremente me cansei das explicações. Apenas me assombro com a destreza hábil do mistério que transita aqui e ali, encantador e anônimo.

Não entendo como são possíveis certas maravilhas. Evito saber, perderia a graça, talvez. Apenas aceito que existem, me contento em te-los e os admirar na medida das minhas surpresas. Deixo que me cerquem com seus contornos e, então, me aquieto. É assim que fico perto e me adormeço. Olhando o rio que me esconde as pedras justamente para que as encontre.

Era para ser um conto de Natal, mas veio outra coisa. A praça do por do sol estava linda, sempre está. *** todos os dias.

Reencontro

Reencontro o nome de uma canção. Acho que sua letra, a melodia e os passarinhos Coautores de Água Verde são como o olhar dessa criança, que fundi com uma Margarida. É uma neta (Isadora), cuja beleza me obrigará a fazer cara feia para alguns garotos em pouco tempo. Há um riso ali, algo que talvez seja uma alegria que se mistura com a esperança inocente. Há uma confiança ali. E há um reencontro aqui. Fazia já alguns anos que não compunha. Era um terreno que já não parecia capaz de acolher as sementes com o carinho das estações. Então fui visto e pude dormir um sono bom. Então estava cansado e descansei no teu colo. Caminhar contigo tem sido separar meus joios e trigos. E festejar o inédito do amor, da sua presença, seus riachos e prainhas de água mansa. Sim, às vezes o afeto ganha o volume oceânico do desejo da vida por si mesma e isso também é, simplesmente é. Quando Reencontro chegou (vou publica-la acho que do lado esquerdo de quem tem lê por laptop ou computador de mesa. E não sei de que lado de quem vem por smart. A música e a letra chegaram sopradas por ti e fiz a melhor tradução que pude. O cantor não é lá essas coisas. Mas os Passarinhos Coautores de Água Verde estão impecáveis. Divido porque me alegrou compor outra vez e porque foi como um presente que me trouxeste e que abrimos, agora, juntos. Espero que gostem. Desejo que a ouça como um beija-flor que te chega, bate à sua porta e te mostre que encontros, despedidas e reencontros hora são puro rock. Noutras vezes, canção de ninar. O que nos cabe é ouvir o que nos dizem sobre grandeza, caminhos e amor. Sempre ***.

