Fuso

Pode ser lido na direção que você quiser

E se formos formados também de um tempo criado, estabelecido por trópicos, linhas, movimento solar? Então talvez cada um de nós tenha um horário próprio, interno, indiferente do segundo passante, do minuto restante, dessa gente que tic tac tic tac tic tac e passa.

Quem sabe quanto mais próximos (ou distantes) do paralelo 30, tu não me sintas da mesma forma que eu te perceba. Nem à flor, a chuva, o chapéu, a greve de fome, a importância, o aroma, o bife, estar contigo no sábado ou a dureza das despedidas. Talvez eu não saiba de ti. E mesmo que me digas, posso estar (como tu) em um tempo fora de mim e assim, não te compreendas ou não me queiras, não te entenda ou não me vejas. O que sei é que mesmo assim, nos teremos porque tecemos linguagens próprias, carinhosas, é desimportante o nome que dão.

E se o que percebemos não seja o tempo, mas fusos uns dos outros, um momento, um instante, elementos, encantamentos, tiques verbais, ansiedades, separação de mentira e amor de verdade? E se não for escrever o que me acalma, mas sim escrever pra ti, saber que me lendo te tenho? Ver que decifrando palavras te devoro e que me olhando em frases, me decifras?

E havendo almas que se alcançam e que se alcançando apenas se amem e se amando se queiram bem? Almas que passam pelo tempo, dando a ele pouca importância e muito movimento. Almas no mesmo fuso, mas sem a doença das fusões. Almas vivendo suas horas, se oferecem ao outro por se terem, por se verem e por amor.

Das neves

Existem 37 vulcões no polo, todos cobertos por gelo e mais gelo. Aprendi isso dia desses e me perguntei pra que aprendia isso dia desses, pra que serve saber, envolto em frio próprio e dores improprias, pra que serve saber que existem 37 vulcões na Antártica, todos coberto de gelo. Deve ser péssimo ser um dos 37 vulcões conhecidos daquele lugar. A frase indica que podem haver mais vulcões, seriam os desconhecidos e, se a informação é boa, a Antártica é uma farsante, tantos vulcões que recebe os disfarçando com gelo. Dizem, não sei, nunca fui até lá, que os vulcões servem para criar bolsões de calor entre as imensas geleiras. Hiatos quentes, equilíbrios distantes, calafrios, algo que cala os frios das nevascas e ventos, os contrários e seus movimentos encapuzados lá longe, lá dentro, invisível e frio. Não tenho muito tempo, são 18.14 em algum lugar do planeta e dormir tem sido um momento lento, um desaprendo, um me dispenso logo inexisto, sou a pior distância entre dois polos, onde falam que há 37 vulcões que ladram mas não correm, é tudo tão confuso, o querer esperança, o esperar nostalgia, a neve polar, os 37 vulcões conhecidos porque se escondem num ponto esquecido da Terra.

Reaparecimento

Do nada, o fone informa 3 ligações perdidas. Lotado de remédio para manter a falta de lucidez, ela ou ele não sabe mais quem é ou são, nada é ou são, ouçao, a tontura é permanente, as paredes são brancas, a pirula de dormir, rosa. Perdeu-se em ligações esperadas, escondeu-se de visitas impróprias e do nada, 3 ligações perdidas. Era uma urgência, era saudade, era uma volta, quem era? Quem toca? Como saber, se o número chamante era o numero perdido, Alice na toca, quem toca?? Atende, postula a voz, finge, estica o braço, derruba o fone, batendo sono, tudo gira, alô, é você? Retida em toques de recolher, exilada de quem ama, com fome e quilos a menos, a alma amante se encolhe diante da allminha amada. Dói a cabeca, o dedão, silêncio, o desejo recolhido, o nervo derrotado, o emprego longe, o milagre desejado, o sim não visto, o visto americano, o não te demora, o vai-te embora,  quem era, era voce? Era o que se perguntava, expiando o fone, espiando a saudade, o smor, a distância e o fato de não existindo, continuar ainda assim sentindo, amando, sendo a tua parte escondida da lua, teu exílio, a canção de Fábio, a lembrança, o desejo e o medo de que vindo, fosse de passagem. Sempre era sempre, soube desse longe no tempo
Alô? Foi a pergunta não feita. Quem é vc, se perguntava e queria saber.

À benção, Silvio.

Sobre Silvio Rodrigues tenho pouco a falar. É um poeta, o que se sabe dos poetas? Mas esse cubano tem algo, ah tem. Ele é dos bons, desses capazes de falar de coisas como o amor ou liberdade alargando o conceito, a percepção e o próprio senso comum sobre o tema. “A Quem Merece o Amor”, cantada aqui pelo Magrão + MPB4, é um ótimo exemplo do que falo.

Se você ouvir distraída como a maioria de nós, pode pensar que se trata de uma canção-desabafo, feita por alguém cujo amor incompreendido ou não aceito dedica a quem não pode aceita-lo, recebe-lo ou mesmo compreender. A gente poderia conversar sobre os muitos afetos que nos propiciam as leituras de textos, sejam eles a Ilíada ou letras de música. Talvez porque sejam metáfora ou códigos que nos aproximam. Talvez pelos significados pessoais que tenham e que nos reflitam um no outro, ainda que me sinta não um, mas no universo formado de infinitos chamado outro. Viu? Sou ruim de metáforas. Voltemos a Silvio e “A Quem Merece o Amor”.

