Alegria tem ria e tem ri

Defina alegria. Pese o que seja. Beba dessa água. Olhe em volta dela. Brinque de pega pega. Ascenda. Acenda. Alegria. Esteja por perto quando acordada. Diga só com gestos. Conte com palavras. Conte comigo. Estique a conversa. Aumente o espaço e equipe e ocupe e se estatele no sofá da alegria que causa uma causa. Uma calça. Um caminhar. Porque poderia não haver encontro. E havendo, não houvesse o botão do encanto. Então seria mais um entretanto entre tantos. Mas quando algo convida, com vida. Com vinda, que alegria. O cão nosso de cada dia, o prato, o são, os fatos de estimação, as palavras-símbolo, Simbá (o marulho), amigo de um Pequeno Príncipe, primo de Menino do Dedo Verde, amor inteiro do Pequeno Polegar. Alegria cabe no bolso. Na bolsa. Na blusa. Na balsa. Na bainha bem feita. Alegria é uma tarde no quintal enorme do prazer em conhecer. É reconhecer os elementos que nos fazem alegria na jornada do outro que queremos bem.

Quem

É tudo temporário e não há como saber, inexistem garantias, selos internacionais ou certificados inalteráveis. Mas entre o volátil das coisas (porque são coisas e essas habitam um mundo que as condena ao desaparecimento), existe algo. Está lá, você percebe que pulsa, você intui a presença, você  sabe o inexplicável. Não é uma crença, é a existência vista a partir do invisível e do inevitável.  É o conhecimento apartado da razão, eis a força da natureza agindo. Entregue a esse poder, uma pergunta torna-se urgente e calmante ao mesmo tempo. Você também pressente o infinito assim? Olhe bem, não tenha pressa, mas compreenda, trata-se de lógica existencial. O finito não tem um fim. É o infinito que tem. Não são duas percepções de algo. É um entendimento particular que não dá margem ao esquecimento do todo. O infinito tem um fim em nós, não há subjetividade nisso. É o nosso lugar no cosmos. Você pode adiar o quanto desejar a sua chegada, há coisas sempre a fazer. O que não podemos é ignorar a existência e rumar por ela, navegantes. 

Depois de um encontro como esse, que movimenta o universo, tanto faz o que se faz, a cor do cabelo, o país de origem, se Portugal é um destino viável, qual o nome escrito na carteira de identidade, aonde vamos morar. O que define o afeto com alguém não é a sua capacidade de saber quem estará junto na trincheira. Pelo contrário. O que define um afeto é saber com quem se quer estar em tempos de paz. Como disse no início, todo resto é temporário. ***

1

Um segundo a mais e o eterno se faz.

É um micro instante feito de um momento mínimo, o tempo inteiro ao contrário.  

Então não há o que pare o segundo em sua altura, nem o significado que traz, no tempo do sempre que dura. 

Não há visão mais reta do que a da alma, quando singra no olhar do outro. 

É um segundo cavando no tempo, cavocando, cavalgando, carpindo, indo, medindo demarcando a terra do olho que não lhe é alheio, mas um pedaço do que sabe em si, vendo-se. 

Basta um segundo para saber o signo, o designío, o escrutínio, o sabor do vinho, a marca da moto do vizinho. 

Não é preciso mais do que isso. É impreciso mais do que isso, um segundo. Um triz, um zapt, um vupt, um zum e estamos conversados. Ditos, tatuados, vindos, nutridos, olhados, curados, um segundo e basta para que tudo mais se queira. Esqueirados, lado a lado, cansados, feitos de ânimas, cheios de cãibras, vontades, involuntariedades, mesclas, um ora sim, outro hora não, uma oração.

Um segundo é a coisas mais duradoura de tudo que vejo.    

