Outrossim

O significado de outrossim é algo como “igualmente”, “também”, “além disso”, “do mesmo modo”. É um advérbio, sei. Faz muito tempo que não uso outrossim. Vou mais na linha “além disso”. Vai ver porque a origem do termo é erudita e eu vivo com maior constância no popular e corriqueiro. outrossim é um elemento de coesão, serve como ponte para continuar uma ideia. Coesão é aquilo que une, não é interessante o quanto outrossim funciona bem? Olhei a palavra, tirei uma letra e quebrei o termo em dois. Por que em dois? Porque assim encaixa no meu raciocínio. Ficou “outro sim”. Tem o mesmo som, mas é outra coisa, representa algo diverso de outrossim. O ponto aqui é que a sonoridade e a circunstâncias me fizeram ver que raramente agimos dizendo sim ao outro. Sim no sentido de existência, valores, necessidades, expressão e visão de mundo. Queremos convence-lo, torna-lo do clube a que pertencemos, à igreja que nos consolamos de Deus, a ter nossas opiniões, a concordar conosco e a existir para confirmar nossos modelos pessoais. Não se trata de empatia com alguém do outro lado do balcão na vida que, às vezes, dividimos. Se trata de algo mais sutil e com uma um definidor menos estético do que empatia. Falo do umbigo. A sabedoria popular não é uma coisa? Criou a expressão “(…) vive olhando para o próprio umbigo”. A imagem de alguém olhando para o umbigo enquanto vive é soberana. Cabeça baixa e visão 100% prejudicada, falta de senso de direção. Não quero convidar ninguém a ver os dias a partir do que os outros desejam, querem, sonham ou pedem. Quero refletir sobre quanto aquilo que sinto, penso, faço, declaro, acredito, creio, temo ou percebo interfere com maior ou menor violência na vida do outro, qualquer outro. Entende o que digo? Empatia seria aquilo que faço por cultura ou educação e se molda no limite dos esforços que despendo para compreender os valores alheios a mim. Mas não é empatia o ponto. Ela, quando se transforma em consciência, pondera qual é o impacto pessoal sobre a existência do síndico, do filho, da professora, do marido, do motorista do Uber, da mãe, dos grupos de pagode, da mulher, do tio, até o Bolsonaro entra na listinha. Não compreender o outro, mas respeita-lo. Observa-lo com delicadeza para entender o que possa lhe fazer bem. Ouvi-lo com o prazer de uma platéia atenta. Não pelo outro, mas por nós. No fundo, no meio e no início, é por nós que devemos enxergar o outro e abraça-lo como se aquilo fosse nós ou nosso. Afinal, é. Não, isso não significa fazer o que o outro quer, pautar-se pelo que o outro pensa. Devemos ser originais sim. Desenvolver padrões próprios e nos guiar pelos parâmetros que julgarmos adequados. Mas essa equação só fecha se o outro é visto em sua grandiosidade. Não pensei nisso por me sentir invadido ou desconsiderado. A ideia me veio porque invado e desconsidero o outro em seu direito de escolha, gostos pessoais, cores preferidas, autores, ideias, considerações, vestimenta, profissão, talento, cor, gênero e raça. Das micro relações aos macro relacionamentos com minha comunidade, uso mais o umbigo do que a consciência. Está assim, na primeira pessoa, porque não quero que isso pareça um texto de autoajuda, aconselhamento, essas coisas. Não. Desde que comecei a ouvir “Praia dos Ossos”, um podcast que recomendo porque fala sobre machismo, feminismo, hipocrisia, cultura de época, costumes. Outrossim, “Praia dos Ossos” remonta em 8 capítulos como viveu e por quem morreu Ângela Diniz. Seu algoz, Doca Street, tinha uma linha de defesa para um ato indefensável e isso quase colou. Era o umbigo armado. Umbigos se magoam, não se olham, não podem enxergar, estão de cabeça baixa. Quanto eu uso a lógica Doca Street para justificar meus atos? Eis a manga a ser chupada. Nossa, Que Saudade da gente. Outrossim *** e sempre.

