Outros cantos

Isso não é um treinamento, se puder não ser.

Aos dias azuis

Mercedes me canta o Rio Paraná, os peixes que saltam na rede, seus pescadores. Coração pequeno, uma aragem silenciosa acompanha uma falta. E, ainda assim, é azul. Como têm essa cor os sinais, as janelas, os pontos de encontro, as pontes feita de conversas feitas até de palavras.
Agora é baleiro, o Zeca, que me conta que se um dia um beija flor invadir a minha casa, é sinal de saudade. Como se agiganta e se impõe, se atravessa e me perpassa. Ainda assim, é o sabor da minha vida como ensina Simone quando me faz perguntar por que eu sou eu?
Então ele chegou e deitou-se ao meu lado, apenas isso, esteve ali. Ficamos quietos em todas as línguas. Eu presente aos poucos, ele um conviva da praça onde mora um por de sol.
A Terra tem uma alma Enluarada, que exibe em seu sempre capacidade inerente de existir embelezando. O trabalho humano é mais simples, nos basta reconhecer belezas onde elas resistam. Também parece humano que, ao reconhecer o encanto desses cantinhos encantados, haja o desejo de tê-los conosco. São companhia, parceria bem-vinda, estar simples, compreensão certa, mistério entregue. São companheiros, vibram em dança bonita, é a própria vida num convite pleno de si mesmo.
Em dias azulados assim, estar ao lado de quem se ama deveria ser um decreto. Também porque estar longe é um desperdício, fazem um frio seco, é uma heresia com a sorte de amar alguém. Onde está teu coração? É ali que brilha o teu tesouro. Quem descobre isso, não se torna imune às dores das horas nem resiste melhor às suas intensidades. Quem descobre onde está o coração se descobre melhor e te entrega, feliz, o pronto (ponto a ponto) da sua humanidade.

Bom dia, medo

Logo cedo, acordo meus medos, os coloco em fila e olho no fundo de cada um. Ser preso, ter que viver no Rio, causar sofrimento a quem amo, trabalhar no que não gosto, não escrever ou ler, depender além da conta, invadir, não ser bem-vindo, não andar de bicicleta, perder a curiosidade, falar demais, fingir afeto, ter certezas absolutas, morrer afogado, ter de fugir do que quer que seja, me perder de mim mesmo, enlouquecer, não ter autonomia, existir sem o amor encontrado. Me entregar ao pessimismo. Estar à vontade sob qualquer forma de fundamentalismo, estar sem você.

Todos os meus medos têm maus modos, seus próprios receios e modo de operar. Falo sobre isso para enfileirá-los, estão agitados, arrastam correntes e batem canecas nas grades, ouço os sons e me preparo. É assim que começam as rebeliões em mim.

Já vivi em tantos lugares e em condições tão diversas, sabe? Não há onde no mundo que não me adaptaria. Viver aqui é apenas uma entre muitas possibilidades. Mudar não é um medo listado, o que me leva ao bicho papão real. O que desejo é estar ao lado por ser indispensável, ter um manto, o cetro, o reinado e a aclamação da minha vida bordada na tua, como mostra a canção do Gil. É um medo tolo? Pode ser, mas é o meu.

O meu bom dia vai para os teus, que têm hora pra vir e se disfarçam tanto de tantas coisas que te apontam. Vozes que se elevam. A crítica travestida de indiferença. A solidão esteta. As leituras solitárias e sem troca. O silêncio da tocas e o ensaio da cegueira. Que o meu amor te ilumine de azul o dia, leve teus medos para brincar no balanço de passeios bem sucedidos. Só há sentido se o amar acolher os medos, se os acalmar e contar a história de almas que se amam e do tanto que se amam, no ponto que se amam tanto que seu medo é não poderem viver isso.

Coisa ou outra

Existe a possibilidade de ponte entre o desejo de ficar e a necessidade de ir? O encontro com o outro significa ganho ou perda de liberdade? É possivel aos amantes a permanência do amar quando distantes de si? Acho que nenhuma resposta é plena para o sim ou absoluta para o não. Trata-se mais do que significa, o valor essencial do outro ao seu lado, a importância e o peso que isso tem naquela vida, algo único e intransferível.