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Flô

Não se admire se um dia

É possível deitar-se sob o que se veste, agora, de impossível. Qualquer que seja o caso, existem mil seiscentas e quarenta e cinco alternativas para manter, encerrar, criar, convidar, exilar, trazer, compor ou fazer aniversário em lugares nunca antes imaginados. Não falo do impossível raiz, tipo abrir o mar em dois com um cajado. O que te conto é sobre o impossível escolhido, o impossível com acreditação, cheio de testemunhas, o impossível que entregamos para nós em muitos momentos. Não, não vou começar um discurso motivacional. O pior que pode acontecer a qualquer um é o imposs´ível passível de realização. É possível não realizar um curso que daria inicio a algo que vc não sabe exatamente o que é,  mas que seria muito diferente de onde vc está? É. Então não torne impossível o princípio de milhares de coisas, porque você não é resposável pela minha felicidade. O que tem a ver? O que tem a ver é que você infeliz me torna infeliz por tabela. Não coloque o fim de algo na conta da impossibilidade. O impossível deseja nascer entre nós porque ele é uma boa desculpa, era impossível, o impossível é um consolo e tanto. Claro que existem coisas impossíveis. Chega o momento em que dar mais pedalada, fazer mais uma campanha, beber mais uma cerveja, ficar mais um tanto, esperar mais um pouco, tudo isso (e muito mais) tem um limite. É depois dessas coisas que o impossível ganha molde. Até ali, é possível. Não é suficientemente tarde, ainda dá tempo, pode ser começado, deve ser encerrado, precisa de mais prática, requer exercícios contínuos. É possível até parar de respirar por mais de 1 hora. O impossível, nesse caso, é continuar vivo. O problema dos contentes com o possível é que eles prosseguem vivendo uma vida poss´¨ível, quando a extraordinária também é.  

Você pode por favor tornar possível aquele curso, o novo emprego, um abraço de urso, o saxofone, largar o telefone, ir até a praia, livrar-se dos pesos, amar-se tanto que seja impossível não te amar mais ainda? 

O impossível é o quase com phd. Há uma frase que gosto muito: “E não sabendo que era impossível, foi lá e soube”. O que tento dizer é que muitas coisas são, mesmo, impossíveis. Hoje era, mas não foi. Não mudamos de opinião sobre o impossível, só alargamos as possibilidades do possível. Faça o curso. Comece algo. Termine. Examine. Venha. Vá. Se abstenha. Leia. Saboreie. Creia. O impossível só é possível se vc não tentar. E mesmo que ele se confirme, ainda assim é melhor desafia-lo do que morar em si mesmo não tentando fugir, rir, ir, desejar, sonhar, fazer, merecer, ensinar. Desejo o impossível. Lá a concorrência é menor, com a vantagem de ser imposs´ível encontros com a mediocridade.

Somos nós os nós

É preciso uma coragem, eis o nosso tempo e sua respectiva exigência. Coragem para não congelar os sentidos, cegando os olhos para as traças sociais. Somos nós, reconhece? Estamos um pouco ali, no sinal de trânsito, dormindo na rua, vivendo num tempo com templos demais e parco de fé que remova as montanhas de desigualdades que ignoramos, como se não fôssemos um tanto autores disso. Somos.

É preciso coragem de assumir nossa obra, rasgá-la ao meio, jogá-la no rio, desova-la nas covas dos lugares comuns das conclusões com vista para a superficialidade. Uma vez vc me pediu para apontar um país onde o socialismo deu certo. Me pergunto onde o capitalismo deu. Imagino que os dois sistemas fracassaram por serem assinados por gente sem gente por dentro e é preciso muito disso para não resumir os dias em 24 horas de direita ou esquerda, ambas uma opinião parcial da jornada. 

Não me chame de isento, não sou. Nem de centro, onde não estou. As nossas posições políticas ajudam pouco quem está com um cartaz na mão, pedindo comida. Não deveria ser aceita como sociedade um grupo que apresenta conceitos como novo normal, que discute se a Anita deve ou não dar aula em Harvard, que problematiza as faixas de segurança (é preto no branco ou branco no preto?), que põe fogo em índio, que assiste MMA, que fotografa tudo, que cancela, que lacra, que considera votar no Bolsonaro para se livrar do Lula, depois elegemos o Lula para sumir com o Bolsonaro. Enquanto tudo isso acontece permitimos milícias, deixamos a Amazônia ardendo em brasa, definimos qual é o melhor técnico para o Flamengo, aceitamos o mais ou menos e vamos ter aula de excelência. 

Somos nós e lá fora é espelho, um reflexo nosso, essa coisa, esse troço com traços evidentes de troça. Somos nós e as certezas absolutas que acompanham a tropa. Estamos de turma, regamos a morte, negamos a vida e nosso perfume é da Adidas. 