Tec, tec, tec

Escrevo o que sei ou lembro. Não posso fantasiar escritas, teclar afetos ou feitos inexistentes. Se digito “vi um gato branco e preto” é porque um branco e preto gato passou por mim, nem mais nem menos. Com o que não sei ou não sinto não gasto tinta. Escrevo meu estado, divido olhares, falo de gente, da gente, descrevo. Minha máquina nem é tão velha quanto a da foto, tampouco mais linda. Eu fiz curso de datilografia e te amo. São duas coisas que me aconteceram, por isso escrevo. ***

Asterisco em flor

No meio da rua, de frente pro nada, com vista pra grama. Como assim “não existe flor azul”? Tem sim senhora. Vive ali, num canto de calçada. Na maior parte do tempo, fica aberta aos visitantes, sempre tão distraídos de si. Dos porquês, do será? Do quem, da onde e quando. É linda, baixa e breve a florzinha azul. Não têm nada de acanhadas, chegam aos montes, andam de turma e parecem um asterisco, dezenas deles, balançando com o vento.

Delicadas e resistentes, gostam de grama e de lugares baldios. Justo nesses espaços onde o nada é um acontecimento, há shows regulares de elementos, pequenos matinhos maquiados pra ninguém, micuins, rosetas, formigas e latas de coca.

Ali, na costeira da calçada, acenei para o filho e vi uma flor azul. Tão linda e boa de ver que me alegrou mesmo não te vendo. Parecia um asterisco no vento e lembrei de novo, queria te contar, descansar e oferecer colo. Uma florzinha azul me lembrou você. O que não lembra? ***

Algo

Entendi algo que me intrigava a tempos. Não o algo todo, não o algo por completo. Uma parte do algo. Algo no grande algo que me embestava. Algo que causava algo em mim. Uma sutileza curiosa. Um riso distribuído. Algo.

Quando alguém ou alguma coisa produz algo, há algo ali. Pesquise, procure, leve no bolso, pense. Te enternece, te movimenta, resiste, orienta, é algo à prova d’água. É porque é algo diferente ou bom. Quando é algo bom. Quando algo não é, não é algo. É coisa. Não confundir com coiso, que pode ser qualquer coisa ou algo.

Algo te fala, conta, aponta, trata-se de um algoritmo, intuição. Forma, formato, recorte, hiato, classe, atitude saborosa que salgo. Não é o tamanho, é o porte que importa. São as notas amadeiradas, os vinhos tomados, as cocas geladas, a forma de algo que você sabe o nome, mas não consegue explicar, como o macio do algodão.

É um jeito, um gesto, o interesse real, uma verdade vivida, algo que galgo. Teu segredo não é secreto, não há nele mistérios, fábulas ou metáforas. É um carinho exato, um puro sangue que cavalgo entre asteriscos, meias palavras, frestas, rabo de olho, presença e distanciamento. Acho que seja o amor que não se torna algoz.

Teu algo se transforma em afeto indispensável. Olhe bem. Tem algo nas palavras lago, gola, Olga ou galo. Em todas elas há algo. Então penso que não temos algo em comum, mas algo incomum, raro, vindo de lugar algum, feito à mão com o dom dos talentos.

O que me intriga é ao contrário de me tirar o sono, o tempo ou o fôlego. Se chama interesse curioso pelo que o outro faz, o que sente, porque age, onde mente. É feito desses algos imateriais as tuas vindas. As tintas usadas, as palavras novas, os aromas sugeridos, a vontade declarada. É como Clarisse, outra com outras por dentro. Diz algo, mas o não dito, só o que precisa ser escrito. Combate o ego e se dispõe a ver a verdade da vida assim, sem certezas e cheia de uaus, de ohhhs, de poxas. É a parte que vi, de tantas artes insinuadas. És minha surpresa. Sou teu fidalgo. ***

Nave

Dizem que nossa atração pelo futuro é uma tentativa de controlar a morte. Seria ali (ou lá) a moradia da própria. Não haveria nisso nada de mórbido, mas a confirmação dos ciclos, etapas ou eras. O fim serviria como um meio de glorificar os inícios. Mas quando afirmamos que os jovens são o futuro do mundo e tacamos fogo na Terra, do que se trata? Não é uma mentira, estamos apenas sendo cínicos e antecipando o futuro que tanto queremos prever para controlar. Qual o futuro das mortes? Para cada início específico (da planta, do processo, da empresa, das estrelas e do homem), existiria a semente dos seus finais. Por isso, o que tentamos ver no futuro é menos a vida que teremos e mais se ela valerá o oxigênio necessário à sua concretização. Se o apego ao passado (que já se foi) gera melancolia e edições de fatos, o custo das previsões futuras é a ansiedade. Nunca antes na história da marcha humana foi tão alto o consumo de ansiolíticos, remédios para dormir, para acordar, para a concentração, para relaxar, para endurecer sem perder a ternura, para pressão, para as síndromes da maçã verde, de Estocolmo, do síndico enlouquecido. É pouco e pobre apontar culpas e encontrar culpados nas redes sociais, no mundo Vulcan, na velocidade das coisas, na fragilidade das relações ou no bom desempenho do Grêmio na Libertadores.