Quando te imagino indo a qualquer lugar do mundo, depois de um tempo tão fundo, após enfrentadas e vencidas todo tipo de descidas e subidas, é comigo que te imagino indo ou vindo. Esse sou eu: não quero uma alternativa, não faço planos sem a tua presença física, emocional, intensa e bem-vinda, desde que seja presença, algo que que precisa ser entendido como incomparável em força, poder e potência.

Isso quer dizer que não há vida inteligente fora do outro, que sem você não vivo? Se puder, corra de gente assim. É ego disfarçado de argumento. É ameaça de dependência doente, é um meliante, vai te roubar coisas preciosas. Falo de algo mais difícil de construir, mas com um prazer tão inigualável que aceitar o comum depois disso, não, obrigado. Eu não poderia.

Aceitar viver fora do comum é uma escolha. Escolher é um ato impactante, um exercício de lucidez, algo acima de ganhos ou perdas, é você determinando quem você é, de quem você se trata e o que você quer dizer com sua existência. É um ato que reconheço em ti, se trata do que te dignifica, qual o significado do que existe em ti e o que te leva ao melhor da tua alma. Pra mim, é o amor. É a única lente? Não. É a mais fácil? Não. Há outras? Muitas. Vale pra todo mundo? Basta olhar para o mundo para ver que não.

A esquina é longe ou Tokyo é perto, depende da porta que se pretende abrir ou fechar. Isso não muda o fato da tua existência me alegrar por ser isso, tu e a tua existência. Em mim, isso é o resultado de entrega e do que se pode abrir mão em nome do amor que se dá ao outro. Abrir mão é aceitar que não há absolutos, não é coisa ou outra, seco ou molhado, sozinho ou acompanhado. É escolha de uma vida em detrimento às milhares de vidas possíveis, não se pode ter todas. Amar é algo que ofereço. Amar e proteger. Amar e acompanhar. Amar e crescer juntos. Amar e silenciar. Amar e manter vivo não o meu amor, mas o amor que te mantém em presença em mim, inclusive pelo amor que me entregas. Receber ou não esse presente é de foro íntimo. Há milhões de razões para aceitar ou negar o oferecido. Uma delas é, quem sabe, o fato de amarmos o mensageiro, mas a mensagem precise ser diferente da trazida. Acontece que é preciso cautela aí, já que uma mudança na mensagem altera o mensageiro a ponto de mandá-lo para lugares onde ele não possa mais ir.

Sendo isso um impasse, aquela encruzilhada clássica, em que termos se dá a questão? É razoável um ” você espera, viva enquanto espera, pode demorar mas espere, espere sem desesperar, espere, espero que você espere feliz”. Por outro lado afirmar que a coisa é simples como dizer “se tiver que esperar, não vou esperar, o pedido de espera não é um pedido de espera, mas sim a revelação de prioridades, onde quem espera não é desimportante, apenas não tem a importância que entendia possuir”. Isso seria tolo, mas a matéria prima da tolice é, justamente, o que garante sua existência. Aos sábios, que pensem e pensantes, abram rodas de conversas para saber o que, de fato, é o propósito das suas respirações e o que lhes tira o fôlego.

À alma que amo, meu amor incompleto, cheio de auto interesses e agendas de humanidades tão estúpidas quanto geniais. Feito de passeios não planejados, a dor lancinante de agora, a conversa difícil, a verdade que me baliza, o entendimento no sempre onde nasceu e no sempre em que vive. Apenas te digo que não vou conseguir mais voltar onde tudo doeu. Mas seja o que for preciso. Vá onde te complete a vida e a felicidade te alcance. Esteja plena de si, inteira e absoluta nas tuas experiências. A liberdade não é feita de decisões fáceis e exige defesa permanente, não a deixe por nada. O amor nos liberta para o outro porque nos aproxima, promove entendimentos impossíveis aos não amantes. Amar nos torna livres para ir e vir, ser e estar um com o outro. E, também, para não ser nem estar, nem ir ou vir. O amor não tem condicionantes. São os amantes que têm ou não têm o olhar, o valor, o desejo, o tempo e as circunstâncias para vivenciar ou para, ao contrário, construir à mão o dia a dia.

Pick

Qualquer passeio pode ser feito ou adiado. É a possibilidade de realizá-lo, o desejo de efetivar o evento, o plano de o colocar em andamento ao lado de quem desejamos. Esse é o sumo de um picnic. Sua espera é um dos ingredientes. Sua existência, motivo de alegria. Fique à vontade e viva com gosto.