A boa notícia é que há sempre uma brecha, um descuido e um abraço surge entre amigos. Alguém desce do carro e oferece um par de meias. A Teto constrói 20 casas. Um senhor pede desculpas. Um garoto aceita. Surgem podcasts interessantes e a inteligência ressuscita. Entre montanhas de livros de auto ajuda, aparece um Tudo é Rio, o frio passa, o homem com o cartaz pedindo ajuda recebe algo. É ajuda. Resolve? Não resolve, mas ajuda. Acaba com a fome? Não acaba, mas ajuda. A violência é uma escolha. É hora de furar a bolha, agir em nós, arrumar a cama de manhã. E se levarmos um pãozinho extra para ofertar à fome alheia? Resolve nada, mas ali, naquela hora, para aquela pessoa, naquele instante e naquela fome fará. Depois, votar bem. Depois, agir bem. Depois compartilhar o possível. Mas agora, por agora, nessa hora aqui, um pãozinho não é nada, só um início. ***

Maravilha

Mar é uma metáfora gigante. Cheio de surpresas em suas rotinas, vai e vem beijocando a areia da praia. Mantém dentro de si petróleo e peixes de tamanhos variados, alguns enormes e misteriosos. Outros feios, o que não se pode dizer das baleias. Correntes marítimas são vias, sugestões líquidas para onde se vai de carona. Em alto mar, não há terra à vista e o olhar se perde em toneladas de água por onde o barquinho vai: não importa o tamanho das embarcações, serão eternamente minúsculas singrando, pedindo permissão de passagem, que será dada ou não.

Quando agitado, mar é arrebentação. Por onde passe, nada adormece e o grande sonho é mar calmo, formador ruim de bons marinheiros. Conclusão: somos forjados nas tempestades, a experiência é um conhecimento que nos torna tudo, menos impermeáveis na jornada. 

Ondas marítimas divertem surfistas ou se tornam novidades tsunâmicas. O mar é um atlântico moral, não fica com o que não lhe pertence. Corpos, garrafas, pedaços de barco, nada que não seja ele mesmo permanece em suas profundezas ou companhia. Faz da Terra uma ilha interessante, mesmo vista de longe, vestida de azul que lhe empresta. Te amar é sempre. Rimar é com poetas. Gamar é antigo. Sigmar é cineasta. Mariel começa no mar. Maria, um nome temperado com o sal da terra. A humanidade está fora de si. Como vejo, precisa se acalmar. 

Ilhas, desertas ou habitadas, pertencem ao mar que as cercam. Podem ser agitados, indicando ferocidade. Pode ser gelado, mostrando uma certa humanidade. Por ser longe, convidando ao movimento desejado. O fato que o mar é uma metáfora gritante sobre mudança perene. Não permite (dando o exemplo) que sejamos um mar morto por dentro, por esquecimento, por nada. É preciso avançar, porque navegar é preciso e inexato. Remar é uma escolha abençoada, cujo motivo é a essência que nos leva a navegar. ***

Disse

. Passo ao largo, me arremesso do gesto comum, não dou a mão para frases feitas, nem sei onde dormem as almas distraídas de si. 

.. De onde vim também veio uma réstia de sol, um solavanco, um pó seco, uma toada mais dura, pouco poema. Desde que me deixem quieto, tudo bem barulho. 

… Já disse hoje, te pergunto (mesmo sabendo a resposta) que me recebe calado. Já te disse hoje, contrariado. Já te disse hoje de pressão baixa. Já te disse hoje de mil jeitos itinerantes, disse hoje muito mais do que antes.   

ovos de serpente

Bolsonaro e Lula não são antagônicos. Tentar fazê-los representes de direita, esquerda ou qualquer outro viés ideológico, como vejo, é ignorar uma agenda gigantescamente maior e muito menos interessada sobre de que lado se sentam os burgueses e os trabalhadores braçais.

Bolsonaro é um ex-militar, saído sem honras de lá. Nega as torturas, exalta os torturadores, afirma que deveriam ter sido mortos pelo menos 30 mil ativistas no Brasil (como fez a Argentina) é amigo de assassinos, mora no mesmo condomínio do miliciano envolvido na morte de Marielle, sua mulher recebeu uma grana do Queiros, que teoricamente devia ao Bolsonaro pai. O mesmo Queirós da rachadinhas, o mesmo que foi acobertado pelo advogado do presidente. Bolsonaro, o sujeito que compra casas, apartamentos, carros e paga tudo em dinheiro vivo. Bolsonaro, o cara que mexeu mais de 10 vezes no comando da Polícia Federal. N˜ão, Bolsonaro, não está ok isso daí.