Distópico ou otimista, o futuro é uma esfinge que vai nos devorar, decifrado ou não. Queremos espia-lo para saber não quando, mas como. Wood Allen tem uma frase muito boa sobre a morte, acho que você conhece.

” não tenho medo de morrer, só não quero estar lá quando acontecer “

Teremos rugas, as juntas podem doer, a agilidade não será a mesma, partes do corpo não funcionarão do mesmo jeito, a mente não compreenderá tudo e esqueceremos algumas coisas sobre nós e os outros. Depois, finalmente morreremos. De tudo isso já sabemos sobre o futuro. O que nós queremos, então, com essa curiosidade à respeito dele? Como desconfiamos muito do que fazemos no presente, ao escutarmos as previsões, desejamos garantia de alguma glória em no passado. Amamos intensamente? Inventamos algo, nos apaixonamos, nos enternecemos, nos emocionamos, fomos essencialmente o que acreditamos? Porque se construimos algo assim, olha que espetáculo inesquecível será ter vivido o pleno da vida. Então o que importa o futuro? O que é isso senão uma projeção de tendências, uma edição das coisas, um alvo inexato? É preciso chegar ao futuro inteiro, integrado, reconciliado com o tempo vivido e as escolhas feitas. O futuro é um estado mental. Uma visão. Uma crença. Um desejo. Não há nada lá, a não ser talvez as pequenas despedidas acumuladas. As renúncias obrigatórias. As perdas realizadas. As ternuras e afetos trocados, mesmo na dificuldade das frestas. A matéria prima do futuro também são as lembranças boas, como um bom café e um abraço emocionado na árvore. A escolha pelo que é certo. A lucidez sobre o que há de errado. O muito que podemos não ter sido. O futuro é um pedaço medo e uma parte nave. Nos levará, é certo. O que assusta é que o para onde depende de nós. ***

Uma coisa e outra

Um estudo da UEFA, desses que servem mais para apoiar teses mancas como a minha, mostrou que um jogador mediano de futebol toma perto de 4 mil decisões por jogo. Messi, no outro extremo, decide algo por 10 mil vezes. Sabe o que isso quer dizer? Isso mesmo: nada. Ou pouco mais do que isso, já que tem o mérito de mostrar estatisticamente que a bola passa mais nós pés do craque. Não é à toa que se diz que pênalti deveria ser cobrado pelo Presidente do time, tão importante que é. Ou pelo cara que treina centenas de vezes o jeito de bater certo na bola. Nunca o bom do time. Ele serve para definir o inesperado, fintar quando todos esperam um chutão, olhar para um lado e mandar a bola em outra direção. O pênalti é, por definição, coisa de rotina. Se você bater certo, o goleiro não chega. Para bater certo, tem que treinar centenas de vezes. Os gênios deveriam ser poupados dos pênaltis. Não estão acostumados ao sem graça que é o momento congelado desse lance, onde o arqueiro é previamente inocentado. Eles preferem passar por um, dois, driblar o goleiro e só não entram com bola em tudo porque é preciso ter humildade em gol. Zico perdeu um pênalti contra a França uma vez, nunca esqueci. Ele tinha recém entrado, vinha de uma lesão seríssima no joelho, foi lá e puft, na trave. Não lembro de nenhuma m outro lance do Zico que não seja esse. E ele era o Zico. Há episódios que te definem, mostrando o que há de mais forte em você. Decisões que estabelecem o que manda, se seus valores ou suas virtudes. Sim, há diferença entre um e outro. Valores estão ligados à moral, o certo e o errado. Virtudes são suas forças essenciais. Não dependem de circunstâncias, não há julgamento, se faz ou não se faz. Há no gesto o requisito que diz algo como “se eu fizer (ou não fizer) isso, vou abrir mão de quem sou”. Temos que definir sobre mais do que bater um lateral, tocar a bola de lado ou fazer lançamento de 40 metros. Somos craques e cabecas de bagre em tempo integral, hora um define, hora outro, hora ambos ao mesmo tempo. Há uma gritaria de volume muito maior do que qualquer torcida hurrando, nos apontando, gritando vai. Há um pênalti em cada segundo vivido e erraremos alguns se nos encaminhatmos para a bola com as chuteiras da moral. Só acertamos mesmo quando quem bate é o cara que treina centenas de vezes, conhecido como virtude. Não esqueça de que você pode definir bater com virtude. Mas quem aplaude ou vaia, normalmente, é moral das torcidas.

