Bom dia, Vietã

Difícil te abraçar hoje, raiva. Não porque seja hoje. Existe o abraço, mas ele não houve e o desabraço se acumula, frequente e lancinante.

Te toca de alguma forma o cruel de ser difícil te abraçar hoje? É uma lâmina que corta a retina, banhando num último gesto rijo a terra deslavrada. É o baque seco do nada caindo sobre a linha reta de uma boca sem riso. Te toca isso?

O que te basta? Porque te vejo na casa, braços estendidos, soleira alta, pé direito bom, som de cachorro na rua, cheiro de chá, piso de madeira, quintal. O que te basta, me pergunto. Porque mesmo sendo difícil te abraçar hoje, te daria hoje um abraço. Faria assim em nome dos abraços não ocorridos, abraços e abraços vencidos, o museu de abraços não havidos, nas datas mais tolas, em endereços improváveis, abraços apertados, saudosos dos abraços interrompidos e não entregues, abraços exilados, abraços reprimidos, abraço contidos, abraços abortados, abraços futuros, abraços passados. Hoje seria um abraço difícil, ainda que desse, que não negasse meu abraço usado, vindo de ontem, nas centenas de dias antes de ontem, milhares deles, cada qual espalhado em abraços desmarcados, em destinos não idos, desfeitos da beleza humana, desacreditados por desditos, convencimentos equivocados, certezas totais e uma falta profunda de abraços. Desses que acalmam, inspiram, confirmam, protegem, sugerem, trazem e transferem o melhor da melhor semente, os abraços trocados no sempre. 

De que valem esse abraço plenos, esse apertamento plural, esse abraço libertação, esse  engarrafamento de abraços aquecendo o sol? esse abraço pleno, olho no olho (o que te dei pra tomares conta) tingidos de absurdos, quarando sem o sol do abraço conspirante contra todo tipo de rotina. 

Hoje seira m abraço minguante, um abraço minguado, um abraço difícil, envolvido em abraços perdidos e que, mesmo assim, seria oferecido. 

Sou outro

A gente não se conhece. Podemos nos gostar, nos admirar por feitos ou desafetos, nos amar por encanto ou conveniência, mas conhecer alguém? Isso é quase impossível, somos outros o tempo todo. Reencarnamos diariamente nas células, emoções, pele, cabelo, sinapses, neuropercepç˜ões, reações. Isso junto com opiniões, alvoroços e, claro, os outros que somos ou que seremos.

Depois que volto de uma pedalada não sou mais o mesmo. O projeto aprovado causa metamorfoses. A saudade martiriza e você nem sempre quer partir para o sacrifício. A decepção nos modifica, você torna-se alguém que sofreu por alguma coisa. Qualquer elemento mutante (são milhões por segundo) nos reduz ou agiganta e, acima de tudo, muda. Sentimos raiva ou prazer. Temos desesperanças ou acreditamos que dessa vez, vai. Ao cabo disso, seremos nós, modificados por nós e outros tantos. Seremos outros, entretanto. Entre tantos, seremos outros. Não irreconhecíveis, não chega a esse espaço. Pelo contrário, parecemos os mesmos. Mas estamos levemente tocados, trocados, outros.

Temos demandas diferentes, mesmo quando olhamos para o mesmo ponto. É que somos outros. Somos outras vozes, focos outros, outros que se vão e outros que silenciam. Somos recheados de experiências cuja maior consequência é modificar os corpos e as almas dos quais somos feitos. Por isso, estar ao lado de alguém ou participar de algo é uma escolha diária. Não há decisão fácil, não sabemos nada do outro, o outro é o inesperado no escuro. Por isso é indispensável reconhecer as mudanças ocorridas os seremos inexistências ao lado de inexistentes. Ignorar isso é condenar o outro (e a nós mesmos) ao exílio daquilo que se é. Os grandes silêncios, são justificáveis para um, mas talvez. E não para um outro, por certo. Quem se rasga silenciando não é o mesmo que fica exposto ao silenciado. Os dois sofrerão pela mesma coisa, mas por outros motivos. Serão outros nessa jornada. Um pelo que perde. Outro pelo que não ganha. Todos pela despedida que ocorrerá se não se apercebemos disso.

