Recomeço

diferente

Sou do tipo que que vive abraçando os dias. Rio e choro à toa, gosto do frio, adoro trocadilhos, pipoca doce e leite gelado com Sucrilhos.

Gente como eu vive discordando de quem aposta no pessimismo. Sei que estão em maioria, que vivem ocupados, costas açoitadas, que andam em manadas e acreditam em tudo, o que é o mesmo que acreditar em nada.

Penso nisso enquanto aguento e preparo meu exército de argumentos. Evito quem bate em retirada e fujo de qualquer um que viva dizendo “eu não disse?”. Sou a própria esquisitice e creio que o Inter em campo reproduz meu estado de ânimo. Canto de vez em quando e dou entrevistas enquanto ando. Em minha defesa, não espero que a vida surja da lógica ou que possa se resumi-la à ponto de se a tornar cinza ou monótona.

Penso que é fora da caixa e cercada de um carinho inesquecível que existir se torna possível. Sou da tribo dos adoradores do arroz doce e mantenho certezas absolutas em outros recintos. É assim que respiro enquanto sinto.

Sei o que passam os nerds, os apontados, os diferentes, os abandonados, os que andam em silêncio e com a alma ardendo. Os tatuados, os pobres coitados com grana, os mendigos, os benditos, os sacanas, as mulheres, os anões atores dos circos de horrores. Sabe o que têm em comum os mexicanos, os haitianos, os paraguaios e os icônicos? Eles são feitos do mesmo desprezo que forma um estado islâmico.

Gordos, negros suspeitos, pós-graduados, desesperados, estagiários e demais desprezados, não se rendam. Das nossas assimetrias surgirão dias diferentes. Imperfeitos, feitos de restos restaurados de outros dias, realizados com a alegria artesã, caricatos de tão sofisticados, é como prevejo. Um tempo inacabado, em construção, sob nova direção e sem sertanejo. Um tempo que dispensa o sorriso Facebook, a seriedade twitter, um tempo onde o Grêmio viva perdendo pro Inter. Aos iguais, a chance de um tempo criativo, um teatro essencial, os sorrisos de Eneida, florestas inteiras de Verbena. Aos comuns, o fim dessa pena e o início da primavera. Ao Barichello, um primeiro lugar merecido. Aos filhos, um campinho de futebol ao lado da igreja. A Deus, o pedido de recomeço para todos nós. E que Ele diga que assim seja.

Carta ao amor distante

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Aqui estou eu, nesse cantinho do lado de cá da gente. É bem menor do que esperava, confesso. A cozinha é acanhada, a sala é tímida, mas a paisagem, nossa, ela ajuda muito. A vista do meu ponto é espetacular e o silêncio nas (poucas) horas vagas, indispensável. Você já reparou como o horizonte muda? Num instante, é um pontinho lá longe, brincando de lá pra cá e daqui pra logo ali. Mas nas horas de sol escaldante a coisa complica e olhar para o que há de distante exige uma concentração danada. É quando se misturam as muita miragens, e as grandes ilusões. É dessa dessa união que surge a nossa realidade e, gesto contínuo, a maioria dos milagres que acreditamos. Talvez essa confusão explique, entre outras coisas, porque os publicitários ganham mais do que os filósofos. É uma questão de prioridades: slogans são curtos e o mito da caverna, convenhamos, tem que pensar um tanto pra entender.

Há dias que nem te conto de tanto que chove. Nesses, o primeiro sinal que procuro é o cheiro de terra molhada. Alguns aromas são mesmo uma coisa, não? Eles traduzem o momento raro de uma pororoca existencial. É quando a água bate no chão e o resultado do encontro equivale a Deus cantando Over the Rainbow num inglês obviamente perfeito sobre todas as coisas.

Aconteceu de tudo um pouco nesse tempo. Praticamente te vi dia desses, milhares de anos depois que me contaram da tua ida. Estava bestando, distraído e puft, ora, ora, ora você. Fiquei olhando a cena até que desaparecessem tu e o momento. Lembro de ter ficado feliz. Lembro de ter ficado parado. Lembro do quanto gosto do teu rosto familiar. Logo eu, veja só. Logo eu, que sempre tive tudo a declarar, entendi que o silêncio nos distancia, mas também nos torna inseparáveis. Não sei mais o tom da tua voz, guardo os bom conselhos e me mantenho curioso, com os pensamentos em desalinho. Será que esquecemos uns dos outros para não sofrer ou sofremos justamente porque nos esquecemos? Não sei, mas viver coloca algumas perguntas difíceis pelo caminho e algumas respostas nos deixam falando sozinhos.