Graças por você ser quem é. Sua existência me alegra no exuberante do sempre. ***

NuVens

Algumas imagens são impressionantes. Estava andando à esmo e dei de frente com essa. Não a olhei, propriamente. Só me vi e me vi só. Caetano, em Canto do Povo de um Lugar, conta que “fim da tarde, a Terra cora e a gente chora porque finda a tarde”. O choro é um ser vivo, como a tarde, o canto, a pedra que te dou, a alegria que me trazes, um fiapo de voz, um olhar trocado ou o cheiro da terra molhada. Olhei aquela nuvem como se não fosse nada. Como se não tivesse cheiro, uma ambulante, um artista no sinal de trânsito, o estudante, os filhos, as cartas ao amor distante, o depois, o concreto, a prece. O fim de ano, o eu te amo, você. Quanto mais te olho, mais amor aparece.

Realce

Quando li, me impressionou mais porque concordo tão plenamente com o afirmado que me perguntei como não poderia, eu mesmo, já ter afirmado plenamente o dito por outro que não eu. É algo simples e cheio de poder, olha:

A realidade se dá na presença do outro

O outro legitimaria o que você faz, tornando real o feito, o dito, o gestualizado e mesmo o o que quer que tenha sido calado. Não fosse assim, é uma lógica sofista, restaria apenas a nossa versão do ocorrido. Uma peça única e oca, já que não traz consigo um testemunho crível daquilo que atende pela alcunha de realidade dos fatos. Não se consegue provar porque prova é algo demonstrável, o veredito final de algo que há ou houve. Isso só acontece no universo das relações rotineiras. Ela foi ao banheiro, ele voltou do trabalho, comemos um bife macio, aquilo é um carro. Tudo isso pode ser descrito, mas só será consumado na confirmação de alguém que estivesse ao seu lado. Sim, realmente ela voltou do trabalho, ele foi ao banheiro e aquilo é um carro na forma de um bife. Mesmo que haja, e volta e meia há, um erro na tradução da vida, a dúvida fica por conta da transcrição, não se o que está sendo observado realmente é um ponto de observação, não uma ilusão ou mentira.

O outro, então, teria mais do que o sentido afetivo em nossas existências. Ele confirma o choro, ratifica a saudade, acolhe ou repulsa uma opinião, cria (ou não cria) filhos, correspondente ou nos deixa na mão, faz parte da rotina ou surge às vezes. Independente do que aconteça ou seja, é na presença deles (os outros) que podemos ter uma vaga esperança de existir. Sem isso, teríamos dúvidas consideráveis a decifrar, coisas que nos devorariam, levando à extinção cenas, falas, lembranças, episódios, gestos, olhares, roçadinhas de braço, indicações ínfimas de pertencimento. Nos construimos na gentileza ou na severidade do olhar alheio. Medo ou confiança farão parte do nosso repertório ao longo da vida. Porque? Por que outros cheios de pressas, pressões, acenos, desejos inconfessáveis e conta na Caixa Econômica nos confirmaram ou e reafirmam a inexistência da realidade afetiva, já que é no afeto (ou em sua falta) que buscaremos o combustível que alimenta nossas relações.

Por anos odiei o inglês achando que odiava o idioma. Mas não, eu tinha raiva de um professor de inglês humilhante. Nem era do professor a raiva, mas da humilhação a raiva sentida. O jeito que você dirige, o modo que olha para a vida, o que te causa atração ou repulsa, tudo estaria relacionado às experiências vividas e à confirmação (ou negação) que o outro nos entrega ou nega diante daquela circunstância.

O que sei disso, fico pensando. Nada, dou de ombros. Estou cada dia mais satisfeito em não saber nada. É a benção lúcida da ignorância? Acho que não. É o reconhecimento do outro luxuoso que és. No teu olhar gentil, me construí e os teus gestos me constróem. Talvez, então, não sejam todos os outros os outros importantes de fato. Sermos o outro que importa, que se importa, que nos olha feliz e confirma o direito inexorável à existência. Muitas vezes, quem sabe a maioria delas, o outro definidor e definitivo seja a gente mesmo. NQS ***