A vida nos remodela. Medos nos reestruturam. O amor nos renova. Mas ao te olhar hoje, és tu hoje.  Ontem  eras outro ser, uma vivência que nem existe mais no tempo, ele mesmo o cerne das variações percebidas ou ignoradas, porque todas são vistas. És tu agora, viajante daquilo que te importa. O que há são esses momentos breves, moldados pelos nossos encontros, cada qual inédito em sua profundidade e protagonista nos afetos que nos convertem em outros o tempo todo. 

Poupar. Planejar. Precaver. Prevenir. A pretenciosa segurança que essas escolhas nos trazem é frágil. Não digo que não se deve fazer essas coisas, já que se deve. Mas também é necessário entender que é tudo por um triz, a poupança é confiscada. Já não aconteceu?. ´Basta um vírus e pluft, adeus planos, bem-vindos a novos destinos. Num zapt, lá se vai a precaução junto com uma chuva, um raio, um carro que anda rápido, uma pedra cai, um vento sopra, mudanças não pedem licença. Mudança é a vida se regeneranço e, às vezes, balança forte. Num zip, olha o inesperado do amor, da compaixão, do acolhimento, do riso que nos muda e do abraço que nos recebe.

Distraídos pela sensação de consistência que a rotina oferece mas não entrega, fingimos que não vemos que ela própria é formada por novidades compactadas umas nas outras. É prazer novinho em folha que é ver uma árvore dando folhas laranjas. Mudam a si mesmas e mudam os olhares que atraem, mudando quem vê. . Acontece com um segundo a mais que se mantenha na visão entre amantes. O pão de queijo daquela hora. O café naquele momento. A solução inédita. A demonstração nesse instante. A declaração ao vivo dos afetos e dos seres afetados. Só há isso para oferecer. Não havendo, não há nada para resistirmos ao desconhecimento dos conhecidos que nos cercam e que desconhecemos por completo.

Não é que você não me conheça. É que você não conhece ninguém. E que, basicamente, tudo que respira não sabe de quem somos e porque corremos o risco de dar a mão ao desconhecido. Esse é o milagre que existe entre nós, o eterno novo e o perene das infinitas novidades. Lutamos com força contra o que nos modifica, e tudo nos transforma em uma escala estupenda. Então temos que encarar que não conseguimos desvendar o outro. Que só podemos aceita-lo, sendo o outro o que é, o antigo do que segue adiante do Nando Reis. A mudança vencerá porque o contrário disso é a inaniç˜ão das águas paradas: não saciam, qualquer que seja a sede. O bom dia que você dá hoje é completamente diverso do oferecido ontem. O tom. A intenção. A energia. O corpo. A expressão. A forma e, dentro dela, a alma. Mudou quem disse. Quem escuta é outro. Para seguir amando ou seguir adiante, será preciso aceitar que momento a momento o desconhecimento. Assim, viver é será um apresentar-se sempre, sem medo de nós, nem de sermos outros. ***    

Vou te mine contar

Ninguém resiste a uma boa história

1

Toda saudade acaba no encontro. E tudo encontro lamenta a saudade nascida do percurso entre uma coisa e outra. Pode ser uma longa jornada. Podem ser 2 minutos. Não há regras, sentimos saudades e isso é o que se pode sentir quando o que sentimos mesmo é muito.

2.

– Vamos caçar por de sol? 

– Vamos pescar pedras? 

– Vamos rezar juntos? 

– Mas nem acredito em Deus

– Não precisa.

– Vamos crer juntos? 

– Qual crença? 

– A de compartilharmos o sol, as pedras e a fé

– Não tenho fé

– Não precisa. Me dê a mão e pronto

– Pronto? 

– Sim. Dar as mãos é uma oração

– Pra quem? 

– Para quem quiser ver o invisível do amor no visível das mãos dadas. 

3.

Não gostei da falta de mensagem no whats. Não gostei do silêncio ausente. Não gostei da cadeira vaga no cinema. Da cama do hotel. Não gostei de não ouvir gosto de você. Não gostei de mirar no horizonte do nada e ver você longe, longe. Não gostei de olhar do lado esquerdo do carro e não ver você. 

4.

– Chega, ele disse

– Que bom que você disse 

– Chega? 

– Sim. 

– Porque? 

– Por que cheguei. 

Quando, onde, porque

A vida é impar. Viver é outra coisa.

Não é quando. Nem de onde. Pra que não representa. Porque não responde. É que simplesmente não importa. Não é o que fazermos. Não é tão divertido estar na praia. É irrelevante um sempre teremos Paris. A vida é de fatos, tirando a parte dos sonhos. Mas mesmo esses, se não realizados, vão para a coluna de débitos, do que faltou, do não aferido, do nem tentado, do exilado, do nem havido.