Ele condecora matadores profissionais,  pergunta por quanto tempo vamos chorar feito maricas pelas mortes na pandemia, troça dos mortos, diz que não é coveiro para conta-los, faz da atração pela morte um mote de campanha, a arminha, o nojo, o escárnio, o desprezo por negros, mulheres, pobres e humilhados em geral.  Não é por tirar investimentos da educação, sa´úde, cultura, ciência. Por gastar milhões em cartões corporativos para férias e descansos enquanto gente que votou nele morre solenemente ignorada. Por ter condenado dezenas a morte por sufocamento no Amazonas, onde as pessoas faleciam porque não havia oxigênio e o ministro do Presidente não aceitou o produto oferecido pela Venezuela. Ele poderia ter salvo centenas, mas a atração por morte e o desprezo pela vida falaram mais alto.

Depois das demonstrações probatórias de pouco caso, corrupção, incompetência e roubo expostas na CPI do Covid, sinceramente, não sei como não estão todos presos.

Tosco,  com capacidade cognitiva ofuscada e cercado por uma uma turba de bajuladores, bêbados, encostados, miliantes, gente da pior espécie de intensões, eis sua habilidade maior: nos dividir entre apoiadores de um circo de horror, onde morrem pessoas e opositores cuja opção é o abraço com o atraso.

É o que penso de Lula, o atraso com carisma. A mentira autorizada. A tristeza vencendo a esperança. O que é pior? Pior é saber que seja quem for o vencedor (acho que será o Lula), há mil tons de cinza para o que enfrentaremos. Lula passará 4 anos dizendo que foi injustiçado e não foi. Há indícios claros de (no mínimo) sua conivência com o esquema de assalto ao Brasil. Lula quase foi pego, ainda que chegasse a ser preso. Acontece que um juiz  de primeira instância cometeu faltas graves no processo, junto com um procurador sempre falante demais, vaidoso demais e usuário demais do Telegram. Ambos tentam se candidatar e amealham a humilhação de andarem agora ao lado  de pessoas de quem qualquer um protege a carteira, quando perto.

Há claros sinais da presença do crime organizado em atividades empresariais diversas, mas não só ali. Por anos, o crime bancou estudos de acadêmicos nas mais diversas hostes do conhecimento. Estão agora nas assembleias, no congresso, no judiciário e obviamente no executivo e nas forcas armadas, sempre tão orgulhosas de si mesmas. O crime está vencendo licitações enquanto vende drogas, cita Kant durante festas estranhas, regadas a vinho de gosto duvidoso e Cinzano original. Um dia perguntaram a um especialista qual seria o futuro da nossa democracia. Ele respondeu que dependeria  de qual seria o futuro dos torturadores. Aqui, eles foram anistiados e hoje desenterramos mais dois corpos. Um repórter inglês e um indigenista brasileiro foram brutalmente mortos, depois queimados e esquartejados. O nojo que as declarações desse bicho que está na presidência deu, tiveram o condão de me trazer lembranças amargas e passo mal.

Como é possível que se admita a possiblidade de votar em alguém assim? Por outro lado, como erramos tanto a ponto do Lula não ser uma alternativa, mas aparentemente a única alternativa entre os humanos do Brasil? Lula é um péssimo recado que daremos para nós mesmos. Mas votar no Bolsonaro é escolher a barbárie, a milícia, o engodo, a baba no canto da boca, a aniquilação física do que for contrário, sempre com requintes de crueldade. Bolsonaro é um ovo de serpente incontrolável. Não o aquecerei em minhas mãos. 

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Deus tem eu no meio

Fica boa sob tela: você é um unicórnio

Começou não sei bem como. Esqueci, tinha uns 3 minutos de vida, talvez menos. Não sou muito bom com lembranças. Mas penso aqui que o útero foi um lugar legal, porque gosto de espaços pequenos e quentinhos, falam muito isso dos ventres maternos. Depois, estava sozinho ali naquela água morninha e boa, dizem que é assim. O senso de observação e um certo gosto por estar à sós comigo mesmo veio depois. Talvez porque me esgueirava pelo bairro, evitando turmas. Talvez porque me escondesse em casa, ficando longe da confusão com 5 irmãos mais velhos. Embaixo da cama, então era bom. Na árvore japonesa, bem bom. Na escola, era o magrinho que gostava de correr e tinha o cabelo cortado tipo milico, o que me deixava parecido com um galho com topete. Dificilmente você é convidado para festanças com essas características. Minha primeira namorada foi a Juçara, assim, com ç. Depois descobri que a recíproca não era verdadeira. Era a minha namorada e de quem mais tivesse a habilidade de levá-la ao Cine Regente aos domingos. Quem soubesse respirar saberia também levantar os R$ 0,50 do ingresso. Juçara, Juçara. 

