Reencontro

Por conta de ontem, me sugeriram um mini conto. Ele começa na hora que quiser e termina em tempo algum. Porque se o conto é mínimo, o encontro é mágico. Marque se puder. Esteja se quiser. Então tudo estará pronto.

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Requinte em poucos passos

Cheguei faminto depois de uma viagem longa, longa, longa. São 17:13 e meu lanchinho chegou. Depois continuo a história. São 21:35 e a hora do depois começa aqui. Cardápio? Um sanduba com pão francês, queijo minas, peito de peru, que estamos na páscoa e salaminho seria um pouco demais. Leio enquanto espero, passo os olhos, estudo o arco da história. Pra mim é um  encontro com quem está do outro lado da narrativa. O que faço é repartir essa história com alguém amado. Comento trechos, sugiro entendimentos quanto ao caráter dos personagens, é um romance dentro do romance. Por isso, entro vagarosamente nos desvios do pensamento, os fios, as meadas são tocadas com cuidado artesanal, é preciso capricho, postura e, principalmente, alma nessa hora. O tempo age enquanto abro as páginas, redescobrindo, relendo pelo prazer de rever um ponto aqui, outro ali, é o prazer do entendimento. Ou a surpresa renovada do sentimento. Ler é deixar que a vida entre gente a dentro. Que mexa, ame, amanheça. Cure, aproxime e se realize. Que se veja, que seja, que caminhe requintadamente para o feliz, para o aprendiz e para o real. 

 

O presente de hoje é o desejo que a felicidade chegue, sem condicionantes.

Depois de Benito não é mais saudade

Cientistas vivem me surpreendendo. Eles exigem provas científicas de toda teoria que encontram pela frente. Passam anos comprovando com o rigor da ciência determinado achado, que ganha status de certeza. Então vem outro cientista e cavoca mais um pouco, desfazendo o até então dito, bem-dito e comprovado. Assim, ao longo da ciência, o que achamos são rascunhos, tateamos, arriscamos e fazemos pose, mas acho que não se tem a menor ideia de como a coisa toda funciona. Tudo isso pra dizer que desenvolvi um critério pessoal. A terra é plana? Se você mora em Joinville, não. Deus existe? Sim, mas tem mania de perfeição. 0 que define saudade? Cientistas concordam que se alguém topa trocar saudade por uma audição solo do Benito Do Paula é porque ela é praticamente insuportável. O amigo do Charlie Brown seria tipo um catalisador de uia, que todos sabem ser a fração mínima da saudade. Com um uia você pensa “eu comeria um pudim hoje”. 10 uias fariam você ir até o super comprar os ingredientes. 20 uias levariam você a comprar o pudim do próprio mercado. 50 uias equivalem a comer o pudim na fila do caixa. Já 100 uias seria uma loucura que obrigaria você a comer durante a compra e voltar pra pegar outro. Pois bem. Cientistas desenvolveram em laboratório uma saudade sintética que faz você lembrar de todas as músicas sobre o tema. É uma substância que se aplicada em toda a população faria com que as duplas sertanejas se multiplicassem, cantando todas ao mesmo tempo. Depois desse estágio, os testes sugerem que as pessoas começariam a se tornar Benitos di Paula, tamanha a força da saudade. Estou começando a ouvir “moça, me espere amanha, levo meu coração pronto pra te entregar…” Põe no Google quem não conhece. Acho que isso deixa bem claro quanto o teu amor faz falta.

Estrangeiro

Vivo no lado de fora dos destinos. Além disso, ouço vozes e acredito que o Inter se comporta em campo como me sinto durante suas partidas. Acredito em portais, seres que se encantam, encontros perenes e em almas a si destinadas. Sou estrangeiro, vivo do lado de fora dos nativos. Creio no que sei, sinto o que penso, descrevo o que vejo, conheço o que desejo e amo porque sim. Sou estrangeiro. Vivo do lado de dentro da foz amazona, território meu. Conheço a língua, traduzo os sons, falo o idioma, percebo os gestos, qualquer caminho é ali. Sou estrangeiro, vivo de descobrir o tanto que segue adiante. Durmo se posso. Acordo no sempre.

Fado

As linhas melódicas do fado fazem fronteira com a melancolia. Conta, com ou sem letra, como a tristeza canta. Veja, não conheço nada sobre essas lindas canções, falo da impressão que me causam. Talvez seja a sonoridade da guitarra portuguesa. Ela me lembra um choro, um chorinho, a chuva tilintando no telhado. A vida não se faz de fatos, viver é ao lado, é de segunda a sábado e nos domingos, mais afagos e fados. É o tempo passando, desgarrado do calendário e cercado de pequenas dissonâncias. Reencontros, mãos seduzindo, almas celebradas, o amor possuindo, a fada possuída, a vida encantada. Talvez não fale, de fato, de um fado, que tem em sua pauta o tom das distâncias. Há nele o sentimento da falta, senão da alegria, com certeza da companhia desejada e da voz que te encaminha o riso. Reverbera em ti assim a espera? Te parecem assim os dias? É impressão minha ou eles são mesmo enormes, sonolentos e inchados? Seria ali que adormecem os fados? Quem sabe. “Quem sabe sabes, como encontrar-me num viés de olhares e neles o rondar de um afeto profundo e fundo. Desses capazes de abrir pontes e descobrir passagens secretas, conquistando entradas, ruelas, esquinas. Avançando em pontos e montes, tudo como nunca antes. Quem sabe seja um sonho, que sabe seja um fado. Quem sabe tu sabes e ensinas aos capitães das marés e os destemidos dos mares como possuir ilhas fora dos mapas. Quem sabe tu sabes que o mar é o destino dos barcos e amar é quando o pleno te toca e te abre as portas de Sagres”

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Eu e os textos que descrevo temos um encontro no ponto final. Até que apareça, exclamo, interrogo, procuro conforto em palavras com acentos, e me protejo de tempos silentes lembrando assim, entre parenteses, os cantinhos e carinhos da gente. Posso ser franco? Tenho forte tendência a não gostar de reticências e sou um cético quanto à crase. É um recurso que precisa de manual de uso, tem regras próprias demais para o tanto que dá em troca. Tenho pena de algumas letras, entre elas todas o y e o ç. Pouco uso e acusação permante de plágio fonetico, mas ysso é outro açunto, entende o que falo? Tenho saudade é precisava ouvir as palavras mágicas. Elas me fazem dormir melhor em qualquer ponto da vida.