Viver é ato. Mesmo que seja muito o que poderia ter sido, fazer é um feito. Mesmo repreensível, imperfeito, cheio de desníveis, impedimentos e sustos. Mas não sozinho, no ermo das coisas. Vale, claro, saber do aniversário ou que horas são na Dinamarca. Afinal, é uma referência, uma forma de não expiar, espiando. Mas não há nada como o estando, a presença, o presente, a pedra jogada no rio, o riso atirado no ar, o Inter entrando em campo. Veja, não é o time, mas as lembranças que traz. Justo por que, juntos, nos tornamos histórias, viradas, vitórias inesquecíveis e vexames que machucaram. Nada é completamente vivido se trouxer, vívido em si, o excluído. O fluxo acontece no convívio, na permuta permanente das rotinas domesticadas. São ruas descobertas, lembranças trocadas, passeios, boletos, bicicletadas. Tem pipoca no sofá. A fé em algo. Buscar alguém lá longe. Café. Coca no bico e o indecifrável mistério do asterisco. É risco de não vir e chover. E assim sendo, continuar chovendo dentro. É platéia para artistas. É leitores para quem escreve. É atenção para família. É seguidor para influencers. É mãe para filhos. É um para o outro.

Não é quando, nem onde, nem porque. Nem longe, nem pra que, nem nada em zoom, nem tudo além. A vida que vale é com quem. ***

Aromas do caminho

Li não sei onde, a informação me surpreendeu muito. Dizia que os cães não sabem que estamos chegando. O que eles percebem é o tempo que estivemos fora. Isso acontece à medida em que os aromas associados a nós vão desaparecendo no ambiente. 

E se acontecer o mesmo entre os humanos, mas de um jeito um pouco diferente? Os aromas seriam as ausências. A falta de presença. O desaparecimento das essências que garantiam sentido a uma jornada, os esforços e renúncias. O laço que unia, as diferenças que aproximavam, o jeito de entrar e sair do carro.

Claro, pessoas mudam. Se interessam por outras coisas. Nos deixam. Vão. Se perdem. Se encontram. Lutas ou se rendem. Vivem. É nesse movimento, tão natural quanto imprevisível, que somos outros no dia seguinte aos dias que seguem, aquele tanto que que poderia ter sido. Deixamos para trás muita coisa quando seguimos em frente. Isso gera algo menor do que saudade, maior do que lembrança. É na fricção entre o real e o sonhado que nos alteramos, amadurecemos, olhamos para outra direção ou deixamos de ser a direção para a qual se olha. Entender isso, quem sabe, explique a alegria dos cães ao nos ver voltar. É uma comemoração. Não pela reestreia de um aroma que se foi, mas que agora está de volta. Trata-se da confirmação de uma confiança no aroma que há na certeza dos retornos. Entre os humanos não tem como ser igual. O que partiu, se vai. O que fica, parte-se em contorcionismos para vencer ausências. Se alimenta da felicidade imaginada, dos encontros não idos, das festas inacessíveis àquela vida. Não divide o sol se pondo. Não conta do filme visto. Não comenta o livro riscado em suas partes mais exaltadas. Não toca. Não presencia, silencia. Ao mesmo tempo, lembra. Reinicia. Se concilia, remenda e caminha. Estar no mundo é perder-se em seus encontros. ***

Sempre será uma escolha

O inaceitável é como chegar na fronteira de um país. A não ser que você seja o Brasil, não dá para ir entrando, como se aquele lugar fosse seu. Não funciona assim. Você precisa ser aceito. É essencial ser bem-vindo. Isso inclui existir. Documentos são verificados. Os motivos daquela viagem também. Coisas são ditas. Melhor não tentar entrar com 2 quilos de maconha no bolso. Nem pense em levar um pacotinho de Maizena na bagagem, você vai ser impedido de entrar. Não por tráfico, mas por transporte ilegal de piada ruim. Em alguns lugares, a falta de passaporte é inaceitável, você volta. 

A questão, claro, não se limita a visitas ao estrangeiro. O aceitável e o inaceitável têm uma flexibilidade impressionante. Aceitar, às vezes, é uma questão de compreensão da diversidade ou mudanças de valores, a impossibilidade reinante em determinadas situações. Não aceitar, às vezes, é impedir que a mesmíssima diversidade obrigue a pessoa a se comportar contrariando seus valores essenciais. 