Vem de longe

Dó, Ré, Mi Contar

Onde nasce

Sol, Lá, Mi Ninar

Canto de um povo

de algum lugar

Fundo do mundo

Alto do mar

Vem, minina

Vem meninar

Vem fazer renda

vem me ninar

À parte do mundo,

o amor é só seu

A parte de tudo

o amar, o mar

e eu

Vem, menina

Vem meninar

vem fazer renda

Vem me ninar

Pixaim

Já postei essa foto por aqui. O garoto parece entediado, mas preciso dizer que não lembro disso. Uma festa tipo Natal, quem sabe. 15 anos? Não tenho a menor ideia do motivo que reuniu essas 9 vidas para um registro fotográfico. Uma formatura, talvez. O bico da mesa revela uma toalha de renda branca. Lembro das linhas ásperas daquele tecido. Posso sentir seu peso agora. Se fechar os olhos, minha mão vai tatear estrelinhas e outras formas, tramas típicas do crochet. Estão todos metidos em paletós e espetados em gravatas. Nita está dentro de um vestido de gala. Guinha, no colo do pai, não tem ideia do que acontece. Nel é o milico típico, sem motivos para risos e em missão permanente. Ariel, o diferente de todos. Fernandes, como Onofre preferia ser chamado, tira onda do clique, posando para a posteridade com seu desdém para o futuro. Zico parece conter o riso e faz cara de galã latino. Com toda essa pompa, aquela deveria ser a minha melhor roupa. Tenho uma pequena recordação do bolso da camisa e da sua cor, branquinha. Lembro que não conseguia me imaginar com 60 anos. Para aquela criança, era impossível chegar aos sessenta. Leva-se muito tempo para reunir 6 décadas e até já passei um pouco disso. Tempo suficiente para deixar de prever as coisas, tentar moldar acontecimentos, pessoas ou circunstâncias. Me tornei um homem grato, usei gravata umas três vezes e fui ficando mais quieto, como quem vigia os dias vindo lá longe. Gosto de Eduardo Galeano, Cecília Meireles, Inter e Suassuna. Eles têm cada história linda, não? Mas ninguém dessa turma nos colocaria no papel, descrevendo detalhes de vidas que se traduzem. É muito a compor, não acha? E convenhamos, tem uma beleza são silente quanto calma. Aquele garoto não me esperava, nem te sonhava. Quem sabe esse seja o motivo do suposto tédio que vejo. Esperar cansa, ainda mais sem saber direito. Hoje eu pensei em contar algo diferente de fotos de família. Que estive olhando tua janela, pronto pra te levar pra casa. Não falo de um sequestro teórico. Não seria sequestro, nem teoria. Estava simplesmente pronto pra te levar pra casa. Abriria a porta e te levaria pra casa porque ir pra casa é um acontecimento raro. É um lugar sagrado, feito por muitas mãos. Lembranças, gripe, mudança, um canto de ler, uma cozinha onde se prepara conversas. A cama, sem pressa. A chave no trinco. Os cães. Alguma bagunça. Falhas e reparos. Uma casa é um Concerto à Rotina. Ou é pra onde se volta, ou para onde se vai. É sala, quarto, talher, lugar de fala. Ponto de encontro, por isso se diz “nos encontramos em casa” é uma promessa, uma escolha e um desejo. Por isso se afirma sobre alguém próximo que “esse é de casa”. Trata-se de intimidade e confiança. O grupo na foto tinha uma casa que os protegia. Ali havia assobios, quadros, letras, canções, bifes, brigas, quintal, galinhas, um muro, um pé de limão e uma árvore de uvas japonesas. Havia um porão e uma oficina. Era uma casa de família, a que pertenci e pertenço. A que me amou e a que reconheço. O garoto não está mais ali. Vim inteiro, décadas depois da festa, te dizer que acho que olhavam pra ti naquela foto. Fui te dizer isso e te levar pra casa, a casa da nossa família.

Sobre o que não tem fim

Nada há no infinito, essa falta interminável de fim. Qual a razão para a existência de algo que jamais acaba? Diferente do eterno, que será interminável mesmo que acabe. Um instante pode nos acompanhar o tempo todo por ser frase, um olhar que se cruza com o olhar que se deseja. 15 minutos de compartilhamento incondicional têm o poder de anistiar anos de exílio. Infinito e não acabar são coisas diferentes. Há coisas que acabam infinitamente e outras que são raras justamente porque existem em alinhados à própria substância da vida. Não falo das coisas simples, caminho natural de uma reflexão como essa. Olho o que há de precioso. Um carro não é precioso em si mesmo. Tanto faz um carro existir ou não. Mas se ele te traz, amo quem inventou o carro que te traz, o cara que fez andar o carro que te traz, o dono da concessionária que te vendeu o carro que te traz. Não é, no entanto, o carro que te traz. O infinito é o medo de que você não venha, que só conhece o seu fim ao ser transformado em conexão, amor e encontro. E que acaba no instante que vejo o carro que te traz. Há coragem em se dedicar a algo destinado a um final. O risco da entrega. O trabalho que dá o entendimento. A paciência, o artesanal que é moldar a experiência do convívio. A precisão atenta que exige todo gesto amante. E fazer tudo isso porque do nada deu saudade. Porque é bom conversar e ocorreu de te contar que deu saudade. Dividir o peso da saudade que deu e que é infinita enquanto o amor não dê fim a isso e, assim, se reconecte, recomece e abrace o que temos de sempre. *..*

O fim e o recomeço

Talvez é uma palavra que uso muito. Talvez é do bem, talvez é vida. Salve, salve inimiga das certezas, não importa quais. Certezas são a senha para entrar no Clube dos Perfeitos. E são muito usadas para encarcerar o argumento alheio na ala dos perdedores. Há quem use “certeza absoluta”, como se fosse possível algo maior do que aquela certeza. Ou como se o absoluto pudesse, mesmo, existir.

Talvez é a lembrança do relativo de todas as coisas. É a escolha de colocar aquela opinião no seu devido lugar. Afinal, vivemos nas margens das verdades. É preciso atravessa-las e sair do outro lado pronto para maiores mergulhos e travessias.

Isso me levou a 1967, quando Milton Nascimento e Fernando Brant compuseram, junto com Deus, Travessia. Talvez ela seja dessas obras que tocam a verdade sobre fins e recomeços, tema tão horrivelmente explorado pelos sertanejos. Olha que delicada a descrição do efeito que uma separação causa em Milton Nascimento, autor da letra.

Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver. Forte eu sou, mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar. Minha casa não é minha e nem é meu este lugar

Estou só e não resisto, muito tenho pra falar.