Não falo tudo isso porque tenha alguma conta a ajustar com o passado. Tenho, mas não se trata disso aqui. É mais para entender que fiz teatro (não exatamente fiz e não exatamente teatro, era mais um jeito de não estar nas coisas). Que me tornei um especialista em não falar e um doido para saber das pessoas. Me tornei um escutador de primeira, não por bondade ou outra virtude qualquer, mas por desejo de ser aceito. Eu aprendia os outros. Captava os sinais, um movimento minúsculo aqui, outro maiúsculo ali, os olhares, as senhas escondidas em palavras comuns, intensões e formatos de rosto. Persigo até hoje os roteiristas, tentando entender o que ele apronta antes dos personagens agirem. Se aquilo se torna fácil, perco o interesse. Mas se na última cena eu entendo que o garoto que vê gente morta estava o tempo todo falando com um morto, fico brigando comigo por não ter antecipado o truque. 

Quem não me conhece e me vê dirigindo, falando, conhecendo gente, comandando equipes, formando times, orientando pessoas ou sendo direcionado na criação de algo, não entenderá minha expansividade. E só os próximos entenderão que não se trata, exatamente, de alguém extremamente no centro do palco. Foi você quem entendeu que o centro do palco é o lugar do personagem, não do ator. Isso não me faz bom ou mal, melhor ou pior do que alguém outro. Não são menos verdadeiros os elogios ou insinceras as críticas. Afetos não finjo. O interesse é real, a ilusão é me imaginar liberado, fácil, compreensivo e são em tempo integral. É o contrário. Sou mega travado, complexo e em luta constante com as loucuras que assisto. Não é só divertido, mas é só. O que tento te contar é que não sei me contar direito, descrevo o que sou e o que subscrevo o que vejo. Me esqueço, me aqueço, estar é um zig zag entre o feliz e o padeço. O que conto é que contas em mim, adições diversas, somas totais, pouca diminuição, muito extrato, muito suco, muita goiaba enclausurada, muito infinito em fresta, muita festa em minutos, muitos assuntos, muita conversa, ser e não ser é a nossa questão, mas não do jeito que o escritor inglês pensou. Nunca é do jeito que os escritores pensam. Para escrever, penso, é precioso entender que no momento em que digo, é outra coisa no teu ouvido. Somos estranhos o tempo todo, portando, mutantes, amantes, silentes, vacilantes, humanos e às vezes você me põe louco. Ao mesmo tempo, a distância se torna um caminhar manco e quero te dizer que o Inter ganhou do Flamengo. Se estamos longe? Estamos longe de não nos amar. *** 8 deitado.

 

Portall

Parceiros são carne e massa de pastel, uma delicia inseparável. Arrumam programas, desarrumam camas, silenciam às vezes, cortam um dobrado, riem muito, mas não de tudo, que rir de tudo é desespero.

Estão inteiros ali, os parceiros. Audazes, iluminatis, táteis, acessórios um do outro, basculantes, decoração, portas de almas cruzantes, se existem depois, durante e antes. Algo lhes falta essencialmente, se longe do que lhes fornece régua e referências. Não são monges, mesmo os budistas. Nem são perfeitos, que ideia. Alguns são feios, por isso são tão lindos os parceiros que encaram todo tipo de solidão que tenha propósito. E isso não havendo é quando entram em extinção, incendiando-se mas por um motivo quase tão triste quanto a solidão. Te conhece no olho, no jeito que desce do carro, parceiros têm balinha, fazem bolo, parceiro tem um pouco de sábio, um tanto de bronco, muito de tolo. Alguns são românticos, nenhum é de pedra, a maioria troca teu humor contido por um bom abraço na esquina, desde que seja teu. Somem se os mantemos ao largo e voltam se tivermos sorte. São nossos melhores momentos e talvez partam nos levando algo que nos fará falta por mais festa que haja em nossa volta. *8*