No limite, deixar para dizer não na cerimônia de casamento é inaceitável. Mas se isso aconteceu porque a pessoa, a um instante do sim, olhou para alguém e se apaixonou? Eu disse que era no limite, não que se tratava de um acontecimento real. Mas e se fosse, aquele sincero e verdadeiro não o que seria? Aceitável? Inaceitável? Mas é a verdade, quem sabe. Mas era um casamento. Você define. Quando o inaceitável se torna um peso? Em que momento não é mais aceitável o que aceitávamos até ali?

Desconfio que a resposta seja “quando deixamos de aceitar que nossos desejos são algo que nos define. É quando passamos a aceitar menos do que é preciso para a gente ser e estar ok por dentro”.  Salários, relações, coisas, objetos, tratamentos, situações, tudo pode ser a) aceitável ou b) inaceitável. Não há gradiencia, não existe o mais ou menos. Ou é mais ou é menos. Ambos podem ser a) aceitáveis b) inaceitáveis. Lembrei de uma música muito muito, triste, eternizada pela Elis. Uma parte da canção diz algo que agarra o ouvinte pela alma, arranha e dói

A barra do amor é que ele é meio ermo
A barra da morte é que ela não tem meio-termo

Continuo e digo que muita coisa pode ser inaceitável, inclusive na saúde. Depois de um acontecimento tipo ou vai ou fica, tive medo de quase tudo. Caminhar era assustador. Subir uma escada, que suplício interminável. Conclusão de alguns momentos: talvez viver não tivesse sido a melhor decisão. Mas aquilo tornou-se uma situação, era preciso fazer algo, afinal eu havia dispensado a conversa derradeira com o maioral. Quando meu médico disse que a recuperação iria demorar um ano inteiro, achei aquilo inaceitável. E tratei de ficar bom. Bem, o processo  de me tornar eu mesmo outra vez demorou 2 anos e meio. Moral dessa história: o inaceitável tem que ser combinado com a realidade, que se impõe, aceitável ou não. 

O ponto aqui é que aceitamos de bom grado o inaceitável como um atributo da gestão existencial. Acontece que saber disso não torna aceitáveis as centenas de coisas que estão em nosso catálogo com o carimbo de não aceitáveis. Se você permanece aceitando o inaceitável, algo sussurra no ouvido da tua alma. E se você não ouve, o corpo explica a situação de um jeito que você entenda. A saudade, a distância, a falta, o excesso, o amor, a amizade, o trabalho, a espera. Para tudo existe uma medida que é sua, nem bom nem ruim. Apenas sua. Nem melhor nem pior do que ninguém. Simplesmente você e seus aceitáveis limites e inaceitáveis rompimentos com eles. Seus aceitáveis desejos e sonhos e os inaceitáveis boicotes a eles. Você escolhendo aceitavelmente você mesmo. Ou você que deixa de existir por doença, tristeza, saudade, amores, pessoas. É inaceitável não estar plenamente feliz, quando isso é possível. ***

No princípio era opaco

As cores se auto conceberam, criadoras de si mesmas. 

Antes, tudo era incolor e coberto de uma densa camada do nada e sua ausência de cor. 

Então fez-se o verbo e, com ele, a senha das cores, era a vida disfarçada sob diversas gradiências. 