Trata-se de uma canção que faz da revolução (a cubana, no caso) um gesto de amor. Não por acaso, o músico escolhe uma palavras distante daquela associadas ao aspecto romântico desse sentimento. “Te perturba esse asse amor?” é a pergunta que a canção faz para responder a que veio ou ao que é. Concordar ou não com as respostas que dá é algo que me importa menos. Mas o questionamento é fenomenal. Te molesta esse amor? O molesta, em espanhol, grita um pouco menos que o português “perturba”. É menos agressivo, um pouco menos perturbador.

Como o amor pode perturbar, talvez você me pergunte. Ou talvez não, só posso mesmo saber se você me disser. E se tomarmos ao pé da letra, me pediram para que eu desse um jeito de ficar quieto no canto de cá do silêncio e das conclusões a que se chega pelo que ele não diz. Então respondo à pergunta imaginária que se o amor não te perturba, não bagunça a tua lógica, não te eleva ao teu exato lugar no cosmos, não te faz feliz pela simples ideia da existência do outro, não te aumenta a potência de agir, não te faz amar mais a humanidade, que coiso de amor é esse? Silvio afirma que o amor revolução (era literalmente a revolução) “alivia e acalma, é o remédio da alma pra quem quer se curar “. O poeta adverte que é preciso querer, reconhecendo o até ali vivido como algo que pode ter sido qualquer coisa, mas que colocado em perspectiva, fica na prateleira do belo, enquanto que o amor revolução é irresistível, por isso perturbador.

Enquanto nos encanta descrevendo um amor pessoal, Rodriguez revela seu amor pelo coletivo, pelo oprimido, pelo solitário, pelo triste, pelo desencorajado, por uma Cuba Livre:

Meu amor, o mais apaixonado
Pelo injustiçado
Pelo mais sofredor
Meu amor abre o peito pra morte


E se entrega pra sorte
Por um tempo melhor
Meu amor, esse amor destemido
Arde em fogo infinito
Por quem merece amor.

Arder em fogo infinito “por quem merece o amor” é uma raridade poética porque impõe uma condicionante humana, o merecimento. É preciso ter coragem para oferecer e para retribuir. É preciso ter coragem para não oferecer ou retribuir? Eis uma boa pergunta, logo agora no final dessa conversa calada. Não sei dizer. O que me dou conta é que todo amor é uma revolução, não uma guerra. Portanto não se trata de vencer ou perder, mas de respeitar o que seria o ponto alto da história. Quanto a isso, a história, deixo para Pablo Milanez, outro cubano supimpa, uma definição formidável:

A história é um carro alegre,

cheio de um povo contente,

que vai levando, indiferente,

todo aquele que a negue.

O presente de hoje é um MPB4 que nem existe mais, quando Magrão ainda estava por aqui. Ouça as intervenções sutis do piano, são presenças tipicamente cubanas no jeito de tocar aquele instrumento. Sinta a alegria, sirvam-se, mereça.

O amor é outro país

— Amas-me? Perguntou Alice.
— Não, não te amo! Respondeu o Coelho Branco.

Alice franziu a testa e juntou as mãos como fazia sempre que se sentia ferida.

—Vês? Retorquiu o Coelho Branco.

Agora vais começar a perguntar-te o que te torna tão imperfeita e o que fizeste de mal para que eu não consiga amar-te pelo menos um pouco.

Sabes, é por esta razão que não te posso amar. Nem sempre serás amada Alice, haverá dias em que os outros estarão cansados e aborrecidos com a vida, terão a cabeça nas nuvens e irão magoar-te.

Porque as pessoas são assim, de algum modo sempre acabam por ferir os sentimentos uns dos outros, seja por descuido, incompreensão ou conflitos consigo mesmos.

Se tu não te amares, ao menos um pouco, se não crias uma couraça de amor próprio e de felicidade ao redor do teu Coração, os débeis dissabores causados pelos outros tornar-se-ão letais e destruir-te-ão.

A primeira vez que te vi fiz um pacto comigo mesmo: “Evitarei amar-te até aprenderes a amar-te a ti mesma!”

(Alice no País das Maravilhas. É o que temos e o que temos é importante)

Dourado

Sobre ele, dizem que nasceu no campo. Solto, livre, balançante, um sonhante de passagem, uma paisagem, uma canção criança. Falam por aí, entre assobios e olhares que se cruzam sorrindo, que foi nada menos que o próprio amor assina sua concepção espontânea, como se a vida simplificasse a si mesma, precisando apenas disso, algo entre o simples e o comum, para te entregar a existência do amor. Algo que cuja beleza do nome -Alecrim- parece invocar mágicos e suas poções encantadoras. Nasceu no campo porque sim, mesmo sem ser semeado. Foi o amor que te fez assim, azulzim, uma a flor do campo que chama Alecrim.