Mariel Fernandes

As vistas do meu ponto

Mercedes Sossa

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Tarsila do Amaral

Manhãs ou fins de tarde, somos partes. Formamos imagens, pedaços soltos, choros em festas estranhas, dança de pijama, transitamos entre alardes, somos partes. Pontos entrelaçados, estamos em cada quadrado, nos montamos, um por todos e todos do outro lado. Moldamos homens de Vênus, mulheres de Marte, somos partes. Trazemos a pessoa amada, trançamos pernas, olhamos fundo, sentimos muito e algumas algumas vezes citamos Sartre, somos partes. Assinamos peças, ensaiamos mitos, nos olhamos dentro, aprendemos a dança da chuva e que a vida é fogo que arde, somos partes. Somos passageiros, nos vemos de passagem, jogamos sinuca, nos confessamos e rimos porque alguns encontros alegram. Ou porque amores são amizades com arte, só precisam de um minuto para que fiquem à vontade, para que vivam bem-vindos, para que façam parte.

Calmante

Ouvimos eu, minha mãe e meu pai. Estávamos estátuas pertinho do rádio, respirando baixando e torcendo para que os astronautas americanos da Apollo 11 chegassem bem. Havia todo tipo de boato contra. Iam desde erros em cálculos gravitacionais até a ira divina, que não deixaria que o homem tivesse êxito na conquista da Lua.

Chegaram, era um grande passo para a humanidade e tal. Foi quando ouvi algo como “eles pousaram perto do Mar da Tranquilidade”. Mar da Tranquilidade, olha que nome lindo para um oceano banhado por um tipo quântico de água, que molha mas não molha. Que lugar especial para olhar a Terra e acenar, enquanto se caminha pela areia fofa sem dificuldade ou afobação. Mar da Tranquilidade, onde as ondas massageiam, não há vendedores de saída de praia e toda cena se dá em fast.

Mar da tranquilidade, alma serena, espaço perfeito para o momento leve e sem gravidade, onde acalmamos nossos lobos e podemos olhar para a lua pelo tempo que quisermos.

Pouso

Tudo que existe me intriga. Como voa? Dorme quando? Onde nascem as ideias? Tudo que existe me convida a conhecer, conectar ou imaginar. Os voos e suas paradas, pessoas e seus caminhos. Tudo nos lembra. Tudo nos lança. Tudo nos recebe.

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Alguns silêncios são constrangedores, outros iluminados. Eloquentes, silêncios são fluentes em todas as línguas. Alguns entram para a sociedade secreta dos dialetos, ou viajam escondidos em textos, canções, barulhinhos, sussurros, frestas, arestas, vãos, poesias ou diálogos imaginários.

Ouçam os silêncios exilados dos seus significados. Eles entristecem pelo que não dizem, se tornam mudos, partem calados e não se transformam em tudo que poderiam ter florescido. Tudo que seriam, caso fossem ditos. Tudo que poderiam ser entoados quando chegasse seu tempo de sinfonia.

Silêncios são um espaço na pauta, um hiato, algo que se completa a partir de cada repertório. Também se disfarçam de pausa. Acontecem um momento antes do pouso de uma ave, do avião, quando abro uma pequena bolsa, o que produz um determinado som. O tuc, tuc, tuc, tuc da minha máquina de escrever. O tic tic tic tic das teclas. O chiado do mouse ou no momento que antecede uma prece pelo amor que nasceu feliz para viver bem-vindo.

Há sons docemente despertados da quietude onde hibernam. A porta se abrindo, o alarido da cebola se encontrando com o quente da panela, o canto de onde descrevo o que se passa, a introdução de Enluarada, as mãos tocando um livro, o zunido de um motor poderoso. Gosto de ouvir Elis Regina e seus silêncios, quando canta “O que tinha que ser” e me encanta o ruído do plástico que envolve os quindins. Há um agradecimento no chuá marítimo, no zunir das tempestades, na calmaria dos afetos compreendidos em si mesmos e falando o quanto quiser. É ali que a vida se banha e silenciosamente sorri pra você.  

Sobre o real

Se alguém me perguntasse sobre a matéria-prima da imaginação ou do fato, diria que não são forças separadas. Pontes, livros, amantes, sinos, igrejas, milagres, filmes, alianças, crenças, canetas, esperanças, relógios, canções e luares, tudo depende de sonhos e o poder transformador dos seus olhares. Se alguém me dissesse que vem para entender suas dúvidas, alegrias ou tristezas, discordaria. Acho que viemos confirmar nossas certezas.

Estrelinha

Um dia, talvez um serzinho te dê a mão e confie que você vai segura-la. A letra é de uma canção de ninar que fiz pensando naquela criança que, há muitos anos, tornou-se uma estrelinha pra mim.
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