Não depois, mas quando. Naquele exato momento da ida. Nada a acusar, só a constatação de um fato, o ciclo da noite naquela experiência de vida. Nada de vingança ou maldições tipo ” ninguém vai te amar como eu”. Não. Apenas o reconhecimento de que uma vida entraria em seu momento noturno. E que mesmo sendo alguém capaz de enfrentar aquilo, não havia saída, era a hora inevitável das lágrimas. De tristeza, por que não? Se há um lugar para as coisas, aquele era o de chorar.

Na voz inconfundível de Milton, “Travessia” é impressionante até no nome. Ele avisa que a solidão terá de ser atravessada dentro da pessoa e que a coragem que lamenta será necessária:

Solto a voz nas estradas, já não posso parar. Meu caminho é de pedra, como posso sonhar?

Talvez existam almas destinadas umas às outras. Existências que se complementam e se tratem bem toda uma vida. Que se escutam e se enxergam por menor que seja o espaço. E que por amor decidam por separar-se, como se isso fosse mesmo possível. Por amor se fica, é legítimo. Por amor se vem, havendo convite. E por amor se vai, se isso é preciso.

Travessia conta como foi o processo, no caso do Milton. Trata-se do primeiro grande sucesso do mineiro e acho que isso aconteceu pela verdade do seu testemunho e pela forma que o músico era capaz de dar à canção. Travessia é a prova em melodia, prosa e verso da possibilidade de se fazer forte e norte ao mesmo tempo. Pode ser impossível de suportar as perdas de partir de algo estupendamente bom e raro. E mesmo assim, ser preciso iniciar a travessia. ***

Impedimento

Acho o futebol o esporte que mais se aproxima da vida. Nem sei se a comparação é original, penso que não. Mas está tudo lá. As escolinhas de base se equivalem à maternidades. O primeiro jogo profissional é a entrada no mundo adulto. Os árbitros representam as leis. A bola é a a disputa em si. Mas tem o talentoso e o medíocre. O calmo e o violento. O malandro e o ingênuo. Os times são as personalidades. Algumas estão mais propensas (ou treinadas) a defender. Outras preferem atacar porque o ataque seria a melhor defesa, diz um ditado popular.

Goleiros são especialistas: chatos, mas necessários. A dinâmica do jogo é o símbolo das nuances dos dias, uns diferentes dos outros, mas todos sob o comando das rotinas. O tempo da partida é como a própria vida em seus limites, fronteiras e possibilidades. A estética dos jogadores é de gosto duvidoso. Alguma semelhança com o que vemos nos shows e shoppings? Tem as torcidas, um grupo nebuloso e que me dá medo. E tem o torcedor, um sujeito emocionante e passional.

Defesa, meio campo e ataque. Essas são as três funções básicas dos jogadores. Zagueiros lutam com atacantes, que tentam enganar os zagueiros e os dois grupos dependem dos meio campistas. Os atletas têm reservas, uma trupe de preparadores, médicos, massagistas, um exército de profissionais. Isso os grandes. Mas na maioria dos times, a favela do futebol, ali a fábrica de sonhos e a batalha pela sobrevivência convivem. Há quem observe os jogos, os narre, comente, os estatísticos. Técnicos são tipologias variadas. Avançados, teimosos, inovadores, retranqueiros. Dependendo dos resultados, serão tratados como deuses ou burros.

E tem gente como eu, que escreve sobre isso. Penso que tipo de jogador eu seria, de qual posição. Qual time faria oferta pelo meu passe, em que cidade, de qual país? A equipe seria de primeira divisão? Chegaria a campeã estadual, nacional, mundial? Seria um craque, um cabeça de bagre, um mais ou menos?

É um bom exercício. Pode ser estendido a emprego, modo de vida, desejos, relacionamentos, decisões, preferências e situações. Entre dois times, sempre torci pelo mais fraco. Mesmo quando envolve o Inter, aceito vencer mas não permito goleadas humilhantes. Acho que o meu Colorado reage em campo como eu me sinto durante a partida. Vou torcer pelos vermelhos até o fim dos meus dias, mas já fui mais fervoroso. O motivo está ligado aos resultados, que são pouco expressivos, mas isso é um problema menor. Estou começando a achar que a torcida não é prioridade do clube. Sem a paixão mobilizadora, sem o amor presente, um time continua sendo dono do seu coração? Continua, claro. Mas não estou conseguindo acreditar que ele, afinal, vença.