Antes, a cegueira. Agora, o infinito em interminável escala de nuances e experiências. Recém-criadas, as cores se tornaram universo em expansão permanente inventando deuses, crenças, histórias, explicações, amores, canções e tudo que não se pode tocar, mas ver. E vê-se o que é compreendido fora dos sentidos ou dentro das lógicas. Reinos têm cores e suas bandeiras pigmentadas a partir dos significados pichados em si ao longo da história. Perigos, sonhos, avisos, orientações, sensações, sentimentos, todas as lendas possuem cor. São geradas nelas e delas nascem para enfeitar os mundos que as reconheçam e seres que as cultuem. Apreço, amizade, horror, séquitos, segredos, mortes, adereços, métodos, conceitos, almas, corpos, manifestações de naturezas vivas e também as desaparecidas permanecem se experimentando em uma dimensão colorida. Sons são cores virando para que se ouça os dons da música, das buzinas, orquestras, discursos e declarações. Sim, declarações existem para serem feitas, ditas, sentidas e pintadas. Aço e sol, lança e pó, polar e centro, entre, fora, dentro, uno, trinas, múltiplas em aconchego e desconforto. Puras e transviadas, palatáveis e intragáveis, sem cheiro e aromáticas, elas deram cores aos profetas da luz e aos anunciadores das trevas. Então o mundo, em sua visão pequena e turva, pintou-se para o que conhecia de paz e para o que escureceu de guerras. Mães pariram meninos e meninas de cor, átomos têm todas as cores impregnadas de movimento intenso. Versões de universo surgem das cores cansadas do mesmo e que se reinventam momento a momento. Homens, santos, elementais, seres das florestas, santos, hinos, pontos, arcanjos, satanás, Barrabás, tangues, flores, junções, guias, aparições, visões, orquestras, inspirações, intuições, avisos, oceanos, bichos, formas obscenas, não linguagem, padrões, imagem, projeções, parasitas, poemas, Deus e todo encantamento, tudo é um mistério revelado do reino não habitável aos eunucos da vista. Cores são inteiras, aceitam o meio tom, mas coisas pelo meio, meia cor. Afetos nos roubam da estupidez furta-cor, é preciso cuidado a partir daqui. Afinal, com as mesmas cores do querer ficar se pintam as cores do querer partir. ***

Não somos um. Somos outro

É na fissão com o outro que surgimos. Somos artesãos de milhões de outros, lembranças outras, alusões, possibilidades, coesões e distâncias.

O filho que nasce, o amor que surge, o diálogo, o fim da linha, o bem-vindo e o basta. Tudo acontece a partir do outro, cuja inexistência determinaria que a realidade seria uma coisa do outro mundo.

Outrora é o outro no passado. Outrossim é o outro jurídico. Outro é polissêmico. Pode significar “o outro” assim, entre aspas, uma insinuação, um apontamento, uma frustração. Talvez queira dizer que é preciso trocar algo pela mesma coisa, tipo “me traga outro igual”, o que seria uma incoerência, o que é outro tema. Representa uma pressão por escolha, o famoso um ou outro. Outro modo de ver as coisas, que sugere um outro ângulo da mesma questão. Outra vez, o outro que se repete outra vez.

Além das outras delas mesmas, as grávidas têm outro ou outros que têm outro ou outros (ou outras) por dentro. O outro nasce. É no meu encontro com os afetos do mundo que surgem os outros dos quais somos feitos, depois de nos tornarmos outra coisa a partir do contato com o outro. Não somos mais  o que fomos por conta de outros fatos, de outras razões, outros seres, outras experiências.

Tentamos reduzir o outro a nichos. Lá vem outro poeta. Um outro amor. Uma outra abordagem. Outro modo. Mas o outro é a constante, mesmo que vc queira outras rotinas. Palavras que pedem a repetição de algo bom, o quero outra vez. O outra vez que é um recomeço. Amanhã é outro dia, essa resignação que busca consolo num outro futuro. Nem sempre o encontramos, mas parece sempre ser primeira vez, depois outra primeira vez, depois outra primeira vez.

O outro é transformador. Sob seu olhar, permutamos as experiências da jornada, ajustamos vidas possíveis, sonhamos presentes não havidos, lamentamos o passado, onde o outro não existia. Ou, caso inverso, lamentamos a existência de outro pai, de outro país, de outra família, ainda que não se deseje a desconstrução de nada. Caso isso fosse feito, seríamos outros e poderia não haver nós, apesar do tanto de nós que existem.

Nos amamos enquanto outros se desencontram. E mesmo desencontrados, somos o outro que o outro que segue e seguimos adiante.

Originalmente somos outros, milhares deles. Alternativas, paralelos, libertos. Outros e melhores graças ao melhor dos outros. Porque é isso que nos entregamos: a capacidade de ver nos outros que parimos os outros que vemos partir. É o que nos torna pertencidos ao outro, sem ser propriedade alheia ou ecos de egos. Só é possível tocar no amor a partir da incoerência, presença, escolha ou a experiência do outro, al´ém da nossa. É uma troca você saber o que o outro gosta, fazer-se gostante do outro, gestante de um outro imprevisível. É uma permuta, cujo escambo preve compreender o outro em todos os outros que os outros nos oferecem. É preciso aceitar que o outro é uma resposta, não uma pergunta. É um espelho que deve levar a reflexão sobre o que nos atrai e os motivos disso. 