Aqui do lado de cá da gente, levei um tombão, daqueles de tirar o ar. Ah sim, ganhei uns arranhões, mergulhei em águas turvas e me arrisquei em trechos desconhecidos das estradas. Como sempre, vivo no tempo contrário, entendi que o teu amor é meu amigo imaginário. Sim, ainda consigo enxergar no escuro, de modo que aprendi a saber onde estão as coisas que precisam ser achadas, mesmo quando o tempo fecha. Isso explica porque passei um tempo imenso tentando ouvir te amo em cada estação do ano. De qualquer modo, não recomendo o exercício: esperar pode se tornar um vício. Pode ser uma aventura extrema, cujo final é uma pena pelo desperdício do tanto que poderia ter sido.

 Conto sobre o vão que existe entre eu e você porque foi nele que aprendi a tecer uma vida desconfiada da esperança. Ela oferece centenas de razões pra ficar. Abre baús e álbuns, mostra fotos antigas, fala sobre razões de Estado, declara a importância da família e informa que não há como explicar no momento. Então se embala na cadeira de balanço do tempo ou dorme na rede sossegada das crenças, dos pai nossos, das ave Marias, do onde houver guerra que eu leve a paz. Mãe do céu, como eu queria te abraçar agora. Falaríamos a nossa língua preferida, a vida. Te diria que passei de ano, que ganhei mais uma eleição, que o azul é minha cor original. Dormiríamos então, num canto do lado de cá da gente. Longe do bem e do mal.

Resultantes

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Viver é artesanato. Algo feito de gestos (nem sempre pacientes) moldando o cotidiano. Não há vida em série, nem linha de produção para a existência. Somos individuais, não podemos ser compreendidos separados de nós mesmos. Posso descrever a saudade que sinto. Lembrar teus gestos. Lamentar as solidões ou comemorar em mim o que me trazes. E ainda assim, tudo que te chegar, por mais que te toque, será outra saudade, outro gesto, outro silêncio e outra comemoração.

Viver é tradução. Algo feito de falas (nem sempre sábias), dialogando com os dias. Não há declaração definitiva. Nem existe entendimento coletivo sobre o que quer que seja. Parece que a ilusão é o que temos de mais real. Infinito, dito, não dito ou simplesmente omitido, o que entendes não depende do que digo. Mesmo assim, depois da tua chegada, será outra palavra, outra lavra, outros caminhos, outros baús e outros pergaminhos.

Viver é desenho em todos os seus riscos. Não há manual confiável, devoluções são impossíveis e o entendimento sobre origem e destino é precário. Estamos por nossa conta, à bordo de uma gordinha apaixonada pelo sol. Irá manter-se assim, nem tão perto que morra por excesso de calor, nem tão longe que desapareça em dias de frio.

Viver é entendimento. É a permuta entre o eterno e o momento, um desfile de imprudências, a mistura de experiências, o resultado de milhões de escolhas. É uma ponte, um instante, um exagero. De qualquer modo, teremos outros experimentos, outras passagens, outras viagens e outros finais. Somos humanos. São nossas diferenças que nos tornam iguais.

Simples

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Andar de carro é algo que me surpreende. Você parado e a 60 por hora ao mesmo tempo, não é algo? O celular me impressiona também. Pra ser sincero, o telefone é de tirar o fôlego, qualquer telefone, ainda mais se você o usa para a incrível aventura de falar com alguém. Lanterna no particular (e lâmpadas em geral, além de bicicletas especificamente) geram em mim um misto de surpresa, incredulidade e uga uga uga.

Estive no Chile, dia desses e andei no metrô deles. Citei o Chile pra me exibir, não há outra função para a frase. Já o metrô foi pra dizer que essa invenção é arrepiante, como o ônibus, a escada rolante e o arroz doce. Junte a isso o Netflix ou o Spotify e teremos um filósofo de boca aberta diante da inventividade humana.

Eu, que li “O Capital” aos 14, não entendo a bateria de lítio, a torradeira, a geladeira, a panela de pressão e o sorvete de flocos. Na lista das mil maravilhas esquecidas ainda colocaria cofres, cadeados e relógios automáticos. Para registro: palito de fósforo e a caneta BIC também me deixam besta.

O cadarço, que grande passo. Sucrilhos, óculos, clips, isqueiro, prendedor de roupa, fogo, foto, forno. O avião, senhor, como é que isso sai do chão? A buzina, o elevador, o submarino (tanto a coisa que afunda quanto o site de compras onde você, inclusive, pode adquirir um submarino), o whatsAPP, o apartamento, o Durex, o Merthiolate que não arde, a arte, o fim de tarde, o fone de ouvido (com e sem fio), o wi-fi, o carimbo e o cortador de grama.

Fico pasmo com Neosaldina, TV e banho quente. Cama, Nescau, anzol, inocência, piada, clemência, beleza, perdão. Tenho a sensação que vivo cercado de pequenos milagres, de eventos que nos mantém vivos e não vemos, como o ar. De momentos que nos escapam, surpresas como a chuva, o guarda chuva, terra molhada e saudade de gente. Tocamos o impossível todos os dias, estamos diante do imponderável mundo das escovas de dentes, somos uma raça de magos, de mágicos, inventores de viagens em dimensões onde óculos não existem para a minha tristeza, os acho o máximo.

De minha parte, fico maravilhado com tanto e com pouco. Você sabia que se somar 9 vezes na sua máquina de calcular os números 1, 2, 3,4, 5, 6, 7 e 9 o resultado é um monte de 1? Não sei de você, acho tudo muito curioso, muito misterioso, muito fantástico.

 

Aos Dias de Inverno

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Então é assim que acontece, aos poucos e sem pressa. O coração, antes acelerado e enfrentando mato, chuva, sol, riso e vento, de repente suspende, num grito, todo e qualquer movimento e diz para. Haverá um momento de descrença, uma desconfiança, como se a surpresa fosse uma mistura imprópria do excesso de entendimento com a falta da beleza. Serão horas inacreditáveis e tristes, possivelmente a própria tristeza virá sorrindo e de dedo em riste. A tribo de todos os medos, as sobras, as sombras, o tempo das distâncias, os implacáveis ursos da terra do gelo e a alma (exilada de si mesma) caminhará zonza, tonta, à esmo.

Nas cavernas escondidas da vida, nos buracos e frestas, buscando um quentinho, unhas pretas de tanto cavar, a voz pequena e perdida das coisas caladas, desditas, desfeitas, os falsete das canções não ouvidas, a vida em loopings perigosos, os segundos flexíveis, os meses rigorosos em desprezo abaixo do zero. Também haverá o prazer que te ignora, o silêncio, o mar dos constrangimentos, os sentimento, não se iluda: o tempo vai ser de ranger os dentes.

De qualquer modo, parece que retirantes, retirados, expulsos de mil paraísos, derrotados, esquecidos, julgados, calados e abandonados são feitos de outras coisas. Não são melhores do que os outros, os que fazem outras escolhas, seguem outros caminhos, se exilam em terras mais vistosas e bebem outros vinhos. O que nos separa uns dos outros é bem sutil. O que nos põe em portos distintos é, justamente, os lugares em que somos (ou não) bem-vindos, além do tipo de porre do qual estamos fugindo.

Qualquer que seja a trama, o prazer ou o drama, o que nos coloca longe é se apunhalamos o amor naquilo que ele tem de mais sagrado, o seu significado. É o que gera em ventre frio o acolhimento indeferido, o desnecessário dito e o essencial calado.

Dias de inverno surgem, é a lei das estações na roda atemporal que nos ronda e a todos submete. Parece que é isso que mantém as alegrias acessas em suas cantorias, inspira a dança das estrelas, a viagem de células e planetas, embalando sonhos de encontrar vacinas ou amores, o que no fim é a mesma coisa. O mais bonito dos dias de inverno não são seus azuis celestes, as noites em breu completo e quase indecifrável. O mais veemente nos dias de inverno não são suas manhãs esfumaçadas nas ruas onde a vida se manifesta.