O outro é um caminho para nós no original, essenciais um para o outro. O outro é o que nos encaminha para uma independência lúcia, quando somos um e  outro. Quando não precisamos nos disfarçar de outro para amanhecermos um com o outro. ***

lugar de cala

Silêncio é um tipo de falta, algo cuja ausência do som destaca. É a fala ao avesso, o som invertido, descontinuidade. Há momentos tão eloquentes que só o silêncio os traduz. 

Meu pai falava sempre sobre um desses instantes calados na alma da gente. Ele contava do acontecido, foi quando o Brasil perdeu o campeonato mundial de futebol para o Uruguai, em pleno Maracanã lotado de gente. O jogador uruguaio avança, a torcida vaia. Ele passa por um, a torcida grita. Passa por outro, a torcida se desagiganta. O cara chuta, a torcida geme. Milhares de pés fizeram um invisível movimento contra. Centenas de mãos sinalizaram a mesma intenção.  A bola passa, a torcida se contorce, num grito abafado, um lamento emudecido. É possível ouvir a bola viajando pela rede de nylon, a realidade baixa o volume de tudo e, gesto contínuo, começa um hiato, a falta absoluta de som, um silêncio que fala. Depois, se transforma em fantasma, o som do invisível, a descrição calada de um goleiro caído, da bola entrando, o campeonato indo, a alegria se esvaindo, o inacreditavelmente cego, surdo e mudo da perda. 

Existem milhares de coisas que nos deixam no quadrante extremo da quietude, o silêncio é um jeito de falar com a gente mesmo, de nos apresentar, de dizermos coisas impossíveis de serem moldadas no universo habitado pelos sons.

Lembro das apresentações do filho no Santa Maria. Eu sabia o que iria acontecer. Que a música seria canção específica do Roberto no Dia dos Pais, por anos a mesma. Então a pessoinha entrava no palco, olhava pra mim e cantava que tinha tanto pra me falar, que com palavras não sabia dizer como era grande o amor dele por mim.  Um silêncio intenso me invadia, era a sonoridade do afeto, a emoção de ser amado e de amar silenciosamente alguém. 

Quando converso  com as pessoas, presto muita atenção no que aquelas criaturas calam e o significado dos seus gestos inabitados por sons. Mãos bailarinas. Arrumação constante de pestanas. Mandíbulas em movimento. Olhar. Não olhar. Há vácuos entre frases e falas. É neles que  se manifesta o que há de silenciado nas almas. O lugar de fala de tristezas ou alegrias dispensa palavras. É o riso. É o choro. Mãos na cintura. Cabeça para baixo. Braços erguidos em comemoração. Um segundo a mais no encontro entre olhares que se atraem por afetos. Raivas contidas em pequenas mordidas nos lábios. Textos. Acelerações musculares. Pensamentos. Decisões. Reconciliações. Partidas. Vindas. Experiências. Impressões. Entendimentos. Observações. Todos os silêncios são raios, existem muito antes dos trovões.

A meditação é a busca proposital de silêncio. E também o intuito de silenciar ruídos internos, rodízio de ideias, amores mancos, solavancos mentais. Meditando, é possível abrir o pacote das coisas definidas em palavras e seus sons, desembrulhar, ver o que há dentro, entender o que nos trazem e o que nos convidam a fazer, possibilitando escolhas. Há uma fonte de prazer no silêncio, que parece ter temperatura e possuir uma brisa ligeira e fresca, às vezes fria. Quando uma situação me magoa, aborrece ou entedia, percebo que vou baixando o tom da voz. Ela vai se perdendo em energia, fica baixinha, mingua, desafina, se conforma e me calo. Vejo que muito do silêncio que fica em mim é o silêncio que me leva embora.

`As vezes, de propósito ou por descuido, silenciamos coisas que deveriam ser expresssas. Uma beleza, o tom da voz, um gesto, uma saudade, um ressentimento, medos, uma necessidade, um pedido, uma admiração, uma característica ou habilidade, um reconhecimento, uma saudade, um traço, um determinado pedaço do corpo, o jeito de rir, um sentimento, o pertencimento ou a ausência disso. Não o elogio fácil e vazio, não. A demonstração sonora de que o outro é visto em suas silenciosas virtudes. Dizer é dar voz ao silêncio, oportunizando mudanças e tornando sentimentos bons em porta estandartes do que precisa ser dito e das coisas que escolhemos silenciar.

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