O segredo desses dias é o quanto somos capazes de festeja-los, ainda que nos diminuam a visão pelas vidraças que embaçam. O que há de mais impressionante nesses dias de inverno? É que eles passam.

(ps. Neidoca, você é a minha melhor amiga, em todas as estações.)

A respeito do tempo

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O absurdo que viraliza, a bolsa que oscila, o saldo do seu Visa. O Bolsonaro, o próximo carro, o espanto, os cursos de Esperanto, o sossego, a continuação de O Segredo, o último Kung Fu Panda, o próximo show do Wando. O escândalo da hora, a hora, o tempo, a parada militar, a primavera árabe, Lula e todos os ídolos de araque, o casual sorridente e o sisudo de fraque.

Aquele sujeito esquisito, a lembrança dos gols do Zico, o preço do palmito, a poesia ruim, as polêmicas com o Chico, zeus e os deuses infinitos. O bem maldito e o mal bem dito, os reis, os Maias, o comprimento das saias, as notas oficiais, os combos, os hashtags e os heróis da Marvel. Esquecidos ilustres, os lustres do Titanic, os sotaques, as meninas, os homens de Marte e as mulheres do interior de Minas, os tiques, o carnê do IPTU, o samba de uma nota só.

O presente, o futuro, os bifes bem passados, os amantes, os abandonados, os farsantes, a taxa Selic, a minha Montblanc, os carinhos da manhã e as conclusões bestas, tipo a maioria das Bics perderam as tampinhas azuis. Logins, senhas, redes, conta da luz. Ultrajes, fronteiras, carro do ano, amores partidos, os mocinhos, os bandidos, as ações da oi e o selo de qualidade da Friboi. Arte, bondade, emprego, verdade, ego, usinas, aviões e sossego. As latas, o luto, a esquerda os reaças. Tudo vai, tudo cai, tudo passa.

 

Cheiro de terra molhada

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Toda vida nasce original, cheia de perguntas, repleta de saltos sobre o impossível. É aos poucos que vamos nos tornando uma produção em série, tomando partidos, partindo de nós mesmos, repetindo refrãos e repartindo certezas absolutas.

Tudo nascimento é uma surpresa se espreguiçando, não há pressa, somos presas fáceis para os risos pendurados no rosto de quem dorme bem. Não se trata de não crescer. Falo de não envelhecer. De resistir com bom humor à tentação de ingressar no clube dos perfeitos, esse lugar que só aceita sócios que gostem de 40 tons de cinza. De respostas fáceis. Dos textos que você entende de prima. De citações da Clarice no Face. De ser de direita ou de esquerda. De escrever tudo em caixa alta. De achar normal a miséria que a racionalidade séria produz em cada esquina do mundo.

Viver é gradiente, não cabe numa equação exata, não exija lógica de uma vida feliz. Coloque uma lupa ali e você vai encontrar decisões estranhas, joelhos machucados, cicatrizes diversas e alguma infelicidade. Parece incoerente? Só no clube dos perfeitos, onde tudo é cinza, há um compromisso fechado com o previsível. A proposta dessa turma é acompanhar você, aplaudir você, entender você, orientar você. Em troca por tanta gentileza, só precisamos transformar nascer, crescer e morrer num processo monótono e sem sobressaltos. O clube dos perfeitos acredita que só uma existência sem imaginação e originalidade vai nos levar ao paraíso certo, onde nos vingaremos dos impuros.

Pessoalmente, não acredito em velas acessas a anjos intermediários. Meu Deus não faz trocas. Ele trabalha como taxista numa cidade do interior e seu maior projeto não é o amor nem o perdão. É o fato de criar almas destinadas a si mesmas, incapazes ao ódio ou ao pecado. Concordo que isso não consola muito quando você vê o amor da sua vida partir. Entendo que sorrir não é o suficiente depois de um tombo feio. No entanto, são momentos. Por mais que doam ou durem, são um instante. Acredite quando digo que há sempre um milagre em curso, a surpresa da chuva, a terra molhada, a alma de tudo surgindo. Não precisamos nem acreditar. Basta saber pra onde não estamos está indo.

PS:

Estou devendo (não nego, pago em seguida) uma crônica sobre o Opala e um post sobre o que senti ao assistir “Show de Truman”. Em breve, tudo será quitado.